O Pai-Raiol era o demônio do mal e do rancor.

Para espalhar a desolação, derramar sangue, assentar-se no trono medonho das ruínas, alimentar-se com os gemidos e com os arrancos da agonia, e rir medonhamente sobre os horrores da morte, inventaria pretextos, e em falta de pretextos serviria sem remorsos ao impulso dos instintos perversos, vangloriando-se da perversidade.

Na fazenda de Paulo Borges, Pai-Raiol ainda não tinha sofrido castigo algum; e seu senhor, embora não lho dissesse, estava tão satisfeito dele, que já por duas vezes o mandara feitorar os parceiros: no desempenho dessa tarefa requintara de severidade, e os pobres escravos viram-se de contínuo excitados ao trabalho a golpes de açoite manejado por mão também de escravo. Pai-Raiol os flagelara por sistema; o açoite é que as mais das vezes provoca o desespero e a fúria da escravidão.

Sem pretextos para aborrecer o senhor, aborrecia-o e desejava-lhe somente porque era seu senhor; para detestar a senhora, seu coração ruim aproveitara um fútil pretexto, guardando rancoroso a lembrança da impressão repulsiva que causara a Teresa e das palavras que a ouvira dizer em voz baixa ao marido:

– Que má cara tem este negro!

Tudo serve ao ódio do escravo; o simples e incalculado movimento de antipatia de uma senhora suscetível, e até inocente repugnância, ou o medo infantil de uma criança.

Luís, o filho mais velho de Paulo Borges e Teresa, menino de quatro anos, tinha um dia visto chegar da roça o Pai-Raiol e desatara a chorar assustado; sua mãe correra a tomá-lo nos braços, e, perguntando-lhe porque chorava, o pobre anjinho apontara para o feio escravo, e dissera a soluçar:

– É o zumbi... o zumbi...

O zumbi era um monstro negro e imaginário, herói sinistro de estúpidas e horríveis histórias, com que as escravas, em vez de entreter, assombravam o nervoso menino com a mais lamentável e perigosa inconveniên­cia, o que aliás é infelizmente muito comum em nossas famílias.

O medo sentido por Luís passou a Inês, sua irmãzinha de dois anos, que também tremia e chorava, quando por acaso via Pai-Raiol.

O malvado escravo tomou em rancor as duas crianças, como tinha tomado em rancor Teresa, e como, sem pretexto algum, nutria igual sentimento pelo senhor.

Mas Pai-Raiol, já amestrado, contando só consigo, temendo o açoite que por vezes lhe cortara as carnes, convencido de que em traiçoeiro se­gredo melhor e mais seguro podia ser danoso aos senhores, refalsado os­tentara submissão triste, obumbrada, mas completa e tranqüila, e na soli­dão de suas noites e no silêncio do seu viver, preparava a guerra.

Há nas fazendas, em algumas ou em muitas ao menos, séries, correntes de infortúnios, períodos de adversidades, que os lavradores somente explicam, acusando a sua infelicidade.

Em certos casos são coincidências filhas de erros que não se querem re­conhecer; em outros acontecimentos nocivos, cuja explicação escapa à in­teligência das vítimas; em muitos a fonte da infelicidade teimosa está no ódio natural e disfarçado dos escravos.

Os escravos prejudicam aos senhores cem vezes mais do que estes calcu­lam pelos dados da observação dos fatos patentes.

Eles prejudicam aos senhores:

Trabalhando maquinalmente, sem idéia de melhoramentos, de pro­gresso e de aperfeiçoamento do sistema de trabalho, sem os incentivos de interesse próprio e com desgosto e má vontade;

Furtando nas roças, nas fábricas e nos armazéns produtos que vão ven­der para embebedar-se, o que ainda diminui as forças, quando não com­promete a saúde e rouba ao trabalho dias passados na enfermaria;

Suicidando-se subitamente, ou aos poucos, quando por nostalgia, enfezação ou desespero morno e profundo contraem e alimentam enfermi- dades que acabam por matá-los;

Fugindo à escravidão por dias, semanas, meses ou para sempre, e nos quilombos, seduzindo outros escravos para fugir como eles;

Não poupando o gado e os animais, não zelando os instrumentos ru­rais, não compreendendo a necessidade de cuidados, não tendo nem podendo ter amor à propriedade do senhor, não se ocupando das perdas ou os lucros do senhor;

Fazendo perdurar a rotina e o trabalho materializado, e por sua indife­rença, estupidez e desmazelo, contrariando, anulando e desacreditando processos, invenções, máquinas que economizam tempo e braços, e que explorados pela inteligente execução do homem livre e interessado, ofe­recem resultados que aumentam a riqueza;

E sem falar na influência imoral, corruptora da escravidão, os escravos muitas vezes prejudicam aos senhores cem vezes mais do que estes calculam, fazendo refalsada e misteriosamente o dano que podem.

O Pai-Raiol é um exemplo. Basta um escravo perverso para a sementeira de ruínas.

Seis meses depois da arrematação dos vinte escravos, que foram seis meses de paciência e cálculo para o Pai-Raiol, a fortuna começou a desandar na fazenda de Paulo Borges.

Os bois e as bestas morriam, e não havia peste: tornaram-se evidentes os sinais de envenenamento, e o fazendeiro explorou o campo e os pastos ordenando limpa geral na suspeita de vegetação de ervas venéficas.

A limpa pôs termo à destruição dos animais; o prejuízo porém tinha sido relativamente enorme: Paulo Borges teve de remontar a fazenda.

Semanas depois, em uma noite de violenta ventania, o sino tocou desesperadamente a fogo, e Paulo Borges que saltara da cama, e os escravos que acudiram das senzalas, viram, correram a atalhar o incêndio que estalante devorava o imenso canavial, animadora esperança de pingue produto do trabalho do último ano: o vento ajudava-as línguas de flamas; dois terços do canavial ficaram carbonizados.

Alguns meses ainda: as ervas tinham de novo sem dúvida rebentado da terra, e outra vez as bestas, os bois, os carneiros morreram às dezenas.

O ano era fatal: Paulo Borges maldizia da sua infelicidade, e principiava a desconfiar de tão repetidos infortúnios: ameaças terríveis saíram de sua boca, e o Pai-Raiol um dia apresentou ao senhor um punhado ervas.

– Que é isso? – perguntou-lhe Paulo Borges.

– É o que mata o boi e a besta – respondeu o escravo.

Segunda limpa geral do campo e dos pastos foi executada sob a direção de Pai-Raiol e a mortandade cessou.

O fazendeiro tinha perdido em um ano o que não poderia ganhar o trabalho de dois.

Mas que fazer?... Era a infelicidade.

E ainda bem que o Pai-Raiol tinha, embora um pouco tarde, descoberto a erva que matava os animais: era uma vegetação maligna e fatal que nunca dantes se encontrara nos pastos da fazenda, e que então rebentara sem dúvida de sementes trazidas e espalhadas pelo vento...

Infelicidade...

E o incêndio do canavial?... Talvez o houvesse ateado a inveja de algum mau vizinho; ou, quem sabe? a ponta de cigarro ainda aceso atirada sem malícia por viajante ou tropeiro; pois que o partido ladeava a estrada e o fogo começara por esse lado.

Infelicidade...