Diferenças entre edições de "Diário Íntimo (Lima Barreto)"

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"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça; porque serão satisfeitos."
:—''Evangelho de São Mateus''. Cap. 5, v. 6.
 
<nowiki> “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça; porque serão satisfeitos.”
Evangelho de São Mateus. Cap. 5, v. 6.
 
“—"— Pues ¿de qué suerte los piensas honrar? — preguntó el caballero.
:Con mis estudios — respondió el muchacho —, siendo famoso por ellos;
:porque yo he oído decir que de los hombres se hacen los obispos."
El:—El licenciado Vídriera , Cervantes.
 
1900
==Capítulo I==
2 de julho
A antipatia do Largo de São Francisco fica mais acentuada nas primeiras horas da manhã, dos dias de verão. O Sol o cobre inteiramente e se espadana por ele todo com a violência de um flagelo. Pelo ar, a poeira forma uma película vítrea que fulgura ao olhar, e do solo, com o revérbero, sobe um bafio de forja que oprime os transeuntes. Não há por toda a praça uma nesga de sombra, e as pessoas que saltam dos bondes, caminham apressadamente para a doçura amiga da Rua do Ouvidor. Vão
Quando comecei a escrever este,
angustiadas, e opressas, parecendo tangidas por ocultos carrascos impiedosos. Os negros chapéus-desol dos homens e as pintalgadas sombrinhas das senhoras, ao balanço da marcha, sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondulações de um curso d’água. São como flores, grandes flores, nenúfares e ninféias, estranhas e caprichosas, que recurvassem as imensas pétalas ao Sol causticante das nove horas da manhã. A superfície lisa da fachada da Politécnica é o espelho, onde se refletem e concentram os raios do sol que quer o Largo vazio; e o trânsito se faz para e da Rua do Ouvidor, segundo dois recurvados filetes que terminam num e noutro lado daquela fachada. À violência do Sol nada resiste. O granito da portaria da igreja de São Francisco parece estalar. Os tílburis em fileira ao centro da praça rebrilham como ágatas e as suas pilecas, a aquele calor, dormem resignadamente. De quando em quando, por entre a fileira dos tílburis, um rapazola atravessa e lépido sobe as escadas da
uma “esperança” pousou.
Escola Politécnica. São os únicos transeuntes que se lançam pela praça corajosamente. As aulas começam às dez horas e eles vêm vindo meia hora antes, em pleno suplício. No começo do ano é bom de ver o pátio central por essa hora. Os novos e os velhos, os crônicos e os distintos, encontram-se e põem-se a esgrimir espiritualmente, procurando cada qual dizer as mais maravilhosas coisas. Alunos há que só aparecem na Escola durante o primeiro mês; depois, vão-se e só voltam pelo começo do ano seguinte,
CAPITULO 1
para conversar, discutir e “trepar”. “Trepar” é um dos prazeres mais estimados entre os rapazes. Guardase, até, a tradição dos bons “trepadores”.
A antipatia do Largo de São Francisco fica mais acentuada nas primeiras horas da
 
manhã, dos dias de verão. O Sol o cobre inteiramente e se espadana por ele todo com a violência
— Você não conheceu o Bolsel, Costa?
de um flagelo. Pelo ar, a poeira forma uma película vítrea que fulgura ao olhar, e do solo, com o
 
revérbero, sobe um bafio de forja que oprime os transeuntes. Não há por toda a praça uma nesga
— Como não? Muito!
de sombra, e as pessoas que saltam dos bondes, caminham apressadamente para a doçura amiga
 
da Rua do Ouvidor. Vão angustiadas, e opressas, parecendo tangidas por ocultos carrascos
— Que trepador, hein?
impiedosos. Os negros chapéus-de-sol dos homens e as pintalgadas sombrinhas das senhoras, ao
 
balanço da marcha, sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondulações de um curso
— Chi! Era feroz.
d’água. São como flores, grandes flores, nenúfares e ninféias, estranhas e caprichosas, que
 
recurvassem as imensas pétalas ao Sol causticante das nove horas da manhã. A superfície lisa da
E os novatos arregalam muito os olhos e ficam em segredo desejando mais aquela glória do que os prêmios burocráticos que o regulamento promete.
fachada da Politécnica é o espelho, onde se refletem e concentram os raios do sol que quer o
 
Largo vazio; e o trânsito se faz para e da Rua do Ouvidor, segundo dois recurvados filetes que
“Trepar” é uma variante da maledicência nacional; mas enquanto esta, em geral, traduza sempre uma pontinha de ódio latente, a “trepação” se faz sem razão e sem causa. É um prazer, uma ginástica intelectual, uma satisfação do espírito, unicamente exigida pelo feitio mental dos rapazes e nunca provocada por qualquer ato da vítima. “Trepa-se” à toa, nos amigos, nos inimigos, nos indiferentes, nos vivos e nos mortos, em tudo e em todos.
terminam num e noutro lado daquela fachada. À violência do Sol nada resiste. O granito da
 
portaria da igreja de São Francisco parece estalar. Os tílburis em fileira ao centro da praça
Nos primeiros dias do ano letivo é que a trepação recrudesce. As reprovações, as desilusões nos exames e, sobretudo, a inocente vaidade dos antigos, em aparecer sobre-humanos aos novos, desenvolvem o humor agressivo dos rapazes.
rebrilham como ágatas e as suas pilecas, a aquele calor, dormem resignadamente. De quando em
 
quando, por entre a fileira dos tílburis, um rapazola atravessa e lépido sobe as escadas da Escola
— Que tal o visconde, hein?
Politécnica. São os únicos transeuntes que se lançam pela praça corajosamente. As aulas
 
começam às dez horas e eles vêm vindo meia hora antes, em pleno suplício. No começo do ano é
— ? ?
bom de ver o pátio central por essa hora. Os novos e os velhos, os crônicos e os distintos,
 
encontram-se e põem-se a esgrimir espiritualmente, procurando cada qual dizer as mais
— Vai publicar uma nova edição da Geodésia...
maravilhosas coisas. Alunos há que só aparecem na E cola durante o primeiro mês; depois, vão-
 
s
— É certo?
se e só voltam pelo começo do ano seguinte, para conversar, discutir e “trepar”. “Trepar” é um
 
dos prazeres mais estimados entre os rapazes. Guarda-se, até, a tradição dos bons “trepadores”.
— É; mas tirou aquele pedacinho — “em terras como a nossa onde não há palmeiras”...
— Você não conheceu o Bolsel, Costa?
 
— Como não? Muito!
— Em compensação, indaga um outro, continuará a aconselhar que os burros não podem carregar os instrumentos de precisão, pois lhes falta delicadeza para isso?
— Que trepador, hein?
 
— Chi! Era feroz.
A roda ri-se muito e um outro conta que o Santiago, o lente de Canais, não se “aperta”. Começa em Canais, continua por Cinemática, põe Geodésia, mistura Máquinas e acaba em Canais. É um gênio!
E os novatos arregalam muito os olhos e ficam em segredo desejando mais aquela glória
 
do que os prêmios burocráticos que o regulamento promete.
De repente, a trepação, que ia viva, descamba para a ópera italiana. A conversa se generaliza e todos se possuem de paixão. Não há que admirar: a ópera lírica é a mais alta expressão da estesia dos nossos estudantes; no meio do ano, pela quadra própria, ela os absorve completamente. Fora da ópera, mesmo na música, para a sensibilidade deles não há arte...
“Trepar” é uma variante da maledicência nacional; mas enquanto esta, em geral, traduza sempre uma
 
pontinha de ódio latente, a “trepação” se faz sem razão e sem causa. É um prazer, uma ginástica intelectual, uma
Há ocasiões, porém, que a conversa passa da “trepação” e do “lírico”, para as questões de metafísica matemática. Toda a gente é iniciada nela. Há questões gerais que acirram as inteligências de todos; outras há, contudo, que só interessam os alunos de um dado ano e de uma certa cadeira. A questão se “du” pode ser substituído por “su” pertence à cadeira de Mecânica, mas os problemas das geometrias agita toda a Escola. Os paradoxais (sempre os há entre rapazes) deixam se arrastar pelo vôo doirado da segunda verdade; e gostam de levar, à candura dos positivistas, dúvidas sobre a existência de uma única geometria. Discutem a questão do espaço, uma forma subjetiva da nossa intuição, independente de toda e qualquer experiência, misturam a convenção dos postulados; e, com um esforço de filosofar risível, concluem que é uma ciência apriorística, e o mundo bastante plástico, para se curvar a qualquer uma e a todas que se queira inventar
satisfação do espírito, unicamente exigida pelo feitio mental dos rapazes e nunca provocada por qualquer ato da
 
vítima. “Trepa-se” à toa, nos amigos, nos inimigos, nos indiferentes, nos vivos e nos mortos, em tudo e em todos.
Os positivistas são inflexíveis. Contrapõem, à dialética dos metafísicos, algumas fórmulas esotéricas da doutrina, e declamam contra a anarquia mental e os sofistas anti-sociais. Há porém os euclidianos ortodoxos, positivistas ou não, que, por vezes, se opõem com vantagem aos paradoxais impetuosos.
Nos primeiros dias do ano letivo é que a trepação recrudesce. As reprovações, as
 
desilusões nos exames e, sobretudo, a inocente vaidade dos antigos, em aparecer sobre-humanos
Quando se contempla — iluminados pelo Sol vitorioso de março, que esbraseia as telhas do edifício e vem dar, aos descorados arbustos do jardinzito do pátio, um beijo escaldante de vida — quando se contempla aquela porção de rapazes, cujas inteligências moças ainda, no indivíduo e na raça, agitam-se tumultuáriamente ao influxo da filosofia européia, surge-nos aquela quadra espiritual da Europa pelo XII século, quando chegou às suas universidades a Enciclopédia de Aristóteles traduzida. As palavras com que Taine nos dá esse quadro remoto, poderiam ser empregadas para descrever este contemporâneo. É com a mesma sofreguidão, é com a mesma teima sombria, é com o mesmo tropel bárbaro que aqueles moços invadem, tomam de assalto, e varam as muralhas das difíceis abstrações e das fugitivas filigranas da metafísica européia. Talvez, como no XII século, daquele trabalho encarniçado, nenhuma idéia nova se venha juntar ao patrimônio humano.
aos novos, desenvolvem o humor agressivo dos rapazes.
 
— Que tal o visconde, hein?
Será, quiçá, um obscuro trabalho de disciplina mental, a que a raça infante se impõe para aproveitar quando adulta.
—??
 
— Vai publicar uma nova edição da Geodésia...
No começo desse ano, pelo meado de março, ainda funcionavam algumas mesas de exames; as aulas, contudo, já estavam abertas e seguiam o trilho do horário. Como no início dos anos anteriores, os bancos do pátio estiveram povoados até às dez horas, tempo em que a maioria retirara-se para assistir as preleções. Um grupo pequeno ficara. Conheciam já a matéria das primeiras aulas — para que ir?
— É certo?
 
— É; mas tirou aquele pedacinho — “em terras como a nossa onde não há palmeiras”...
Fernando Amoreira, que estava em estado de graça — como ele dizia — durante a manhã toda, continuava a expandir a sua verve. Sob o olhar desdenhoso de Osvaldo Litichart de Guimarães, rapaz do Norte, que na prosápia contava como antecedente um general holandês do tempo da ocupação, Fernando Amoreira discorria desembaraçadamente, de pé, com a mão esquerda no bolso da calça e a direita agitando o cigarro aceso. Osvaldo quase não sorria, a roda, porém, ria-se a bom rir das coisas do Fernando. O seu temperamento singular fazia as delícias dos colegas. Nada o alterava, nem mesmo as reprovações. Ria-se sempre dos acontecimentos e imaginava uma teoria risonha para justificá-los. Ninguém como ele seguia as nuances de uma idéia, ninguém como ele buscava com tanto afinco a contradição entre duas opiniões respeitáveis; por isso, quando lhe caiu em mãos aquele sutil livro de Poincaré, ''La Science et 1’ Hypothés'', todo ele vibrou satisfeito, ébrio de contentamento — podia duvidar também da geometria! Era um espírito livre e solto, desapegado de todas as certezas, inclusive a científica. Para nós, era uma espécie de Chamfort, de Rivarol; para outros, um palhaço com uma graça difícil e meditada. Seu prazer era conversar. Vivia a palestrar, durante o dia, nos corredores da Escola; à tarde, nos cafés
— Em compensação, indaga um outro, continuará a aconselhar que os burros não podem
 
carregar os instrumentos de precisão, pois lhes falta delicadeza para isso?
— Hoje, tive uma idéia.
A roda ri-se muito e um outro conta q e o Santiago, o lente de Canais, não se “aperta”.
 
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— Qual foi, Fernando?
Começa em Canais, continua por Cinemática, põe Geodésia, mistura Máquinas e acaba em
 
Canais. É um gênio!
Se as coisas continuam nesse caminho, respondeu ele indiretamente, dentro de dois séculos o estudo da geometria terá alguma coisa de parecido com a compra de fitas.
De repente, a trepação, que ia viva, descamba para a ópera italiana. A conversa se generaliza e todos se
 
possuem de paixão. Não há que admirar: a ópera lírica é a mais alta expressão da estesia dos nossos estudantes; no
— Como?
meio do ano, pela quadra própria, ela os absorve completamente. Fora da ópera, mesmo na música, para a
 
sensibilidade deles não há arte...
— Eu explico. Você quer comprar fitas e vai à casa de armarinho. O caixeiro pergunta: “De que quer, de seda, de gorgorão, ou... ?” Você responde: “De chamalote”. “De que cor?” “Azul”, responderá você. Dentro de dois séculos, o pai leva o filho ao professor de geometria. Este pergunta a aquele: “Que espécie de geometria quer que eu ensine? A euclidiana, a russa, a de Riemann...?” O pai pensa um pouco e diz: “A melhor”. “Todas são boas”, retruca o professor, “pois todas são certas”. “Então ensine ao menino a russa, deve ser mais esquisita”. Eis aí.
Há ocasiões, porém, que a conversa passa da “trepação” e do “lírico”, para as questões de
 
metafísica matemática. Toda a gente é iniciada nela. Há questões gerais que acirram as
Houve um sorriso fino no grupo. O Fernando, muito contente, tirou uma longa fumaça do cigarro,
inteligências de todos; outras há, contudo, que só interessam os alunos de um dado ano e de uma
andou até ao gradil e olhou a praça em frente e exclamou:
certa cadeira. A questão se “du” pode ser substituído por “su” pertence à cadeira de Mecânica,
 
mas os problemas das geometrias agita toda a Escola. Os paradoxais (sempre os há entre rapazes)
— Lá vem o Brandão, o Spinosa...
deixam se arrastar pelo vôo doirado da segunda verdade; e gostam de levar, à candura dos
— O príncipe negro, fêz um.
positivistas, dúvidas sobre a existência de uma única geometria. Discutem a questão do espaço,
 
uma forma subjetiva da nossa intuição, independente de toda e qualquer experiência, misturam a
O riso, provocado pela última pilhéria do Fernando, não se interrompera de todo e recrudesceu a aquele epigrama do Sodré. Litichart, que até ali estivera calado, resolveu-se a falar.
convenção dos postulados; e, com um esforço de filosofar risível, concluem que é uma ciência
 
apriorística, e o mundo bastante plástico, para se curvar a qualquer uma e a todas que se queira
— Porque vocês não gostam do Tito?
inventar.
 
Os positivistas são inflexíveis. Contrapõem, à dialética dos metafísicos, algumas
— Não, eu gosto muito dele. É inteligente, honesto, respondeu o Fernando.
fórmulas esotéricas da doutrina, e declamam contra a anarquia mental e os sofistas anti-sociais.
 
Há porém os euclidianos ortodoxos, positivistas ou não, que, por vezes, se opõem com vantagem
— Com franqueza, acho-o muito orgulhoso, respondeu o Sodré, que lançara o epigrama.
aos paradoxais impetuosos.
 
Quando se contempla — iluminados pelo Sol vitorioso de março, que esbraseia as telhas
— Que tem isso, Sodré? O seu orgulho é a força motriz de sua máquina viva... É a sua arma de defesa contra o mundo que lhe é hostil... É o escudo que o defende... É o impulso que o fará ir para frente e para cima...
do edifício e vem dar, aos descorados arbustos do jardinzito do pátio, um beijo escaldante de
 
vida — quando se contempla aquela porção de rapazes, cujas inteligências moças ainda, no
Osvaldo dissera aquelas palavras ardentemente, sem refletir, e nelas acentuara tanta paixão, que parecia que se defendia e não ao amigo.
indivíduo e na raça, agitam-se tumultuáriamente ao influxo da filosofia européia, surge-nos
 
aquela quadra espiritual da Europa pelo XII século, quando chegou às suas universidades a
— Mas podemos levar a vida pelos meios comuns.
Enciclopédia de Aristóteles traduzida. As palavras com que Taine nos dá esse quadro remoto,
 
poderiam ser empregadas para descrever este contemporâneo. É com a mesma sofreguidão, é
— Qual, Sodré, depende de onde se parta, quer se ir e onde se quer chegar.
com a mesma teima sombria, é com o mesmo tropel bárbaro que aqueles moços invadem, tomam
 
de assalto, e varam as muralhas das difíceis abstrações e das fugitivas filigranas da metafísica
— O orgulho é um pendor egoísta, sentenciou um positivista. O aperfeiçoamento moral tem por fim reprimir os nossos pendores egoístas.
européia. Talvez, como no XII século, daquele trabalho encarniçado, nenhuma idéia nova se
 
venha juntar ao patrimônio humano.
Tito Brandão entrava. Cortejou polidamente a todos, sentou-se e o Fernando ex aperto lhe indagou:
Será, quiçá, um obscuro trabalho de disciplina mental, a que a raça infante se impõe para
 
aproveitar quando adulta.
— Como se deve levar a vida, Brandão?
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No começo desse ano, pelo meado de março, ainda funcionavam algumas mesas de
— Como quem quer subir aos céus... A vida é uma escalada de Titã.
exames; as aulas, contudo, já estavam abertas e seguiam o trilho do horário. Como no início dos
 
anos anteriores, os bancos do pátio estiveram povoados até às dez horas, tempo em que a maioria
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retirara-se para assistir as preleções. Um grupo pequeno ficara. Conheciam já a matéria das
==1903==
primeiras aulas — para que ir?
 
Fernando Amoreira, que estava em estado de graça — como ele dizia — durante a manhã
'''Um Diário Extravagante'''
toda, continuava a expandir a sua verve. Sob o olhar desdenhoso de Osvaldo Litichart de
 
Guimarães, rapaz do Norte, que na prosápia contava como antecedente um general holandês do
Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a ''História da Escravidão Negra no Brasil'' e sua influência na nossa nacionalidade.
tempo da ocupação, Fernando Amoreira discorria desembaraçadamente, de pé, com a mão
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esquerda no bolso da calça e a direita agitando o cigarro aceso. Osvaldo quase não sorria, a roda,
Nasci em segunda-feira, 13-5-81.
porém, ria-se a bom rir das coisas do Fernando. O seu temperamento s ngular fazia as delícias i
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dos colegas. Nada o alterava, nem mesmo as reprovações. Ria-se sempre dos acontecimentos e
O meu decálogo:
imaginava uma teoria risonha para justificá-los. Ninguém como ele seguia as nuances de uma
# — Não ser mais aluno da Escola Politécnica.
idéia, ninguém como ele buscava com tanto afinco a contradição entre duas opiniões
# — Não beber excesso de coisa alguma.
respeitáveis; por isso, quando lhe caiu em mãos aquele sutil livro de Poincaré, La Science et 1’
# — E...
Hypothése, todo ele vibrou satisfeito, ébrio de contentamento — podia duvidar também da
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geometria! Era um espírito livre e solto, desapegado de todas as certezas, inclusive a científica.
:;Dia 12 de junho de 1903.
Para nós, era uma espécie de Chamfort, de Rivarol; para outros, um palhaço com uma graça
 
difícil e meditada. Seu prazer era conversar. Vivia a palestrar, durante o dia, nos corredores da
Acordei-me da enxerga em que durmo e difícil foi recordar-me que há três dias não comia carne. Li jornais e lá fui para a sala dar as aulas, cujo pagamento tem sido para mim sempre uma hipótese. Tomei café. Escrevi o memorial para o Serrado. Não o achou bom e eu sou da opinião dele.
Escola; à tarde, nos cafés.
 
— Hoje, tive uma idéia.
Continuo a pensar onde devo comer. Há chance de ser com o Ferraz. Ah! Santo Deus, se depois disso não vier um futuro de glória, de que me serve viver? Se, depois de percorrido esse martirológio, eu não puder ser mais alguma coisa do que o idiota Rocha Faria — antes morrer.
— Qual foi, Fernando?
 
Se as coisas continuam nesse caminho, respondeu ele indiretamente, dentro de dois
E os dez mil-réis! Idiota.
séculos o estudo da geometria terá alguma coisa de parecido com a compra de fitas.
 
Como?
Noite. Ainda não jantei. Às seis horas, com um tostão, comi uma empada. Que delícia! Ah! se o futuro...
— Eu explico. Você quer comprar fitas e vai à casa de armarinho. O caixeiro pergunta:
 
“De que quer, de seda, de gorgorão, ou... . ?” Você responde: “De chamalote”. “De que cor?”
E os dez mil-réis do tal visconde! Idiota.
“Azul”, responderá você. Dentro de dois séculos, o pai leva o filho ao professor de geometria.
 
Este pergunta a aquele: “Que espécie de geometria quer que eu ensine? A euclidiana, a russa, a
Os protetores são os piores tiranos.
de Riemann...?” O pai pensa um pouco e diz: “A melhor”. “Todas são boas”, retruca o professor,
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“pois todas são certas”. “Então ensine ao menino a russa, deve ser mais esquisita”. Eis aí.
;Dia 12.
Houve um sorriso fino no grupo. O Fernando, muito contente, tirou uma longa fumaça do
Na eleição. Que bobo é o Everardo; pois não é que ele deixou perceber que exigia do diretório aquele ofício, para disfarçar a sua nula influência junto aos estudantes.
cigarro, andou até ao gradil e olhou a praça em frente e exclamou:
 
— Lá vem o Brandão, o Spinosa...
E o Ribeiro? Presidente! Hein? Quem o diria!
— O príncipe negro, fêz um.
 
O riso, provocado pela última pilhéria do Fernando, não se interrompera de todo e
E o Carneiro? Distinguiu-se: nem votou.
recrudesceu a aquele epigrama do Sodré. Litichart, que até ali estivera calado, resolveu-se a falar.
 
— Porque vocês não gostam do Tito?
Todos que somos apegados àquilo e eu... que besta sou! Enfim, o Orlando inda o é maior. Bem, está dito.
— Não, eu gosto muito dele. É inteligente, honesto, respondeu o Fernando.
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
— Com franqueza, acho-o muito orgulhoso, respondeu o Sodré, que lançara o epigrama.
Ainda e sempre: sem dinheiro.
— Que tem isso, Sodré? O seu orgulho é a força motriz de sua máquina viva... É a sua
 
arma de defesa contra o mundo que lhe é hostil... É o escudo que o defende... É o impulso que o
Moses furibundo, Justo idem. Levi no centro trabalha para paz. Ribeiro furioso. Tudo em guerra!
fará ir para frente e para cima...
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
Osvaldo dissera aquelas palavras ardentemente, sem refletir, e nelas acentuara tanta
O meu concurso. Lá o fiz. Fui de prova em prova num crescendo medonho... como eu sei, hein!
paixão, que parecia que se defendia e não ao amigo.
E o nomeado foi o Milanes! Com certeza, o bom-bocado não é para quem o faz e sim para quem o
— Mas podemos levar a vida pelos meios comuns.
come.
— Qual, Sodré, depende de onde se parta, quer se ir e onde se quer chegar.
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
— O orgulho é um pendor egoísta, sentenciou um positivista. O aperfeiçoamento moral
O Moses diz que os auxílios dos outros são platônicos
tem por fim reprimir os nossos pendores egoístas.
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
Tito Brandão entrava. Cortejou polidamente a todos, sentou-se e o Fernando ex aperto
Aflar — ação do vento contra as folhas — José de Alencar. Palejar — empregado por esse mesmo escritor no sentido da luz a lançar reflexos ou ondulações, tornando uma fronte pálida. Exale, adjetivo, do mesmo autor. Gárceo — de garça, à laia de garça — perfil gárceo José de Alencar. Elance — eflúvio — elance de ternura. Rubescência — gradação da cor que se vai ascendendo às faces até chegar rubor.
lhe indagou:
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
— Como se deve levar a vida, Brandão?
O Sol ia alto e, pelas encostas do serro, o verde, sob aquela luz, variava de tons; aqui, esmeralda; ali, musgo; e todos, num coro, se confundiam num só, multivirescendo, irisado de azul.
— Como quem quer subir aos céus... A vida é uma escalada de Titã.
<div style="width:100%;text-align:center">'''• • •'''</div>
***
;Sem data
1903
“No esforço voluntário, a reflexão interior se apercebe de um ‘eu’ que quer e de um ‘não-eu’ que resiste.” Maine de Biran.
Um Diário Extravagante
 
Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo
Curso de filosofia feito por Afonso Henriques de Lima Barreto para Afonso Henriques de Lima Barreto, segundo artigos da ''Grande Encyclopédie Française du Siécle XIXéme'', outros dicionários e livros fáceis de se obter.
de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a
 
História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade.
O curso será feito segundo a história do pensamento filosófico, devendo cada época ser representada pela opinião dos seus mais notáveis filósofos. Na passagem de uma época para outra, constituirá o grande objetivo do curso estabelecer a ligação dos dois pensamentos, as suas modificações e o que se eliminou de um e porque essa eliminação foi feita, assim como as reações da ciência e da arte. Dessa maneira, o curso será dividido em quatro partes:
***
 
Nasci em segunda-feira, 13-5-81.
1 ) Filosofia em geral. Modo antigo de entendê-la e modo moderno de encará-la. Definição.
***
Divisões. Lógica. Metafísica. Teodicéia. Filosofias particulares das ciências e das artes. O lugar que
O meu decálogo:
lhes compete. Fim da filosofia. Utilidade (2 lições).
1 — Não ser mais aluno da Escola Politécnica.
 
2 — Não beber excesso de coisa alguma.
2 ) Filosofia antiga.
3 — E...
 
***
:a) Filosofia grega (3 lições);
Dia 12 de junho de 1903.
:b) Filosofia alexandrina (2 lições);
Acordei-me da enxerga em que durmo e difícil foi recordar-me que há três dias não
:c) Filosofia romana (2 lições);
comia carne. Li jornais e lá fui para a sala dar as aulas, cujo pagamento tem sido para mim
:d) Pensamento antigo.
sempre uma hipótese. Tomei café. Escrevi o memorial para o Serrado. Não o achou bom e eu sou
 
da opinião dele.
3 ) Filosofia na Idade Média. Filosofia árabe. Escolástica.
Continuo a pensar onde devo comer. Há chance de ser com o Ferraz. Ah! Santo Deus, se
Pensamento medievo (4 lições).
depois disso não vier um futuro de glória, de que me serve viver? Se, depois de percorrido esse
 
martirológio, eu não puder ser mais alguma coisa do que o idiota Rocha Faria — antes morrer.
4 ) Filosofia moderna. Escolas Filosofias (5 lições).
E os dez mil-réis! Idiota.
 
Noite. Ainda não jantei. Às seis horas, com um tostão, comi uma empada. Que delícia!
5 ) Filosofia contemporânea. Sociologia. Estudo de raças. Teorias (4 lições).
Ah! se o futuro...
Pensamento atual (1 lição).
E os dez mil-réis do tal visconde! Idiota.
 
Os protetores são os piores tiranos.
6 ) Filosofia chinesa (1 lição).
***
 
Dia 12.
7 ) Filosofia hindu (1 lição).
Na eleição. Que bobo é o Everardo; pois não é que ele deixou perceber que exigia do
 
diretório aquele ofício, para disfarçar a sua nula influência junto aos estudantes.
8 ) Religiões. Crenças religiosas. Animismo. Fetichismo. Politeísmo e monoteísmo.
E o Ribeiro? Presidente! Hein? Quem o diria!
Panteísmo e materialismo ( 3 lições )
E o Carneiro? Distinguiu-se: nem votou.
 
Todos que somos apegados àquilo e eu... que besta sou! Enfim, o Orlando inda o é
Programa.
maior. Bem, está dito.
:1a Parte.
***
 
Ainda e sempre: sem dinheiro.
objeto da Filosofia (I e II). III — Método. IV —Definição e divisões. Psicologia. Lógica.
Moses furibundo, Justo idem. Levi no centro trabalha para paz. Rbeiro furioso. Tudo
Teodicéia. Moral. Metafísica e Estética. Modos de encará-la; contribuições diversas do socialismo (estudos sociais), donde modificação de sua significação primitiva.
i
 
em guerra!
O resto se fará pelo programa do antigo Colégio Pedro II (está no Paul Janet).
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O meu concurso. Lá o fiz. Fui de prova em prova num crescendo medonho... como eu sei,
I — A filosofia tem por fim explicar até nos seus últimos fundamentos a existência do mundo, devendo formar um conjunto de nossos conhecimentos particulares a convergir para uma concepção do mundo, do homem e da vida, que satisfaça às necessidades do entendimento e às exigências do espirito humano. Deve ser uma espécie de ciência geral, destinada a constituir, isenta de contradições, um edifício construído com os conhecimentos gerais desvendados pelas ciências particulares.
hein! E o nomeado foi o Milanes! Com certeza, o bom-bocado não é para quem o faz e sim para
 
quem o come.
O seu fim é, portanto, organizar um conhecimento, uma disciplina em métodos seus, teorias organizadas e um plano geral, sendo, pois, arbitrário qualificar de filosóficos os modos de atividade intelectual que consistem em pontos de vista espontâneos, em reflexões sem técnica e sem método, em representações místicas e em crenças. Essas organizações, essa espécie de atividade mental, só pode entrar na verdadeira filosofia como dados, como meros auxiliares, talvez mesmo como fatos, a examinar à luz do critério filosófico. A filosofia é essencialmente uma teoria intelectual organizada. (Artigo Filosofia, da ''Grande Encyclopédie'').
***
 
O Moses diz que os auxílios dos outros são platônicos.
II — Cada órgão de conhecimentos tem um objeto nitidamente marcado pela realidade, pelo fato científico a estudar, e bastante poderoso para esgotar a noção dele. As ciências, portanto, entre si, dividem os objetos primitivamente ou capazes de ser concebidos primitivamente; contudo, sem sair do domínio da ciência, nota-se que o mesmo objeto, que o mesmo fato, que a mesma idéia podem ser examinados de várias maneiras, recebendo explorações diferentes, todas aceitáveis e necessárias. O espaço, por exemplo, é o lugar ideal em que se passam os fenômenos geométricos e mecânicos, para o geômetra; pode ser também — uma idéia sempre presente ao nosso espírito; pode ser ainda — a condição para que possa existir a faculdade de perceber. De maneira que, por tão vários modos de encará-lo, vai fazer parte de disciplinas intelectuais diversas. Seria ocioso mostrar o fato da cor ter significações diversas para o físico, para o químico e para o biólogo, e exemplos seriam não fáceis de encontrar, mas inúteis para a certeza. O que define uma ciência não é o objeto que ela considera, é o ponto de vista em que ela o considera. Se se propõe definir uma ciência pelo seu objeto, é preciso dizer-se que esse objeto não é tal qual existe nas coisas, mas tal qual ele é para a ciência. A ciência vem a ser, portanto, um ponto de vista sobre as coisas. Segue-se, daí, que, sendo as ciências extensivas sobre as coisas, a filosofia a bom título pode constituir um conhecimento, constituindo como que um resíduo, que se vai alterando sem cessar, para se perder finalmente no sistema de ciências. A unidade relativa das ciências, a conexão entre a inteligência e as coisas, a natureza dos princípios científicos, a validade deles, a legitimidade e ilegitimidade das interrogações ‘que se apõem às ciências, e que, às vezes, são postas por elas mesmas, nem respondendo à solução, constituem o objeto da filosofia, donde partirá uma concepção rígida das coisas e da vida, e da sua harmonia geral.
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Aflar — ação do vento contra as folhas — José de Alencar. Palejar — empregado por
É mais ou menos o artigo de Victor Delbos.
esse mesmo escritor no sentido da luz a lançar reflexos ou ondulações, tornando uma fronte
 
pálida. Exale, adjetivo, do mesmo autor. Gárceo — de garça, à laia de garça — perfil gárceo José
III — O método filosófico, isto é, o processo de que a filosofia se serve para chegar ao pleno conhecimento do objeto de seus estudos, não se distingue absolutamente dos métodos empregados nas demais ciências. Usa da abstração, da determinação, da síntese e da análise, da indução e da dedução. Mas, sendo assim, o seu método possui caracteres específicos, tanto mais que o filósofo sabe que, além de tais processos de chegar à verdade, a inteligência possui outros que o cientista não admite nem emprega, o sentimento, a intuição.
de Alencar. Elance — eflúvio — elance de ternura. Rubescência — gradação da cor que se vai
 
ascendendo às faces até chegar rubor.
Portanto, fora das teorias a estudar, seria difícil caracterizar perfeitamente o método da filosofia; só no estudo de suas doutrinas pode-se completamente compreendê-lo
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O Sol ia alto e, pelas encostas do serro, o verde, sob aquela luz, variava de tons; aqui,
==1904==
esmeralda; ali, musgo; e todos, num coro, se confundiam num só, multivirescendo, irisado de
 
azul.
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Sem data
“No esforço voluntário, a reflexão interior se apercebe de um ‘eu’ que quer e de um
‘não-eu’ que resiste.” Maine de Biran.
Curso de filosofia feito por Afonso Henriques de Lima Barreto para Afonso Henriques de
Lima Barreto, segundo artigos da Grande Encyclopédie Française du Siécle XIXéme, outros
dicionários e livros fáceis de se obter.
O curso será feito segundo a história do pensamento filosófico, devendo cada época ser
representada pela opinião dos seus mais notáveis filósofos. Na passagem de uma época para
outra, constituirá o grande objetivo do curso estabelecer a ligação dos dois pensamentos, as suas
modificações e o que se eliminou de um e porque essa eliminação foi feita, assim como as
reações da ciência e da arte. Dessa maneira, o curso será dividido em quatro partes:
1 ) Filosofia em geral. Modo antigo de entendê-la e modo moderno de encará-la.
Definição. Divisões. Lógica. Metafísica. Teodicéia. Filosofias particulares das ciências e das
artes. O lugar que lhes compete. Fim da filosofia. Utilidade (2 lições).
2 ) Filosofia antiga.
a) Filosofia grega (3 lições);
b) Filosofia alexandrina (2 lições);
c) Filosofia romana (2 lições);
d) Pensamento antigo.
3 ) Filosofia na Idade Média. Filosofia árabe. Escolástica.
Pensamento medievo (4 lições).
4 ) Filosofia moderna. Escolas Filosofias (5 lições).
5 ) Filosofia contemporânea. Sociologia. Estudo de raças. Teorias (4 lições).
Pensamento atual (1 lição).
6 ) Filosofia chinesa (1 lição).
7 ) Filosofia hindu (1 lição).
8 ) Religiões. Crenças religiosas. Animismo. Fetichismo. Politeísmo e monoteísmo.
Panteísmo e materialismo ( 3 lições )
Programa.
1a Parte.
objeto da Filosofia (I e II). III — Método. IV —Definição e divisões. Psicologia. Lógica.
Teodicéia. Moral. Metafísica e Estética. Modos de encará-la; contribuições diversas do
socialismo (estudos sociais), donde modificação de sua significação primitiva.
O resto se fará pelo programa do antigo Colégio Pedro II (está no Paul Janet).
I — A filosofia tem por fim explicar até nos seus últimos fundamentos a existência do
mundo, devendo formar um conjunto de nossos conhecimentos particulares a convergir para uma
concepção do mundo, do homem e da vida, que satisfaça às necessidades do entendimento e às
exigências do espirito humano. Deve ser uma espécie de ciência geral, destinada a constituir,
isenta de contradições, um edifício construído com os conhecimentos gerais desvendados pelas
ciências particulares.
O seu fim é, portanto, organizar um conhecimento, uma disciplina em métodos seus,
teorias organizadas e um plano geral, sendo, pois, arbitrário qualificar de filosóficos os modos de
atividade intelectual que consistem em pontos de vista espontâneos, em reflexões sem técnica e
sem método, em representações místicas e em crenças. Essas organizações, essa espécie de
atividade mental, só pode entrar na verdadeira filosofia como dados, como meros auxiliares,
talvez mesmo como fatos, a examinar à luz do critério filosófico. A filosofia é essencialmente
uma teoria intelectual organizada. (Artigo Filosofia, da Grande Encyclopédie).
II — Cada órgão de conhecimentos tem um objeto nitidamente marcado pela realidade,
pelo fato científico a estudar, e bastante poderoso para esgotar a noção dele. As ciências,
portanto, entre si, dividem os objetos primitivamente ou capazes de ser concebidos
primitivamente; contudo, sem sair do domínio da ciência, nota-se que o mesmo objeto, que o
mesmo fato, que a mesma idéia podem ser examinados de várias maneiras, recebendo
explorações diferentes, todas aceitáveis e necessárias. O espaço, por exemplo, é o lugar ideal em
que se passam os fenômenos geométricos e mecânicos, para o geômetra; pode ser também —
uma idéia sempre presente ao nosso espírito; pode ser ainda — a condição para que possa existir
a faculdade de perceber. De maneira que, por tão vários modos de encará-lo, vai fazer parte de
disciplinas intelectuais diversas. Seria ocioso mostrar o fato da cor ter significações diversas para
o físico, para o químico e para o biólogo, e exemplos seriam não fáceis de encontrar, mas inúteis
para a certeza. O que define uma ciência não é o objeto que ela considera, é o ponto de vista em
que ela o considera. Se se propõe definir uma ciência pelo seu objeto, é preciso dizer-se que esse
objeto não é tal qual existe nas coisas, mas tal qual ele é para a ciência. A ciência vem a ser,
portanto, um ponto de vista sobre as coisas. Segue-se, daí, que, sendo as ciências extensivas
sobre as coisas, a filosofia a bom título pode constituir um conhecimento, constituindo como que
um resíduo, que se vai alterando sem cessar, para se perder finalmente no sistema de ciências. A
unidade relativa das ciências, a conexão entre a inteligência e as coisas, a natureza dos princípios
científicos, a validade deles, a legitimidade e ilegitimidade das interrogações ‘que se apõem às
ciências, e que, às vezes, são postas por elas mesmas, nem respondendo à solução, constituem o
objeto da filosofia, donde partirá uma concepção rígida das coisas e da vida, e da sua harmonia
geral.
É mais ou menos o artigo de Victor Delbos.
III — O método filosófico, isto é, o processo de que a filosofia se serve para chegar ao
pleno conhecimento do objeto de seus estudos, não se distingue absolutamente dos métodos
empregados nas demais ciências. Usa da abstração, da determinação, da síntese e da análise, da
indução e da dedução. Mas, sendo assim, o seu método possui caracteres específicos, tanto mais
que o filósofo sabe que, além de tais processos de chegar à verdade, a inteligência possui outros
que o cientista não admite nem emprega, o sentimento, a intuição.
Portanto, fora das teorias a estudar, seria difícil caracterizar perfeitamente o método da
filosofia; só no estudo de suas doutrinas pode-se completamente compreendê-lo
1904
Janeiro.
 
Dolorosa vida a minha! Empreguei-me há 6 meses e vou exercendo as minhas funções. Minha casa ainda é
Dolorosa vida a minha! Empreguei-me há 6 meses e vou exercendo as minhas funções. Minha casa ainda é aquela dolorosa geena pra minh’alma. É um mosaico tétrico de dor e de tolice.
 
Meu pai, ambulante, leva a vida imerso na sua insânia. Meu irmão, C..., furta livros e
Meu pai, ambulante, leva a vida imerso na sua insânia. Meu irmão, C..., furta livros e pequenos objetos para vender. Oh! Meu Deus! Que fatal inclinação desse menino!
 
Como me tem sido difícil reprimir a explosão. Seja tudo que Deus quiser!
Como me tem sido difícil reprimir a explosão. Seja tudo que Deus quiser!
A Prisciliana e filhos, aquilo de sempre. Sem a distinção da cultura nossa, sem o
 
refinamento que já conhecíamos, veio em parte talvez prender o desenvolvimento superior dos
A Prisciliana e filhos, aquilo de sempre. Sem a distinção da cultura nossa, sem o refinamento que já conhecíamos, veio em parte talvez prender o desenvolvimento superior dos meus. Só eu escapo!
meus. Só eu escapo!
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