Diferenças entre edições de "Viagens de Gulliver/Parte III/VIII"

4 804 bytes adicionados ,  11h37min de 20 de fevereiro de 2013
sem resumo de edição
( nova página: {{tradução}}{{navegar |obra=Viagens de Gulliver<br> |autor=Jonathan Swift |anterior=Parte III - Capítulo VI |posterior=...)
 
{{tradução}}{{navegar
|obra=[[Viagens de Gulliver]]<br>
|autor=Jonathan Swift
|anterior=[[Viagens de Gulliver/Parte III/VIVII|Parte III - Capítulo VIVII]]
|posterior=[[Em Tradução:Viagens de Gulliver/Parte III/VIIIIX|Parte III - Capítulo VIIIIX]]
|seção=Parte III - Capítulo VIIVIII
|notas=
}}
<div class="prose"><div style="text-align:justify">
[Mais histórias sobre Glubbdubdrib. Correção das histórias antiga e moderna.]
''[O autor sai de Lagado e chega em Maldonada. Nenhum navio estava disponível. Empreende uma pequena viagem à cidade de Glubbdubdrib. A recepção do autor por parte do governador.]''
 
Desejando conhecer aquelas personagens antigas que haviam se notabilizado pela inteligência e pela erudição, dediquei um dia inteiro para essa finalidade. Propus então que Homero <ref><font color=green>'''Homero: '''</font>viveu por volta do ano 850 a.C, foi poeta épico da Grécia Antiga, ao qual tradicionalmente se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia.</ref> e Aristóteles <ref><font color=green>'''Aristóteles: '''</font>(em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande.</ref> aparecessem diante de todos os seus comentadores, estes, porém, eram em número tão elevado, que centenas deles foram obrigados a esperar na corte, e nas salas externas do palácio. Logo de vista conheci e pude distinguir estes dois heróis, não só dentre a multidão, mas também um do outro.
O continente, ao qual este reino estava separado, estendia-se, como tenho razões para crer, a leste, para aquela região da América na parte oeste da Califórnia; e ao norte pelo Oceano Pacífico, que não passa de cento e cinquenta milhas de Lagado; onde existe um movimentado porto, e um florescente comércio com a ilha grande de Luggnagg, situada a noroeste a aproximadamente 29 graus de latitude norte, e 140 graus de longitude. A ilha de Luggnagg ficava na parte sudeste do Japão, a cerca de cem léguas de distância.
 
Homero era o mais alto e a pessoa mais simpática dentre os dois, caminhava de forma bastante correta para uma pessoa da sua idade, e o seus olhos eram os mais vivos e penetrantes dentre os que já havia visto. Aristóteles andava muito curvado, e usava uma bengala. Seu rosto era magro, seus cabelos eram lisos e finos, e sua voz cavernosa. Logo notei que os dois eram verdadeiros estranhos em relação aos demais que ali compareciam, e que nunca tinham visto ou ouvido falar deles; e um fantasma de cujo nome declinarei, me sussurrou: "que estes comentadores sempre se mantinham nos lugares mais afastados dos seus comentados, no mundo inferior, devido ao sentimento de vergonha e culpa, porque haviam representado de forma tão adulterada o pensamento dos autores para a posteridade."
Existe uma estreita aliança entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg, o que permite frequentes oportunidades de navegação de uma ilha a outra. De modo que decidi orientar a minha viagem por esta rota, segundo minhas pretensões de retornar à Europa. Contratei duas mulas, e mais um guia, para que me mostrassem o caminho, e levassem minhas poucas bagagens. Me despedi do meu nobre protetor, o qual havia sido muito gentil comigo, e ofereci a ele um generoso presente em vista de minha partida.
 
Eu apresentei '''Dídimo'''<ref><font color=green>'''Dídimo Calcenteros'''</font color=green> ou '''Dídimo de Alexandria''' (em grego: '''Δίδυμος χαλκέντερος'''; ca. 63 a.C. — 10) foi gramático grego que viveu em Alexandria. Junto a outros quatro gramáticos de Alexandria, nomeadamente Aristônicos, Seleucos e Filoxenos, dedicou-se Dídimo ao estudo dos textos de Homero.</ref> e <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Eustátio_de_Antioquia '''Eustácio''']</font color=green> à Homero, e os convenci para que fossem tratados melhor talvez do que merecessem, pois ele logo notou que eles queriam que um gênio assumisse o comando do espírito do poeta. Aristóteles, porém, perdeu toda sua paciência devido ao relato que lhe fiz de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/João_Duns_Escoto '''Escoto''']</font color=green> e de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_de_la_Ramée '''Ramus''']</font color=green>, quando lhes apresentei a ele, e perguntou-lhes, "se os outros membros daquela tribo eram tão ignorantes como eles próprios?"
A minha viagem ocorreu sem quaisquer acidentes ou acontecimentos dignos de menção. Quando eu cheguei ao porto de Maldonada (pois era assim que se chamava) não havia nenhum navio no porto com destino a Luggnagg, nem havia qualquer perspectiva de aparecer um nos próximos períodos. A cidade era praticamente tão grande quanto Portsmouth<ref><font color=green>'''Portsmouth''':</font> é uma cidade do condado de Hampshire, ao sul da Inglaterra.</ref>. Em pouco tempo fiz algumas amizades, e fui recebido com muita hospitalidade.
 
Em seguida, solicitei ao governador para que evocasse <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/René_Descartes '''Descartes''']</font color=green> e <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Gassendi '''Gassendi''']</font color=green>, com quem insisti para que explicassem seus sistemas a Aristóteles. Este grande filósofo espontâneamente reconheceu seus próprios equívocos com relação à filosofia natural, alegando que muitas vezes fizera uso da imaginação, como fazem todas as pessoas, e ele achou que Gassendi, que havia tornado a doutrina de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro '''Epicuro''']</font color=green> tão aceitável quanto possível, bem como os vórtices de Descartes, haveriam de ser desmascarados. Ele prognosticou a tão conhecida teoria da atração, de quem os sábios em questão são seus zelosos divulgadores. Disse ele, "que os novos sistemas da natureza eram apenas novos modismos, que poderiam variar em todas as épocas, e mesmo aqueles, que fingem demonstrar essas teorias a partir de princípios matemáticos, teriam seus momentos de glória somente por um curto período de tempo, perderiam o seu brilho quando isso fosse determinado."
Um senhor de nobre aspecto me disse, “que não havendo navios disponíveis com destino a Luggnagg num período menor que trinta dias, não me seria um passatempo desagradável se eu fizesse um passeio à pequena ilha de Glubbdubdrib, aproximadamente a cinco léguas de distância à sudoeste.” Ele próprio e um amigo se ofereceram para me acompanhar, e além disso eu não poderia prescindir de um barco pequeno e adequado para a viagem.
 
Passei cinco dias conversando com muitos outros dos antigos que conheci. Vi a maioria dos primeiros imperadores romanos. Insisti para que o governador evocasse os cozinheiro de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki '''Heliogabalus''']</font> para que nos preparasse um jantar, mas não lhe foi possível demonstrar muitas das suas habilidades, por falta de material. Um escravo de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Agesilau_I '''Agesilaus''']</font color=green> preparou para nós um prato de sopa espartana, mas não consegui dar uma segunda colherada.
Glubbdubdrib, em seu sentido etimológico mais preciso, significava ilha dos feiticeiros e dos mágicos. Ela tinha cerca de um terço do tamanho da Ilha de Wight<ref><font color=green>A '''Ilha de Wight'''</font> é uma ilha localizada ao sul de Southampton, na costa sul da Inglaterra.</ref>, e extremamente fértil: era governada pelo chefe de uma certa tribo, e que todos eles tinham sido mágicos. Esta tribo se casava somente entre si, e o mais velho da sucessão era o príncipe ou governador. Havia lá um suntuoso palácio, e um parque com aproximadamente três mil acres, cercado por uma muralha feita de pedra talhada com mais de seis metros de altura. Neste parque havia diversos espaços reservados para o gado, cultivo de cereais e jardinagem.
 
Os dois cavalheiros, que haviam me levado até a ilha, tinham pressa para decidir seus assuntos particulares pois deviam retornar em três dias, tempo esse que utilizei para ver alguns dos mortos modernos, que haviam sido uma das maiores figuras, durante duzentos ou trezentos anos no passado, em nosso próprio e em outros países da Europa, e tendo sido sempre um grande admirador das antigas famílias ilustres, pedi ao governador que evocasse uma ou duas dúzias de reis, acompanhados de seus ancestrais em ordem de suas oito ou nove gerações.
O governador e sua família eram servidos e assistidos por criados de certo modo um tanto singulares. Devido a suas habilidades com a necromancia, o governador tinha o poder de evocar os mortos, qualquer um que ele quisesse, e de colocá-los a seu serviço durante vinte e quatro horas, porém, não mais que isso; nem podia ele evocar as mesmas pessoas novamente num prazo menor que três meses, exceto em situações muito extraordinárias.
 
Porém o meu desapontamento foi doloroso e inesperado. Porque, no lugar de uma imensa comitiva desfilando diademas reais, vi em uma família dois violinistas, três elegantes cortesãos, e um prelado italiano. Numa outra, um barbeiro, um abade, e dois cardeais. Eu sentia uma veneração muito grande por cabeças coroadas, para permanecer muito tempo com um tema tão fascinante. Porém, com relação aos condes, marqueses, duques, e outras dignidades honoríficas, não tive tantos escrúpulos. E devo confessar, que não foi sem alguns resquícios de prazer, que eu pude rastrear os aspectos particulares, com os quais se notabilizaram determinadas famílias, desde suas origens.
Quando eu cheguei na ilha, sendo já por volta das onze da manhã, um dos cavalheiros me acompanhou em uma visita ao imperador, solicitando a autorização para um estrangeiro, que havia chegado com o intuito de conhecer a sua alteza. A permissão foi concedida imediatamente, e nós três atravessamos os portões do palácio diante de duas filas de sentinelas, armados e vestidos à moda de um costume muito antigo, e com alguma coisa em seus semblantes que me fazia tremer com um pavor que eu não consigo explicar.
 
Pude descobrir claramente de onde provêm numa família com um queixo pronunciado, porque uma outra era repleta de patifes durante duas gerações, e de tolos por mais duas; porque uma terceira família era constituída por pessoas fracas de cabeça, e uma quarta de criaturas mais perspicazes; sendo decorrente desse fato, o que <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Virgílio '''Polidoro Virgílio''']</font color=green> dizia a respeito de uma certa casa de renome, <font color=blue>NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA</font color=blue><ref><font color=green>'''NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA:'''</font>Expressão em latim que significa: [Esta casa não possui] nem um homem forte, nem uma mulher virtuosa.</font></ref>; o modo como a crueldade, a falsidade, e a covardia, começaram a se tornar as características pelas quais determinadas famílias se distinguiam, bem como pelos seus brasões de armas; quem pela primeira vez trouxe a varíola para uma casa nobre, o que acabou se transformando em tumores escrofulosos para a posteridade. Nem poderia eu ficar surpreso diante de tudo isso, quando eu conheci uma certa interrupção de linhagem de constituída por escudeiros, lacaios, valetes, cocheiros, jogadores, violinistas, atores, capitães e ladrões de carteira.
Passamos diante de vários apartamentos, entre servidores da mesma linhagem, postados um de cada lado como antes, até que chegamos até a sala de audiência, onde depois de externarmos três reverências profundas, e de responder algumas perguntas, foi-nos permitido que sentássemos em três banquinhos, perto do degrau mais inferior ao trono da sua alteza. Ele compreendia o idioma falado em Balnibarbi, embora houvesse diferenças com o que era falado naquela ilha. Ele pediu para que eu falasse um pouco sobre as minhas viagens, e deu a entender que eu seria tratado sem cerimônia; dispensou todos os seus acompanhantes com um gesto de dedo, tendo visto eu, com grande assombro, que eles desapareceram rapidamente, como se fossem visões de um sonho como quando acordamos repentinamente.
 
Fiquei, principalmente, decepcionado com a história moderna. Pois, tendo examinado rigorosamente todas as pessoas de maior distinção nas cortes dos príncipes, durante cem anos no passado, descobri como o mundo havia sido mal conduzido por escritores corruptos, que atribuiram as maiores façanhas de guerra, a homens covardes; os conselhos mais sábios, a néscios; a sinceridade, a aduladores; a virtude romana, a traidores de suas pátrias; a piedade, a ateus, a castidade, a sodomitas; a verdade, a espiões: quantas pessoas inocentes e de grande mérito foram condenadas a morte ou ao exílio devido à influência de grandes ministros mediante a corrupção dos juízes, e a maldade de determinadas facções: quantos vilões foram exaltados aos píncaros da verdade, do poder, da dignidade e da vantagem: como era intensa a participação nos movimentos e nos acontecimentos das cortes, conselhos, e senados que foram desafiados por cafetinas, prostitutas, alcoviteiros, parasitas e bufões.
Levei algum tempo para me recompor, até que o governador me garantiu, “que eu teria minha integridade assegurada:” e observando os meus dois companheiros que demonstravam uma certa preocupação, tendo sido tratados da mesma maneira, comecei a tomar coragem, e relatei a sua alteza uma pequena história da minhas inúmeras aventuras; não, todavia, sem alguns sobressaltos, e várias vezes olhava para trás para o lugar onde havia visto antes as figuras dos criados. Tive a honra de jantar com o governador, onde um novo quadro de fantasmas serviu a refeição, e fazia as honras da mesa.
 
Como era pouco o respeito que eu tinha com relação à sabedoria e à integridade humana, quando fui verdadeiramente informado a respeito dos recursos e das razões das grandes iniciativas e revoluções existentes no mundo, e dos fatos desprezíveis que resultaram na sua vitória.
Percebia eu que agora estava menos assustado do que estivera quando de manhã. Fiquei até o sol se por, porém, humildemente pedi desculpas à sua alteza por não aceitar o convite que ele me fizera para me hospedar em seu palácio. Meus dois amigos e eu ficamos numa casa em particular de uma cidade nas proximidades, que era a capital da pequena ilha, e na manhã seguinte retornamos para prestar nossas homenagens ao governador, como ele próprio nos havia solicitado.
 
Foi aí que eu descobri a malandragem e a ignorância daqueles que fingem escrever fatos engraçados, ou uma história secreta; que mandaram tantos reis para suas sepulturas com uma taça de veneno; irão repetir o debate entre um príncipe e um primeiro ministro, não havendo nenhuma testemunha por perto; desvendam os pensamentos e os gabinetes de embaixadores e secretários de estado, e possuem o eterno infortúnio de se equivocarem permanentemente. Aqui eu descobri as verdadeiras causas de muitos grandes eventos que causaram assombro para o mundo; como uma prostituta podia governar dos bastidores, os bastidores de um conselho, e o conselho de um senado.
E desse modo permanecemos na ilha durante dez dias, a maior parte de todos os dias com o governador, e a noite em nossos alojamentos. Logo me familiarizei com a visão dos espíritos, tanto que depois da segunda ou terceira vez eles já não me causavam nenhum sentimento: ou, se alguns receios ainda houvessem, a minha curiosidade superava todos os medos.
 
Um general confessou, em minha presença, "que ele havia sido vitorioso simplesmente devido à força da covardia e da ausência de comando;" e um almirante, "que, por não dispor de inteligência própria, derrotara o inimigo, cuja frota ele pretendia trair." Três reis reclamaram para mim, "que durante todo o reinado deles jamais tiveram preferência por qualquer pessoa de valor, a menos que por engano, ou deslealdade de algum ministro em quem depositava confiança, nem o fariam se tivessem de viver novamente: "e que o trono real não poderia se sustentar sem corrupção, porque o caráter positivo, seguro, e determinado, que a virtude impõe ao homem, era um permanente obstáculo aos negócios públicos."
Pois, a sua alteza, o governador, me ordenou “que eu evocasse qualquer pessoa cujos nomes me ocorresse, e quantos desejasse, dentre todos os mortos desde o começo do mundo até o tempo atual, e ordenou-lhes que respondessem a quaisquer perguntas que achasse apropriado fazer, desde que as minhas perguntas ficassem restritas ao período de tempo que eles tivessem vivido.
 
Tive a curiosidade de perguntar, de maneira particular, quais teriam sido os métodos usados por muitos para reivindicarem para si mesmos altos títulos de nobreza, e grandes propriedades; tendo restringido minha pergunta a um período bastante recente: todavia, sem tocar no tempo presente, porque eu queria ter certeza de não ofender nenhum estrangeiro (pois eu espero não seja necessário dizer ao leitor que no mínimo não desejo fazer críticas ao meu país, com os fatos que estou mencionando agora); um número considerável de pessoas foram evocadas, e depois de um exame bastante rápido, descobri uma cena de tamanha infâmia, que não posso refletir sobre ela sem uma certa crítica.
E de uma coisa eu poderia estar certo, de que eles certamente diriam somente a verdade, porque a mentira era um recurso sem utilidade no mundo inferior.”
 
O perjúrio, a opressão, o suborno, a fraude, a alcoviteirice, e outros males do mesmo gênero, foram os artifícios mais desculpáveis que eles tinham para mencionar, e com relação a isso, como era razoável, fui extremamente condescendente. Mas quando alguns deles me confessaram que deviam o poder e a riqueza à sodomia, ou ao incesto, outros, à prostituição de suas próprias esposas e filhas; outros, por terem sido objetos de traição de seu país ou de seu príncipe; alguns, por causa de envenenamento; e muitos à perversão da justiça, com vistas a destruição de pessoas inocentes, espero ser perdoado, caso estas descobertas tenham diluído em mim os sentimentos daquela profunda veneração, que eu naturalmente consagrava à pessoas daquela estatura, e que deveriam ter sido tratadas com o mais devido respeito por nós, criaturas inferiores, em razão de sua dignidade sublime.
Expressei à sua alteza os meus mais humildes reconhecimentos por sua preciosa atenção. Nós estávamos num compartimento do palácio de onde podíamos ter uma bela vista para o parque. E como pretendíamos nos entreter com momentos de pompa e magnificência, pedi para ver Alexandre, O Grande, no comando do seu exército, pouco depois da batalha de Arbela<ref><font color=green>'''Batalha de Arbela''':</font>, também chamada de Batalha de Gaugamela, cidade da Assíria, onde Alexandre, O Grande, da Macedônia, venceu Dario III no dia primeiro de outubro do ano 331 a.C.</ref>: e com um movimento de dedo do governador, imediatamente surgiu um campo imenso, sob a janela onde nós encontrávamos.
 
Havia muitas vezes lido a respeito de grandes serviços prestados a príncipes e a estados, e desejei ver as pessoas para quem esses serviços foram oferecidos. Diante da pergunta eles me disseram "que os seus nomes não constavam de nenhum registro, com exceção de alguns deles, de quem a história tem apresentado como os malandros e traidores mais abjetos." Todos eles tinham o aspecto de depressivos, e estavam miseravelmente apresentados, e a maioria deles me dizia, "que haviam morrido na pobreza e na miséria, e os demais no patíbulo ou na forca."
Alexandre foi chamado para que viesse até o local onde nos estávamos: foi com grande dificuldade que entendi o grego que ele falava, porque eram parcos os meus conhecimentos dessa língua. Ele me garantiu pela sua honra “de que não havia sido envenenado, mas que morrera por causa de uma febre insidiosa que se instalara por ter bebido demais.”
 
Dentre outros, havia uma pessoa, cujo caso me pareceu um pouco incomum. Estava acompanhado de um jovem que estava do lado dele e que tinha aproximadamente dezoito anos de idade. Ele me contou que, "durante muitos anos tinha sido comandante de um navio, e que na <font color=green>'''Batalha naval do Áccio'''</font color=green><ref><font color=green>'''Batalha de Áccio'''<font color=black>: ocorrida em 2 de setembro do ano 31 a.C., perto de Actium, na Grécia. Vitória decisiva de Otaviano (futuro imperador Augusto) sobre Marco Antonio.</ref> ele tivera muita sorte de romper a grande linha de combate do inimigo, afundara três de seus navios mais importantes, e apreendera um quarto, o qual tinha sido a única razão para a fuga de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Ant%C3%B3nio '''Marco Antonio''']</font color=green>, e da conquista da vitória; e que o jovem que estava ao seu lado, e que era seu único filho, havia sido morto em combate."
Em seguida, eu vi Aníbal atravessando os Alpes, e que me disse “não haver uma gota de vinagre no seu acampamento.” E vi César e Pompeu comandando suas tropas, prontos para um combate. Vi César em seu grande e último triunfo. Desejei que o senado de Roma aparecesse diante de mim, em uma sala grande, e uma assembléia de uma época um pouco posterior, para efeito de comparação, numa outra sala. A primeira parecia ser uma assembleia de heróis e semideuses; a outra, um bando de mendigos, batedores de carteiras, salteadores de estrada, e de valentões.
 
Acrescentou ele, "devido à confiança que depositava em seu caráter, que a guerra havia acabado, e tendo ele tomado o caminho de Roma, solicitou à corte de Augusto para que um grande navio fosse colocado sob seu comando, cujo comandante havia sido morto, mas, com todo o desrespeito às suas pretensões, o posto foi oferecido a um garoto, o qual jamais havia visto o mar, era filho de Libertina, que era dama de companhia de uma das amantes do imperador. Ao retornar para sua embarcação, foi acusado de negligência do dever, e o navio foi posto sob o comando do escudeiro favorito de Publicola, o vice-almirante; diante disso, ele se retirou para um pequeno sítio que ficava a uma considerável distância de Roma, e ali viveu até o fim de seus dias." Eu estava tão curioso para conhecer a verdade sobre esta história, que eu pedi para que <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Vips%C3%A2nio_Agripa '''Agrippa''']</font color=green> fosse evocado, porque ele havia sido almirante naquele combate. Ele compareceu, e confirmou toda a história: porém com detalhes muito mais vantajosos para o capitão, cuja modéstia havia atenuado ou ocultado grande parte de seu valor.
O governador, a meu pedido, fez sinal para que César<ref><font color=green>'''Júlio César'''</font>: (* 13 de julho do ano 100 a.C - † 15 de março do ano 44 a.C), foi um imperador, patrício, líder militar e político romano.</ref> e Brutus<ref><font color=green>'''Décimo Júnio Bruto Albino'''</font color=green>, (* 81 a.C - † 43 a.C), filho adotivo de César, foi general e político romano, tendo sido mais tarde um de seus conspiradores e assassinos.</ref> se aproximassem de nós. Fui tomado por um sentimento de profunda veneração diante da visão de Brutus, e pude facilmente perceber as mais evidentes demonstrações de virtude, inaudita coragem e firmeza de espírito, o amor mais sincero pelo seu país, e uma evidente benevolência pela humanidade, em todos os aspectos de sua expressão.
 
Eu fiquei surpreso de ver que a corrupção havia atingido voos tão altos e de maneira tão rápida naquele império, por culpa da imposição dos excessos que haviam sido introduzidos nos últimos tempos, o que me fez me surpreender menos ainda diante de muitos casos paralelos que ocorrem em outros países, onde vícios de toda espécie haviam se multiplicado durante tanto tempo, e onde todo louvor, assim como toda pilhagem, havia sido monopolizada pelo comandante chefe, que talvez não tivesse direito nem a uma coisa, nem a outra.
Observei, com muito prazer, que essas duas pessoas demonstravam boa compreensão uma para com a outra, e César teve a liberdade de me confessar, “que as maiores ações da sua vida não se comparavam, nem de longe, à glória que lhe havia subtraído.” Eu tive a honra de iniciar um diálogo com Brutus, e ele me disse, “que os seus ancestrais, Junius, Sócrates<ref><font color=green>'''Sócrates'''</font color=green> (* 469 a.C - † 399 a.C): foi filósofo grego e mestre de Platão. Não deixou nenhum registro, porém, seus princípios estão de acordo com os atuais conceitos cristãos.</ref>, Epaminondas<ref><font color=green>'''Epaminondas'''</font color=green> (418 a.C - † 362 a.C.) foi general tebano e chefe de estado grego.</ref>; Catão, O Jovem<ref><font color=green>'''Catão, O Jovem'''</font color=green> (* Roma, 95 a.C - † Útica, na atual Tunísia, em abril do ano 46 a.C): foi político, chefe de estado e filósofo romano.</ref>; Sir Thomas More<ref><font color=green>'''Sir Thomas More'''</font color=green>, (* 7 de fevereiro de 1478 - † 6 de julho de 1535), foi santo, bacharel, filósofo e humanista inglês. Foi decapitado por não concordar com o casamento de Henrique VIII.</ref>, e ele próprio estavam sempre juntos: “esse era um sextunvirato<ref><font color=green>'''Sextunvirato'''</font color=green>: governo administrado por seis indivíduos, associação constituída por seis cidadãos, reunindo sobre si toda autoridade.</ref> ao qual todas as épocas do mundo não poderiam acrescentar um sétimo.
 
Como toda pessoa evocada tivesse a mesma aparência que quando vivia no mundo, foi com grande tristeza que observei como a raça humana havia se degenerado nos últimos cem anos; como a varíola, com todas as suas decorrências e denominações havia modificado todos os contornos da expressão de um britânico; como havia reduzido o tamanho dos corpos, contraído os nervos, relaxado os tendões e os músculos, oferecendo uma aparência pálida, e dando à carne um aspecto de flacidez e deformação.
 
Rebaixei-me a ponto de pedir que algum soldado inglês com uma figura do passado fosse convidado a estar presente, outrora tão conhecido por causa da simplicidade de suas maneiras, dieta, ou forma de se vestir, pela sua forma de tratar a justiça, pelo seu espírito de liberdade, pelo valor e pelo amor que devotava ao país. Nem poderia eu ficar totalmente indiferente, ao comparar os vivos com os mortos, quando eu refleti que todas aquelas virtudes puras e simples foram corrompidas pela riqueza de seus netos, os quais, ao venderem seus votos e envolvendo-se com eleições, adquiriram todos aqueles vícios e corrupção de talvez pudessem ser aprendidos na corte.
 
Seria tedioso cansar o leitor com relatos das inúmeras personalidades ilustres que foram evocadas para satisfazer o desejo insaciável que eu tinha de conhecer o mundo em todos os períodos da antiguidade e que foram colocados diante de mim. Mas, sobretudo, enchi os meus olhos na contemplação daqueles destruidores de tiranos e usurpadores, e dos restauradores da liberdade das nações oprimidas e ameaçadas. Porém, é impossível expressar a satisfação que senti dentro de mim, a ponto de tornar as minhas aventuras um passatempo divertido para o leitor.
</div>
== Notas do Tradutor ==
 
Todos os termos em verde ou constantes desta referência não constam da obra original e foram colocadas pelo tradutor para melhor entendimento do texto.
 
<references />
</divfont>
{{capítulos|[[Em Tradução:Viagens de Gulliver/Parte III/VIVII|Parte III, Capítulo VIVII]]|[[Em Tradução:Viagens de Gulliver/Parte III/VIIVIII|Parte III, Capítulo VIIVIII]]|[[Em Tradução:Viagens de Gulliver/Parte III/VIIIIX|Parte III - Capítulo VIIIIX]]}}
[[en:Gulliver's Travels/Part III/Chapter VII]]
[[esen:Los viajes de Gulliver:'s ParteTravels/Part III, Capítulo/Chapter VIIVIII]]
[[es:Los viajes de Gulliver: Parte III, Capítulo VIII]]
[[fr:Les_Voyages_de_Gulliver_:_Voyage_%C3%A0_Laputa,_aux_Balnibarbes,_%C3%A0_Luggnagg,_%C3%A0_Gloubbdoubdrie_et_au_Japon#Chapitre VIIVIII]]
[[pl:Podróże Gulliwera/Część III/Rozdział siódmyósmy]]