Diferenças entre edições de "O Crime do Padre Amaro/VII"

201 bytes adicionados ,  16h40min de 20 de setembro de 2010
sem resumo de edição
(Importação automática de artigos)
 
{{navegar
|obra=[[O Crime do Padre Amaro]]
}}
 
Dias depois o padre Amaro e o cônego Dias tinham ido jantar com o abade da Cortegassa. - Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia há trinta anos naquela freguesia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das vizinhanças conhecia a sua famosa [[wikt:cabidela|cabidela]] de caça. O abade fazia anos, havia outros convidados - o padre Natário e o padre Brito: o padre Natário era uma criaturinha biliosa, seca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pele picada das bexigas e extremamente irritável. Chamavam-lhe o Furão. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande [[wikt:latinista|latinista]], e ter uma lógica de ferro; e dizia-se dele: é uma língua de víbora! Vivia com duas sobrinhas órfãs, declarava-se extremoso por elas, gabava-lhes sempre a virtude, e costumava chamar-lhes as duas rosas do seu canteiro. O padre Brito era o padre mais estúpido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto [[wikt:beirão|beirão]] que maneja bem o cajado, emborca um almude de vinho, pega alegremente à rabiça do arado, serve de trolha nos arranjos de um [[wikt:alpendre|alpendre]] , e nas sestas quentes de Junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correto nas suas comparações mitológicas, chamava-lhe - o [[w:Leão de Nemeia|leão de Nemeia]].
 
A sua cabeça era enorme, de cabelo lanígero que lhe descia até as . sobrancelhas: a pele curtida tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; e, nas suas risadas bestiais, mostrava dentinhos muito miúdos e muito brancos do uso da broa.
 
Quando iam sentar-se à mesa chegou o Libaninho todo [[wikt:azafamado|azafamado]], gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:
 
— Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de [[w:Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Ermida)|Nossa Senhora da Ermida]], estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!
 
A Gertrudes, a velha e possante ama do abade, entrou então com a vasta [[wikt:terrina|terrina]] do caldo de galinha: e o Libaninho, saltitando em redor dela, começou os seus gracejos:
 
— Ai, Gertrudinhas, quem tu fazias feliz, bem eu sei!
— Olha que arranjo me aparece agora pela tarde!...
 
— Ai, filha! as mulheres querem-se como as pêrasperas, maduras e de sete cotovelos. Então é que é chupá-las!
 
Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se à mesa.
— Sim, senhor, famoso! Disto nem no Céu! Bela coisa!
 
O excelente abade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia o senhor chantre, "um divino artista" ! Lera todos os Cozinheiros completos, sabia inúmeras receitas; era inventivo - e, como ele afirmava dando marteladinhas no crânio, "tinha-lhe saído muito petisco daquela cachimônia" ! Vivia tão absorvido pela sua "arte" que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fiéis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do [[wikt:sarrabulho|sarrabulho]]. E ali vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom paladar também, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma só ambição na vida - ter um dia a jantar o bispo!
 
— Oh senhor pároco! dizia ele a Amaro, por quem é! mais um bocadinho de cabidela, faça favor! Essas codeazinhas de pão ensopadas no molho! Isso! isso! Que tal, hem? - E com um aspecto modesto: - Não é lá por dizer, mas a cabidela hoje saiu-me boa!