Diferenças entre edições de "O Almada"

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( nova página: O Almada Texto-fonte: Poesias Completas, Machado de Assis, W. M. Jackson, Rio de Janeiro, 1938. Publicado originalmente em Outras Relíquias, Rio d...)
 
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Texto-fonte:
 
Poesias Completas, Machado de Assis,
 
W. M. Jackson, Rio de Janeiro, 1938.
 
 
Publicado originalmente em Outras Relíquias, Rio de Janeiro, Garnier, 1910.
 
 
 
 
 
 
ÍNDICE
 
 
ADVERTÊNCIA
 
 
CANTO PRIMEIRO
 
 
CANTO II
 
 
CANTO III
 
 
CANTO IV
 
 
CANTO V
 
 
CANTO VI
 
 
CANTO VII
 
 
CANTO VIII
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ALMADA
 
 
Poema herói-cômico em 8 cantos
 
 
(Fragmentos)
 
 
 
 
ADVERTÊNCIA
 
 
O assunto deste poema é rigorosamente histórico. Em 1659, era prelado administrador do Rio de Janeiro o Dr. Manuel de Sousa Almada, presbítero do hábito de São Pedro. Um tabelião, por nome Sebastião Ferreira Freire, foi vítima de uma assuada, em certa noite, na ocasião em que se recolhia para casa. Queixando-se ao ouvidor-geral Pedro de Mustre Portugal, abriu este devassa, vindo a saber-se que eram autores do delito alguns fâmulos do prelado. O prelado, apenas teve notícia do procedimento do ouvidor, mandou intimá-lo para que lhe fizesse entrega da devassa no prazo de três dias, sob pena de excomunhão. Não obedecendo o ouvidor, foi excomungado na ocasião em que embarcava para a capitania do Espírito Santo. Pedro de Mustre suspendeu a viagem e foi à Câmara apresentar um protesto em nome do rei. Os vereadores comunicaram a notícia do caso ao governador da cidade, Tomé de Alvarenga; por ordem deste foram convocados alguns teólogos, licenciados, o reitor do Colégio, o dom Abade, o prior dos Carmelitas, o guardião dos Franciscanos, e todos unanimemente resolveram suspender a excomunhão do ouvidor e remeter todo o processo ao rei.
 
 
Tal é o episódio histórico que me propus celebrar e que os leitores podem ver no tomo III dos Anais do Rio de Janeiro, de Baltasar da Silva Lisboa.
 
 
No poema estão os principais elementos da história, com as modificações e acréscimos que é de regra e direito fazer numa obra de imaginação. Busquei o cômico onde ele estava: no contraste da causa com os seus efeitos, tão graves, tão solenes, tão fora de proporção. Dos personagens que entram no poema, uns achei-os na crônica (Almada, o tabelião, o ouvidor, o Padre Cardoso e o Vigário Vilalobos), outros são de pura invenção. Aos primeiros (excetuo Almada) não encontrando vestígios de seus caracteres e feições morais, forçoso me foi dar-lhes a fisionomia mais adequada ao gênero e à ação. Os outros foram desenhados conforme me pareceram necessários e interessantes.
 
 
Não é exagerada a pintura que faço do prelado administrador. Era ele, na verdade, homem irritadiço e violento, conquanto Monsenhor Pizarro no-lo dê por vítima de perseguição. Inimigos teria, decerto, e de tais entranhas, que uma noite lhe disparam contra a casa uma peça de artilharia. Verdade é que da devassa que então se fez resultou ter sido aquele ataque noturno preparado por ele mesmo com o fim de se dar por vítima do ódio popular. O juiz assim o entendeu e sentenciou, e o prelado foi compelido a pagar as custas da alçada e do processo. Monsenhor Pizarro pensa que isto foi ainda um lance feliz dos seus perseguidores. Pode ser; mas capaz de grandes coisas era certamente o Almada. Não tardou que recebesse ordem da corte para desistir do cargo, como se colhe de um documento do tempo citado nas Memórias Históricas, tomo VII.
 
 
Observei quanto pude o estatuto do gênero, que é parodiar o tom, o jeito e as proporções da poesia épica. No canto IV atrevi-me a imitar uma das mais belas páginas da antiguidade, o episódio de Heitor e Andrômaca, na Ilíada. Homero e Virgílio têm servido mais de uma vez aos poetas herói-cômicos. Não falemos agora de Ariosto e Tassoni. Parodiou Boileau, no Lutrin, o episódio de Dido e Enéias; Dinis seguiu-lhe as pisadas no diálogo do escrivão Gonçalves e sua esposa, e ambos o fizeram em situação análoga ao do episódio em que imitei a imortal cena de Homero.
 
 
Não se limitou Dinis à única imitação citada. Muitas fez ele da Ilíada, as quais não vi até hoje apontadas por ninguém, talvez por se não ter advertido nelas. Indicá-las-ei sumariamente.
 
 
Um dos mais engraçados episódios do Hissope, o da cerca dos capuchos, parece-me discretamente imitado do diálogo de Helena e Príamo, quando este, no alto de seus paços, interroga a esposa de Menelau a respeito dos guerreiros gregos que vê diante de Tróia. O vaticínio do galo assado é nada menos que o vaticínio Xanto. A pintura do escudo de Aquiles inspirou certamente a do machete do Vidigal. Dinis faz a resenha dos convidados do deão, como Homero a dos guerreiros de Agamenon. No último canto do Hissope o gênio das Bagatelas pesa na balança as razões do deão e do bispo, como Júpiter pesa os destinos de Aquiles e Heitor.
 
 
Com tais exemplos, e outros que a instrução do leitor me dispensa apontar, e, porque é foro deste ramo da poesia, fiz a imitação indicada acima.
 
 
Agora direi que não é sem acanhamento que publico este livro. Do gênero dele há principalmente duas composições célebres que me serviram de modelo, mas que são verdadeiramente inimitáveis, o Lutrin e o Hissope. Um pouco de ambição me levou, contudo, a meter mãos à obra e perseverar nela. Não foi a de competir com Dinis e Boileau; tão presunçoso não sou eu. Foi a ambição de dar às letras pátrias um primeiro ensaio neste gênero difícil. Primeiro digo, porque os raros escritos que com a mesma designação se conhecem são apenas sátiras de ocasião, sem nenhumas intenções literárias. As deste são exclusivamente literárias.
 
 
Posto que o assunto entenda com pessoas da Igreja, nada há neste livro que de perto ou de longe falte ao respeito devido ao clero e às coisas da religião. Sem dúvida, os personagens que aqui figuram não são dignos de imitação; mas além de que o assunto pedia que eles fossem assim, é sabido que o clero do tempo, salvas as devidas exceções, não podia ser tomado por modelo. São do Padre Manuel da Nóbrega, da Companhia de Jesus, estas palavras textuais: "Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos; porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado... e outras coisas semelhantes por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários aos seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça em detrimento de seu interesse".
 
 
Numa obra deste gênero pode-se e deve-se alterar a realidade dos fatos, quando assim convenha ao plano da composição; mas as feições gerais do tempo e da sociedade, a essas é necessária a fidelidade histórica. Foi o que eu fiz neste livro, convindo dizer que tudo aqui se refere ao clero do lugar e do tempo; nada generalizei, como Boileau, nos dois versos do seu Lutrin:
 
 
La déesse, en entrant, qui voit la nappe mise,
 
Admire un si bel ordre, et reconnait l'Eglise.
 
 
Por causa destes e outros versos, um comentador aplicou ao poeta aquilo que ele mesmo dissera do presidente de Lamoignon, que o convidara a escrever o Lutrin: Comme sa piété était sincère, aussi elle était fort gaie et n'avait rien d'embarrassant.
 
 
Dada esta explicação, necessária para uns, ociosa para outros, deposito o meu livro nas mãos da crítica, pedindo-lhe que francamente me aponte o que merecer correção.
 
 
 
 
 
CANTO PRIMEIRO
 
 
 
I
 
 
Musa, celebra a cólera do Almada
 
Que a fluminense igreja encheu de assombro.
 
E se ao douto Boileau, se ao grave Elpino
 
Os cantos inspiraste, e lhes teceste
 
Com dóceis mãos as imortais capelas,
 
Perdoa se me atrevo de afrontá-la
 
Esta empresa tamanha. Tu me ensina
 
A magna causa e a temerosa guerra
 
Que viu desatinado um povo inteiro,
 
Homens do foro, almotacés, Senado, [1]
 
Oficiais do exército e do fisco,
 
Provinciais, abades e priores,
 
E quantos mais, à uma, defendiam
 
O povo, a Igreja e a régia autoridade.
 
........................................
 
 
II
 
 
E tu, cidade minha, airosa e grata,
 
Que ufana miras o faceiro gesto [2]
 
Nessas águas tranqüilas, namorada
 
De remotos, magníficos destinos,
 
Deixa que o véu dos séculos rompendo
 
A minha voz ressurja a infância tua.
 
Viveremos um dia aquele tempo
 
De original rudez, quando a primeira
 
Cor que se te mudou do muito afago
 
De mãos estranhas e de alheias tintas,
 
A tosca, ingênua fronte te adornava,
 
Não de jóias pesada, mas viçosa
 
De folhagens agrestes. Quão mudada
 
Minha volúvel terra! Que da infância
 
Te poliu a rudez pura e singela?
 
Obra do tempo foi que tudo acaba,
 
Que as cidades transforma como os homens.
 
Agora a flor da juventude o seio,
 
Que as mantilhas despira de outra idade,
 
Graciosa enfeita; cresceras com ela
 
Até que vejas descambar no espaço
 
O último sol, e ao desmaiado lume
 
Alvejarem-te as cãs. Então, sentada
 
Sobre as ruínas últimas da vida,
 
Velha embora, ouvirás nas longas noites
 
A teus pés os soluços amorosos
 
Destas perpétuas águas, sempre moças,
 
Que o tamoio escutou bárbaro e livre...
 
Mas, quão longe o crepúsculo branqueia
 
Desse sol derradeiro! A asa dos séculos
 
Muita vez roçará teu seio amado
 
Sem desbotar-lhe a cor. Inda esses ecos
 
Das montanhas, que invade o passo do homem,
 
Hão de contar aos sucessivos tempos
 
Muito feito de glória. Estrênua, grande,
 
Guanabara serás... Oh! não encubras
 
O gesto de ambição e de vaidade,
 
De travessa, agitada garridice,
 
Tão amável, decerto, mas tão outro
 
Do acolhimento, do roceiro modo
 
Dos teus dias de infância. Justo é ele;
 
Varia com a idade o gosto; és moça,
 
E moça do teu século.
 
 
 
III
 
 
Reinava
 
Afonso VI. Da coroa em nome
 
Governava Alvarenga, incorruptível
 
No serviço do rei, astuto e manso,
 
Alcaide-mor e protetor das armas [3];
 
No mais, amigo deste povo infante,
 
Em cujo seio plácido vivia,
 
Até que uma revolta misteriosa
 
Na cadeia o meteu. O douto Mustre [4]
 
A vara de ouvidor nas mãos sustinha. [5]
 
........................................
 
Do forte e grande Almada que regia
 
A infante igreja. [6]
 
........................................
 
........................................
 
Tal o vate cristão que os heróis mártires
 
Cantou piedoso, passeando um dia
 
Na velha terra grega, alar-se em bando
 
As mesmas aves contemplou, que outrora,
 
Rasgando como então o azul espaço,
 
Iam do Ilisso às ribas africanas. [7]
 
........................................
 
 
 
 
CANTO II
 
 
 
I
 
........................................
 
 
 
II
 
 
Em doce paz agora refazendo
 
Tantas forças há pouco despendidas
 
Na crua guerra contra o vão Senado
 
Que, sobre ser desprimoroso e bronco,
 
Era um grande atrevido, e imaginava
 
Atar-lhe as bentas mãos, vedar-lhe o passo,
 
Se da antiga capela à várzea humilde
 
(Para poupar às reverendas plantas
 
A subida da íngreme ladeira)
 
O mártir Sebastião mudar quisesse, [8]
 
Às sombras se acolheu da casa sua
 
O regedor da fluminense igreja.
 
Não de outra sorte o ríspido pampeiro,
 
Depois que os campos e revoltos mares
 
Desabrido varreu, as asas frouxas
 
De novo enrola, o ímpeto refreia
 
E à morada dos Andes se recolhe.
 
 
 
III
 
 
Então a Gula, que jamais lograra
 
De todo triunfar na infante igreja,
 
A vil Preguiça revoando busca
 
E vai achá-la cochilando à porta
 
De um amável garção, que os bens houvera
 
E o nome dos avós, à custa ganhos
 
De muita cutilada e muita lança
 
Em África metida. Ali com ela
 
Descem Indigestões e Apoplexias,
 
Sua querida e diligente prole;
 
Umas pálidas são, outras vermelhas,
 
E todas ofegantes e cansadas,
 
De esvaziar boticas sem descanso
 
E encher continuamente os cemitérios.
 
Com a pesada planta a Gula toca
 
O peito da Preguiça, que estremece,
 
Abre os olhos a custo, a custo a língua
 
A mastigar começa alguma frase;
 
Quando a Irmã, nestas vozes prorrompendo,
 
A palavra lhe corta: "Será crível
 
Que do nosso poder sempre mofando
 
Só a Ira governe há tanto tempo
 
A fluminense igreja, e que o prelado,
 
Das nossas armas em desdouro eterno,
 
Num perpétuo lidar empregue os dias,
 
Que nem ócios, nem jogos, nem banquetes
 
A raiva lhe moderem? Mana amiga,
 
Dentro em breve prostradas ficaremos.
 
Que o poder usurpando a pouco e pouco
 
Ela só reinará no mundo inteiro".
 
 
 
IV
 
 
Deste jeito falando a voraz Gula,
 
Os brios da Preguiça abala e acorda,
 
E a lembrança lhe traz desconsolada
 
De quantas vezes a terrível Ira
 
As obras malogrou das artes suas.
 
"Vamos (lhe diz) a cercear-lhe o gosto
 
Do triunfo. Propício ensejo é este
 
Mais que nenhum; esse revolto oceano
 
Que dous mundos divide, a acender guerras,
 
A rebelar o coração dos homens
 
A bárbara transpôs". Isto dizendo,
 
Toma nos braços a Preguiça e voa,
 
Com certa frouxidão cortando os ares,
 
E a Guanabara descem. Entre a ermida
 
Que ao nazareno artífice votara
 
A piedade cristã, e esse edifício
 
Que albergue foi de míseros culpados,
 
E onde hoje troa o popular Congresso,
 
A casa do prelado aos olhos surge. [9]
 
Ali descendo a Gula e a Preguiça
 
Invisíveis penetram, e nos braços
 
O fogoso pastor e seus amigos
 
Sem muito esforço ao coração apertam.
 
 
 
V
 
 
Adeus, guerras! Adeus férvidas brigas!
 
Os banquetes agora e as fofas camas,
 
Os sonos regalados e compridos,
 
As merendas, as ceias, os licores
 
De toda a casta, as frutas, as compotas
 
Com intervalos de palestra e jogo,
 
A vida são do jovial prelado.
 
Ele a queda não vê do grande nome,
 
Inda há pouco temido; nem as chufas
 
Lhe dão abalo no abatido peito.
 
Em vão algum adulador sacristã
 
Os ditos da cidade lhe levava,
 
As dentadas anônimas da gente
 
Maliciosa e vadia; o grande Almada
 
Às denúncias do amigo vigilante
 
Os nédios ombros encolhia apenas,
 
Fleumático sorria, e um bocejo
 
E cum arroto respondia a tudo.
 
 
 
VI
 
 
Com ele os dias docemente passam
 
Dez ou doze ilustríssimos amigos,
 
Entre os quais a figura majestosa
 
Campeava do profundo Vilalobos,
 
Que era a flor dos doutores da cidade,
 
Vigário do prelado, e a mais robusta [10]
 
Das colunas da igreja fluminense.
 
O pregador Veloso ali brilhava
 
Pelas risadas com que ouvia as chufas
 
Do ínclito prelado, de quem era
 
Convencido capacho, e que esperava[11]
 
A posição haver de Vilalobos
 
Que a tribo lhe empregou dos seus parentes.
 
Esse era o pregador das grandes festas,
 
De tal quilate e tão profunda vista,
 
Que quando orava em dias de quaresma
 
Analisava os textos, e exprimia
 
A doutrina evangélica de modo
 
Que a não reconhecera o próprio Cristo.
 
 
 
VII
 
 
Segue-se o impávido escrivão Cardoso, [12]
 
Que mede nove palmos de estatura,
 
E tem força no pulso como gente,
 
E inda é mais destemido que forçoso.
 
O Lucas, com quem foi ingrata e avara,
 
Ao dar-lhe entendimento, a natureza,
 
Também ali com eles palestrava.
 
E, sem nada entender, de tudo ria;
 
Mas, sendo sempre igual, a madre nossa
 
Em estômago o cérebro compensa
 
Ao gordo comilão, que não contente
 
De devastar as nobres iguarias
 
Quando na casa do prelado come,
 
Com os olhos devora, inda faminto,
 
A tamina dos pretos da cozinha.
 
Vinha depois o Nunes, o Duarte,
 
E quatro ou cinco mais; porém faltava
 
Meia dúzia de padres venerandos,
 
Em quem poder não teve a Gula nunca,
 
Nem a mole Preguiça, e que enjoados
 
Da vida solta que viviam esses,
 
As sandálias à porta sacudindo,
 
Da aborrecível casa se alongaram
 
Levando n'alma a austeridade antiga
 
E a pureza imortal da santa igreja.
 
 
 
VIII
 
 
Os mais deles em frívola conversa,
 
Os sucessos do dia comentavam.
 
Ali o alcaide-mor e o seu governo,
 
Entre contínuas mofas e risadas,
 
Dos amáveis ferrões picados eram,
 
E bem assim o temerário Mustre
 
Que de si mesmo cheio, presumia
 
Ter o rei na barriga, e na cabeça
 
Toda a ciência humana concentrada.
 
Vinha depois algum picante caso
 
De monacal discórdia, ou de profana
 
Namoração que o Nunes abelhudo,
 
Para o baço espraiar do grande Almada, [13]
 
E fazer jus às boas graças dele,
 
Pelas ruas colhia, e temperava
 
De combinadas pausas e trejeitos.
 
 
 
IX
 
 
Finalmente falavam da aventura
 
Do almotacé Fagundes, que, dançando
 
Na Rua do Alecrim com suma graça,
 
Tão derretido contemplava as moças
 
Que de ventas caiu no pó da sala.
 
Ao vê-lo na ridícula postura,
 
Desataram a rir as cruéis damas,
 
Os gemidos cessaram das rebecas
 
E pôs-se toda a casa em rebuliço;
 
Até que o triste e pálido gamenho,
 
O corpo levantando e mais o ramo
 
De flores que no peito atado havia,
 
Foi na cama chorar o seu desastre.
 
 
 
X
 
 
Iam assim as horas desfiando
 
Os mandriões sagrados quando a nova
 
Da vitória das duas gordas culpas
 
Troa às orelhas da terrível Ira.
 
Sobre um campo voando de batalha
 
Ela os olhos pascia; ela no sangue
 
Satisfeita mirava o duro rosto;
 
Súbito estaca; as ríspidas melenas
 
Impetuosa sacode; e sufocando
 
Um rugido feroz dentro do peito,
 
Rompe, como um tufão, da terra às nuvens,
 
Os ares corta e à bela terra desce
 
Que houve de Santa Cruz a lei e o nome.
 
Enfim assoma ao áspero penedo
 
Que a jovem Niterói, como atalaia,
 
Eternamente guarda. Alguns instantes
 
Dali contempla os tetos da cidade,
 
E, outra vez devolvendo impetuosa
 
As rubras asas, atravessa o golfo,
 
E firma os pés na desejada praia.
 
 
 
XI
 
 
Tudo jazia em paz. Eis que um barbeiro
 
Que de um vizinho escanhoava o rosto,
 
De mil alheios casos discursando,
 
Irrita-se de súbito, e de um golpe
 
Acaba no freguês a barba e a vida.
 
Não distante, no célebre Colégio,
 
Dous enxadristas de primeira plana
 
Uma grave batalha pelejavam
 
Assentados na cerca. O Doutor Lopes,
 
Não sei se com razão, se por descuido,
 
Come um cavalo ou torre ao Padre Inácio.
 
Este reclama; aquele encolhe os ombros;
 
Encaram-se com gesto de desprezo,
 
Passam do gesto à voz, da voz ao pulso,
 
Engalfinham-se, rolam pela terra,
 
Bufam, rasgam-se, mordem-se, desunham-se,
 
E assim mordidos e rasgados ambos
 
No chão sem vida longo tempo jazem.
 
 
 
XII
 
 
E também ela à fresca sombra posta
 
Do copado arvoredo, reclinada
 
Sobre a urna gentil das águas suas,
 
A Carioca estremeceu. Nas veias
 
Sente pular-lhe o sangue. Rubras flores
 
De cajueiro e parasitas que ela,
 
Para toucar-se, co’os mimosos dedos
 
Entretecia, desparzidas todas
 
As lançou na corrente. Qual outrora
 
Quando por essas praias ressoava
 
O som da inúbia, palpitar-lhe sente
 
Mais forte o coração. Súbito irada
 
Os negros fios ásperos sacode
 
Que ao longo da trigueira espádua caem,
 
E veloz arrojando-se nas ondas,
 
Sublevá-las intenta; encher com elas
 
Campos e montes... Infeliz! Cansada,
 
Arquejante e chorosa se recolhe;
 
Não ficou Natureza de seus braços
 
Tamanha empresa; e a linfa que murmura,
 
Como sentida dos maternos males,
 
Lânguida volve as preguiçosas ondas.
 
 
 
XIII
 
 
De tais sucessos desdenhando a Ira
 
À casa se encaminha do prelado.
 
Já não arde o furor nos olhos dela;
 
Pensativos os leva; um meio busca,
 
Um decisivo golpe com que abale
 
A adormecida igreja, quando a tunda
 
Ocorre do tabelião pacato
 
Freire, amador de moças e aventuras.
 
Quem as armas brandiu daquele crime?
 
As mãos dos servos do prelado foram.
 
Este caso em seu íntimo revolve
 
A fera culpa; os olhos fita; pensa...
 
Repentino sorriso os lábios lhe abre;
 
Arreganho disséreis de faminto
 
Jaguaruçu; achado é o grande golpe.
 
As asas bate a Ira e revoando
 
À casa vai do esmorecido Freire.
 
 
 
 
CANTO III
 
 
 
I
 
 
........................................
 
........................................
 
 
 
II
 
 
Que lance há hi nessa comédia humana,
 
Em que não entrem moças? Descorada,
 
Como heroína de romance de hoje,
 
Alva, como as mais alvas deste mundo,
 
Tal, que disseras lhe negara o sangue
 
A madre natureza, Margarida
 
Tinha o suave, delicado aspecto
 
De uma santa de cera, antes que a tinta
 
O matiz beatífico lhe ponha.
 
Era alta e fina, senhoril e bela.
 
Olhos, tinha-os da cor incerta e vaga
 
Que não é puro azul nem alvo puro,
 
Antes combinação de ambas as cores.
 
Mas tão sutil no entanto e tão perfeita
 
Que não há decidir. Garços lhes chamam,
 
E, se não mentem fábulas gentias,
 
Minerva os tinha assim. Nunca mais vivo
 
Transparecera em rosto de donzela
 
Vergonhoso pudor, agreste e rude,
 
Que até de uns simples olhos se ofendia,
 
E chegava a corar, se o pensamento
 
Lhe adivinhava anônimo suspiro
 
Ou remota ambição de amante ousado.
 
Era vê-la, ao domingo, caminhando
 
À missa, co’os parentes e os escravos,
 
A um de fundo, em grave e compassada
 
Procissão; era ver-lhe a compostura,
 
A devoção com que escutava o padre,
 
E no agnus dei levava a mão ao peito,
 
Mão que enchia de fogos e desejos
 
Dez ou doze amadores respeitosos
 
De suas graças, vários na figura,
 
Na posição, na idade e no juízo,
 
E que ali mesmo, à luz dos bentos círios,
 
(Tão de longe vêm já os maus costumes!)
 
Ousavam inda suspirar por ela. [14]
 
 
 
III
 
 
Entre esses figurava o moço Vasco.
 
Vasco, a flor dos vadios da cidade,
 
Namorador dos adros das igrejas,
 
Taful de cavalhadas, consumado
 
Nas hípicas façanhas, era o nome
 
Que mais na baila andava. Moça havia
 
Que por ele trocara (erro de moça!)
 
O seu lugar no céu; e este pecado,
 
Inda que todo interior e mudo,
 
Dous terços lhe custou de penitência
 
Que o confessor lhe impôs. Era sabido
 
Que nas salas da casa do governo,
 
Certa noite, de mágoa desmaiaram
 
Duas damas rivais, porque o magano
 
As cartas confundira do namoro.
 
Estas proezas tais, que o fértil vulgo
 
Com aumentos de casa encarecia,
 
E a bem lançada perna, e o luzidio
 
Dos sapatos, e as sedas e os veludos,
 
E o franco aplauso de uns, e a inveja de outros,
 
O cetro lhe doaram dos peraltas.
 
 
 
IV
 
 
E contudo, era em vão que à ingênua dama
 
A flor do esquivo coração pedia;
 
Inúteis os suspiros lhe brotavam
 
Do íntimo do peito; nem da esperta
 
Mucama, — natural cúmplice amiga
 
Desta sorte de crimes, lhe valiam
 
Os recados de boca; — nem as longas,
 
Maviosas letras em papel bordado,
 
Atadas com a simbólica fitinha
 
Cor de esperança, — e olhares derretidos,
 
Se a topava à janela, — raro evento,
 
Que o pai, varão de bolsa e qualidade,
 
Que repousava das fadigas longas
 
Havidas no mercado de africanos,
 
Era um tipo de sólidas virtudes
 
E muita experiência. Poucas vezes
 
Ia à rua. Nas horas de fastio,
 
A jogar o gamão, ou recostado,
 
Com um vizinho, a tasquinhar nos outros,
 
Sem trabalho maior, passava o tempo.
 
 
 
V
 
 
Ora, em certo domingo, houve luzida
 
Festa de cavalhadas e argolinhas,
 
Com danças ao ar livre e outros folgares,
 
Recreios do bom tempo, infância d´arte,
 
Que o progresso apagou, e nós trocamos
 
Por brincos mais da nossa juventude
 
E melhores decerto; tão ingênuos,
 
Tão simples, não. Vão longe aquelas festas,
 
Usos, costumes são que se perderam,
 
Como se hão de perder os nossos de hoje,
 
Nesse rio caudal que tudo leva
 
Impetuoso ao vasto mar dos séculos.
 
 
 
VI
 
 
Abalada a cidade quase tanto
 
Como nos dias de solene festa
 
Da grande aclamação, de que inda falam [15]
 
Com saudade os muchachos de outro tempo,
 
Varões agora de medida e peso,
 
Todo o povo deixara as casas suas.
 
Grato ensejo era aquele. Resoluto
 
A correr desta vez uma argolinha,
 
O intrépido mancebo empunha a lança
 
Dos combates, na fronte um capacete
 
De longa, verde, flutuante pluma,
 
Escancha-se no dorso de um cavalo
 
E armado vai para a festiva guerra.
 
 
 
VII
 
 
Ia a passo o corcel, como ia a passo
 
Seu pensamento, certo da conquista,
 
Se ela visse o brilhante cavaleiro
 
Que, por amor daqueles belos olhos,
 
Derrotar prometia na estacada
 
Um cento de rivais. Subitamente
 
Vê apontar a ríspida figura
 
Do ríspido negreiro; a esposa o segue
 
E logo atrás a suspirada moça,
 
Que lentamente e plácida caminha
 
Com os olhos no chão. Corpilho a veste
 
De azul veludo; a manga arregaçada
 
Até à doce curva, o braço amostra
 
Delicioso e nu. A indiana seda
 
Que a linha mão da moça arregaçava,
 
Com aquela sagaz indiferença,
 
Que o demo ensina às mais singelas damas,
 
A furto lhe mostrou, breve e apertado
 
No sapatinho fino, o mais gracioso,
 
O mais galante pé que inda há nascido
 
Nestas terras: — tacão alto e forrado
 
De cetim rubro lhe alteava o corpo,
 
E airoso modo lhe imprimia ao passo...
 
 
 
VIII
 
 
Ao brioso corcel encurta as rédeas
 
Vasco, e detém-se. A bela ia caminho
 
E iam com ela seus perdidos olhos,
 
Quando (visão terrível!) a figura
 
Pálida e comovida lhe aparece
 
Do Freire, que, como ele namorado,
 
Contempla a dama, a suspirar por ela.
 
Era um varão distinto o honrado Freire,
 
Tabelião da terra, não metido
 
Nas arengas do bairro. Pouco amante
 
Dessa glória que tantas vezes fulge
 
Quando os mortais merecedores dela
 
Jazem no eterno pó, não se ilustrara
 
Com atos de bravura ou de grandeza,
 
Nem cobiçara as distinções do mando.
 
Confidente supremo dos que à vida
 
Dizem o último adeus, só lhe importava
 
Deitar em amplo in folio as derradeiras
 
Vontades do homem, repartir co’a pena
 
Pingue ou magra fazenda, já cercada
 
De farejantes corvos, — grato emprego
 
A um coração filósofo, e remédio
 
Para matar as ilusões no peito.
 
Certo, ver o usuário, que a riqueza
 
Obteve à custa dos vinténs do próximo,
 
Comprar a eterna paz na eterna vida
 
Com biocos de póstumas virtudes;
 
Em torno dele contemplar ansiados
 
Os que, durante longo-áridos anos,
 
De lisonjas e afagos o cercaram;
 
Depois alegres uns, sombrios outros,
 
Conforme foi silencioso ou grato
 
O abastado defunto, — emprego é esse
 
Pouco adequado a jovens e a poetas.
 
 
 
IX
 
 
Jovem não era nem poeta o Freire;
 
Tinha oito lustros e falava em prosa;
 
Mas que és tu, mocidade? e tu, poesia?
 
Um auto de batismo? quatro versos?
 
Ou brancas asas da sensível pomba
 
Que arrulha em peito humano?
 
Único as perde,
 
Quem o lume do amor nos seios d'alma
 
Apagar-se-lhe sente. A névoa pode
 
Qual turbante mourisco, a cumeada
 
Das montanhas cingir da nossa terra,
 
Que muito, se ao redor viceja ainda
 
Primavera imortal?
 
Um dia, ao vê-la
 
De tantos requestada a esquiva moça,
 
Sente o Freire bater-lhe as adormidas
 
Asas o coração. Que não desdoura,
 
Antes lhe dá realce e lhe desvinca
 
A nobre fronte a um homem da justiça,
 
Como os outros mortais, morrer de amores;
 
E amar e ser amado é, neste mundo,
 
A tarefa melhor da nossa espécie,
 
Tão cheia de outras que não valem nada.
 
 
 
X
 
 
Margarida no entanto ia caminho.
 
E, ou fosse intenção, ou fosse acaso,
 
A linda moça um ramo que trazia
 
De alvas saudades entre os lindo dedos,
 
Deixa-lho aos pés cair. Quem vos pudera
 
Pintar o regozijo, o espanto, a glória
 
Que transluziu de súbito no rosto
 
................ Já trêmulo se curva,
 
A apanhar satisfeito a odiosa prenda...
 
.....................................................
 
Quando rubro de cólera e despeito
 
Pica as esporas, galga de um só lance
 
O pequeno intervalo, e mais depressa
 
Do que cruza um fuzil nos turvos ares,
 
Ou muda de lugar vadia estrela,
 
Co’a pata do ginete o ramo abafa
 
E estas palavras furiosas solta:
 
“Vilão! suspende ou morres!” Amarelo
 
Como lauda de pública escritura
 
Que envelheceu, e trêmulo de medo,
 
O Freire recuou. Desmonta e apanha
 
As pobres flores; respeitoso as beija,
 
E com elas adorna as plumas do elmo.
 
Depois fitando com desprezo o triste
 
Tabelião, lhe brada: "Se inda ousares
 
Os olhos levantar àquela dama,
 
O castigo hás de ter da audácia tua;
 
Não bárbaro, decerto, que não vale
 
Tua pessoa a pena de um delito;
 
Mas ridículo, sim; um tal castigo
 
Que na memória fique da cidade,
 
Que as mães contem às filhas casadeiras,
 
E de eterna irrisão teu nome cubra".
 
Disse, e montando no corcel que estava
 
Impaciente de voar à liça,
 
Dali se foi a largo trote, enquanto
 
Oposto rumo furioso segue
 
O abatido rival.
 
 
 
X
 
 
Ora, uma noite, após conversa longa,
 
Freire encostado ao muro, ela à janela,
 
Naquele doce olvido de si mesmos
 
Em que toda se envolve a alma encantada,
 
Após ardentes e trocados beijos,
 
Trocados... mas de longe, — a bela moça:
 
"Adeus! (murmura) É tarde; vai-te embora.
 
Se papai nos descobre, estou perdida.
 
Foge, meu doce amor; olha, não percas,
 
Por um instante mais, toda a ventura
 
Que nos aguarda em breve. Tanta gente
 
Tem inveja de ti! Não sei, receio;
 
Fala-me o coração..." — Com voz macia,
 
Replica o namorado: "Importa pouco,
 
Ó minha bela Margarida, a inveja
 
De tão frouxos rivais. Se for preciso,
 
Eu, que sou tão pacato, a todos eles
 
Darei uma lição de tanto peso
 
Que inda depois de mortos e enterrados,
 
Lhes doerá nas abatidas costas.
 
Que queres? Minha força és tu; teus olhos
 
Para mim valem mais que cem espadas.
 
Com eles na memória, amada minha,
 
Nada temo na terra; um regimento,
 
Um touro bravo, cem medonhas cobras,
 
Uma horda guerreira de tapuias,
 
Tranqüilo afrontarei, se a tua vida,
 
Se o nosso amor, de os afrontar dependem".
 
 
 
XII
 
 
Assim falou o Freire; e despedidos
 
Um do outro com juras e protestos,
 
Depois de muitas e bonitas cousas,
 
Desapareceu a bela Margarida,
 
Enquanto o resoluto namorado
 
Para os lares inclina a ousada proa.
 
Não cuides tu, taful do tempo de hoje,
 
Que ao toque da alvorada à casa tornas,
 
Cantarolando uma ária que a Lagrange
 
Nos desvãos da memória te há deixado,
 
Que era fácil então, nas horas mortas,
 
Andar desertas ruas. Treva espessa
 
O caminho escondia. Gás nem óleo
 
Os passos alumiava ao caminhante
 
Que não trouxesse a clássica lanterna. [16]
 
E lanterna traria um namorado
 
Que andava às aventuras? Bom piloto
 
Da cidade natal, lá ia o Freire
 
Sem muito tropeçar buscando os lares.
 
Cem quimeras, batendo as asas leves,
 
Lhe revoam na mente. Ele imagina
 
Que o velho pai da moça, perdoando
 
A secreta paixão, lhe entrega a filha
 
E seu genro o nomeia; que a cidade
 
De outro assunto não fala uma semana.
 
Já o casto véu de noiva lhe arrancava
 
Com as sôfregas mãos...
 
 
 
XIII
 
Confusas vozes
 
Ouve subitamente a poucos passos;
 
Dez vultos surgem, vinte braços se erguem,
 
E dez golpes de junco lhe desdouram
 
A descuidada espádua. O pobre Freire,
 
Para ameigar ou convencer os bárbaros,
 
Um discurso começa; mas sentindo
 
A cada frase dez protestos juntos,
 
A tangente procura das canelas,
 
E a correr deita pelas ruas fora.
 
Então, começa a tenebrosa e longa
 
Odisséia de voltas e revoltas,
 
Que em suas vastas regiões etéreas
 
As lúcidas estrelas contemplaram
 
A rir à solta, a rir de tal maneira
 
Que todo o espaço foi sulcado logo
 
De lágrimas brilhantes, — meteoros
 
Lhes chama a veneranda astronomia.
 
Ei-lo que volta rápido as esquinas,
 
Os passos negaceia, aqui descansa,
 
Ali tenta ameaçar os seus algozes,
 
Vinte vezes tropeça e cai por terra,
 
Vinte vezes ligeiro se levanta,
 
Grita, voa, murmura, implora e geme,
 
Té que, ofegante de cansaço e medo,
 
Na lagoa parou da Sentinela.
 
 
 
XIV
 
 
Com os ossos moídos, e vexado
 
Da triste posição em que se vira,
 
O miserável amador na cama
 
Foi lastimar os brios e as costelas;
 
E já nas mãos de um benfazejo sono
 
O espírito entregava, quando a Ira
 
Com asas de cor de fogo, lhe aparece,
 
E deste modo fala: “Que sossego,
 
Que covardia é essa que te embarga
 
A voz para punir tamanha injúria
 
De um rival?... Sim, rival, que em seu desforço,
 
Dez homens apostou? Pois sabe, ó mísero,
 
Que o teu futuro do castigo pende;
 
A sentença que houver punido o infame,
 
Caminho te abrirá para as venturas
 
Íntimas, conjugais. Fortuna é dama
 
Que os corações medrosos aborrece.
 
Despe a modéstia que te peia os braços;
 
Vai ao Mustre falar; expõe-lhe a queixa,
 
E vinga de um só lance o amor e o brio!”
 
 
 
XV
 
 
Disse, o teto rompeu, voou no espaço.
 
Era sonho ou visão? Por largo tempo,
 
Entre um grupo de pálidas estrelas,
 
A figura agitara as rubras asas,
 
Té que se ouviu um singular estrondo
 
Remoto e prolongado. Ninguém soube
 
A causa disto, mas afirma um cabo
 
De ordenanças ter visto alguns minutos
 
Sobre a Gávea chover enxofre e cinzas.
 
 
 
 
CANTO IV
 
 
 
I
 
 
Já sobre os tetos da cidade infante
 
Novembro as asas cálidas abria,
 
Que mil ásperos ventos intumescem
 
E outras tantas famosas trovoadas
 
Clássicas, infalíveis dos bons tempos,
 
Quando o leito buscando o forte Almada
 
A sesta foi dormir como costuma.
 
Cheio ainda dos gabos do Veloso,
 
Que num longo sermão daquele dia,
 
Com arte e jeito o nome seu alçara
 
Muito acima das nítidas estrelas;
 
Estende-se na cama; e a fantasia,
 
Naquele bruxulear em que não vela
 
Nem dorme ainda a humanidade nossa,
 
Começa de pintar-lhe um vasto quadro
 
De grandezas futuras. Vê as águas
 
De Niterói rasgando a nau famosa
 
Que o levaria às águas da Ulisséia,
 
Para o bago empunhar do arcebispado.
 
Nem só isso, que o papa, desejando
 
De tal sujeito coroar os méritos,
 
Cede à insinuação da Companhia,
 
E lhe manda o chapéu cardinalício
 
Com mais duas fivelas de esmeralda.
 
 
 
II
 
 
Já mais dormido que acordado estava,
 
E na região das lúcidas quimeras
 
Todo se lhe engolfava o ânimo ardente,
 
Quando uma voz subitamente o acorda.
 
Era a terrível Ira, que tomando
 
A figura de Vasco, seu sobrinho,
 
Na alcova entrou bradando desta sorte:
 
“Oh que afronta, meu tio! que desonra!
 
Quem tal dissera? O tresloucado Mustre,
 
O ouvidor atreveu-se...” Isto dizendo
 
Numa cadeira cai; salta da cama
 
Aturdido o prelado e lhe pergunta
 
Que afronta, que ousadia, que mistério
 
Anunciar-lhe vem daquele modo.
 
Então a Ira, revolvendo os olhos,
 
Com voz surda lhe diz que o fero Mustre
 
Atrevera-se a abrir uma devassa
 
Entre os servos da Sua Senhoria.
 
 
 
III
 
 
Como a galinha, que travesso infante
 
De alguns queridos pintos despojara,
 
Na defesa da prole irada avança,
 
Tal rugindo de cólera descreve
 
Em quatro passos a comprida alcova
 
O grande Almada. Súbito estacando,
 
A vista crava no vazio espaço.
 
Ali (milagre só da roaz cólera!)
 
Vê a figura do atrevido Mustre;
 
E com olhos, com gestos, com palavras
 
O ameaça de morte e lhe anuncia
 
Que há de eterna vergonha os ossos dele
 
Insepulto levar de idade a idade.
 
“Tão incrível (diz ele), enorme audácia
 
De vir meter as mãos no que pertence
 
À minha eminentíssima pessoa
 
Um castigo há de ter, — exemplo raro,
 
Que servirá de público escarmento,
 
E de algum pasmo aos séculos futuros!”
 
 
 
IV
 
 
Disse; e, tomado de furor estranho,
 
Gesticulando sai; e enquanto a tarde
 
Pela morena espádua o véu devolve
 
Com que baixa a montanha e à várzea desce,
 
Concentrado vagou de sala em sala.
 
 
 
V
 
 
Longa a noite lhe foi; áspero catre
 
Os macios colchões lhe pareciam
 
Ao pastor fluminense, que cem vezes,
 
Que cem vezes fechara os tristes olhos,
 
Sem conseguir dormir a noite inteira.
 
No cérebro agitado lhe traçava
 
A mão da Ira mil diversos planos
 
Contra o fero ouvidor. Ora imagina,
 
Em saco estreito atado na cintura,
 
Mandar deitá-lo aos peixes; longos anos
 
Encerrá-lo em medonho, escuro cárcere;
 
Ou já numa fogueira, concertava
 
Pelas discretas mãos do Santo Ofício,
 
Esmero d'arte e punição de hereges,
 
Como um simples judeu, torrá-lo aos poucos.
 
 
 
VI
 
 
Mas, de baldados sonhos fatigado,
 
O prelado da cama se levanta.
 
Enfia as cuecas, os pantufos calça
 
E manda ali chamar o seu copeiro.
 
Corre Anselmo trazendo respeitoso
 
De alvo grosso mingau ampla tigela
 
Com que o prelado consolar costuma,
 
Antes de se voltar para outro lado,
 
O laborioso estômago, e ao vê-lo
 
De pé, meio vestido e tão esperto,
 
Os olhos espantados arregala
 
E exclama: "Santo Deus! a estas horas!
 
Que milagre, senhor, ou que promessa
 
Fez Vossa Senhoria que o obrigue
 
A tão cedo deixar sua cama?"
 
— "Anselmo, nem milagre, nem promessa
 
(Responde o grande e valoroso Almada).
 
Se eu fiz hoje uma cousa nunca vista,
 
Se eu precedi o sol nesta cidade,
 
Causa única foi um grave assunto
 
Que o sono me tolheu a noite inteira.
 
Ao cozinheiro vai da minha parte,
 
Dize-lhe que um jantar de dez talheres,
 
Sem olhar a despesas me prepare,
 
Que hoje quero brindar por certa causa
 
Alguns amigos meus. Do teu antigo
 
Zelo confio, como sempre, a mesa;
 
Deita os cristais abaixo; na de Holanda
 
Toalha que mais fina houver na casa,
 
Com arte me dispõe, com simetria,
 
A baixela melhor."
 
 
 
VII
 
 
Isto dizendo,
 
A matutina refeição despacha;
 
Murmurando de cólera se veste,
 
E roxo como a renascente aurora,
 
Chama um lacaio e um bilhetinho manda
 
Às colunas da igreja fluminense.
 
Tal o prudente capitão, se as armas,
 
Que até ali defendeu, vexadas foram,
 
A conselho convoca os demais cabos,
 
E do ousado inimigo prontamente
 
Decretam juntos a vergonha e a morte.
 
 
 
VIII
 
 
Quando veio o jantar, sombrio e mudo,
 
Sentou-se o grande Almada e, mastigando,
 
Com distraído gesto, alguns bocados,
 
Nenhuma frase de seus lábios solta.
 
Debalde o Vilalobos, seu vigário,
 
Todo se remexia na cadeira;
 
Debalde o médio Lucas consultava
 
Os seus colegas, desejosos todos
 
De irem dormir a costumada sesta;
 
A misteriosa causa do silêncio
 
Em que o prelado jaz ninguém descobre.
 
Enfim, o grande Almada se levanta,
 
E para a ceia diferindo o caso
 
(Tanto nele inda a cólera rugia!)
 
Sem a bênção e as rezas de costume
 
Tornou da mesa extinta ao fofo leito;
 
Doce exemplo que os outros imitaram,
 
E em desconto de algum perdido tempo,
 
Dormiram muito além de ave-marias.
 
 
 
IX
 
 
Mas o Veloso, adulador e astuto,
 
Não conseguiu dormir. Em vão na cama
 
As posições mudava; o pensamento
 
Velava inteiro e afugentava o sono.
 
Maravilha era essa, e grande, e rara,
 
Pois entre os dorminhocos desse tempo
 
Tinha lugar conspícuo; antes das nove,
 
Sem embargo da sesta, era defunto,
 
E nunca ouvira o despertar do galo.
 
 
 
X
 
 
Quando, ao sinal da ceia, aparelhados
 
Correram todos à pejada mesa,
 
Antes de se sentar, silêncio pede
 
O Veloso e, três vezes a cabeça
 
Curvando, fala: “Se partis conosco
 
Magnânimo prelado, as alegrias,
 
Por que as mágoas furtais aos nossos olhos?
 
Ah! dizei que importuna, estranha causa
 
Melancólico véu no amado rosto
 
Desde o jantar vos pôs! Debalde busco
 
A razão descobrir de tal mudança.
 
Dar-se-á que, por descuido da cozinha,
 
Na sopa entrasse o fumo? Eu, se não erro,
 
Vestígios dele achei, posto que a pressa
 
Com que a sopa comi me disfarçasse
 
De algum modo o sabor. Ou, no trajeto
 
Daqui à Sé, algum clérigo novo
 
Vos faltou co’a devida reverência?
 
Contai, senhor, contai a amigos velhos
 
Males que deles são!”
 
 
 
XI
 
 
A tais palavras,
 
Com o punho cerrado sobre a mesa,
 
O prelado despede um grande golpe
 
Que faz tremer terrinas e garrafas
 
E apaga a cor nos lábios do Veloso.
 
Logo mais sossegado, e perpassando
 
Pela douta assembléia um olhar grave,
 
Encara o pregador; e dando à fala
 
Menos rude expressão, assim responde:
 
“— Não, amigo, a razão da minha cólera
 
Nenhuma dessas foi. A baixa inveja
 
Do presumido Mustre, a quem basbaques
 
Tecem descompassados elogios
 
E cujo nome nas tabernas brilha,
 
Isto só me acendeu dentro do peito
 
Desusado furor. Vós do meu cargo
 
Companheiros fiéis, que com diurna,
 
Noturna mão versais minha alma inteira,
 
Uma parte tomai da funda mágoa
 
E ajudai-me a punir tamanha afronta!”
 
 
 
XII
 
 
Aqui refere o caso da devassa
 
Que aos figadais, solícitos amigos,
 
Lhes arrepia as carnes e o cabelo,
 
E desta sorte acaba o seu discurso:
 
"Eu merecera arder no eterno fogo
 
Que o cão tinhoso aos pecadores guarda,
 
Viver de bacalhau toda a quaresma,
 
Dormir três horas numa noite inteira,
 
Se esse infame ouvidor, parto do inferno,
 
Triunfasse de mim, e ao riso e às chufas
 
Me expusesse da plebe e dos lacaios.
 
Que diriam de mim nesses conventos,
 
Focos de luz, onde o meu nome há muito
 
De tão ilustre ofusca os outros nomes,
 
Qual a um raio se vê do sol brilhante
 
Da noite os claros lumes desmaiarem?
 
Eia! a afronta comum igual esforço
 
De todos nós exige. As vossas luzes
 
Me ajudarão neste difícil caso,
 
E se inda o mundo não perdeu de todo
 
O lume da justiça, aquele biltre,
 
Que tão cheio de si anda na terra,
 
Tamanho tombo levará do cargo
 
Que estalará de espanto e de vergonha.”
 
 
 
XIII
 
 
Assim falou Almada, e toda a mesa
 
Lhe aprovou o discurso. O Vilalobos,
 
Em quem os olhos fita o grão prelado,
 
Algum tempo medita um bom alvitre,
 
E ia já começar a sua arenga
 
Quando o astuto Veloso a vez lhe toma:
 
“Minha idéia, senhor, é que esse infame
 
Nem alma, nem vigor, nem bizarria
 
Houve do céu, e que abater-lhe a proa
 
O mesmo vale que esmagar brincando
 
Uma pulga, um mosquito, uma formiga.
 
Mas porque seja bom tapar a boca
 
Aos vadios da terra, e porque vale,
 
Em certos casos, afetar nas formas
 
Tal ou qual mansidão, que não existe,
 
Cuido que em lhe mandando uma embaixada
 
A exigir-lhe a devassa...”
 
 
 
XIV
 
 
“Nunca! Nunca!
 
(Interrompe o vigário). Uma embaixada!
 
Tratar de igual a igual a um bigorrilhas!
 
E tal cousa, senhor, nascer-lhe pôde
 
No claro entendimento? Todo o lustre,
 
Valor e autoridade a igreja perde
 
Se não falar de cima ao tal pedante,
 
Com desprezo, com asco. Em boa regra,
 
Cortesia demanda cortesia;
 
Mas um vilão que a processar se atreve
 
Os criados da casa do prelado,
 
Em vez de uma embaixada, merecia
 
Nas costas uma dose de cacete.
 
Não, senhor; é meu voto que se mande
 
Uma singela, e seca, e rasa, e nua
 
Citação para a entrega da devassa
 
No prazo de três dias. Desta sorte
 
Não se abate o prelado, nem as nobres
 
Insígnias enlameia do seu cargo,
 
Que eles e nós todos conservar devemos
 
Puras de vil contato”.
 
 
 
XV
 
 
— “Mas a pena?
 
(Triunfante o Veloso lhe pergunta).
 
Uma pena há de haver com que se obrigue
 
A cumprir o mandado? Suponhamos
 
Que entregar a devassa ele recuse,
 
Que recurso nos dais para sairmos
 
Deste apertado lance? Há de o prelado
 
Ver mofar do poder que lhe compete?
 
A derrota assistir da causa sua?
 
Humilhar-se? Eu jamais aprovaria
 
Tão singular idéia. Uma embaixada,
 
Sem da igreja abater os sacros foros,
 
Com jeito e mancha alcançaria tudo,
 
E se nada alcançasse, é tão brilhante
 
A fama do prelado, que bastava
 
A causa remeter para Lisboa,
 
Que em seu favor viria o régio voto.”
 
 
 
XVI
 
 
Acabou de falar. Então a Gula,
 
Que presente ali estava, enquanto a Ira
 
O belicoso espírito lhes sopra
 
Aos duros capitães, lhes vai roendo
 
As famintas entranhas, qual nos contam
 
Do filho de Climene, que primeiro
 
Ao céu roubara o lume, antes que o tempo,
 
Longo volvendo séculos e séculos,
 
Real tornasse a fábula do homens
 
E nos desse o teu gênio, imortal Franklin.
 
 
 
XVII
 
 
E depois que a discreta companhia,
 
Por não perder o precioso tempo,
 
Foi comendo e falando sobre o caso,
 
Fazendo a língua dous ofícios juntos,
 
Esta sentença lavra o grande Almada:
 
“Acho muito cabida e boa a idéia
 
Do pregador Veloso; mas não menos
 
Razoável a idéia me parece
 
Do profundo vigário. Aceito-as ambas
 
E praticá-las vou. Desta maneira
 
Ostento mansidão, e com mais força
 
O golpe lhe darei se me recusa
 
A devassa entregar. Ao mesmo tempo
 
Alterada não vejo a paz gostosa
 
Em que de outras fadigas descansamos.
 
Entretanto convém que armado e pronto
 
Vá logo o embaixador. A vós incumbo
 
(O forte Almada ao Vilalobos disse)
 
Da solene feitura de um mandado
 
Co’o prazo de três dias, e com pena
 
De... excomunhão!”
 
 
 
XVIII
 
 
Aqui um alto grito
 
De espanto, de terror, de entusiasmo
 
Rompe do peito aos veneráveis sócios.
 
Como nas horas da calada noite
 
Uma pêndula bate solitária,
 
Depois outra, mais outra, e muitas outras
 
Monótonas o mesmo som repetem,
 
Assim de boca em boca os reverendos
 
“Excomunhão! excomunhão!” murmuram,
 
Porventura algum deles duvidoso
 
Se aquela vencedora espada antiga
 
Que as heresias combateu da Igreja
 
Empregar-se num caso deveria
 
De tão pequena monta; mas, guardando
 
Essa idéia consigo, que não rende
 
Os risos do prelado nem os fartos
 
Jantares que amiúde lhe oferece,
 
Com todo o gosto a excomunhão aplaude
 
Do insolente juiz.
 
 
 
XIX
 
 
Então o Lucas
 
Que, desde que estreara a lauta mesa,
 
Come com quantos dentes tem na boca,
 
Que uma assada cutia despachara,
 
Quatro pombos, e de uma grande torta
 
Ia já caminhando em mais de meio,
 
A boca levantou do eterno pasto
 
E falou desta sorte: “Bem humilde
 
É meu braço, senhor; mas se a defesa
 
Dos sacros foros meu esforço pede,
 
Contar podeis comigo neste lance,
 
E certo estou que em decisão e zelo
 
Ninguém me há de exceder. Proponho agora
 
Que nesta ocasião grave e solene
 
Juramento façamos de puni-lo
 
Ao ouvidor, e não deixar o campo
 
Sem a honra lavar do nobre Almada”.
 
Isto dizendo, da cadeira a custo
 
A barriga levanta o reverendo;
 
Todos o imitam logo, e sobre a mesa
 
Alçam as mãos e juram de vingar-se
 
Do presumido Mustre; e porque a empresa
 
Novos brios pedia, em pouco tempo,
 
Com raro esforço, toda a mesa varrem.
 
 
 
XX
 
 
Entretanto, afiando à porta o ouvido,
 
Longo tempo escutara o moço Vasco
 
As deliberações do grão conselho,
 
E receoso da tremenda guerra
 
Que dali certamente nasceria,
 
Pondo em risco talvez sua pessoa,
 
Entra pálido e trêmulo na sala.
 
 
 
XXI
 
 
Ao vê-lo demudado, os circunstantes
 
Estremecem de susto. Qual receia
 
Que o Mustre, sabedor do que se passa,
 
A suas Reverências um processo
 
Instaurara de pronto. Qual cogita
 
Que cem homens de tropa os têm cercados
 
E ouve já, na escaldada fantasia
 
Ranger nos gonzos a medonha porta
 
Do cárcere perpétuo. Tu somente,
 
Vilalobos, e tu, Cardoso forte,
 
O coração pacífico tivestes,
 
E a frieza imitastes do prelado.
 
 
 
XXII
 
 
“Ruins novas trazeis, ao que parece,
 
Vasco! (o tio lhe diz); e suspirando
 
O moço lhe responde: “Novas trago
 
E penosas, senhor. Sabei que o monstro,
 
A causa principal do triste opróbrio,
 
O autor de tantos e tamanhos males,
 
Único eu sou. Meu atrevido braço
 
Armou os vossos servos; é seu crime
 
Verdadeiro, e fui eu...” Calara o resto,
 
Algum tanto vexado, mas o tio,
 
Contraindo as grisalhas sobrancelhas
 
Com que faz abalar toda a família,
 
Nestas ásperas vozes logo rompe:
 
“— Que! um crime! Houve um crime! E qual? e quando?
 
E por que causa?” “— A causa era a mais pura:
 
Amor...”
 
 
 
XXIII
 
 
A tais palavras o auditório
 
De boca aberta fica, mal ousando
 
Acreditar em tanto atrevimento
 
E curioso de saber o resto.
 
Mais que todos os outros, o Veloso
 
Interrogar quisera o moço Vasco;
 
Contudo nada diz, que é regra sua
 
Sondar primeiro ao ânimo ao prelado,
 
De quem copia sempre a catadura
 
E é turvo se ele é turvo; alegre, alegre.
 
 
 
XXIV
 
 
“Ora pois! fosse a causa amor ou ódio
 
(O tio diz) importa nada ao caso.
 
Nem por isso uma linha só recuo
 
Do meu procedimento. Desejara,
 
No entanto, a história ouvir do teu delito.
 
Esta grave assembléia certamente
 
Preferira entreter-se de outras cousas
 
Mais chegadas à nossa dignidade
 
E santa condição; mas não importa;
 
Um dia não são dias, e é de jeito
 
Que instruamos de todo este processo”.
 
Isto dizendo, a uma cadeira vaga
 
Que defronte lhe fica, estende o dedo.
 
Vasco obedece. A douta companhia,
 
Que ansiosa esperava aquele instante,
 
As cadeiras arrasta procurando
 
Idônea posição para escutá-lo.
 
Enche os copos Anselmo e se retira.
 
 
 
XXV
 
 
Prontos à escuta, emudeceram todos*
 
E o moço começou: "Mandais-me, ó tio,
 
Que a lembrança renove do namoro
 
Infeliz, e a ridícula aventura
 
Em que fui grande parte. Ora vos conto
 
O misterioso caso da assuada.
 
Que essas estrelas curiosas viram,
 
Certa noite de amores encobertos
 
Em que um rival do amargo seu triunfo
 
A pena teve, e causa foi da afronta
 
Que hoje padece Vossa Senhoria.
 
........................................
 
 
........................................”
 
 
Neste ponto o prelado, desejoso
 
De disfarçar o natural vexame
 
Que a narração mundana lhe fazia,
 
Da profunda algibeira a caixa arranca
 
Do tabaco, abre-a, tosse, esfrega os dedos,
 
E uma grossa pitada apanha e funga.
 
O perspicaz conselho o imita logo;
 
Aventam-se as bocetas; os obséquios
 
Trocam-se mutuamente os convidados;
 
Qual de uma vez na larga venta insere
 
O precioso pó; qual o divide
 
Benévolo entre as duas; e co’os lenços
 
Os reverendos... sacudidas,
 
Deste modo prossegue o moço Vasco:
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
 
 
 
CANTO V
 
 
 
I
 
 
Já nas macias, preguiçosas camas
 
Santamente roncava o grão conclave,
 
Quando, em frente da mesa, carregada
 
De volumes, papel, e tinta e penas,
 
O douto Vilalobos se assentava.
 
Isto vendo, a Preguiça, que o mais dócil
 
Dos seus alunos no vigário tinha,
 
As formas adelgaça, o colo estica,
 
Afila os dedos, o nariz alonga,
 
E as feições copiando do escrevente,
 
Busca o vigário, e do âmago do peito
 
Molemente esta fala arranca e solta:
 
“Senhor, que grande novidade é esta?
 
Pela primeira vez, depois das nove,
 
Esquece-vos colchão e travesseiro,
 
Que essas valentes e cevadas formas
 
Com tanto amor criaram? Que motivo
 
Apartado vos traz da vossa cama?
 
Porventura esse cargo precioso
 
Que tão alto vos pôs nesta cidade
 
Não vos dá jus a regalar o corpo
 
Co’as delícias do sono? Que seria
 
Dos empregos mais altos deste mundo
 
Se não fossem razão de boa vida?
 
E que lucrais, senhor, com essa guerra?
 
A vaidade abater de um insensato,
 
Todo cheio de ventos e fanfúrrias?
 
Mais do que ele valia Mitridates
 
Que Lúculo bateu; mas quem se lembra
 
Do forte vencedor do rei do Ponto,
 
Quando nele contempla o mais conspícuo
 
Dos grandes mandriões da antiguidade,
 
Que mais soube comer que Roma inteira?
 
Deixai lá que se esbofe a inculta plebe
 
No vil trabalho com que compra a ceia;
 
Um homem como vós não se afadiga,
 
Come e ronca, senhor, que o mais é nada.”
 
 
 
II
 
 
“Não, amigo (responde-lhe o vigário
 
Com benévolo gesto, e todo cheio
 
Dos elogios); não, esta campanha
 
Tão mesquinha não é, nem tão mofino
 
O insolente rival. Tolo é, decerto,
 
E presunçoso; acresce-lhe mordê-lo
 
Uma inveja cruel do nosso Almada.
 
Débil não é quem vícios tais reúne.
 
Derrubá-lo é preciso. O grande nome,
 
O poder que me dá este meu cargo,
 
E do prelado a nobre confiança,
 
Exigem que ao trabalho hoje me entregue
 
Algum tempo sequer. Nem tu receies
 
Que eu desperdice as minhas bentas horas
 
De descanso. Uma só que nisto empenhe,
 
Tão fecunda há de ser, tão esticada,
 
Que dará quatro ou cinco em muitas noites,
 
E tudo se repõe no estado antigo.”
 
 
 
III
 
 
Insta a Preguiça; afrouxa, afrouxa quase
 
O vigário; na mente se lhe pinta
 
O alto, fofo colchão de fina pluma,
 
Em que as noites repousa, em que na sesta
 
A sua reverenda inércia espraia.
 
Os olhos com fastio aos livros lança;
 
A descair os membros lhe começam
 
De languidez; mas a cruel idéia
 
De ver perdida a posição brilhante
 
Que na igreja lhe cabe, o brio esperta
 
Ao grão doutor e lhe dissipa o sono.
 
Em vão tenta a Preguiça convidá-lo
 
Com palavras de mel; sacode o corpo,
 
Encolhe os ombros, os ouvidos cerra,
 
E ríspido a despede o reverendo.
 
 
 
IV
 
 
Apenas se achou só na grande sala,
 
Com o lenço o papel sacode e a mesa,
 
E num velho tinteiro mergulhando
 
A branca pena de um comido pato,
 
Lança as primeiras regras. Dez autores
 
Largamente consulta; um trecho saca
 
Dez tomos diversos e massudos
 
Com que as velas enfune ao seco estilo.
 
A cada rasgo da tardia pena,
 
Que a suada expressão goteja a custo,
 
A cabeça levanta o reverendo,
 
Todo o escrito relê com grande pausa,
 
As paredes consulta, e novamente
 
Ao trabalho com ânimo arremete.
 
Enfim, ao cabo de uma hora longa.
 
A tarefa acabou. Contente salta
 
Da cadeira, repete a torva prosa,
 
E vaidoso de si, como dos versos
 
Que primeiro compôs infantil vate,
 
As mãos esfrega, os olhos arregala,
 
Pela sala passeia, e de memória
 
Algum trecho repete, alguma frase
 
Que mais arrebicada lhe saíra.
 
O espanto do ouvidor, o entusiasmo
 
Do prelado, os pomposos elogios
 
Da cidade, na mente lhe descreve
 
Com destra mão e delicadas tintas
 
A fantasia... Mas aqui começam
 
De lhe pesar as pálpebras; a custo,
 
Trôpego e bocejando, deixa a sala,
 
Entra na alcova, a trancos se despede
 
Das roupas, e na cama continua
 
O delicioso sonho interrompido.
 
 
 
V
 
 
Lepidamente abrindo o alvo regaço,
 
E o chão juncando de purpúreas flores,
 
Do pastor fluminense à casa torna
 
A travessa alegria, e ao seu aspecto,
 
Pálida mágoa, lutuosa foges.
 
Sobre os moles colchões inda estendido,
 
O lôbrego papel ouve o prelado,
 
Que o douto Vilalobos lhe recita,
 
E com exclamações e com palmadas,
 
Lhe aplaude a erudição e o duro estilo,
 
E a infalível vitória lhe agradece.
 
 
 
VI
 
 
Um a um, vêm chegando os reverendos,
 
E a todos, um por um, de cabo a cabo,
 
A intimação lhes lê, que eles escutam,
 
Com muitos e rasgados elogios,
 
Maiormente os da boca do Veloso,
 
Que mal sofre ao rival este triunfo.
 
Mas como o fruto que seduz no rosto
 
E o verme esconde no corrupto seio,
 
Assim o pregador das grandes festas
 
Alegrar-se parece, enquanto a inveja
 
O punge, e mil idéias lhe insinua
 
De adular o prelado, e ao Vilalobos
 
Arrebatar os louros, que lhe impedem,
 
— O sono não, — mas o sossego d’alma.
 
 
 
VII
 
 
Ao ver-se tão cercado de zumbaias,
 
Em si mesmo não cabe de contente
 
O profundo doutor, em cujos lábios
 
A vaidade sorri, velada a meio
 
Dessas vãs cortesias de aparato,
 
E desse “Não, senhor! Oh! não! Oh! nunca!
 
Nunca esta prosa minha ambicionara
 
A tão alto subir como pretende
 
A bondade de Vossa Senhoria.
 
É um trabalhozinho feito à pressa
 
Só por obedecer às ordens suas”.
 
E outras tais mogigangas de modéstia,
 
De humildade, que são naqueles transes
 
Usual expressão.
 
 
 
VIII
 
 
Mas tu, Cardoso,
 
Êmulo foste do feliz vigário,
 
Quando para intimar o austero Mustre
 
Te ofereceste ousado. Havia fama,
 
Temerário escrivão, que a natureza
 
Para servo do altar te não fizera,
 
Que nasceras com balda de meirinho
 
Ou capitão-do-mato. —“Eu mesmo quero [17]
 
(Diz o forte escrivão) dar-lhe este golpe,
 
E certo estou de que a fatal devassa
 
Das mãos virá do arrependido Mustre
 
A vossos pés cair”. Cheio de gosto,
 
Almada esta façanha lhe elogia,
 
E copiada a intimação famosa,
 
Rubricada e selada, prontamente
 
A recebe o Cardoso. Dous abraços
 
O prelado lhe dá, e mais a bênção
 
Que o livrará das tentações do diabo.
 
Dá-lhe inda mais. De uma gaveta saca
 
Um tremendo chapéu pomposo e feio,
 
Que lhe mandara um monge italiano,
 
E que ele a sete chaves escondia.
 
“Tomai (lhe diz) este chapéu, que há anos
 
De alheias vistas guardo; ele só vale
 
Mais que vinte orações; tomai-o, é vosso".
 
 
 
IX
 
 
Era um chapéu de três enormes bicos.
 
Respeitoso o escrivão lhe imprime um beijo
 
E na cabeça o põe, e assim de casa
 
Para intimar o Mustre se encaminha.
 
Vaidoso e cheio da missão que leva,
 
As ruas atravessa da cidade,
 
O pavor antevendo e os calafrios
 
Do mesquinho ouvidor, quando o mandado
 
De seus lábios ouvir, e na cabeça
 
Sentir descarregar o grande golpe.
 
A notícia entretanto ia correndo
 
Pela cidade toda, e a cada passo
 
Nas esquinas, nas lojas se detinha
 
A gente curiosa e os olhos punha
 
No famoso escrivão; mas, sobranceiro,
 
Impávido calcando a dura terra,
 
Sem fazer caso do miúdo povo,
 
No caminho prossegue. Já chegava
 
Aos edifícios últimos, e a planta
 
O despovoado chão pisava afoito,
 
Quando em frente lhe surge, lacrimosa,
 
Brígida, mocetona de mão cheia,
 
Caseira sem rival, mescla robusta
 
De áfrico sangue e sangue d’alva Europa.
 
 
 
X
 
 
Nos braços dela uma gentil criança
 
Dorme placidamente. Então sorrindo,
 
Ao ver o belo infante, e o brando sono
 
Que essa alma em flor, não machucada ainda
 
De ásperas mãos humanas, sobre as asas
 
À doce região dos anjos leva,
 
Pára o Cardoso. Brígida chegando
 
Da mão lhe trava, os olhos ergue a medo,
 
E estas palavras trêmula suspira:
 
“Revendo senhor, coragem tanta,
 
Cega destimidez, prendas tão raras
 
(Perdoai da caseira o atrevimento)
 
Fatais vos hão de ser. De boca em boca,
 
Corre que ides citar a toda a pressa
 
O bárbaro ouvidor. Ai, mais que nunca
 
A idéia de perder-vos me acobarda.
 
Que será desta mísera criança,
 
Se o padrinho lhe falta, e sem conforto, [18]
 
Nem amparo, nem mão experiente
 
Houver de caminhar do berço à campa?
 
Convosco irão, senhor, os dias dela,
 
E os meus dias também, tão bafejados
 
Daquelas auras que a fortuna sopra
 
Por que seja maior nossa desdita.
 
Quem mais irei servir? Que mesa estranha
 
Me verá preparar toalha e copos,
 
Se esse monstro infernal, que a liberdade
 
E a vida guarda em suas mãos de ferro,
 
Ousar tirar-vos ambas? Não me resta
 
Pai nem mãe; tive irmãos; soldados foram,
 
Morreram todos na holandesa guerra.
 
Todos acho eu em vós; vós, meu amparo
 
Té hoje heis sido. Oh! por quem sois, vos peço,
 
Não me deixeis, senhor, sozinha e triste
 
Semear de amargas lágrimas a terra,
 
A dura terra em que pousar meu corpo,
 
Deslembrada, talvez escarnecida.
 
É tempo ainda; arremessai ao longe
 
O mandado fatal; à casa vinde,
 
Escondei-vos dos olhos do prelado,
 
Que em paz ficando vos comete o risco,
 
E duas vidas salvareis de um lance”.
 
 
 
XI
 
 
“Ó Brígida (o Cardoso lhe responde)
 
Justos receios são do teu afeto.
 
Mas se eu agora depusesse as armas,
 
Que seria da honra desta igreja?
 
Onde iria parar o nosso Almada?
 
Eu conheço o rancor do feroz Mustre,
 
Eu sei que o braço da justiça pode
 
Mil afrontas fazer aos nossos cargos,
 
E a cada passo encher-nos de vergonha.
 
Mas quão pior seria a raiva sua
 
Se levasse a melhor neste conflito,
 
Se castigando esta mortal injúria,
 
Não lográssemos nós ao mesmo tempo
 
Aterrá-lo, humilhá-lo, escangalhá-lo.
 
Vê que terríveis males, que desastres
 
Sobre nós cairão, se inda a vitória
 
Couber ao ímpio. O temerário braço
 
Quem poderá deter-lho? Quem, se um dia
 
Ousar da minha casa arrebatar-te,
 
O golpe desviará do seu capricho?
 
Servi-lo irás então, mísera escrava!
 
Ao sol ardente cavarás a terra,
 
Sem gozar um minuto de descanso;
 
E se acaso na estrada, junto à cerca,
 
Um clérigo passar dos que me mordem,
 
Ao ver-te exclamará: “Lá serve ao Mustre
 
A famosa caseira do Cardoso!”
 
Triste suspiro de saudade e pena
 
Me mandarás em vão... Oh! antes, antes
 
(Se tal desgraça me prepara a sorte)
 
Num cárcere fechado à luz do dia
 
Viver perpetuamente, condenado
 
A perpétuo jejum de pão e água!”
 
 
 
XII
 
 
Disse, e do tenro infante os lindos braços
 
Docemente puxou. Logo desperta
 
Do sono a criancinha, os olhos volve
 
Ao heróico escrivão; porém, ao ver-lhe
 
O gigante chapéu de três pancadas,
 
Grita, recua e no roliço colo
 
Da mãe esconde o apavorado rosto.
 
Leve sorriso então assoma aos lábios
 
Da tenra mãe, do intrépido padrinho.
 
Descobre-se o Cardoso, e pondo em terra
 
O tremendo chapéu, toma nos braços
 
A criancinha, um ósculo lhe imprime,
 
E aos céus envia estas ardentes vozes:
 
“Céus que me ouvis, fazei que ilustre e grande
 
Este menino seja; igual audácia,
 
Igual força lhe dai, com que ele assombre
 
A raça toda de ouvidores novos.
 
Que diga o mundo ao vê-lo: “Ali renasce
 
Do valente padrinho o brio e o sangue!
 
E à doce mãe console esta homenagem”.
 
 
 
XIII
 
 
Cala, e nos nédios braços da caseira
 
A criança depôs; do chão levanta
 
O chapéu; na cabeça o põe de chofre.
 
“Vai da casa cuidar (lhe diz), eu parto;
 
Corro a citar o bárbaro inimigo.
 
Vencê-lo cumpre ou perecer com honra”.
 
Brígida comovida se despede
 
Do impávido Cardoso, e lentamente
 
Para casa dirige os passos trêmulos,
 
Não sem voltar de quando em quando o rosto,
 
Que o medo enfia e que umedecem lágrimas.
 
 
 
 
CANTO VI
 
 
 
I
 
 
Naquele tempo, a mão da arte engenhosa
 
Os elegantes bairros não abrira,
 
Refúgio da abastança deste século,
 
E passeio obrigado dos peraltas.
 
Por essas praias ermas e saudosas
 
Inda guardava o eco o som terrível
 
Do falcão, do arcabuz que a vez primeira
 
Despertou Guanabara, e o silvo agudo
 
Da frecha do Tamoio. Ainda o eco
 
As rudes cantilenas repetia
 
Do trovador selvagem de outro tempo,
 
Que viu perdida a pátria, e viu com ela
 
Perdida a longa história de seus feitos
 
E os ritos de Tupã, perdida a raça
 
Que as férteis margens... Musa, onde me levas?
 
Filosofias vãs, quimeras, sonhos,
 
Flores, — apenas flores, — que não valem
 
Tantos gozos reais dos nossos dias,
 
Em paz os deixa, e do ouvidor famoso
 
À rústica morada me encaminha.
 
 
 
II
 
 
Não longe do tumulto da cidade,
 
Entre a verdura de copado bosque,
 
Tinha o Mustre uma casa de recreio.
 
Ali nos dias da estação calmosa,
 
Depois que à porta sacudia o tédio,
 
Tranqüilo descansava algumas horas
 
Da inércia do regaço. Ali gozando
 
Por olhos, boca, ouvidos e narizes,
 
Da fértil natureza os dons mais belos,
 
Correr deixava o mundo, sem que a fronte
 
O mínimo receio lha ensombrasse.
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
 
 
III
 
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
........................................
 
O terrível Cardoso. Traz fechado
 
Na esquerda mão o singular decreto;
 
Com um gesto solene o desenrola,
 
Tosse, escarra, compõe a voz e o rosto,
 
E o venerando anátema lhe lança.
 
 
 
IV
 
 
Do longo espanto o fulminado Mustre
 
Enfim voltou; os olhos pela estrada
 
Desvairados estende; à casa torna
 
Apressado; braceja, grita, ordena
 
Que o padre chamem; quatro escravos correm
 
E voltam sem mais novas do Cardoso
 
Que veloz se tornara ao grande Almada
 
Da triunfante missão a dar-lhe conta.
 
 
 
V
 
 
Já trêmulo de raiva, já de susto,
 
O magistrado fica; ora, calado
 
Algum tempo rumina; ora, soltando
 
Descompassadas vozes e suspiros,
 
Atônito percorre a casa inteira.
 
Vagamente cogita uma vingança
 
Contra o duro rival; mas logo a triste
 
Realidade o coração lhe afrouxa.
 
A fantasia pinta-lhe o desprezo
 
Dos devotos sinceros, a medonha,
 
A dura solidão da vida sua,
 
O fugir dos amigos, os estranhos
 
Que por trás uma cruz fazendo nele,
 
Mais sozinho na terra vão deixá-lo
 
Do que em praia deserta ingrato dono
 
Deixa um triste cavalo moribundo.
 
Ora pensa em fugir; ora em prostrar-se
 
Do sagrado pastor aos pés, rendido...
 
Enleia-se, vacila, nada escolhe,
 
E nesta triste, miserável vida,
 
Entre sonhos, visões, medos e angústias,
 
Passa o duro ouvidor três horas longas.
 
 
 
VI
 
 
Enfim ceder a Almada determina,
 
A devassa entregar-lhe, assentar pazes,
 
Comprar com pouco a salvação eterna,
 
Uma esperança ao menos. Manda logo
 
À casa do escrivão que ali lhe traga
 
A famosa devassa, que enviada
 
De véspera lhe fora, e todo aflito
 
De sala em sala passeando espera.
 
 
 
VII
 
 
Mas a terrível Ira que perdia
 
Deste modo a campanha começada,
 
Pois no seio da paz de novo entrando,
 
Todo seria da Preguiça e Gula
 
O grão pastor da igreja fluminense,
 
Entra na pele do escrivão Ramalho
 
E à casa vai do esmorecido Mustre.
 
Este, apenas lobriga da janela
 
O fiel serventuário, e nenhum rolo
 
Lhe descobre nas mãos, trêmulo fica
 
E outra vez assustado ao portão desce;
 
A tempo que o Ramalho, mais risonho
 
Que um céu azul, que um dia de noivado,
 
Apressado chegava e lhe dizia:
 
— “Senhor, matai-me embora! Não vos trago
 
A devassa pedida, que acho injúria
 
Ao finíssimo sangue que vos corre
 
Nessas honradas veias, ao respeito
 
Em que há muito vos tem el-rei e a corte,
 
Abaixar-vos aos pés de um vão prelado,
 
E rojar-vos no pó da sacristia”.
 
 
 
VIII
 
 
Disse, e nas amplas ventas inserindo
 
Do recente rapé duas pitadas,
 
Foi por este teor desenrolando
 
Mil razões, mil inchados argumentos,
 
Com que em todas as eras deste mundo
 
Um naire ilustre convencer se deixa.
 
 
 
IX
 
 
“Eu bem sei (convencido lhe responde
 
O ouvidor), eu bem sei que fora triste
 
Que um preclaro varão da minha estofa,
 
Cujo nome não ouve o delinqüente
 
Sem desmaiar de susto, e que este povo
 
Respeitoso contempla, na baixeza
 
Caísse de ir ao pés de um vão prelado
 
E rojar-se no pó da sacristia.
 
Mas, meu caro Ramalho, que recurso
 
Nesta vida me resta? Tu não sabes
 
Que de mim vai fugir a gente toda?
 
Que eu vou ser o leproso da cidade?
 
Que meirinhos, beatas, algibebes,
 
E quem sabe se até os cães vadios,
 
Que à sumida barriga andam de noite
 
Pelas ruas catando algum sustento,
 
Tudo vai desprezar-me? Bom aviso
 
Quando falha a vitória na batalha,
 
É ceder às falanges do inimigo,
 
E preparar uma futura guerra”.
 
 
 
X
 
 
O mofino ouvidor assim falando,
 
Com apuro a vestir-se principia,
 
Uma arenga compondo de cabeça
 
Em que do seu pecado arrependido
 
Claramente se mostre, quando a Ira
 
Ao Ramalho sugere este conselho:
 
“Salvo, salvo senhor! é salvo tudo!
 
Conhecido vos é como o Senado,
 
Em luta com o pastor da nossa igreja,
 
Dele tem recebido tanta injúria,
 
E em risco está de semelhante pena.
 
Procurai-o, senhor, e com protesto,
 
Em nome da coroa e da justiça,
 
O negócio deponde. Deste modo
 
A muitos caberá toda essa afronta
 
E mais certa será nossa vitória”.
 
 
 
XI
 
 
Aceita foi a salvadora idéia.
 
Saem ambos os dous no mesmo instante,
 
Voam, chegam à casa do Senado,
 
E na sala penetram. Conversavam
 
Justamente do caso os camaristas.
 
E, na pele mordendo do prelado,
 
Receavam talvez igual destino
 
Ao do fero ouvidor, se no conflito,
 
Que há muito trazem com o grande Almada,
 
O jus do povo defender quiserem;
 
Quando na sala entrando furioso
 
A sua excomunhão refere o Mustre,
 
E lhes pede em defesa da coroa
 
O braço popular. Todo o congresso
 
Gelado fica. Súbito as cadeiras
 
Pela terra deitando, às portas correm
 
Os graves camaristas, e fugindo
 
Ao mísero ouvidor excomungado,
 
Para casa se lançam. Da pedreira,
 
Lançado o fogo à mina, a toda a pressa
 
Da mesma sorte os cavouqueiros fogem
 
Receosos de avulsos estilhaços.
 
 
 
XII
 
 
Em vão a Ira, com diversas formas,
 
A todos busca, e amaciando a fala,
 
A lembrança do afeto lhes desperta,
 
Os jantares comidos noutro tempo,
 
Os festivos saraus, cartas de empenho,
 
Mil finezas, em suma, sepultadas
 
No vasto cemitério da memória...
 
A filha do diabo então sacode
 
Irritada a cabeça, e do mais fundo
 
Das entranhas um grito de ameaça
 
E frio escárnio solta: “Homens! (exclama)
 
Lacaios da fortuna! Eu terei armas
 
Com que de ingratos corações triunfe!”
 
 
 
XIII
 
 
Isto dizendo, mais ligeira voa
 
Que o soberbo condor, quando do cimo
 
Dos Andes rompe o assustado espaço,
 
E vai surgir além das altas nuvens.
 
Voa, e chega aos domínios da Lisonja.
 
Os flóridos umbrais transpõe de um salto.
 
Logo em frente lhe surge extensa e bela
 
Uma alameda de árvores copadas,
 
Que, para a terra os galhos recurvando,
 
Com singular donaire e afável gesto
 
Cortejá-la parecem respeitosas.
 
Caminha, e fina relva os pés lhe afaga;
 
Respira, e um doce aroma o peito lhe enche.
 
A tão brando contato, a tais delícias,
 
Ó milagre! um sorriso prazenteiro
 
Logo vem desbrochar-lhe à flor dos lábios
 
Que eterna raiva aperta. Segue avante,
 
A branca e longa escadaria sobe,
 
A varanda atravessa alcatifada
 
De brancas flores e cheirosa murta.
 
Já rendida de gosto, entra na sala,
 
Dá dous passos, e a recebê-la chegam
 
Vinte ou trinta Zumbaias, que vergando
 
Pela cintura o corpo delicado,
 
Beijar o chão parecem; após delas,
 
Com dourados turíbulos acesos,
 
Vêm quatro Rapapés; fechando tudo
 
Extensa procissão de Cortesias.
 
 
 
XIV
 
 
De tais recebimentos namorada,
 
O primeiro salão transpõe a culpa,
 
Entra no camarim, forrado todo
 
De flores, de arabescos, laçarias,
 
Que enche contínuo, tépido perfume
 
De seis grandes caçoulas de alabastro.
 
Entra, e defronte de um pomposo espelho
 
A Lisonja descobre, que risonha
 
Mil cumprimentos novos ensaiava
 
E mil versos rasteiros repetia.
 
Ao ver a feroz culpa a dona amável
 
Uma grande mesura em quatro tempos
 
Graciosa faz, e diz: “A que milagre
 
Devo eu esta visita? Acaso o orbe,
 
Que ao peso treme de tuas nobres armas,
 
Estreito campo é já para teus feitos?
 
Vens o peito acender da serva tua?
 
Bem cruel me há de ser esse desastre,
 
Mas se é teu gosto, sofrerei contente,
 
A terra beijarei que tu pisares
 
E acharei na desgraça a glória minha”.
 
A ardilosa Lisonja assim falando
 
Toda se curva, e a orla do vestido
 
Da culpa chega aos lábios; mas a Ira
 
Prontamente a levanta, e nos seus braços,
 
Com meneios benévolos, a aperta,
 
E logo fala: “A tua paz respeito:
 
Turvar não venho a deliciosa corte
 
Donde o mundo governas; mas auxílio
 
Do teu engenho quero”. Aqui lhe conta
 
A famosa aventura do prelado,
 
A angústia do ouvidor, e a covardia
 
Dos ingratos amigos de outro tempo,
 
E pede que a Lisonja as armas suas
 
Contra estes empregue. “Que mesquinho
 
Serviço exiges! (a Lisonja exclama);
 
Eu podia mandar quatro Zumbaias;
 
Tanto bastava por vencer o ânimo
 
Dos rebeldes; mas sendo a vez primeira
 
Que vens honrar estes quietos paços,
 
Abater-lhes o colo irei eu mesma
 
E levá-los de rojo aos pés do Mustre”.
 
 
 
XV
 
 
Com diligente mão os filtros busca,
 
E seguida da hóspede no espaço
 
Voa ligeira à plaga fluminense.
 
À casa dos rebeldes se encaminha,
 
E a todos, um por um, pela alma dentro,
 
O seu doce veneno lhes entorna.
 
De baixa adulação logo tomados,
 
Vestem-se a toda a pressa, e não podendo
 
Conter o intenso fogo que os devora,
 
Aos criados de casa e às quitandeiras
 
Vão fazendo profundas barretadas.
 
Tanto a Lisonja vã governa os homens!
 
 
 
XVI
 
 
Abre a sessão de novo o presidente,
 
E deste modo fala: “Grave caso
 
Este é, senhores; mas as vossas luzes
 
Tudo podem vencer. Em meu conceito
 
Recusar não podemos o protesto,
 
E muito embora formidável seja
 
O prelado, não creio que devamos
 
Sem amparo deixar as leis do Estado.
 
Nem poupar desta vez um grande golpe
 
No atrevido pastor”. Com todo o zelo
 
Examinado o singular assunto,
 
O Senado resolve em pouco tempo
 
Que ao regedor supremo da cidade
 
Os papéis se remetam com protesto
 
Do povo, e petição em nome dele
 
Por que anulada seja sem demora
 
A excomunhão, e feito este decreto
 
Voam dali aos paços do Alvarenga.
 
 
 
XVII
 
 
O alcaide-mor, que os meios estudava
 
De praticar no esmorecido povo,
 
Com a aguda lanceta do Senado,
 
Uma sangria nova, cortesmente
 
Os faz sentar e prazenteiro os ouve,
 
E depois de os ouvir com grande pausa,
 
A petição da Câmara recebe
 
Sem muita hesitação; mas porque seja
 
O caso novo, e caminhar convenha
 
Sem da igreja ferir os santos foros,
 
Manda o governador que se convidem
 
Os diversos teólogos da terra,
 
O reitor do Colégio, o Dom Abade,
 
O guardião dos filhos de Francisco,
 
Frei Basílio, prior dos Carmelitas,
 
E alguns licenciados de mão cheia,
 
Que o nó desfaçam deste ponto escuro.
 
 
 
 
CANTO VII
 
 
 
I
 
 
A Preguiça, no entanto, conduzira
 
Aos macios colchões o grande Almada,
 
E um sono amigo lhe fechara os olhos,
 
Enquanto os ilustríssimos amigos,
 
Todos em volta do escrivão Cardoso,
 
Pela décima vez, na sala próxima,
 
Da excomunhão a narrativa escutam,
 
E com ditos de mofa, e com risadas,
 
A vitória celebram, na esperança
 
De que o prelado os ouça e lhes aceite
 
Agradecido esta homenagem nova.
 
 
 
II
 
 
Eis que um sonho, agitando as asas brancas
 
Leve espalha no cérebro do Almada [19]
 
Como gotas de chuva rara e fina,
 
Um só sutil de mágicas patranhas.
 
Sonha... Em que há de sonhar o grão prelado?
 
Vê no espaço um ginete alto e possante
 
À solta galopando, e logo nele,
 
Elmo de ouro, armadura de aço fino,
 
A briosa figura de um guerreiro.
 
Tenta irritado o indômito cavalo
 
O cavaleiro sacudir na terra,
 
Mastiga o freio, empina-se, escoiceia,
 
Voa de norte a sul, de leste a oeste,
 
Ora, a pata veloz roça nos mares,
 
Ora, igual ao tufão, descose as nuvens,
 
Mas o galhardo cavaleiro as rédeas
 
Co’as fortes mãos encurta, e pouco a pouco
 
O ríspido quadrúpede sossega
 
E pára no ar. No rosto do guerreiro
 
Vê as próprias feições o grande Almada,
 
Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,
 
Tudo é dele. Ó prodígio! Voz solene
 
Do ponto mais recôndito do espaço,
 
Onde estrela não há, não há planeta,
 
Estas palavras singulares solta:
 
“O bravo cavaleiro és tu, prelado,
 
E o domado corcel é o teu rebanho,
 
Que embalde morde o freio e se rebela
 
Contra ti que hás vencido el-rei e o povo,
 
Tornando em cinzas o atrevido Mustre.”
 
 
 
III
 
 
Deste agradável sonho consolado,
 
Abre o pastor os olhos, vira o corpo,
 
E outra vez adormece. Novo quadro
 
E diverso lhe pinta a fantasia.
 
Vê-se diante de provida mesa,
 
À direita do papa, e come e bebe
 
De cem bispos servido. Entusiasmado
 
Com as finezas de Alexandre Sétimo,
 
O prelado um discurso principia
 
Depois de haver tossido quatro vezes.
 
Os olhos fita num painel que estava
 
Na fronteira parede; a mão do artista
 
O belo e forte arcanjo debuxara
 
Que a Satanás venceu; às plantas suas
 
Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas
 
No magnífico exórdio do discurso
 
O valoroso Almada, quando a tela
 
A tremer começou; subitamente
 
O brilhante Miguel desaparece,
 
E o diabo que ali prostrado fora
 
Toma a figura do execrando Mustre,
 
Levanta-se do chão; e com desprezo,
 
E com gesto de escárnio e de ameaça,
 
Os turvos olhos no prelado fita
 
E a devassa fatal nas mãos sustenta.
 
Pasmam do caso os circunstantes todos,
 
Enquanto o forte Almada tropeçando
 
Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,
 
Foge aterrado, uma janela busca,
 
Dela, sem ver a altura, se despenha,
 
E de abismo em abismo vai rolando
 
Até cair da própria cama abaixo.
 
 
 
IV
 
 
Ao som da triste queda acorrem todos.
 
O mísero pastor, aos pés do leito,
 
Vagos olhos estende aos seus amigos,
 
Como se inda na mente abraseada
 
As asas agitara o negro sonho.
 
A erguê-lo corre o pregador Veloso;
 
Traz-lhe o douto vigário um copo d'água;
 
Um as janelas abre, outro da cama
 
Os lençóis revolvidos lhe concerta,
 
Até que Almada, a fala recobrando,
 
Do sonho as peripécias e o desfecho,
 
Entre assustado e galhofeiro conta.
 
 
 
V
 
 
Ai, prelado infeliz! Verdade amarga,
 
Verdade, que não sonho passageiro,
 
Esbaforido o Lucas te anuncia.
 
Terrível golpe foi! Largos minutos
 
Atônito e caído sobre o leito
 
O prelado ficou, como se vira,
 
Por efeito de imenso terremoto,
 
A seus olhos cair toda a cidade.
 
Não era sonho então! Vencia a causa
 
O pérfido inimigo! Vai com ele
 
O imprudente Senado, e sem vergonha
 
Nem receio o governo ambos protege!
 
Tais idéias no cérebro do Almada
 
Confusamente rolam. Vinte vezes
 
Quer falar, vinte vezes abre a boca
 
Donde não saem mais que vãos suspiros
 
 
 
VI
 
 
Porém a Ira, a quem blasfêmias prazem,
 
A tempo chega e lhe desata a língua.
 
Qual da feia carranca de um céu negro,
 
De águas, coriscos, furacões pejado,
 
Se vê subitamente sobre a terra
 
Grossa chuva cair, e em pouco tempo
 
Encher amplas campinas, praças, ruas,
 
Tal da boca com ímpetos lhe saem
 
Injúrias, gritos, ameaças, mortes,
 
Em borbotões de coração subindo;
 
E as atentas orelhas alagando:
 
“Guerra declaro à gente do Senado!
 
Guerra ao governador! a todos guerra!
 
E se o céu não tem raios que os fulminem,
 
Nem abismos a terra que os engulam,
 
Eu cavo abismos, eu tempero raios,
 
E essa baixa ralé da espécie humana
 
Verá que, inda vencido, eu sou Almada!”
 
 
 
VII
 
 
Disse, e enfiando as mangas da batina
 
Que o cortesão Veloso lhe entregava,
 
Precipitadamente deixa a alcova,
 
E durante uma hora ou pouco menos
 
Meditou na desforra. Onça bravia
 
Numa jaula fechada não se move,
 
Não fareja com mais impaciência,
 
Mais aflita não busca uma saída,
 
Do que o grande prelado pela sala
 
Cogitando vagava. “Certamente
 
(Desta sorte o pastor consigo pensa)
 
O Senado, o Governo e o tolo Mustre
 
De mãos dadas estão; talvez o caso
 
Maquinado já fosse há muitos dias
 
Para me derrubar? Mas que outro golpe
 
Devo agora empregar naqueles biltres
 
A não ser enforcá-los? Que remédio,
 
Se a triunfar de mim eles alcançam,
 
A grande posição e o grande nome
 
Desta triste miséria hão de salvar-me?”
 
 
 
VIII
 
 
Nisto, o mísero Lucas, que não teve
 
Jamais o gosto de uma idéia sua,
 
Pela primeira vez sente brotar-lhe
 
Na solidão do cérebro vazio
 
Um alvitre. Ansioso corre a Almada,
 
Que ao ter notícia deste caso novo,
 
Com sincera alegria o cinge ao peito
 
E dos lábios lhe pende inquieto e sôfrego.
 
Assim no meio das revoltas águas
 
Do oceano que o vento sacudira,
 
Já sem forças um miserando náufrago
 
Olhos e mãos estende à derradeira
 
Tábua que lhe ficou. “Muito vos deve
 
(Diz o Lucas) a egrégia companhia
 
Dos padres de Jesus, e esse colégio
 
Que ali daquele outeiro vos contempla.
 
Uma mão lava outra, com finezas
 
As finezas se pagam. Se do voto
 
Depender do reitor a vossa causa
 
(Que é certamente voto de mão cheia
 
E trunfo superior aos demais trunfos) [20]
 
Vá sem demora Vossa Senhoria
 
Dos favores cobrar-lhe o pagamento,
 
Que a vitória final é toda nossa.”
 
 
 
IX
 
 
A tais palavras o prelado sente
 
Pelas veias coar-lhe um sangue novo,
 
E toda reviver-lhe a derradeira
 
Quase extinta esperança. Então nos braços
 
O salvador amigo recolhendo,
 
Com lágrimas de gosto assim lhe fala:
 
“Oh! três e quatro vezes mais ditoso
 
Que o destemido Aquiles, que da boca
 
Do divino cavalo ouvia apenas
 
Anunciar-lhe a sua morte próxima,
 
Ouço da tua o próximo triunfo!”
 
 
 
X
 
 
Disse, e à pressa engolindo alguns bocados
 
Do já frio jantar que há muito o espera,
 
Das insígnias do cargo se reveste,
 
Entra na cadeirinha e aos pajens manda
 
Que ao colégio o conduzam sem demora.
 
Velozes partem, e suando em bica,
 
Vão trepando a ladeira, e à casa chegam
 
Que ali, no viso da colina, encerra
 
Em seu discreto seio um garfo ilustre
 
Da vasta, onipotente companhia.
 
Desce a certa distância o grande Almada,
 
Encara a porta, e trêmulo de susto
 
Alguns minutos fica; mas vencendo
 
O natural terror que lhe infundiam
 
A casa e seus famosos moradores,
 
Com ânimo atravessa o curto espaço
 
E vai bater à porta do convento.
 
Não de outra sorte o resoluto César,
 
Chegando à margem do vedado rio,
 
Algum tempo hesitou se contra a pátria,
 
Se contra si lançar devera a sorte;
 
Mas logo, ao gênio seu abrindo as asas,
 
O Rubicon transpõe, e afoitamente
 
Tudo fiando da propícia estrela,
 
Contra a pátria marchou e a liberdade.
 
 
 
XI
 
 
Vinham do refeitório, que era farto
 
E próprio de tão nobre companhia, [21]
 
Os veneráveis padres, quando a nova
 
Correu de que chegara o grão prelado.
 
Com alvoroço desce logo a vê-lo
 
Toda a comunidade; as cortesias
 
Respeitosas lhe faz, os cumprimentos,
 
Os elogios vãos com que lhe enfuna
 
De túmidas vaidades a cabeça.
 
Dali à livraria o levam logo
 
Com grandes cerimônias, e ao pedido
 
De falar co’o reitor secretamente,
 
Todos os padres dão aos calcanhares.
 
 
 
XII
 
 
Fechada a porta e junto da janela
 
Ambos os dous sentados gravemente,
 
Estende os olhos o prelado e abrange
 
Todo esse plaino de águas, não pejado
 
De tantíssimas velas, e bandeiras
 
Que hoje às brisas do mar de Guanabara
 
Molemente flutuam. Longa serra
 
Vê cortar o horizonte, e além galgando
 
Com os vôos da leve fantasia,
 
Campos descobre, caudalosos rios,
 
Matas que humano pé não profanara,
 
E cheio de um sincero entusiasmo
 
Faz um breve discurso, cujo tema
 
A bela terra foi e o seu futuro;
 
Discurso em que (por que melhor atasse
 
O seu entusiasmo à causa sua)
 
De alto louvar encheu a companhia,
 
“Em cujas reverendas mãos se acolhe
 
(Diz ele ao concluir) o miserando
 
Prelado contra quem governo e povo
 
Implacáveis as armas do ódio assestam”.
 
 
 
XIII
 
 
Com lastimosa voz logo refere
 
Miudamente o caso da devassa,
 
O perigo da igreja, a eterna mancha,
 
E ao reitor pede, cara a cara, o voto.
 
Sua Paternidade alguns minutos
 
Calado esteve, e o trêmulo prelado,
 
Sem os olhos tirar de cima dele,
 
Último e frouxo lume de esperança,
 
As unhas vai roendo impaciente
 
E vinte vezes na cadeira muda
 
A posição do corpo. Enfim, o grave
 
Regedor do colégio aos ares solta
 
Um profundo suspiro, e levantando
 
Os olhos para o teto, assim lhe fala:
 
“Vítima sois, não única, do torpe,
 
Estólido Senado; este colégio
 
Alvo há sido também das frechas suas
 
No conflito dos mangues, a que o povo
 
Quer ter antigo jus, e que há muito
 
Pertencem claramente à companhia.
 
Se eu vos narrasse esta comprida guerra,
 
As ciladas do pérfido inimigo,
 
Os golpes encobertos, toda a raiva
 
Com que ele afronta a paciência nossa,
 
Inteira gastaria uma semana.
 
Esperança não temos do triunfo.
 
Quem nos defenderá? Que braço forte
 
Às fúrias se oporá do vão Senado?
 
Quem as mãos cortará do inculto povo?”
 
 
 
XIV
 
 
Aqui o grande Almada da cadeira
 
Zeloso se levanta: “Não conhece
 
Vossa Paternidade um braço forte?
 
Vale pouco, senhor, este prelado,
 
Mas longe está de apodrecer na terra,
 
E enquanto um sopro lhe restar de vida,
 
Todo às ordens será da grande casa
 
De que é vossa pessoa ornato e lustre.
 
Descansai, descansai; eu tenho um meio
 
De os chamar à razão. Contra o Senado,
 
Se teimar em falar no jus do povo,
 
E contra o povo, se gritar com ele,
 
Excomunhão darei, se for preciso”.
 
 
 
XV
 
 
Tais palavras ouvindo, sobre o peito
 
Cruza as mãos o reitor e lhe agradece
 
Ao prelado este rasgo de pujança
 
E grandeza sem-par: “Eu não ousava
 
Tanto esperar de Vossa Senhoria,
 
A quem muito já deve a casa nossa,
 
E que tão espontâneo hoje me estende
 
A generosa mão. Na vossa causa
 
Sabeis que eu nunca deitaria um voto
 
Que contrário vos fosse. Ide tranqüilo,
 
Que a defender-vos sairei armado
 
Com as melhores peças. O conselho
 
Há de a voz escutar deste colégio,
 
E confirmar a excomunhão do Mustre,
 
E compeli-lo à entrega da devassa”.
 
 
 
XVI
 
 
Um doce abraço estas palavras fecha;
 
E mais alegre o ínclito prelado
 
Que o mancebo amoroso, se dos lábios
 
Colheu da amante o suspirado beijo,
 
Do reitor se despede, e velozmente
 
Na cadeira se encaixa em que viera
 
E alegrar vai os ânimos aflitos
 
Das colunas da igreja fluminense.
 
 
 
XVII
 
 
As roliças colunas, entretanto,
 
Sobre o caso fatal deliberavam,
 
Quando Almada chegou. Em volta dele
 
Ansiosos todos a conversa escutam
 
E as promessas do astuto jesuíta,
 
Em cuja honra o adulador Veloso
 
Um acróstico lembra, e lembraria
 
Igualmente um jantar, se o néscio Lucas,
 
Que outra cousa não tem nos ermos cascos,
 
Primeiro não lançasse a grande idéia.
 
 
 
 
CANTO VIII
 
 
 
I
 
 
Era alto dia, e todo alvoroçado
 
Corria o povo de uma banda a outra,
 
A sentença aguardando do conselho
 
Que ia da excomunhão julgar o caso.
 
A tranqüila cidade que inda há pouco
 
No regaço da paz adormecia,
 
Em dous opostos campos se divide,
 
Como os que a bela terra, em cuja fala
 
A musa antiga suspirar parece,
 
Um tempo viu terçar sangrentas armas
 
Em favor da tiara e da coroa.
 
 
 
II — III — IV — V
 
 
........................................
 
........................................
 
 
 
VI
 
 
........................................
 
........................................
 
Das doutas expressões com que alindara
 
O libelo da Câmara, nos olhos
 
Dos conselheiros curioso busca
 
O gosto interpretar que lhes deixara,
 
O pasmo, a admiração; e tantas vezes
 
No ânimo revolve o seu discurso,
 
Que o debate não ouve do Congresso,
 
E ali com gente solidário fica.
 
 
 
VII
 
 
Na sua sala, entanto, passeando
 
O prelado aguardava a boa nova,
 
E certo do triunfo, já na mente,
 
Em obséquio ao reitor, delineava
 
Um pomposo jantar. De quando em quando
 
À janela chegava; mas não vendo
 
O mensageiro seu, de impaciente
 
Mordia o lábio e a causa da demora
 
Entre si perguntava e respondia.
 
Conjeturava então que o Dom Abade,
 
Por afeição do Mustre, e desejoso
 
De dar no seu poder um grande golpe,
 
Um discurso fazia entremeado
 
De longas citações e perdigotos.
 
Mas o agudo reitor, que pelejava
 
Ao lado da justiça, e traz consigo
 
Autores que estudara a noite inteira,
 
Trovejando vermelho se levanta,
 
E com amplas razões, iradas vozes,
 
Entre o férvido aplauso do conselho,
 
Ponto por ponto lhe desfaz na cara
 
Toda a argumentação beneditina.
 
 
 
VIII
 
 
A tais cousas alheio, o sol brilhante,
 
Esse eterno filósofo que os raios
 
Com desdenhosa placidez desfere
 
Iguais sobre ouvidores e prelados,
 
Já do zênite ao rúbido ocidente
 
Inclinava a carreira. Examinados
 
A causa do conflito e os seus efeitos,
 
Pesadas as razões de parte a parte,
 
Unânime o conselho determina
 
A excomunhão sustar do austero Mustre
 
E a causa sujeitar ao régio voto.
 
Em vão na mente decorado tinha
 
O reitor um discurso em que provava
 
A justiça do Almada; mas a Ira,
 
Que tomando a figura de um porteiro,
 
Assiste à discussão, que o triunfo
 
Busca evitar do intrépido prelado,
 
De tais artes se serve, de tais manhas,
 
Que o cérebro transtorna ao jesuíta,
 
A opinião lhe muda, e o nome dele
 
Entre os nomes reluz do torvo acórdão.
 
 
 
IX
 
 
Copiada a sentença, ali se escolhe
 
Para a Almada levá-la prontamente
 
O escrivão do Senado; mas o triste,
 
Que do prelado conhecia a fama,
 
Umas dores alega na cabeça,
 
E, por que seja acreditado o caso,
 
A meter-se na cama logo corre.
 
Então, o alcaide-mor, que presidia
 
O governo da terra e o grão conselho,
 
Um franciscano elege e um carmelita,
 
E desta expedição confia o mando
 
Ao reitor do colégio. Bem quiseram
 
Aqueles atrevidos comissários
 
Antes do golpe manducar um pouco,
 
Mas o fino Alvarenga, que previa
 
Um estrago fatal à sua copa,
 
Que era de urgência o caso lhes declara,
 
E delicadamente os põe na rua.
 
 
 
X
 
 
Estavas, grande Almada, repousando
 
De um ligeiro jantar, comido à pressa,
 
E rodeado dos fiéis amigos,
 
Antegostavas o terror do Mustre
 
E a triste humilhação com que viria
 
De rojo às tuas veneráveis plantas
 
A remissão pedir dos seus pecados,
 
Quando à porta assomou da vasta sala
 
A grande comissão. Correram todos
 
A receber com muitas cortesias
 
Os não previstos hóspedes. Alegre,
 
Nas suas mãos aperta as mãos do Almada
 
O pérfido reitor, e olhando em roda
 
Levemente aos demais a fronte inclina.
 
Depois, fitando no prelado os olhos,
 
Concertada a garganta, assim começa:
 
“Se entre os louros, senhor, com que a fortuna,
 
Não menos que o saber e que a piedade,
 
A tua fronte majestosa adorna,
 
Inveja e desespero de almas baixas,
 
Que em vão se esforçam por lutar contigo,
 
Inda um louvor faltava, ensejo é este
 
De o colher vicejante, e de um só golpe
 
A turba confundir dos teus contrários.
 
Em que lhe pese ao venenoso dente
 
Que te morde na sombra, a história tua
 
Em lâminas escreve de ouro fino,
 
Com refulgentes letras de diamante,
 
A justiça do tempo. Eu vejo, eu vejo
 
Os séculos passando respeitosos
 
Ante o nome do herói, que resoluto
 
Os raios empenhou do seu ofício
 
Para o orgulho abater, a audácia, a inveja,
 
E entre as bênçãos de um povo amado e amante
 
Ir no seio pousar da eternidade”.
 
 
 
XI
 
 
Aqui chegando, o orador estaca;
 
E o vão prelado, que escutara alegre
 
Tão pomposas e amáveis esperanças,
 
Os braços, que já tinha levantados,
 
Ao orador estende; este os recebe,
 
E apertados os peitos contra os peitos,
 
Alguns minutos ficam; mas, cessando
 
Esta doce efusão de ambos os cabos,
 
O reitor do discurso o fio toma:
 
“Depois de um sério, dilatado exame
 
Do intrincado conflito, em que empenhaste
 
Contra um duro rival todas as forças
 
Que a natureza, que o saber te deram,
 
O congresso teológico resolve,
 
Para servir-te, uma sentença justa.
 
E por que tenhas o propício ensejo
 
De exercer a vitória mais brilhante
 
Que a um guerreiro cristão jamais foi dada,
 
Por que venças melhor o teu contrário
 
Lançando-lhe o perdão da culpa sua,
 
Suspender manda a excomunhão lançada
 
E a causa sujeitar ao régio voto”.
 
 
 
XII
 
 
A tal nova, o prelado empalidece,
 
A vista perde, as pernas lhe bambeiam,
 
No regelado lábio a voz lhe expira,
 
“E caiu como cai um corpo morto”.
 
Desenlace fatal! Ao vê-lo, um grito
 
Magoado foge dos amigos peitos;
 
E enquanto a comissão, entre o sussurro,
 
Sorrateira vai dando aos calcanhares,
 
A desforrar-se do perdido tempo
 
No tardio jantar, os reverendos
 
O prelado conduzem para a cama
 
E um físico chamar mandam à pressa.
 
 
 
XIII
 
 
Vê a Gula a vitória da inimiga,
 
E, a figura do físico tomando,
 
À casa voa do abatido Almada,
 
E depois de operar um breve exame,
 
Aos aflitos amigos afiança
 
A vida do prelado; e sem deter-se
 
Com escrever fantásticas receitas,
 
Nem pedir chochas drogas de botica,
 
Manda que o cozinheiro sem demora
 
Uma gorda galinha ponha ao fogo,
 
E a tempere, segundo as regras d’arte.
 
Prontamente obedece o fiel servo,
 
E pouco tarda que um guloso aroma
 
A casa toda invada, e sutilmente
 
Na atmosfera da alcova se derrame.
 
Prodígio foi! Nos lábios do doente,
 
Como alvejar costuma no horizonte
 
Dentre as sombras noturnas a alvorada,
 
Um sorriso desponta; e pouco a pouco
 
As pálpebras se vão arregaçando,
 
Quais as cortinas de nublado inverno
 
Que, à criadora luz do sol nascente,
 
A verdura da serra e da campanha,
 
E enfim o rosto da azulada esfera,
 
Lentamente esvaindo-se descobrem.
 
 
 
XIV
 
 
Neste ponto na alcova entra o copeiro
 
A galinha trazendo e o grosso caldo;
 
E o prelado sentando-se na cama,
 
A convite de todos logo bebe
 
O caldo em quatro goles, e trincava
 
O tenro peito da ave, quando a idéia
 
Do congresso fatal lhe sobe à mente;
 
Do peito arranca um lânguido suspiro,
 
E, reprimindo as lágrimas exclama:
 
“Ah! se eu de todos esperar devia
 
Tão cruel decisão, reitor ingrato,
 
Tu só me espantas, único me feres,
 
Que eu tinha o voto teu e o teu abraço,
 
E nisso confiado me entretinha
 
Em saborear a próxima vingança.
 
Agora, que mortal salvar-me pode
 
De tão grande vergonha? Oh! quem dissera
 
Que o destemido Almada, cujo nome
 
Nas asas voa da ligeira fama,
 
Os mares assustados atravessa,
 
Lisboa assombra e desnorteia o mundo,
 
A tamanha baixeza chegaria
 
Que os alheios esforços mendigasse?”
 
 
 
XV
 
 
Um profundo suspiro a voz lhe embarga;
 
E enfim rompendo dos fulmíneos olhos
 
Precipitadas lágrimas lhe banham,
 
Pela primeira vez, as faces pálidas,
 
Que inda nessa manhã vermelhas eram.
 
Correm todos ao leito a consolá-lo,
 
E ali lhe juram que a final vitória,
 
Ou eles morrerão naquela empresa,
 
Ou ela há de caber ao grande Almada.
 
Estavam neste ponto, quando a Ira
 
Invisível entrando, e vendo a Gula,
 
Tenta roubar-lhe o infeliz prelado,
 
Em cujo peito uma faísca lança.
 
Já vermelho, já trêmulo, no leito
 
Ele a agitar-se todo principia.
 
Mas a astuta rival da feroz culpa,
 
Para o golpe atalhar, subitamente
 
Do mísero prelado se aproxima
 
E toda a raiva lhe converte em fome.
 
 
 
XVI
 
 
As recatadas sombras, entretanto,
 
O espaço tomam, que o brilhante globo
 
De vida e luz encheu. Raros luziam
 
No firmamento os pregos de diamante
 
Com que a mão criadora do universo
 
Fixou a tela azul da larga tenda
 
Em que apenas um dia nos sentamos,
 
Os que viemos do nada, os que apressados
 
Vamos em busca da encoberta terra
 
Da eternidade. Nem acesa fora
 
A saudosa lâmpada da noite,
 
Tão buscada das musas que suspiram
 
Suas quimeras, seus afetos castos,
 
E amam dizer aos solitários ecos [22]
 
De que mágoas teceu ímpia fortuna
 
O viver que os afronta. Rijo vento
 
Empuxava de longe opacas nuvens
 
Que a tempestade próxima traziam,
 
Como se nessa tenebrosa noite
 
Em perturbar a doce paz da vida,
 
Co’os homens apostasse a natureza.
 
 
 
XVII
 
 
Livre do abalo grande que o prostrara,
 
O prelado cogita uma vingança.
 
Os amigos convoca, e todos juntos,
 
Com aquela energia e vivo empenho
 
Que aos seus alunos a Lisonja inspira,
 
Um meio buscam de vingar o Almada.
 
Com gênio de água, o douto Vilalobos
 
Os olhos deita a Roma, e quer que ao papa
 
Se faça apelação; mas o Cardoso,
 
De cuja intrepidez e sangue frio
 
Nem o próprio diabo se livrara,
 
A excomunhão propõe dos santos frades,
 
Governador, Senado e povo inteiro.
 
Timidamente o abelhudo Nunes
 
Insinua o perdão; assaz punido
 
Lhe parece o ouvidor; toda a cidade
 
A força do prelado conhecera
 
Indomável, terrível; era tempo
 
De regressar à santa paz antiga.
 
Tais idéias o adulador Veloso
 
Com escárnio refuta; d'almas fracas
 
Foi sempre a mole paz recosto amigo
 
Não das que o fogo endureceu na guerra,
 
Como a dele, que as iras arrostara
 
De todos os senados do universo
 
A exigir-lho o prelado. Convencido,
 
Estes conceitos tais escuta Almada
 
E tendo meditado longo tempo,
 
Um recurso lhe lembra decisivo,
 
A garganta concerta, e desta sorte
 
A falar principia: “Companheiros...”
 
 
 
XVIII
 
 
Neste ponto um trovão estala e troa;
 
E do conselho aos olhos aparece,
 
Sem do teto cair nem vir do solo,
 
Uma torva e magníssima figura
 
De longas barbas e encovados olhos,
 
Que a rigidez marmórea traz na face,
 
E o trêmulo Congresso encara e exclama:
 
“Basta já de lutar! Se tu, prelado,
 
E vós, teimosos servidores dele,
 
Na guerra prosseguirdes que ameaça
 
A doce paz quebrar deste bom povo,
 
Sabei que a mão severa do destino
 
Nos volumes de bronze uma sentença
 
Contra vós escreveu. Dos vossos cargos
 
Perdereis o exercício, e sem demora
 
Ireis pregar a fé entre os gentios,
 
As tribos afrontar e as frechas suas,
 
Fomes, sedes curtir, vigílias longas,
 
Que o castigo serão da vossa teima”.
 
 
 
XIX
 
 
Isto dizendo, desaparece o vulto
 
(Que era nem mais nem menos a Preguiça).
 
Então os reverendos assustados
 
Pela terra se lançam, e batendo
 
Nove vezes nos peitos, nove vezes
 
O duro chão, em lágrimas, beijando,
 
Pedem ao céu que dos eternos livros
 
Riscado seja o bárbaro decreto.
 
 
 
 
FIM
 
 
 
 
 
 
 
 
 
* Verso de Odorico Mendes, na tradução da Eneida.
 
 
 
 
 
[1] Senado chamo eu em todo este livro ao que naquele tempo tinha o simples título de Câmara. A mercê de se chamar Senado foi feita à Câmara do Rio de Janeiro por provisão de 11 de março de 1748, segundo monsenhor Pizarro (Memórias Históricas, tom. VII, pág. 159). Segundo o Dr. Haddock Lobo (Tombo das Terras Municipais, tom. 1, pág. 39) foi essa provisão datada de 11 de março de 1757. Vê-se que os dois autores combinam no dia e no mês. Para o nosso caso, não vale a pena examinar se foi efetivamente em 1757, se em 1748.
 
Apesar de só ter obtido aquela mercê no meado do século XVIII, a Câmara do Rio de Janeiro já anteriormente recebera a denominação de Senado em provisão régia datada de 1712.
 
Mais. No século anterior, em 1667, num auto de mediação nas terras do conselho, por mandado do ouvidor-geral Manuel Dias Raposo, deu-se à Câmara do Rio de Janeiro o título de Senado. (Veja Tombo das Terras Municipais, tom. 1, pág. 88).
 
Finalmente, Lisboa (Anais, tom. III, pág. 323) traz uma carta da Câmara ao prelado Almada, com a data de 1659, que é a mesma da ação do poema, e escrita anteriormente ao episódio da devassa, a qual carta começa assim:
 
"Neste Senado se fez por parte do povo..."
 
Usava pois a Câmara, ainda que não legalmente, do título que lhe dou.
 
 
[2] Mais de uma vez tenho lido e ouvido que a cidade do Rio de Janeiro nada tem de airosa e garbosa, ao menos na parte primitiva, a muitos respeitos inferior aos arrabaldes.
 
Não me oponho a esse juízo; mas eu não conheço as belas cidades estrangeiras, e depois, falo da minha terra natal, e a terra natal, mesmo que seja uma aldeia, é sempre o paraíso do mundo. Em compensação do que não lhe deram ainda os homens, possui ela o muito que lhe deu a natureza, a sua magnífica baía, as montanhas e colinas, que a cercam, e o seu céu de esplêndido azul. Acresce que nesta dedicatória comparo eu o que é hoje ao que era a cidade em 1569, diferença, na verdade, enorme.
 
 
[3] Tomé Correia de Alvarenga, alcaide-mor do Rio de Janeiro e natural desta cidade, exercia interinamente o cargo de governador por não ter ainda chegado da Bahia o governador efetivo Lourenço de Brito Correia, como tudo fora ordenado na carta régia de 27 de março de 1657.
 
 
[4] Ocorreu esta revolta em novembro de 1660. Era então Governador Salvador Correia de Sá e Benevides; mas tendo partido para São Paulo, a fim de visitar as minas, ficara no governo Tomé de Alvarenga. A revolta foi muito séria, como se pode ver do citado Lisboa (Anais, tomo IV, no princ.). Tomé de Alvarenga refugiara-se no convento de São Bento; foi dali arrancado e metido na fortaleza de Santa Cruz.
 
 
[5] Ouvidor geral era o seu título; chamo-lhe simplesmente ouvidor por liberdade e conveniência poética.
 
 
[6] O Rev. Dr. Manuel de Sousa Almada, presbítero do hábito de São Pedro, foi nomeado prelado administrador por provisão de 12 de dezembro de 1658, e tomou posse no mesmo ano em que se passa a ação do poema, 1659.
 
 
[7] Duas vezes alude Chateaubriand à emigração das cegonhas da Grécia para a África. Uma, no Itinerário, parte I, e diz assim: “Vi, quando estávamos no alto da colina do Museu, formarem-se em bando as cegonhas e abrirem vôo para a África. Fazem elas há dois mil anos esta mesma viagem; vivem livres e felizes na cidade de Sólon como na cidade dos eunucos gregos”.
 
Nos Mártires, canto XV, põe na boca de Demódoco estas palavras (trad. de F. Elísio):
 
 
“Cada ano erguem seu vôo, essas cegonhas,
 
De abas do Ilisso e areias de Cirene,
 
E aos campos de Ereteu cada ano voltam.
 
Quantas vezes não acham erma a casa
 
Que florente ficou, quando partiram!
 
Quantas o mesmo teto em vão buscaram
 
Onde não tinham de lavrar seus ninhos!”
 
 
Nada há tão deveras melancólico como esse contraste do homem com toda a mais natureza. Muita vez, subindo a alguma das eminências da nossa cidade, e lançando os olhos do corpo a essa vasta aglomeração de obras que a civilização criou e perfez, volvo os da alma a quatro séculos antes, quando uma sociedade semibárbara dominava as margens do golfo e as terras interiores. Nenhum vestígio há já dela; nenhum vestígio há de haver da nossa, depois que volverem outros séculos; mas o sol que os aluminou e nos alumia é o mesmo; e toda a natureza parece indiferente às nossas obras caducas.
 
 
[8] O sucesso a que aludo ocorreu justamente três meses antes do conflito da devassa. A matriz da cidade estava então na igreja de São Sebastião; Almada tentou desfabricá-la e mudá-la para a ermida de São José, mudando ao mesmo tempo o santo, padroeiro da cidade. Abalou-se por esse motivo o povo; a Câmara, ouvidas as autoridades, dirigiu ao prelado uma carta comunicando a resolução em que estavam ela e o povo de deixar tudo no mesmo estado, até vir de el-rei a resolução que se lhe ia mandar pedir.
 
A resposta do prelado é um documento do seu gênio fogoso e impaciente. Depois de repreender duramente a Câmara, marca-lhe três dias para revogar a resolução tomada sob pena de a declarar incursa na excomunhão da Bula Da Ceia, e dá enfim as razões que tinha para o que intentava fazer. A concessão única, segundo se vê da carta, foi conservar na igreja do oratório a imagem do santo.
 
Melhor se conhecerá do homem pelo estilo, se todavia é exato o aforismo de Buffon. A carta do prelado terminava assim:
 
 
"Em todo o ano não há quem vá um domingo à matriz e agora lhes chegou este zelo. Lêem-se as cartas de excomunhão às paredes, correm-se banhos, fazem-se as festas da Páscoa e Natal aos negros do vigário, e sobretudo está o Santíssimo na igreja e tem a chave dela um secular, tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite, e nisto se não adverte. Tudo o que há na igreja matriz hei de mudar para baixo, e só o altar de São Sebastião com o santo, sua fábrica e confraria, e um signo, hei de deixar na matriz; para ter cuidado da igreja hei de pôr um ermitão.”
 
 
A Câmara resistiu; o governador interpôs os seus bons ofícios, e moveu o prelado a suspender a excomunhão até resolução de el-rei.
 
Na carta então dirigida pela Câmara a Afonso VI vejo citado um alvará régio ordenando que os prelados, bem como outros ministros, fossem morar no alto da cidade, o que eles não faziam, circunstância que me deu idéia dos dois versos:
 
 
Para poupar às reverendas plantas
 
A subida da íngreme ladeira.
 
 
Além da carta régia, temos a carta do bispo D. Francisco, no princípio do século seguinte (1703), dando conta à rainha da complicada história da mudança da Sé. O bispo diz: "... E alongando-se... a residência dos ministros da Sé, que privados das comodidades necessárias às suas subsistências, procuram a vivenda no centro da povoação, foi mais difícil o serviço da igreja, e conseqüentemente pouco exata a prática dos deveres de cada um dos empregados nos benefícios e cargos anexos da catedral".
 
 
[9] Não será preciso lembrar ao leitor católico que São José era carpinteiro em Nazaré. A casa do prelado (segundo leio em Pizarro, tomo III, pág. 177, nota) ficava entre a ermida de São José e o edifício, que foi cadeia e é hoje Câmara dos Deputados.
 
 
[10] O licenciado Francisco da Silveira Vilalobos era o vigário-geral e exercera inteiramente a prelazia do Rio de Janeiro.
 
 
[11] Capacho não está ainda incluído nos dicionários no sentido que lhe dá o povo para exprimir um homem servil. A locução todavia é pitoresca e merece as honras de cidade. Penso que mais de um escritor a tem empregado neste sentido: nos diários é vulgar.
 
 
[12] O Padre Rafael Cardoso foi quem intimou o ouvidor-geral a entregar a devassa.
 
Cardoso e Vilalobos são figuras que a história me ofereceu; os demais companheiros de Almada são personagens de imaginação; a uns e outros dei as feições e o caráter convenientes à ação e ao gênero do poema.
 
 
[13] Espraiar o baço é tradução de épanouir la rate, não minha, mas de Filinto Elísio, que assim se exprime numa nota.
 
 
[14] Era este um dos mais inveterados abusos; apesar de todos os decretos, os rapazes de todos os tempos iam namorar as moças nas igrejas. Já em 1657, dois anos antes da ação do poema, D. Afonso VI ordenara que se proibisse que os homens falassem com mulheres nas igrejas, suas portas e adros. No ano seguinte foi estendida a proibição aos que somente as esperassem naqueles lugares para as verem, ainda que lhes não falassem. (Vide Pizarro, tomo V, pág. 19).
 
Com o tempo voltou o abuso, e no século seguinte o bispo D. Frei Antônio do Desterro proibiu as conversações e ajuntamentos nas portas e adros dos templos, "principalmente em dias de festa e concorrência"; pastoral de 14 de março de 1767. (Vide Pizarro, VI, pág. 17).
 
 
[15] As festas a que aludo nesta estância foram as da aclamação de D. João IV, em 1641, quando aqui chegou a notícia da queda da dominação castelhana. Foram esplêndidas a ser exata a Relação que delas faz um anônimo, e que o Sr. Varnhagen comunicou ao Instituto Histórico, em cuja Revista, tomo V, foi reproduzida.
 
Duraram sete dias, e constaram de alardo de tropas, touros, encamisada, canas, manilhas, máscaras e comédia. Um trecho da aludida Relação dará idéia, não só do que foi a festa, mas também do estilo do narrador: "Foi o princípio das festas uma encamisada que fizera mostra, alegrando todas as ruas da cidade 116 cavaleiros, com tanta competência luzidos, tão luzidamente lustrosos, e tão lustrosamente custosos, que nem Milão foi avaro nem Itália deixou de ser prodigamente liberal... E para maior alegria se lhe agregaram dois carros, ornados de sedas e aparatos de ramos e flores, e tão prenhados de música, que em cada esquina de rua parecia que o coro do Céu se havia humanado; ação do licenciado Jorge Fernandes da Fonseca, e obrada com seus filhos únicos nesta... e que merecem o louro, não só da invenção como do sonoro".
 
Não menos curioso é o que diz o narrador acerca das luminárias:
 
 
"... se viu a cidade tão cheia de luminárias, que não fazendo falta o brilhante esplendor do planeta monarca e substituídas as estrelas nas janelas e ruas, formavam tantos cambiantes tornassóis no vário de intenções, que se enredava o pensamento nas luzes e se confundia no número, pois o limitado do lugar parece que se dilatava com elas nesta ocasião".
 
 
[16] A iluminação só começou no governo do Conde de Resende, em 1790. Até então havia o recurso de trazer lanterna; a única iluminação eram as lâmpadas de azeite que de longe em longe alumiavam alguns oratórios postos nas esquinas.
 
 
[17] Os capitães-do-mato tinham sido criados mui recentemente, talvez no ano anterior, com o fim de destruir quilombos e capturar os escravos fugidos, que eram muitos e ameaçavam a vida e a propriedade dos senhores de engenho, bem como as da população da cidade.
 
 
[18] Será preciso dizer que a palavra padrinho é aqui um eufemismo?
 
 
[19] Leve por levemente. São vulgares nos bons autores estes exemplos de adjetivos empregados adverbialmente. Gonçalves Dias, que versava os clássicos, muitos exemplos traz e de bom cunho. Citarei dois, tirados de seus admiráveis Timbiras:
 
 
A nossa incúria grande eterno asselam
 
(Canto I).
 
 
Os olhos turvos
 
Levou a extrema vez o desditoso
 
Àqueles céus d'azul, àquelas matas
 
Doce cobertos de verduras e flores
 
(Canto III).
 
 
[20] Não é preciso lembrar a influência dos jesuítas naquele século. Entre nós era imensa; a sugestão do Lucas, portanto, não podia ser mais natural. A mesma Câmara, enviado, cinco anos antes à corte, um procurador seu para obter do rei algumas reformas, não o fez sem um atestado do reitor do Colégio, o qual começava por estes termos: "Certifico que, considerando o estado presente desta praça, freqüência e opulência passada do seu comércio e grande diminuição a que tem vindo, e o geral aperto de todos os moradores da terra, além de muitas outras razões do serviço de Deus e de S. Majestade, têm entendido todos os religiosos deste colégio que necessita a república de mandar à corte um cidadão, etc. etc."
 
 
[21] Não é isto uma expressão vaga e malévola. A relação do Padre Fernão Cardim, companheiro do Padre Cristóvão de Gouveia na visita aos colégios da Companhia no Brasil, em 1590, tratando do Rio de Janeiro, traz as seguintes informações:
 
 
"... Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quase meio ano e são finos; nem faltam couves mercianas bem duras, alfaces, rabãos e outros gêneros de hortaliças de Portugal em abundância, o refeitório é bem provido do necessário, a vaca na qualidade e gordura se parece com a de Entre Douro e Minho; o pescado é vário e muito, e são para ver as pescarias da sexta-feira, e quando se compra, vale o arrátel a quatro réis, e se é peixe sem escama, a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa... Duvidava eu qual era o melhor provido, se o refeitório de Coimbra, se este, e não me sei determinar...”
 
 
[22] Amam dizer parecerá forma irregular ou galicismo a quem não conhecer, entre outros exemplos, este de Filinto (trad. de Oberon): "Amam contar os velhos..."
 
Gonçalves Dias emprega também, e em mais de uma ocasião, aquela maneira de dizer. Citarei este exemplo dos Timbiras:
 
 
Amavam contemplar-te os de Itajuba
 
Impávidos guerreiros
 
(Canto III).