Abrir menu principal
Astro da Rua
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
—Que insonia em mim produz este humido vapor!—
Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
Dos fumos do café, da luz e do rumor.

Um fantastico véo cobria as longas praças;
E o gaz ria atravez da grande cerração
Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
E em flocos d'alva neve humedecia o chão.

Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
Do subito eis que passa um astro radioso
Luzindo-me atravez do magico cendal!

Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.

Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
Mas hade erguer-se a escrava...—Assim dizia eu

E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
Agora pude vêl-a e posso recordar-me
Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
Deixava atraz de si um aroma de baunilha
D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
E aos labios aquentar os teus pequenos pés!

—Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
Ainda a perseguir-me a mesma aparição
E eu ainda sentia o lucido vestigio
Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!

Mas agora reparo, attento em sua chama!
Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
Na face macerada uns traços de carmim!

Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.