Diferenças entre edições de "Viagens de Gulliver/Parte II/VI"

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<div class="prose"><div style="text-align:justify">[[File:Viagens de Gulliver 040.jpg|thumb|500px|right|<center>'''Viagens de Gulliver<br>ilustração de Thomas M. Balliet'''</center>]]
''[Várias ideias do autor para agradar ao rei e à rainha. Ele mostra sua habilidade para a música. O rei quer saber mais sobre o estado da Europa, e o autor faz um relato para ele. As observações do rei a esse respeito.]''
 
 
O rei, que adorava música, oferecia frequentes concertos na corte, nos quais eu algumas vezes era levado, e colocado dentro da minha caixa em cima da mesa para ouví-las: mas o barulho era tão alto que eu dificilmente conseguia diferenciar os sons. Tenho a certeza de que todos os tambores e trombetas do exército real, rufando e soando juntos perto de seus ouvidos, não conseguiriam se igualar a esse ruído. O meu hábito era manter a minha caixa toda afastada quanto possível do lugar onde os músicos se sentavam, depois fechava as portas e janelas, baixava as cortinas das janelas, somente assim conseguia achar a música menos desagradável.
[[File:Viagens de Gulliver 041.jpg|thumb|500px|left|<center>'''Viagens de Gulliver<br>ilustração de Thomas M. Balliet'''</center>]]
 
Quando era jovem, eu havia aprendido a tocar um pouco de espineta<ref><font color=green>“'Espineta”'</font>: Antigo instrumento de cordas, com teclas, anterior ao cravo.</ref>. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto, e um professor vinha duas vezes por semana para lhe ensinar: eu chamo esse instrumento de espineta, porque ele de certa forma se parece com aquele instrumento, e era tocado da mesma maneira. Uma ideia veio na minha cabeça, que eu deveria entreter o rei e a rainha com uma melodia inglesa tocada nesse instrumento.
 
 
Imagine, gentil leitor, quantas vezes desejei eu ter a oratória de [[:w:Demóstenes|'''Demóstenes''']] ou de [[:w:Cícero|'''Cícero''']], que me possibilitasse louvar minha querida terra natal em um estilo a altura do seu mérito e da sua felicidade.
[[File:Viagens de Gulliver 042.jpg|thumb|500px|right|<center>'''Meu pequeno Grildrig,<br>você fez o mais admirável panegírico do seu país<br>ilustração de Thomas M. Balliet'''</center>]]
 
Comecei meu discurso informando sua majestade, que nossos domínios eram constituídos por duas ilhas, as quais eram compostas por três reinos poderosos, sob o domínio de um único soberano, além de nossas plantações na América. Durante muito tempo dediquei-me à fertilidade do solo, e a verificação da temperatura do nosso clima. Falei depois amplamente sobre a constituição do parlamento inglês, constituído parcialmente por um quadro de pessoas ilustres chamado de “Casa dos Pares”, pessoas do sangue mais nobre, e com os maiores patrimônios e os mais antigos. Relatei que cuidados extremos eram tomados com a educação das artes e das armas, de modo a qualificá-los como conselheiros tanto do rei como do reino, para ter participação na legislatura, para serem membros da mais alta corte do judiciário, do qual não poderia haver apelação, e para serem campeões sempre dispostos a defender o príncipe e o país, com seu valor, conduta e fidelidade.
 
Sua majestade, num outro encontro particular, fez o maior esforço para recapitular a essência de tudo quanto lhe apresentara; comparou as perguntas que fez com as respostas que eu havia dado, e depois, pegando-me em suas mãos, e batendo suavemente em minhas costas, proferiu as seguintes palavras, as quais jamais esquecerei, nem a maneira como as pronunciou: que foram:
 
<font color=green>“Meu pequeno Grildrig, você fez o mais admirável panegírico<ref><font color=green>“'Panegírico”':</font> discurso em louvor de alguém, elogio, laudatório.</ref> do seu país,</font color=green> você mostrou claramente que a ignorância, a ociosidade e o vício, são os ingredientes próprios para a qualificação de um legislador, e que as leis são melhores explicadas, interpretadas, e aplicadas, por aqueles cujo interesse e habilidades residem na perversão, confusão e fuga de suas atribuições”.
 
Eu observo entre os seus, alguns aspectos de uma instituição, a qual, em seus fundamentos, poderia ter sido tolerável, porém esses aspectos se diluiram, e o restante ficou manchado e obscurecido por causa da corrupção.