Anais da Ilha Terceira/I/XXII

Anais da Ilha TerceiraTomo I por Francisco Ferreira Drummond
'Quarta Época' - Capítulo II — Manda o governo de Angra saber novas de El-Rei D. António. Parcialidade a favor de El-Rei Filipe, e mau sucesso desta empresa. Diferentes notícias do estado das coisas a favor da ilha. Declaram-se os partidos nas ilhas, e a Terceira rejeita os favores e governo que lhe são enviados, entregando-se aos maiores transportes de alegria

Achando-se a ilha Terceira na maior confusão por não saber novas de El-Rei D. António depois do seu desbarato em Alcântara, assentou a Câmara de Angra, com o corregedor e capitão-mor, únicas autoridades então existentes, enviar emissários a saber dele; e para isto elegeram a Estêvão Cerveira, antigo cidadão de quem temos falado, a Jorge Lopes, procurador dos misteres, e a Frei Melchior, pregador da Ordem de S. Francisco: eleição esta que muito agradou ao povo, e terminou o alvoroço e inquietação em que andava há muitos dias.

Imediatamente se embarcaram os três enviados na caravela do piloto Gaspar Álvares Chichorro, natural desta ilha, e com vento próspero chegaram à vila de Aveiro[1] no princípio de Agosto do ano de 1580. Ali estava El-Rei em uma cama, curando as feridas que lhe deram na batalha de Alcântara, e recebendo-os com a maior satisfação, ouviu a narração e pintura que lhe fizeram do estado das coisas na Terceira, e mais ilhas dos Açores, onde Sua Alteza se achava obedecido e jurado; oferecendo-lhe os enviados em nome de todas elas, as pessoas, vidas, honras, e fazendas de seus habitantes.

Então El-Rei os abraçou, e mui cordialmente lhes agradeceu o amor de bons e fiéis vassalos, e prometendo muitos favores e mercês aos ditos habitantes da Terceira, e ilhas de sua dependência, que prontamente e sem hesitação haviam seguido sua voz, lhes certificou que, apesar da sua derrota em Alcântara, não desistia em sustentar os seus direitos, pois contava ainda com grandes recursos, e esperava restaurar-se com as forças que se lhe haviam de reunir em Coimbra; e que não podendo absolutamente sustentar-se no reino de Portugal, em breve tempo marcharia para França, onde lhe seriam dados os necessários auxílios, com que facilmente destruiria o seu adversário Filipe II. Tais foram as promessas e confortos, com que El-Rei D. António animou os nossos enviados, e na mesma linguagem e sentido escreveu cartas para a cidade de Angra, onde chegaram em princípio de Outubro do dito ano, premiados com hábitos e mercês.

Mui grande foi o prazer com que esta cidade festejou a chegada de seus enviados. Por toda a parte reinava o maior entusiasmo que jamais se viu; e era tanto o povo no lugar do desembarque, que não podiam romper por entre ele até chegarem à igreja da Misericórdia, que estava de portas abertas para receber o Padre frei Melchior e seus colegas. Então, este padre subindo ao púlpito, que estava ricamente paramentado, nele relatou os sucessos da sua viagem, e deu as novas de El-Rei, e do projecto em que estava de reivindicar os seus direitos a todo o preço; e porque era mui eloquente orador, com muitos argumentos e palavras bem concertadas, persuadiu o povo a sustentar o seu juramento até à ultima gota de sangue, concluindo o sermão com alguns ditos engraçados, que muito lisonjearam e divertiram os circunstantes, como era em uso naqueles tempos; seguindo-se de tudo isto que o povo com grande festa, entre os maiores aplausos e vivas a El-Rei, o levaram em braços ao seu mosteiro, onde também o esperavam os religiosos seus irmãos, com os maiores transportes de alegria, por seguirem o mesmo partido de El-Rei D. António, que sustentavam publicamente, conforme as ordens de seus superiores; e decerto que a religião sofreu bastante nas empresas de alguns destes pregadores.

Mas naquelas consoladoras esperanças, em que tão engenhoso arrazoado se fundava, ainda que mui facilmente foram acreditadas da populaça, não produziram o mesmo efeito em uma parte dos principais da ilha, que pensavam duvidosamente, e que tinham mais a perder; e ainda que muitas vezes o povo neste dia encontrando algum deles o obrigava a proclamar — Viva El-Rei D. António! — era só o medo que o fazia.

E neste tempo muitos se tinham declarado a favor de El-Rei Filipe, e o seu partido estava espalhado em toda a ilha Terceira, assim como em todas as mais dos Açores; porque, na verdade, depois do desbarato de El-Rei D. António em Alcântara, nada se lhe esperava favorável; de pouco serviriam os auxílios estrangeiros a este Príncipe foragido, e abandonado dos grandes do Reino; além de que parecia impossível o fazer baquear a força colossal de El-Rei de Castela, a quem a Europa inteira respeitava e temia.

Por consequência, toda a repugnância que aparecesse na execução de suas ordens, arrastaria à ilha Terceira uma torrente de infelicidades, e não havia remédio algum senão curvar a cabeça, e aclamar o governo deste poderoso Monarca, já reconhecido em todo o Reino de Portugal, nas praças de África e na ilha da Madeira. Sabia-se que ele esperava notícias das Índias, e de outros países que eram do domínio português; que mandava convocar os Estados Gerais do Reino para 15 de Abril seguinte, na vila de Tomar, onde ele mesmo destinava achar-se; e não se ignorava que também se faziam todas as provisões necessárias para se armar uma frota que viesse reduzir a Terceira e as mais terras que recusavam pertinazmente obedecer-lhe. Com estas justas considerações achava-se a ilha Terceira dividida em dois bandos, e não era possível aquietar-se, a não ser pelo resultado das armas.

Não faltaram os Jesuítas, como já dissemos, em mostrar nos púlpitos, e persuadir nos confessionários, os direitos de El-Rei de Castela, de modo que os fidalgos da sua parcialidade em grande número[2] assentaram entre si ocultamente fazer a aclamação; e a 29 de Setembro, dia de São Miguel o Anjo (o Padre Cordeiro diz que fora em dia da Natividade de Nossa Senhora, a 8 de Setembro), aparecendo defronte do porto de Angra uma nau da Índia, julgou João de Betancor[3], um dos conjurados escolhido à sorte para esta arriscada empresa, que a nau vinha com outro recado sobre se entregar a ilha, e antes que a fortaleza atirasse, lhe pareceu conveniente prestar à sua pátria o maior serviço que dele podia esperar, conforme o que estava ajustado com seus colegas; e para isto montado em um cavalo, como grande cavaleiro que era, e brandindo uma lança, se meteu a correr pela cidade, dizendo em alta voz — Viva El-Rei D. Filipe! — parecendo-lhe que, por ser homem nobre, antigo e bem quisto no povo, o atraísse a esta voz, e que a gente lhe obedecesse e o seguisse.

Saiu-lhe porém tudo em contrário, porquanto o povo, sendo a horas de meio-dia, se amotinou de tal maneira, que lhe foi necessário acolher-se a uma casa na Rua Direita, e ainda assim os donos dela lhe não puderam valer, porque a golpes de machado lhe quebraram as portas, valendo a João de Betancor o acudirem alguns homens nobres e de representação na cidade, que ele no meio do tamanha aflição chamou para o salvarem; porém assim mesmo, a não estar presente Diogo de Lemos de Faria, alcaide-mor da mesma cidade, que entrou dentro na casa com algumas pessoas respeitáveis, e por aquietar o povo lhe deu a voz de preso, de certo que João de Betancor neste dia seria feito em pedaços. Finalmente, acompanhado de uma boa força armada, o levaram assaz afrontado a casa do corregedor, e dali para a cadeia, de onde somente saiu depois de ano e meio para ser feita justiça de sua pessoa, como em seu lugar veremos. Com o motim e alvoroço intempestivo deste fidalgo, ficou a cidade tão inquieta, que dali por diante se não ouviam nela mais do que vivas a El-Rei D. António, sendo esta a prática e a voz que lavrava por toda esta ilha.

Em todo este espaço de tempo que não foi pequeno, e no meio de tribulação tão arriscada, nenhum dos amigos de João de Betancor apareceu em seu favor: esses conspirados para esta grande empresa escudaram-se no mais oculto de suas casas, até que puderam evadir-se para os montes e quintas extra-muros da cidade. Aqui temos o primeiro e trágico ensaio das futuras calamidades que haviam de assomar na ilha Terceira.

E porque Pedro Anes do Canto, o segundo do nome, Jerónimo Fernandes de Seia, Rui Dias de São Paio, Custódio Vieira Bocarro, e Francisco das Neves, todos cidadãos principais, publicamente desaprovavam estes procedimentos arbitrários do povo, os prenderam imediatamente na cadeia pública, insultando-os de palavras.

Estando assim a terra alvoraçada com o recado que lhe trouxeram os três enviados, Estêvão Cerveira, Jorge Lopes, e o padre frei Melchior, como deixámos escrito; e sendo já no mês de Janeiro 1581, chegou ao porto de Angra uma nau francesa, de que era capitão António Eschalim, fazendo muitos sinais de alegria, e dando vivas a El-Rei D. António. Logo o povo correu a saber as notícias, no meio das maiores aclamações, ao som das caixas, trombetas, estrondo de artilharia e mosquetaria e repique dos sinos de toda a cidade; soube-se então que El-Rei D. António estava em França, e com muita gente se aparelhava a continuar a guerra contra D. Filipe. Custa a descrever[4] o modo por que os Angrenses festejaram esta nova por três dias consecutivos, com luminárias, danças e chacotas. Porém, o certo é que El-Rei ainda não tinha chegado a França, e António Eschalim se equivocou com D. Francisco, 3.º conde de Vimioso, que a seu serviço estava naquele reino aliciando soldados para a meditada expedição de Portugal, e servia de conselheiro a El-Rei seu primo.

Em breve tempo estas lisonjeiras notícias se transformaram em luto e tristeza, porque constou que Sancho de Ávila, por mandado do Duque de Alba, fora com 6 000 soldados escolhidos dispersar a gente que El-Rei D. António ajuntara na cidade do Porto, e que o mesmo D. António desaparecera, sem que se soubesse onde parava. Esta infausta notícia foi um golpe violentíssimo, que pôs os habitantes da Terceira na maior amargura, e não foi pouco sentido nas ilhas Graciosa, Faial, Pico, S. Jorge, Flores e Corvo, que sempre sustentaram obediência à sua capital, e haviam jurado os mesmos princípios; e assim mesmo não desalentou a sua fidelidade, nem os fez mudar de seu juramento: porém nas ilhas de S. Miguei e Santa Maria estava de poucos dias aclamado El-Rei D. Filipe, porquanto em 20 de Abril[5] saíra de Lisboa o galeão S. Cristóvão, e nele Ambrósio de Aguiar Coutinho, em direitura à Terceira com o título de governador destas ilhas, e com outros muitos poderes; e lançando na parte dos Mosteiros da dita ilha de S. Miguel a Tomé Rodrigues Tibau, que levasse a nova a Ponta Delgada de estar já El-Rei Filipe senhor de Portugal, isto foi bastante para que logo Vila Franca mudasse do Rei D. António, aclamando a D. Filipe; e a seu exemplo o fez quase toda a ilha, por influência do Bispo desta diocese, D. Pedro de Castilho[6], que se havia acolhido a ela a título de a visitar, para se subtrair à execução das sentenças que contra ele obteve o corregedor Ciprião de Figueiredo, pelos escandalosos excessos de jurisdição de que temos falado.

E tanto é certo que D. Pedro de Castilho foi a causa principal destas aclamação (assim não fora ele o autor de tantos males por elas originados!) que El-Rei Felipe o teve em grande respeito e estima, nomeando-o Bispo de Leiria, e no ano de 1587 o proveu na casa pequena dos desembargadores do paço, até que o fez Vice-Rei de Portugal, emprego que só pertencia à real família, como ele o havia prometido; e por ser um tanto rigoroso, assim como o fora no Bispado de Angra, parece que o seu governo não foi de muita duração.

Continuando Ambrósio de Aguiar em demanda da ilha Terceira, em companhia de Jorge do Covos, ou Cávio de Barros, que vinha por corregedor, logo que chegou a ela, mandou em um batel ao padre Gaspar Manuel[7], a Gaspar Fernandes e outras pessoas, que dissessem ao governador da ilha quem era e a que vinha, com perdão geral para todos os que tinham sido autores da rebelião; e que esperava resposta para poder entrar, e entregar as cartas de seu Rei, em que tudo isto se continha: os quais saíram em terra — diz a citada relação — e tal viram a gente, e tão zelosos no serviço do Senhor D. António, que tomaram não ter vindo a terra: que se a justiça deixava o povo, sem falta os apedrejariam, e quando lhes deram licença para se tornarem para o galeão, louvaram a Deus, e tais novas deram a Ambrósio de Aguiar e aos mais, que o galeão não quis ancorar, e se foram na volta da ilha de S. Miguel, onde foram recebidos com muita festa; e porque no dito tempo era corregedor Ciprião de Figueiredo, e lhe disseram que vinha outro corregedor, e outros que vinham ali trêdos, foi isto também motivo para não consentirem o galeão; e se ancorara, seguramente o dito corregedor os prenderia a todos e lhes fariam o que depois fizeram a muitos.

Já neste tempo se achava recolhido da ilha de Santa Maria o Bispo D. Pedro de Castilho, que dissemos promovera as aclamações de D. Filipe na ilha de S. Miguel, e por se achar também com ele o seu arcediago Manuel Gonçalves, cuidando fazer bem à ilha Terceira, por ser natural dela[8], se embarcou para a mesma com novas cartas para o corregedor Ciprião de Figueiredo e para outros; e chegando à ilha em 2 de Junho de 1581, foi o barco retido debaixo da fortaleza, e tomando-lhes os remos, ali o detiveram, e aos passageiros que trazia, oito dias presos, sem lhes acudirem com coisa alguma, nem lhes consentirem comunicação com a terra, até que lhes permitiram se retirassem à sobredita ilha de S. Miguel. Desta forma continuava a ilha Terceira a sustentar a voz de El-Rei D. António, e a de S. Miguel a declarar-se por El-Rei Filipe; e além disto só cuidavam os governadores destas ilhas de insidiar um contra a vida do outro: o que não puderam conseguir sem embargo dos meios indecorosos de que ambos se valeram, como em tempo faremos ver.

Se acreditarmos o que escreve Nicolas de La Clède, no Livro 2.º a página 98[9], somente fundado na História de Herrera[10], os magistrados da Terceira, rejeitando o governo de Ambrósio de Aguiar, entregaram-se aos últimos transportes de alegria[11], considerando-se inspirados por haverem resistido aos ameaços de D. Filipe. Fizeram celebrar uma missa em acção de graças, e celebrada que foi esta, jurou o povo derramar até à última gota de sangue em favor de D. António.

Com este tumulto — continua o mesmo La Clède — teve a religião muito que sofrer nas empresas de alguns pregadores. Os quais permitiam as coisas que mais expressamente proibia a lei; arrogaram a si o direito de absolver de todo o género de maldades; aprovaram os caprichos todos do povo; regularam seu estilo de proceder pelo estilo dele; apoiavam suas opiniões mais extravagantes com passagens da Escritura Sagrada, que eles aplicavam como lhes parecia, e para maior desordem deixaram-se arrastar de uma desenfreada devassidão e moviam os outros a imitá-los. Os Jesuítas foram os únicos o que se opuseram com todas as forças a esta corrupção geral; forcejaram por desvanecer a ilusão do povo, o que respeitava ao fanatismo que lhe pregavam; fizeram horrorosas pinturas dos precipícios em que os demais religiosos iam metê-los. Mas nem seu valor, nem seus arrazoados, serviam de outra coisa senão de assanhar aqueles mesmos que eles queriam reduzir ao que era razão; e tornaram-se vítimas de todos estes, pois fizeram com que os prendessem como suspeitos, e subornados por El-Rei Católico.

NotasEditar

  1. Como se não sabia parte certa onde estava El-Rei, deram ordem ao piloto Gaspar Álvares, que fosse era direitura ao Porto, Aveiro, Buarcos, ou Viana, e aconteceu aportarem em Aveiro, onde o encontraram doente; acerto foi este que se reputou milagroso.
  2. António de Herrera na História Geral, Livro 10, capítulo 19, tratando da batalha na baía da Salga, diz assim: — Era la hora de medio dia, y no se pasó ningun Portugues a los Castellanos, porque los apassionados del Rey no se fiavan, e temian el ejemplo de Juan de Betancor, que teniendo concertado de levantar-se con la Villa de Angra por el Rey, con mas de cien vecinos, contra Cebrian de Figueiredo, llegada la hora concertada e salido a la plaza armado, no le siguió nadie y la gente popular lo prendió, y trató mal, y estuve para ser ahorcado.
  3. Segundo o Mestre Chagas este fidalgo João de Betancor foi filho de Francisco de Betancor, morador na vila da Praia desta ilha, onde faleceu com testamento a 9 de Outubro de 1582; e foi e dito João de Betancor casado com D. Maria da Câmara, de quem haviam Vital de Betancor já de provecta idade, e outros filhos e filhas; o dito seu pai era da ilha da Madeira, e foi quem trouxe à Terceira o apelido Betancor, que hoje se acha adulterado em Bettencourt. Consta mais do citado testamento serem seus filhos, Henrique do Betancor, como seu pai, e D. Joana.
  4. Diz a citada relação: — e homens, e mulheres e meninos, pareciam doidos;.... e a nau cercada de barcos o gente..... e com estas festas foi recolhido o dito António Escahalim, e lhe deram boas casas, e bem acomodado, e sua gente, e provido de boas iguarias abundantemente: isto tudo foi a uma sexta-feira, e assim no dito dia, como no sábado e domingo tudo foram festas; e ao domingo foi a cidade toda enramada pelas ruas de pomos, verduras e painéis, e muitas chacotas, muitas danças, chafarizes de vinho pelas ruas, e muita gente nobre com os da governança da terra foram pela cidade com o dito António Eschalim e sua gente da nau.... e os levaram pelas ruas fazendo-lhe estas festas, e muito mais era do que eu digo.
  5. Veja-se a História Insulana, Livro 6.º, capítulo 26, §287.
  6. O Padre Maldonado, falando deste Bispo, diz assim: — Teve rijas preferências com o corregedor Ciprião de Figueiredo em matérias de jurisdição, de que procederam censuras; e como o corregedor tinha um poder amplíssimo, e as armas e justiça de que era naquele tempo senhor absoluto, se desgostou o prelado em forma que foi forçoso passar-se em 1580 à ilha do S. Miguel, onde é voz pública seguiu o partido de El-Rei Filipe, e fez que aquela ilha em geral se reduzisse à sua obediência. E sendo no ano de 1582, estando o Rei já de posse, se passou a Lisboa, onde foi eleito Bispo de Leiria, e no ano de 1587 provido na casa pequena dos desembargadores do paço, finalmente chegou a ser Vice-Rei de Portugal. Parece que exaltando-se muito com esses empregos ganhou ódios; e porque era de humilde nascimento, se lhe lançou em rosto, com que bastante se desgostou.
  7. O padre Gaspar Manuel, como diz o Mestre Frei Diogo das Chagas, era filho de Manuel Lourenço e de sua mulher Maria Álvares, neto de Álvaro Lourenço e Francisca Fernandes, da nobreza principal da vila de S. Sebastião; serviu muitos anos de vigário na freguesia de S. Pedro, em Angra, e depois na matriz da dita vila, onde jaz sepultado. Foi mui autorizada pessoa, e visitador de algumas ilhas deste Bispado. E o referido Gaspar Fernandes, que o acompanhou nesta embaixada, era casado com a matrona Helena Dias Fróis, e filho de Henrique Fernandes moço da Câmara de El-Rei D. Filipe, como se vê do respectivo alvará, registado no Livro do Tombo da Câmara daquela vila a fl. 30; seu pai Pedro Fernandes Lamego, grande mercador, e homem dos mais nobres de seu tempo, fez assento na mencionada vila, onde foi casado com Lucrécia Nunes, e tem vasta descendência.
  8. Assim o diz o Padre Cordeiro no Livro 6.º, capítulo 26.º, fundado na autoridade do doutor Gaspar Frutuoso, Livro 4.º, capítulo 98.
  9. [Nota do editor: Nicolas de La Clède, Historia geral de Portugal por Mr. de la Clede; Traduzida em vulgar, e illustrada com muitas notas historicas, geograficas, e criticas; e com algumas dissertações singulares, 16 volumes, Typografia Rollandiana, Lisboa, 1782-1797]
  10. Somente fundado na História de Herrera [Nota do editor: Cinco Libros de la Historia de Portugal, y Conquista de las Islas de los Azores, 1582-1583, Madrid, 1591)], dizemos nós, porque nem o Padre Cordeiro, no lugar citado, nem a relação que seguimos, aliás muito minuciosa, tais festejos mencionam.
  11. Semelhante facto, acompanhado de várias circunstâncias bem idênticas, foi praticado em Angra a 15 do Julho de 1828, quando o capitão general Prego chegou para tomar posse do governo destas ilhas; então a fidelidade dos terceirenses desprezou a ameaça do grande poder que lhes estava iminente.