Diferenças entre edições de "Dom Quixote/I/II"

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{{Importado por bot}}{{navegar
|obra=[[Dom Quixote]]
|autor=Miguel de Cervantes
|anterior=[[Dom Quixote/I/I|Capítulo I]]
|posterior=[[Dom Quixote/I/III|Capítulo III]]
|seção=titDomCapítulo Quixote/I/II}}|| — Que trata da primeira saída que de sua terra fez o engenhoso D. Quixote.--}}
 
Concluídos pois todos estes arranjos, não quis retardar mais o pôr em efeito o seu pensamento, estimulando-o a lembrança da falta que estava já fazendo ao mundo a sua tardança, segundo eram os agravos que pensava desfazer, sem-razões que endireitar, injustiças que reprimir, abusos que melhorar, e dívidas que satisfazer.
 
 
Indo pois caminhando o nosso flamante aventureiro, conversava consigo mesmo e dizia:
— Quem duvida de que lá para o futuro, quando sair à luz a verdadeira história dos meus famosos feitos, o sábio que os escrever há-de pôr, quando chegar à narração desta minha primeira aventura tão de madrugada, as seguintes frases: “Apenas“Apenas tinha o rubicundo Apolo estendido pela face da ampla e espaçosa terra as doiradas melanias dos seus formosos cabelos, e apenas os pequenos e pintados passarinhos, com as suas farpadas línguas, tinham saudado, com doce e melíflua harmonia, a vinda da rosada aurora, que, deixando a branda cama do zeloso marido, pelas portas e varandas do horizonte manchego aos mortais se mostrava; quando o famoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha, deixando as ociosas penas, se montou no seu famoso cavalo Rocinante e começou a caminhar pelo antigo e conhecido campo de Montiel (e era verdade, que por esse mesmo campo é que ele ia);” e continuou dizendo: “''Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão-de sair à luz as minhas famigeradas façanhas dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembrança de todas as idades''!” Ó tu, sábio encantador (quem quer que sejas) a quem há-de tocar ser o cronista desta história, peço-te que te não esqueças do meu bom Rocinante, meu eterno companheiro em todos os caminhos e carreiras.
 
E logo passava a dizer, como se verdadeiramente fora enamorado:
— Se Vossa Mercê, senhor cavaleiro, busca pousada, excetuando o leito (porque nesta venda nenhum há) tudo mais achará nela de sobejo.
 
Vendo D. Quixote a humildade do “alcaide“alcaide da fortaleza”fortaleza”, respondeu:
 
— Para mim, senhor castelão, qualquer coisa basta porque
 
::“minhas“minhas pompas são as armas,
::meu descanso o pelejar.” etc.
 
Figurou-se ao locandeiro que o nome de ''castelão'' seria troca de ''castelhano'' (ainda que ele era andaluz, e dos da praia de S. Lucar, que em tunantes não lhe ficam atrás, e são mais ladrões que o próprio Caco, e burlões como estudante ou pajem); e assim lhe respondeu:
— Segundo isso (como também lá reza a trova),
 
::“colchões“colchões lhe serão as penhas,
::e o dormir sempre velar.”
 
E sendo assim, pode muito bem apear-se, com a certeza de achar nesta choça ocasião e ocasiões para não dormir em todo um ano, quanto mais uma noite.
 
O que porém sobretudo o desassossegava era não se ver ainda armado cavaleiro, por lhe parecer que antes disso não lhe era dado entrar por justos cabais em aventura alguma.
 
[[Categoria:Dom Quixote]]