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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno, Canto XXIII


Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os, porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante e deixam-se resvalar pelo declive do precipício. Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado. Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.

EM silêncio, a companha má deixada,
Seguíamos, após um do outro andando,
Como frades menores em jornada.

Meu pensamento à rixa se voltando,
A fábula de Esopo relembrava,
Em que ao rato arma a rã laço nefando.

Se aqueles casos dois eu confrontava,
Como issa e mo[1], iguais me pareciam,
Quando o princípio e fim seus recordava.

E, como os pensamentos se associam,
Outros logo daquele me brotaram,
Que em dobrado temor a alma envolviam.

Pensava: — esses demônios que passaram,
Por causa nossa, tal vergonha e dano,
Do fato certamente se enojaram.

Se a maldade agravar rancor insano,
Eles no encalço nos virão ferozes,
Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.

Aguardando os horríficos algozes,
Arrepiam-se as carnes e o cabelo.
— “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!”

Exclamo: — “Ache depressa o teu desvelo
Para nós contra o bando amparo e abrigo.
Após os passos nossos cuido vê-lo”.

“Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo,
Tanto não refletira claramente,
Quanto às idéias na tua alma sigo.

“Agora iguais me estão surgindo à mente,
Concordes tanto nas feições, em tudo,
Que um parecer entre ambos há somente.

“À destra inclina a encosta, ou eu me iludo:
Por lá baixando à mais vizinha cava,
Teremos contra assaltos seus escudo”.

Não acabava, quando a turba prava
Assoma: de asas pandas se enviando
Contra nós, não mui longe a divisava.

De súbito nos braços me tomando,
Qual mãe, que ao despertar se vê cercada
De furiosas flamas, e, apertando

Ao seio o filho, foge acelerada,
E ao pudor véus esquece angustiosa,
Só por salvar aquela prenda amada:

Lá do cimo da riba alta e fragosa
Resvala o Mestre pela penha dura,
Muralha de outra cava tenebrosa.

Água não corre mais veloz da altura
Por canal a impulsar de engenho a roda,
Quando, vizinha aos cubos, se apressura,

Do que a descer o Guia meu se açoda,
Como a filho estreitando-me ao seu peito,
Não como a companheiro a quem se engoda.

Da cava, apenas atingira o leito,
Quando ao cimo os demônios se mostraram:
Mas de iras suas malogrou-se o efeito.

Por lei da Providência terminaram
Funções, que exercem na caverna quinta,
Toda vez que o recinto seu deixaram.

Gente, que de brilhante cor se pinta
Vemos, que a tardo passo em torno andava;
Chorava e em forças parecia extinta.

Capa e capuz trazia, que ocultava
Seus olhos, dessa forma de vestidos
De Colônia entre os monges mais se usava.

De ouro por fora, dentro guarnecidos
De chumbo: comparando a peso tanto,
De palha os de Frederico eram tecidos[2].

Por toda a eternidade, ó duro duro manto!
Com tais almas, à sestra, caminhamos,
Atentos escutando o triste pranto.

Tanto as oprime o peso, que as passamos
No lento caminhar; e a cada instante
De nova companhia ao lado estamos.

“Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante —
Algum por nome ou feitos afamado;
Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —

Tendo vozes toscanas escutado,
Um atrás nos gritou: — “Cessai da pressa,
Com que ides a correr pelo ar cerrado!

“Cousa talvez direi, que te interessa”.
Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera;
Para o passo igualar-lhes não te apressa”.

Cessando, vejo um par que se acelera;
Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,
Malgrado a estrada e o peso, que os onera.

Aqueles dois, já próximos, remiram
Com vesgos olhos, sem falar, meu rosto;
Depois entre eles vozes tais se ouviram:

“O que respira ainda em vida é o posto?
Se mortos ambos são, por que motivo
Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?”

E disseram: — “Toscano, que, inda vivo,
Vens de hipócritas ver o grêmio triste,
Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.

— “Nasci na grã cidade, à qual assiste
Com suas belas margens o Arno ameno,
E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.

“Quem sois que da aflição tanto veneno
Na face amargo pranto denuncia?
Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”

“Tanto chumbo se encobre” — um me dizia —
Destas capas sob o ouro, que oscilamos,
Qual balança, que ao peso hesitaria.

“De Bolonha e Godente, nos chamamos
Um Loderigo e o outro Catalano[3]:
Juntos ambos Florença governamos,

“Por que ficasse a paz livre de dano.
Em vez de um regedor; do que hemos sido
O Gardingo dá prova e desengano”.

“Ó irmãos” — comecei — “o mal nascido...”
Atalhei-me: jazendo um condenado
Com puas três em cruz via estendido.

Em vendo-me estorceu-se angustiado.
Altos suspiros arrancou do peito.
Catalano acercou-se apressurado.

“Este[4]” — disse — “que geme em duro leito,
Que a um homem dessem morte, aconselhara
Aos Fariseus, do povo por proveito.

“Através do caminho é nu, repara:
De quem passa, desta arte, ele conhece
O peso, quando por calcá-lo pára.

“Igual martírio o sogro seu[5] padece,
Assim como cada um desse concilio,
Semente pra os Judeus de horrenda messe”.

Maravilhar-se então mostrou Virgílio,
Posto em cruz o prescito contemplando
Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,

Voltou-se a Catalano assim falando:
“Dizei, se assim vos apraz e é permitido,
Se à direita há vereda, onde, passando,

Deste recinto vamo-nos temido,
Sem que os anjos perversos obriguemos
Caminho a nos mostrar não conhecido”.

Tornou: — “Mais perto do que julgas temos
Rochedo, que, do muro se estendendo,
Dá ponte a cada val, em que gememos.

“Este não cobre, outrora se rompendo;
Mas subir podereis pela ruína,
Que do declive ao fundo se está vendo”.

Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina
E diz: — “Bem más explicações nos dava
Quem tanto os pecadores amofina”.

Logo o frade: “Em Bolonha me constava
Que o demônio, entre os vícios com que stenta,
De ser pai da mentira se ufanava”.

A passo largo o Mestre já se ausenta;
Ira ressumbra o rosto carregado.
Deixa a turba, que em capas se atormenta,

As pegadas seguindo-lhe apressado.

NotasEditar

  1. “Mo” e “issa” advérbios que, ambos, significam: agora. [N. T.]
  2. Em comparação, as capas que Frederico II mandara colocar nos presos eram levíssimas. [N. T.]
  3. Frades que foram chamados a governar Florença, depois da derrota de Manfredo (1266) e que se aproveitaram da sua posição, causando um motim no qual foi incendiada a casa dos Uberti, perto do Gardingo. [N. T.]
  4. Caifás, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou a morte de Jesus. [N. T.]
  5. Anah, sogro de Caifás. [N. T.]