Dona Guidinha do Poço/IV/IV

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quinto, Capítulo IV


Pobre Major - ia dizendo consigo o Padre João - o teu leito nupcial nunca passou de uma obscenidade! Lá a minha Maria, essa eu não posso tê-la na minha casa: é burra de padre, é amásia, é concubina, e os meus filhos são iligítimos... O teu leito nupcial nunca passou de uma obscenidade, meu Major!

De fato o Padre estava convencido de que a Guida sempre repugnara ao Quim, e de que ela o recebia com o apetite carnal faminto, sim, mas não com o gosto consciente do gastrônomo. Não equivalia isto a uma prostituição? Que de honesto podia haver nesse leito matrimonial não purificado pela inclinação recíproca? Era prostituta, e daí para o adultério, um triz.

Aquilo sim, era obsceno. Lá ele, com a sua Maria, não trocava o seu pecado, que Deus bem via, pela honestidade de certos casamentos... Bem faziam os que tinham em casa a amásia. E depois, o prazer da existência consistia na vida de relação. E para isso era de ver-se o esforço constante que fazia o homem, selvagem, bárbaro, ou culto, por divertir-se, por mostrar-se, por ter glória, por tudo enfim que resulta da vida em sociedade. Ora, o primeiro passo para essa vida de relação não será pelo amor, transição da vida vegetativa para as altas e nobres funções do sentimento? Guida não teria sido vítima dessa tendência? Por outro lado, uma pessoa que se deixa arrastar por um amor, seja o mais ilícito, o mais impossível, vive em ilusão, e se julga sempre santamente martirizada por um sentimento justo...

— Quem estiver isento de culpa atire a primeira pedra. Bem disse o Divino Mestre - concluiu o padre. E lançou um olhar reverente para o azul.

Vinham voltando para o Norte as pombas de bando que passaram pela manhã, e desenvolviam no espaço aquela serpente gigantesca, ora estreitando-se, ora avolumando-se, miríade de asas fremindo ao sol vespertino numa tremura de água corrente.

O Padre João lembrou-se da sua invocação à Providência, que fizera de manhã por aquelas paragens.

Vinha satisfeito com o resultado da sua missão, pois não esperava encontrar a altiva senhora em tão boas disposições para com o desasado Major. E, meu Deus! Na realidade, que fazer com o pecado? O pecado não vinha do primeiro homem? Parecia estar mesmo no plano da natureza, aliás, de onde saíra o homem, humano e limo da terra como lá estava na História Santa. Na verdade, que era feito de todos os gérmens? O gênero humano não tinha que abrir exceções. As ovas dos peixes andavam por aí em salga, para manjar dos glutões. E os peixes multiplicavam. A cajazeira do seu quintal cobria o chão de cajás, dos quais raríssima porção preenchia o seu destino. Aquele nunca acabar de pombas de arribação, que lhe iam diante dos olhos, passando, passando como nuvens, punha uma infinidade de ovos, sim senhor, e os répteis, os urubus, e quanto bicho havia, e o homem, que os apanhava às cargas, davam conta da mor parte. Que faziam aquelas revoadas de periquitos, que voltavam do arvoredo fresco do rio? Destruir os frutos ainda verdes com uma prodigalidade de herdeiro estróina. E de que traziam os papos repletos aquelas mesmas pombas de bando? Do grão das espigas do pasto maduro. E nada se extinguia. Assim, a prostituição, a masturbação, a pederastia, os incestos, os adultérios, as modas, o espartilho, o luxo, toda essa coorte infernal de vícios contra a castidade, e contra a moral, e contra o bem-estar, a destruir, a amesquinhar, a esperdiçar de noite e de dia o óvulo humano, não atrasava de um segundo o crescit et multiplicamini do livro santo. Quem podia dar combate ao Pecado sem arcar assim contra o plano tenebroso da matéria? Altos mistérios de Deus! Quem estivesse inocente pegasse na primeira pedra...

A estrada, ali, seguia por perto do Rio dos Bois, que vinha da vila. A imensa coluna do exército alado, daquela cor mesmo chamada roxo-pombo, fazia um seio até certa zona de mato verde, que aparecia a pouca distância. O Padre seguia em proporção de ouvir os tiros dos caçadores, nas bebidas, pois que era para beber nos poços do rio que as pombas desciam ali.

Muito bem! O Padre já sabia que ia cear avoantes àquela noite. Não deixavam de levar-lhe a caça, de que era muito afeiçoado. Chegou em casa já com escuro. O vizinho, Dr. Motezuma, tinha agora o sobrado um dia por outro em danças, modinhas e brinquedos freqüentados. Lá estavam, pelo moceiro e pela rapaziada do lugar, num fervet opus, risadaria, talvez colocando-se para uma quadrilha, ao toque de rabeca e viola.

Como iam mudando as coisas! Não sabem para que o Juiz abria suas portas àquela troça? Para casar a Lalinha com o filho do Cambute, o chefe liberal, Pedro Maria de Albuquerque, hoje em dia coronel comandante superior da Guarda Nacional da comarca!

O Padre não levara a bem esse casamento, e não podia disfarçar a contrariedade. O Montezuma, que tanto lhe devia, ia dar sua filha ao pimpolho, filho de um chefe adversário: filho do Cambute!

— Esses juízes, esse juízes!

Por seu lado o Dr. Montezuma com o dito consórcio ficava a duas amarras, o que era excelente modo de ficar: parte da família ia para os conservadores e parte para os liberais. Se partidos mais houvera, cada um teria também a sua parte. Era um meio inequívoco de estar sempre de cima.

Lalinha fora pedida, na realidade. Casaria lá para janeiro. Cadê o Secundino? perguntava a si mesma. Nem mais se lembrava do antigo cavalariano, cansada de sofrer.

O Cambute se havia mudado para a vila. Os filhos andavam emplando de duro. Podera, estavam de cima! A menina fora apreciando ao Tonho deles, que era também meio corrido e ladino (fora caixeiro no Recife), e se realizou a substituição. Também já era o tempo que corriam coisas muito feias acerca do escândalo do Poço da Moita, contribuindo isso para afugentar mais depressa do pensamento da donzela a imagem ora depreciada do Secundino.

Os hipócritas são finos conhecedores do coração humano, e evitam sempre o escândalo, isto é, a evidência do mal.

Pois, minha gente, a Guida tinha lá juízo? Fazer até o marido sair de casa ultimamente, por amor do não sei-que-diga de um homem que parece que só sabia era abusar das pobres das mulheres? E sem guardar conveniências!

E assim é que foram ilhando a Guidinha, diante de quem, aliás, (quando tinham ocasião de vê-la), faziam a mesma cara alegre de antes. O Secundino é que se tornara, na verdade, geralmente antipatizado.