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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório — Canto II


Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação ao caminho, quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella, amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende, e as almas fogem para o monte.

Resplendecia o sol já no horizonte
Que tem meridiano, onde iminente
O zênite fica de Solima ao monte.[1]

Na parte oposta a noite diligente
Do Ganges co’as Balanças se elevava,
Que lhe caem da mão, quando é excedente.

Já nesse tempo a idade transformava
A branca e rósea cor da bela Aurora
Noutra, que a de áureos pomos simulava.

Do mar ao longo inda éramos nessa hora,
Como quem, na jornada embevecido,
Se apressa em mente, os pés, porém, demora:

Eis, qual sobre manhã, enrubescido,
Das névoas através, Marte chameja
No ponente das ondas refletido,

Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)
Tão veloz pelo mar vi deslizando,
Que não há vôo de ave, que igual seja.

Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,
Depois de ter-me ao Guia meu voltado,
De novo olhei o seu brilho contemplando.

Nívea forma também, a cada lado,
Lhe divisei; abaixo aparecia
De igual cor outro vulto assinalado.

Té asas discernir permanecia
O sábio Mestre meu silencioso.
Mas então, como o nauta conhecia,

Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,
Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!
De ora avante hás de ver outros ditoso.

“Vê que, aos humanos meios sobranceiro,
Para vir de tão longe velas, remos
Possui das asas no volver ligeiro.

“Como ele as alça para o céu já vemos,
Eternas plumas suas agitando;
Não mudam como dos mortais sabemos.” —

Em tanto, mais e mais se apropinquando,
Mais clara sobressai a ave divina:
Olhos abaixo à luz me deslumbrando.

O anjo logo à riba a nave inclina,
Tão rápida, tão leve, que parece
Voar somente na amplidão marina.

Na popa erguido o nauta resplendece:
Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;
Das almas turba ao mando lhe obedece.

In exitu Israel de Egypto[2]
A uma voz cantavam juntamente
E o mais, que foi no santo salmo dito.

Sinal da Cruz lhes fez devotamente:
Todos então à riba se lançaram
E tornou, como veio, incontinente.

Em volta remirando, os que ficaram
Pareciam de espanto apoderados,
Como quem a estranheza se acercaram.

O sol frechava os lumes seus dourados,
Lá do meio do céu tendo expelido
O Capricórnio a tiros reiterados,

Quando as almas, que haviam descendido,
Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,
Por onde o monte pode ser subido?”

Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos
Do lugar sabedores; mas viandantes,
Como sois vós, deveis considerar-nos.

Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,
Por estrada tão árdua e temerosa,
Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —

Notando aquela turba, curiosa,
Que eu, pelo respirar, era homem vivo,
Enfiou ante a vista portentosa.

E como, a quem da paz ramo expressivo
Presenta, o povo acerca-se cuidoso
Em tropel de notícias por motivo:

O bando assim das almas venturoso
Em meu rosto atentava alvoroçado,
Quase esquecido de ir a ser formoso.

Uma, tendo-se às mais adiantado
A me abraçar correu com tanto afeito,
Que fui de impulso igual arrebatado.

Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!
Três vezes quis nos braços estreitá-la,
Só as três vezes estreitei ao peito.

Ante o espanto, que o gesto me assinala,
Sorriu-se; e, como já se retirasse,
Avançando, eu tentei acompanhá-la.

Suavemente disse que eu parasse,
Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,
Que um pouco a praticar se demorasse:

— “Como te amei” — me respondeu — “vivendo
No mortal corpo, assim eu te amo agora.
Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —

“Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora[3]
Tornar, ao fim desta jornada, à vida.
Por que de vir hás delongado a hora?” —

“Se a passagem negou-me requerida
Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,
Ofensa não me fez imerecida;

“Pois a justo querer obedecia.
Na barca em paz, três meses há somente,
A todos dá a entrada apetecida.

“Eu, que na plaga então era presente,
Onde no mar o Tibre as águas deita
Por ele aceito fui benignamente,

“A essa foz seus vôos endireita;
Pois sempre ali a grei stá reunida,
Às penas do Aqueronte não sujeita.” —

— “Se não é por lei nova proibida
Memória e usança do amoroso canto,
108 Que as mágoas todas me adoçou da vida,

“Praza-te amigo, confortar um tanto
Minha alma, que molesta, que amofina
Star envolta no corpóreo manto.” —

— “Amor que em minha mente raciocina” —
Entoou ele então com tal doçura,
Que o som donoso inda alma me domina.

Ao Mestre, a mim, a todos a brandura
Do saudoso cantar tanto elevava,
Que de ai a mente nossa então não cura.

Na toada, absorvida, se engolfava,
Eis de repente o velho venerando:[4]
— “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.

“Pois estais na indolência assim ficando?
Ide ao monte, a despir essa impureza,
Que a vista vos está de Deus vedando!” —

Quais pombos, que dos agros na largueza,
Em desejado pascigo embebidos,
Como olvidada a natural braveza,

Súbito arrancaram, de temor pungidos,
Se algum mal iminente lhes parece,
De cuidados maiores possuídos:

Tal a recente grei o canto esquece,
E, como homem, que vai sem ter roteiro,
Corre à costa, que aos olhos se oferece:

Não foi nosso partir menos ligeiro.

NotasEditar

  1. Resplendecia etc., colocando o Purgatório num hemisfério antípoda àquele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o sol despontava e na mesma hora em Jerusalém (Solima) descia a noite. [N. T.]
  2. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. [N. T.]
  3. Casella, músico florentino amigo de Dante e que havia musicado algumas canções dele. [N. T.]
  4. O Velho, Catão. [N. T.]