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{{navegar
|obra=[[Til]]
|autor=José de Alencar
|seção=Primeiro Volume, Capítulo XX: A pousada
|anterior=[[Til/I/XIX|Primeiro Volume: Capítulo XIX]]
|posterior=[[Til/I/XXI|Primeiro Volume: Capítulo XXI]]
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Quem transitava pela estrada de Campinas via, meia légua antes de Santa Bárbara, dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro.
 
Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de grosseira fábrica, sem reboco nas paredes mal emboçadas, que mostravam entre os torrões de barro as varas atadas com cipó aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou qualquer espécie de soalho, estava cheio de buracos e poças; de pintura não havia traços, nem mesmo de uma simples caiação.
 
Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie de taberna, a julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento a meio, e por duas ou três ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha de milho, e uma dúzia de garrafas arrumadas em fila.
 
Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo que, em sendo preciso, servia de pousada.
 
Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco estreito. Em cada canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas a modo de esteira.
 
Era já sol fora.
 
Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitação. Ao menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta, não via no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de vida a não ser o vôo das moscas pousando sobre o balcão para sugarem o mel de umas farpas de rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da véspera.
 
Não era, porém, tão absoluta como parecia, nela a solidão.
 
Na venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão e de bruços neste, cochilava um sujeito com a cabeça posta sobre os dois braços cruzados em cima da tábua. Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante, voltava à contínua modorra.
 
Ainda moço e robusto, derramava-se não obstante no físico desse homem certo ar de indolência, que nesse momento mais se carregava com a sonolenta expressão do rosto seco, pálido, baço, e levemente sombreado por alguns raros fios de barba. O cunho especial dessas feições, e particularmente o viés dos olhos com os cantos alçados para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano com a casta boêmia.
 
Do lado oposto da habitação, em um compartimento, que tinha jeito de varanda, cozinha e pátio de criação, tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma trempe de pedra no meio do chão. O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal cozia o feijão e couves, destinados ao sustento daquele dia.
 
Fronteira à janela, sentada ao chão, com os joelhos levantados e os braços caídos sobre eles, estava uma rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia muito e muito ocupada em observar a fervura da panela; pois não tirava dela os olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo chão, ou dentro de uma gamela, vários pratos brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.
 
Diferentes vezes já, a rapariga lançara um olhar de enfado para a louça ainda suja do serviço da véspera, e alongava depois a vista pela porta afora até lá embaixo no brejal, onde passava o rego da água, e media a distância a percorrer. Abria então a boca em um interminável bocejo, espreguiçava o lombo estirando os braços; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no chão, murmurando:
 
Tem tempo!
 
Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna habitual, um gesto de aborrimento e agastadura, produzido pela vista do viajante que se aproximava.
 
Era este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável, a não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas a tez acobreada, bem como as costas das mãos.
 
Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça de brim de listra. O chapéu era novo e de meio castor; as botas de couro de veado com chilenas de prata. Trazia no arção da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma garrucha.
 
Parando a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque na porta, gritando:
 
— Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?... Querem ver que o diabo do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?... Foi volta de samba esta noite, e samba grosso que deu de si até a madrugada. Não tem dúvida! Oh! lá de dentro! basta de dormir! Já deve estar bem cozida a camueca!
 
Desenganado de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso bocejo, estirou a cabeça por fora do bojo da quartola.
 
— Quem é?... Ah! nhô Gonçalo!
 
— Ora, bem aparecido!... Parece que por cá anoiteceu de madrugada!...
 
— Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado que seja dureza. Levo só a dormir!...
 
No rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão aborrida que provocara a presença do Gonçalo. Ao contrário, com o riso postiço e a oficiosidade própria dos estalajadeiros, que sabem seu ofício, se erguera para falar ao freguês; e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu serviço.
 
Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceção à habitual indiferença com que de ordinário via chegarem à sua casa, e nela posarem, viajantes de posição muito superior à do Gonçalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razão particular.
 
— Bebe-se café por aqui, ou não se usa?
 
— Sempre há de se arranjar!
 
— Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde vê este degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!...
 
— Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!
 
Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe a panela de feijão para deitar o boião d’água; e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera, que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça.
 
Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com o Chico sobre o que vinha a pelo:
 
— E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.
 
— Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda muito!...
 
— Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.
 
— É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
 
— Ora, isso há muito tempo!
 
— Mas um dia chega a caipora.
 
— Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
 
— Lá isso é verdade! ninguém!
 
— Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!
 
De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado sobre o tampo do balcão, onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras da mula.
 
— Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para o casco do animal.
 
— É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me cá o martelo.
 
Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa de uma colina, apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de caça.
 
[[Categoria:Til|Primeiro Volume, Capítulo 20]]