Dona Guidinha do Poço/II/II

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Segundo, Capítulo II


O parentão cabeludo, o Miguelzinho do Vavaú, ia casar uma filha com um primo. A cerimônia realizava-se na vila, e daí, cavalgata para a casa do noivo, no Fofô, umas cinco léguas do Poço da Moita.

Foi muito sentida a falta de Guidinha, que não viera por estar doente. Coisas de mulheres, ao que dizia o Miguel. E quanto à ausência do Quim:

— Quem é agora que dá pela falta do papéu queimado, gentes?

O Secundino compareceu, achando que se não correspondesse ao convite julgariam que era prova de menos consideração. O Miguelzinho chamou-lhe grandissíssimo veiaco, à boa parte, porque lhe parecia que o rapaz não se dava por achado em meio de tanta matuta pimpona:

— Mas tu cai sempre, jinjibirra! Nem Deus te vale!

Espalhou-se, é o caso, que nessa festa o jovem pernambucano pegou de namoro rijo com a menina Eulália, interessante e mimosa filha do Juiz de Direito, educada na Capital.

A Margarida, quando lho disseram, chegou o beiço ao nariz, fumegou:

— Que está dizendo? Uma lambisgóia daquelas! O Juiz de Direito anda por toda parte amostrando as duas bonecas... Podera! Encontra um nenê como o Secundino... Menino há de gostar de vadiar com boneca...

— Menino de vinte e seis anos, Guidinha! - exclamou o marido.

— Só vendo... A Eulália! Ora, senhores, a Senhora Dona Eulália!

— Que tem isso? Homem! Que quer você dizer? São as meninas mais aquele que há por estes sertões. Sabem vestir, sabem conversar, pronunciam bem o português, sabem pisar...

— Ora, bravos! Muito bem, Senhor Major! Sabem... Sabem... Nem tem destões de dote cada uma! Umas retirantes!

O modo e o sentido insultuoso com que a mulher pronunciou a expressão retirantes foram avisos ao Quim a que não prosseguisse. Ouvira algumas vezes essa palavra, à má parte, a ele dirigida por ser de outra província. A perversidade humana, implacável, cria dessas injustiças. Retirante se tornou por isso maldita, como se a miséria casual por que uma vez na vida passou um indivíduo lhe impregnasse o moral do repelente aspecto da mulambeira e da magreza faminta. E, daí, retirante a qualquer que sendo de um lugar mudou para outro em tempo de seca. E daqui, ainda, quando se quer mesmo insultar a qualquer estranho.

— O senhor seu avô por acaso não seria um retirante, vino de Portugal? E o senhor seu trasavô também um retirante, que se retirou, fazendo ponto no Ceará, no tempo da guerra dos holandeses?

— Quer saber de uma coisa? Ponto final! - acudiu a mulher. Proteja o namoro do seu sobrinho, que o fará feliz. Já ouviu? Se eu me calasse, aposto que você diria que eu não choro pelos seus.

— Eu não protejo namoro de ninguém, Guidinha. Você é que está levantando isso!

Entretanto, por milagre não sei de quem, Margarida estava uma excelente esposa, como não o fora ainda. Sem o marido dar por ela, fazia mesmo o sacrificiozinho de algumas embirrâncias do seu natural rixoso, conhecida como era por ter um gênio forte de antes quebrar que torcer.

O Secundino pez anos a 30 de abril. Em vez de irem lá à vila, porque não era ali uso arraigado as festas de aniversário, o festejado foi quem veio ao Poço da Moita. Beber umas recordações de família, como ele dizia, bem longe que estava do seu torrão.

Por artes do diabo, a menina Eulália estava no Poço, convidada que fora pela Guidinha para passar com ela umas semanas, no gozo do inverno.

A Margarida reconheceu em poder dela uma pedrinha em forma de coração que o rapaz trouxera um dia, quando voltava do banho. Pediu-lha:

— Para que você quer esta pedra, Lalinha? Me dê para mandar a uma amiga da Capital.

— Eu?... Isto me deram! - respondeu com entusiasmo a Eulália.

— Então lhe merece muito apreço, não é?

— Muito, D. Guidinha! Não há dinheiro que pague!

— É como se fosse um brilhante?

— Mais!

— É...

A ingênua donzela, em filial confidência:

— É como se fosse um coração de carne, vivo, cheinho de amor!

— Tolice! replicou a Margarida, sufocando um sentimento inconfessável.

O Major esforçou-se para fazer ao sobrinho uma festazinha regular. Matou-se matotagem, convidou-se, dançou-se ao som de rabeca e viola. A Margarida com seu exagero, despejou um copo de vinho na cabeça de um convidado que não queria beber mais. Compareceu um velho ferreiro, dizendo de décimas e brejeirices, que fez boa súcia. Caçoando, caçoando, o brinquedo foi até o dia seguinte, ao quebrar das barras. Então foram-se retirando os matutos, em corridas e gritarias por aqueles matagais.

O Secundino, afeito a exacerbações semelhantes na vida da praça, estava cada vez mais lesto ao declinar do pagode, à medida que aqueles sertanejos hercúleos, nascidos e criados no rigoroso trabalho, se desmoralizavam como os bebês e as aves à hora do berço e do poleiro. Uma agradável palidez clareou-lhe a fisionomia encandeada pelos grandes olhos castanhos.

Os últimos, que ficaram, foram ao banho, de troça. A Guidinha, com as outra mulheres, um pouco mais para baixo, onde o rio era mais ensombrado.

Nada mais, nada menos, o Secundino passou três dias no Poço da Moita. Num deles, à hora em que os pássaros recolhem às grandes árvores com os cantos de que usam alegrar-se nas menores insignificâncias da vida, soou na catinga um grito de acauã, um piado grosso, angustiado, aflitivo como o de uma rã no dente da cobra. A Lalinha, menina da praça, abominava aquele canto horrível da ave de rapina. Tapou os ouvidos e correu às gargalhadas dos circunstantes para esconder-se no interior da vivenda. Sucedia um grito a outro, por uns minutos, eternos, na mesma intensidade, num duro cadenciado, até que se foram desdobrando em outros mais agudos, ã, ã, ã, cauã, ã... Lalinha sentia com aquilo um arrepio íntimo, um vexame, uma gastura como ao conhecido Jesus! Jesus! que é costume lamuriar ao ouvido dos moribundos. Ao soturno pôr-do-sol, o interminável piado enlutava a paisagem toda, comunicante, contagioso como o assobio da cigarra quando retine pela fulva incandescência estival da catinga, impertinente, atordoante, fresta de sol a queimar o rosto do cansado viandante que está ferrado no sono ao pouso do meio-dia.

O Secundino não sabia bem o que aquilo era, apesar de o ter ouvido, e, a caçoar, os outros responderam:

— É um passo que tem polo sertão, a acauã. Lá na praça não hai disso, hem?

— Ah! Então aquilo é que é o canto da acauã? Tenho lido, tenho lido. É realmente medonha assim de perto. Que agouro! a acauã cantar quando vim festejar os meus anos, hem? - disse ele, rindo para a Margarida. Hem, tia Guidinha?

Margarida teve um sorriso insignificante. Um rapaz daqueles a chamar-lhe tia como se quisesse ir logo erguendo entre as boas liberdades dos sexos diferentes uma barreira de tédio!

Lalinha completou o tempo que prometera passar com a Guida, e tornou para Cajazeiras.

A Guida fez-lhe muitos agrados como se foram ambas donzelas do mesmo tope; e assim confiou-lhe a ingênua menina o sacrossanto mistério de que o Secundino ia pedi-la a papai.

— E papais quer? - interrogou a Guida, em tom de criancice.

— Suponho que sim...

Margarida não pôde dizer mais nada, e torceu a cara para não patentar a chama horrível que lhe subia das entranhas.

— E se papai não quiser... - continuava a menina como a rola que alegremente se atira ao deslumbramento de um muro branco onde encontra a morte. - Se papai não quiser... Eu com outro não me caso, Dona Guidinha!