Critica (Machado de Assis)/Advertencia

Critica (Machado de Assis) por Mário de Alencar
Advertencia


Depois de ler este livro, perguntará o leitor naturalmente por que é que o autor destes excelentes trabalhos de critica, não a fez com a assiduidade com que cultivou outro genero de literatura. As pajinas aqui recolhidas são uma mostra cabal de que elle era um critico eximio e seria, querendo-o, um dos melhores que já escreveram na lingua portugueza. Possuia para o ser todas as qualidades: o conhecimento das literaturas estrangeiras e da nacional, o conceito esclarecido, a izenção do espirito, e a capacidade rara de abstrair o proprio gosto para a justa apreciação de idéas e processos de autores e de escolas.

Suponho que elle estreou a sua carreira nas letras, ao mesmo no jornal justamente pela critica. E talvez não erro afirmando que era esta a feição principal do seu enjenho. Atestam-no as suas primeiras como as suas ultimas cronicas, onde a fantazia a cade passo cede o logar que ali é proprio della ás considerações do espirito afeito á analizes de obras literarias. Essa feição não exclue outros nem é incompativel com as faculdades da imajinação e creação. O que me parece é que era a principal e as outras lhe estavam subordinadas. Em um meio de maior cultura e produção, Machado de Assis teria achado materia bastante e farta para lhe estimular e ocupar a atenção e o estudo critico. No Brazil, porém, e ao tempo em que elle chegava á madureza inteletual, a escassez das obras literarias deveria dissuadil-o de perzistir nesse trabalho, acrecendo a razão de que o proprio atrazo do meio social creava para o genero menos gloria que dissabores.

E' o que já se depreendia de um trecho da sua carta em resposta á apresentação que Jozé de Alencar lhe fizera de Castro Alves.

« A tarefada critica preciza destes parabens: é tão ardua de praticar, já pelos estudos que exije, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessaria para reavivar as forças exaustas e reerguer o animo abatido.

Confesso francamente que encetando os meus ensaios de critica, foi movido pela idéa de contribuir com alguma couza para a reforma do gosto que se ia perdendo e efetivamente se perde. Meus limitadissimos esforços não podiam impedir o tremendo dezastre... Si a magnitude da tarefa era de assombrar espiritos mais robustos, outro risco havia; e a este já não era a intelijencia que se expunha, era o carater. Compreende V. Exª que onde a critica não é instituição formada e assentada, a analize literaria tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se orijinam odios onde era natural travassem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da critica, atribue-se á inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipatia o que é conciencia. »

E’ a inteira verdade ainda hoje, e não sei si tambem nos outros paizes, mas estou que em nenhum se manifestará tamanha acrimonia no resentimento dos autores contra o critico, que acertada ou erradamente, em todo caso concienciozamente tem ocazião de lhes fazer censura ou restrinjir o aplauzo. A profissão de critico é por isso entre nós das mais penozas, das mais ingratas, e das mais arriscadas. Que o diga o meu amigo Sr. José Verissimo, cuja ilustração, enjenho, honestidade e esforço não lhe tem valido senãò a malquerença e a irritação de muita gente, á qual aliáz elle só quiz fazer e fez bem dizendo o que julgava das suas produções. Tanto mais meritorio e eficaz é o seu trabalho, pois que o vai realizando com sacrificio das simpatias e agrados que lhe fôra facil granjear em troca de louvores deshonestos. Elle confia no tempo que é o melhor juiz e punidor de praguentas; mas essa confiança inculca uma grande corajem e espirito de luta. E' o que não tinha Machado de Assis. Suscetivel, suspicaz, delicado em extremo receiava magoar ainda que dizendo a verdade; e quando sentiu os riscos da profissão, já meio dissuadido da utilidade do trabalho pela escassez da materia, deixou a critica individualizada dos autores pela critica geral dos homens e das couzas, mais serena, mais eficaz, e ao gosto do seu espirito. A essa especie de obra prestava-se admiravelmente a feição humorista, que elle cultivou estudando, e apropriou por fim e o realizou tão perfeita como se lhe fôra injenita. De um modo conciente e deliberado, elle veiu executar na pura fição a obra para a qual o qualificava excelentemente a feição principal do seu espirito a que estavam subordinadas as faculdades de imajinação e creação. Em tudo elle ficou sendo o critico dos outros e de si proprio: e eis porque a sua obra foi sempre medida e perfeita. Perdeu-se é certo um grande analizador de obras alheias, e por ventura um notavel generalizador de doutrinas literarias: ganhou-se o contador otimo e o romancista admirável. A troca foi uma vantajem, não obstante o que prometiam as pajinas aqui reunidas.

Não tenho a certeza de haver colijido todos os trabalhos de critica, e não seria facil descobrir todos os escritos esparsos em jornaes e revistas durante tão largo periodo de tempo. O melhor, porém, parece que foi aproveitado e é bastante. Tive idéa de juntar aqui os trechos das crônicas A semana, em que ha apreciações e juizos de autores e obras; achei dificuldade em destacal-os, ou por muito breves e sinteticos, ou por muito enleiados a outros assuntos.

Si esta coleção não abranjcsse mais que os estudos A nova geração, Literatura brazileira, o Primo Bazilio, já teria muito com que justificasse a sua edição em livro. Os outros escritos acrecentam-lhe o valor, e o volume que vem satisfazer um dezejo antigo dos admiradores de Machado de Assis, será uma revelação e um guia para os que não tiveram ocazião de ler estes artigos quando primeiramente publicados.


Rio, 2 de Fevereiro de 1910.


Mario de Alencar.