Diferenças entre edições de "Dom Quixote/II/XXII"

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{{Importado por bot}}{{navegar
|obra=[[Dom Quixote]]
|autor=Miguel de Cervantes
|anterior=[[Dom Quixote/II/XXI|Capítulo XXI]]
|posterior=[[Dom Quixote/II/XXIII|Capítulo XXIII]]
|seção=titDomCapítulo Quixote/II/XXII}}|| — Onde se dá conta da grande aventura da cova de Montesinos, que está no coração da Mancha, e a que pôs feliz termo o valoroso D. Quixote.--}}
 
Grandes e muitos foram os regalos com que os noivos serviram a D. Quixote, obrigados pelas demonstrações que ele fizera para defender a sua causa, e, a par da valentia, gabaram-lhe a discrição, tendo-o por um Cid nas armas e por um Cícero na eloqüência. O bom Sancho refocilou-se três dias à custa dos noivos, dos quais se soube que não foi traça combinada com a formosa Quitéria o ferir-se fingidamente Basílio, mas sim indústria deste, esperando o feliz resultado que se vira; é verdade que confessou que dera parte do seu pensamento a alguns dos seus amigos, para que, logo que fosse necessário, favorecessem a sua intenção e auxiliassem o seu engano.
 
Selou Sancho Rocinante, aparelhou o ruço, recheou os alforjes, o mesmo fez o primo do licenciado, e, encomendando-se a Deus e despedindo-se de todos, tomaram o rumo da famosa cova de Montesinos.
 
De caminho perguntou D. Quixote ao primo do licenciado quais eram a sua profissão e estudos; ao que ele respondeu que a sua profissão era a de literato, os seus estudos compor livros para dar à estampa, todos de grande proveito e não menor entretenimento: um intitulava-se ''Dos trajos'', em que pintava setecentos e tantos trajos, com as suas cores, divisas e motes, onde podiam os cavaleiros cortesãos, em tempo de festa, procurar os que lhes agradassem, sem os andar pedindo a ninguém, nem quebrar a cabeça para os arranjar conformes com os seus desejos e intenções, porque davam ao olvidado, ao amante, ao zeloso, ao desdenhado, os que melhor lhes coubessem. “Tenho“Tenho outro livro também, que hei-de chamar ''Metamorfoses'', ou ''Ovídio espanhol'', de invenção nova e rara, porque nele, parodiando Ovídio, pinto quem foram a Giralda de Sevilha e o anjo da Madalena, o cano de Vecinguerra em Córdova, os touros de Guisando, a Serra Morena, as fontes de Leganito e de Lava-pés em Madrid, sem esquecer a do Piolho, a do Cano Dourado, a da Prioreza; isto com as suas alegorias, metáforas e translações, de modo que alegram, suspendem e ensinam ao mesmo tempo. Tenho outro livro, que chamo ''Suplemento a Virgílio Polidoro'', que trata da invenção das coisas e que é de grande erudição e estudo, porque as que deixou de dizer Polidoro, averiguo-as eu e declaro-as em gracioso estilo. Esqueceu-se Virgílio de nos dizer quem foi a primeira pessoa que teve catarro no mundo; declaro-o eu ao pé da letra, e fundamento-o com mais de vinte e cinco autores; veja Vossa Mercê se trabalhei ou não trabalhei para ser útil a toda a gente.”
 
Sancho, que ouvira muito atento a narração do primo, acudiu: