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A flor murcha do altar
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.


A pedido de Fr. Francisco da Natividade Carneiro da Cunha

— Quem não sabe ser Erasmo é que deve pensar em ser Bispo.

LA BRUYÈRE.
I


Está murcha: — assim nos foge
A brisa que corre agora.
Está murcha: — assim o fumo
Cresce, cresce, — e se evapora.
Está murcha: — assim o dia
Em raios afoga a aurora.

Está murcha: — assim a morte
Do mundo as glórias desfaz:
Assim um'hora de gosto
Mil horas de dores traz:
Assim o dia desmancha
Os sonhos que a noite faz.


Está murcha.... Ainda agora
— Eu a vi — não era assim.
Era linda, era viçosa,
Acesa como o rubim.
Reinava, como a rainha,
Sobre as flores do jardim.


II




Foi a donzela mimosa,
Foi passear entre as flores.
Foi conversar co'as roseiras,
Foi-lhes contar seus amores,
Julgando que sobre as rosas
Não se reclinam traidores.

Ela foi co'os pés formosos
Deixando mimoso rastro,
Qual no céu passou de noite,
Correndo, fulgindo, um astro.
E esta rosa foi cortada
Com seus dedos de alabastro.

A rosa ficou mais bela
Naquela virgínia mão.
Encheu de perfume os ares,

Talvez com mais expansão.
Mas a virgem teve à pena
De pô-la em seu coração.

Entrou no templo a donzela
Coberta co'o véu de renda.
— Teme que aos olhos dos homens
Sua modéstia se ofenda:
Como a cortina das aras,
Que aos ímpios se não desvenda.

Leva a modéstia na fronte,
Leva no peito a oração,
Leva seu livro dourado,
Leva pura devoção:
Leva a rosa, — a linda rosa
Nos dedos da breve mão.

Rezou: — e depois ergueu-se,
Dirigiu-se ao santuário,
Modesta, — qual sua prece,
Qual a luz do alampadário:
E depôs a linda rosa
Ao pé do santo calvário.


III




Os anjos depois vieram,
Respiraram sobre a flor.
A flor cobrou mais beleza,
Mais gala e mais esplendor.
Ali ao pé do calvário
Deu mais expansivo odor.

Ali parecia aos olhos
Crescer, crescer... Mas agora?
Agora murcha — tão murcha —
Não tem a gala de outrora.
— Assim o fumo do teto
Cresce, cresce, — e se evapora.

Assim as horas do tempo
Correndo, correndo vão.
Assim passou inda há pouco
O matutino clarão.
Assim ontem foste infante,
Assim hoje és ancião.

Murcha, murcha! — não expande
Jamais seu odor intenso.

Há de secar — feliz dela —
Junto à Cruz do Deus imenso.
Há de aspirar sobre as aras
O cheiro do grato incenso.

Feliz! — seu leito de morte,
Sobre as aras, ela tem.
A prece que vai ao céu,
Sobre ela primeiro vem.
A mirra que a Deus incensa,
Incensa a ela também.

(1853).