Diferenças entre edições de "Viagens de Gulliver/Parte III/VIII"

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Porém o meu desapontamento foi doloroso e inesperado. Porque, no lugar de uma imensa comitiva desfilando diademas reais, vi em uma família dois violinistas, três elegantes cortesãos, e um prelado italiano. Numa outra, um barbeiro, um abade, e dois cardeais. Eu sentia uma veneração muito grande por cabeças coroadas, para permanecer muito tempo com um tema tão fascinante. Porém, com relação aos condes, marqueses, duques, e outras dignidades honoríficas, não tive tantos escrúpulos. E devo confessar, que não foi sem alguns resquícios de prazer, que eu pude rastrear os aspectos particulares, com os quais se notabilizaram determinadas famílias, desde suas origens.
 
Pude descobrir claramente de onde provêm numa família com um queixo pronunciado, porque uma outra era repleta de patifes durante duas gerações, e de tolos por mais duas; porque uma terceira família era constituída por pessoas fracas de cabeça, e uma quarta de criaturas mais perspicazes; sendo decorrente desse fato, o que <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Virgílio '''Polidoro Virgílio''']</font color=green> dizia a respeito de uma certa casa de renome, <font color=blue>NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA</font color=blue><ref><font color=green>'''NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA:'''</font>Expressão em latim que significa: [Esta casa não possui] nem um homem forte, nem uma mulher virtuosa.</font></ref>; o modo como a crueldade, a falsidade, e a covardia, começaram a se tornar as características pelas quais determinadas famílias se distinguiam, bem como pelos seus brasões de armas; quem pela primeira vez trouxe a varíola para uma casa nobre, o que acabou se transformando em tumores escrofulosos para a posteridade. Nem poderia eu ficar surpreso diante de tudo isso, quando eu conheci uma certa interrupção de linhagem de constituída por escudeiros, lacaios, valetes, cocheiros, jogadores, violinistas, atores, capitães e ladrões de carteira.
 
Fiquei, principalmente, decepcionado com a história moderna. Pois, tendo examinado rigorosamente todas as pessoas de maior distinção nas cortes dos príncipes, durante cem anos no passado, descobri como o mundo havia sido mal conduzido por escritores corruptos, que atribuiram as maiores façanhas de guerra, a homens covardes; os conselhos mais sábios, a néscios; a sinceridade, a aduladores; a virtude romana, a traidores de suas pátrias; a piedade, a ateus, a castidade, a sodomitas; a verdade, a espiões: quantas pessoas inocentes e de grande mérito foram condenadas a morte ou ao exílio devido à influência de grandes ministros mediante a corrupção dos juízes, e a maldade de determinadas facções: quantos vilões foram exaltados aos píncaros da verdade, do poder, da dignidade e da vantagem: como era intensa a participação nos movimentos e nos acontecimentos das cortes, conselhos, e senados que foram desafiados por cafetinas, prostitutas, alcoviteiros, parasitas e bufões.
Foi aí que eu descobri a malandragem e a ignorância daqueles que fingem escrever fatos engraçados, ou uma história secreta; que mandaram tantos reis para suas sepulturas com uma taça de veneno; irão repetir o debate entre um príncipe e um primeiro ministro, não havendo nenhuma testemunha por perto; desvendam os pensamentos e os gabinetes de embaixadores e secretários de estado, e possuem o eterno infortúnio de se equivocarem permanentemente. Aqui eu descobri as verdadeiras causas de muitos grandes eventos que causaram assombro para o mundo; como uma prostituta podia governar dos bastidores, os bastidores de um conselho, e o conselho de um senado.
 
Um general confessou, em minha presença, "que ele havia sido vitorioso simplesmente devido à força da covardia e da ausência de comando;" e um almirante, "que, por não dispor de inteligência própria, derrotara o inimigo, cuja frota ele pretendia trair." Três reis reclamaram para mim, "que durante todo o reinado deles jamais tiveram preferência por qualquer pessoa de valor, a menos que por engano, ou deslealdade de algum ministro em quem depositavadepositavam confiança, nem o fariam se tivessem de viver novamente: "e que o trono real não poderia se sustentar sem corrupção, porque o caráter positivo, seguro, e determinado, que a virtude impõe ao homem, era um permanente obstáculo aos negócios públicos."
 
Tive a curiosidade de perguntar, de maneira particular, quais teriam sido os métodos usados por muitos para reivindicarem para si mesmos altos títulos de nobreza, e grandes propriedades; tendo restringido minha pergunta a um período bastante recente: todavia, sem tocar no tempo presente, porque eu queria ter certeza de não ofender nenhum estrangeiro (pois eu espero não seja necessário dizer ao leitor que no mínimo não desejo fazer críticas ao meu país, com os fatos que estou mencionando agora); um número considerável de pessoas foram evocadas, e depois de um exame bastante rápido, descobri uma cena de tamanha infâmia, que não posso refletir sobre ela sem uma certa crítica.
Dentre outros, havia uma pessoa, cujo caso me pareceu um pouco incomum. Estava acompanhado de um jovem que estava do lado dele e que tinha aproximadamente dezoito anos de idade. Ele me contou que, "durante muitos anos tinha sido comandante de um navio, e que na <font color=green>'''Batalha naval do Áccio'''</font color=green><ref><font color=green>'''Batalha de Áccio'''<font color=black>: ocorrida em 2 de setembro do ano 31 a.C., perto de Actium, na Grécia. Vitória decisiva de Otaviano (futuro imperador Augusto) sobre Marco Antonio.</ref> ele tivera muita sorte de romper a grande linha de combate do inimigo, afundara três de seus navios mais importantes, e apreendera um quarto, o qual tinha sido a única razão para a fuga de <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Ant%C3%B3nio '''Marco Antonio''']</font color=green>, e da conquista da vitória; e que o jovem que estava ao seu lado, e que era seu único filho, havia sido morto em combate."
 
Acrescentou ele, "devido à confiança que depositava em seuno caráter do filho, que a guerra havia acabado, e tendo ele tomado o caminho de Roma, solicitou à corte de Augusto para que um grande navio fosse colocado sob seu comando, cujo comandante havia sido morto, mas, com todo o desrespeito às suas pretensões, o posto foi oferecido a um garoto, o qual jamais havia visto o mar, era filho de '''Libertina''', que era dama de companhia de uma das amantes do imperador. Ao retornar para sua embarcação, foi acusado de negligência do dever, e o navio foi posto sob o comando do escudeiro favorito de '''Publicola''', o vice-almirante; diante disso, ele se retirou para um pequeno sítio que ficava a uma considerável distância de Roma, e ali viveu até o fim de seus dias." Eu estava tão curioso para conhecer a verdade sobre esta história, que eu pedi para que <font color=green>[http://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Vips%C3%A2nio_Agripa '''Agrippa''']</font color=green> fosse evocado, porque ele havia sido almirante naquele combate. Ele compareceu, e confirmou toda a história: porém com detalhes muito mais vantajosos para o capitão, cuja modéstia havia atenuado ou ocultado grande parte de seu valor.
 
Eu fiquei surpreso de ver que a corrupção havia atingido voos tão altos e de maneira tão rápida naquele império, por culpa da imposição dos excessos que haviam sido introduzidos nos últimos tempos, o que me fez me surpreender menos ainda diante de muitos casos paralelos que ocorrem em outros países, onde vícios de toda espécie haviam se multiplicado durante tanto tempo, e onde todo louvor, assim como toda pilhagem, havia sido monopolizada pelo comandante chefe, que talvez não tivesse direito nem a uma coisa, nem a outra.
 
Como toda pessoa evocada tivesse a mesma aparência que quando vivia no mundo, foi com grande tristeza que observei como a raça humana havia se degenerado nos últimos cem anos; como a varíola, com todas as suas decorrências e denominações, havia modificado todos os contornos da expressão de um britânico; como havia reduzido o tamanho dos corpos, contraído os nervos, relaxado os tendões e os músculos, oferecendo uma aparência pálida, e dando à carne um aspecto de flacidez e deformação.
 
Rebaixei-me a ponto de pedir que algum soldado inglês com uma figura do passado fosse convidado a estar presente, outrora tão conhecido por causa da simplicidade de suas maneiras, dieta, ou forma de se vestir, pela sua forma de tratar a justiça, pelo seu espírito de liberdade, pelo valor e pelo amor que devotava ao país. Nem poderia eu ficar totalmente indiferente, ao comparar os vivos com os mortos, quando eu refleti que todas aquelas virtudes puras e simples foram corrompidas pela riqueza de seus netos, os quais, ao venderem seus votos e envolvendo-se comem eleições, adquiriram todos aqueles vícios e corrupção de talvez pudessem ser aprendidos na corte.
 
== Notas do Tradutor ==