Diferenças entre edições de "Os Lusíadas/X"

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|obra=[[Os Lusíadas]]
|autor=Luís Vaz de Camões
|seção=Canto Décimo
|anterior=[[Os Lusíadas/IX|Canto Nono]]
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}}
<poem>
::::1
Mas já o claro amador da Larisséia
Adúltera inclinava os animais
Lá pera o grande lago que rodeia
Temistitão, nos fins Ocidentais;
O grande ardor do Sol Favónio enfreia
Co sopro que nos tanques naturais
Encrespa a água serena e despertava
Os lírios e jasmins, que a calma agrava,
 
:::::1 2
Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
:Mas já o claro amador da Larisséia
Pela mão, já conformes e contentes,
:Adúltera inclinava os animais
:LáSubiam pera oos grandepaços lago que rodeiaradiantes
E de metais ornados reluzentes,
:Temistitão, nos fins Ocidentais;
Mandados da Rainha, que abundantes
:O grande ardor do Sol Favónio enfreia
Mesas d'altos manjares excelentes
:Co sopro que nos tanques naturais
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
:Encrespa a água serena e despertava
Restaurem da cansada natureza.
:Os lírios e jasmins, que a calma agrava,
 
:
:::::23
Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
:Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
Se assentam dous e dous, amante e dama;
:Pela mão, já conformes e contentes,
Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,
:Subiam pera os paços radiantes
Está co a bela Deusa o claro Gama.
:E de metais ornados reluzentes,
De iguarias suaves e divinas,
:Mandados da Rainha, que abundantes
A quem não chega a Egípcia antiga fama ,
:Mesas d'altos manjares excelentes
Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
:Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Trazidos lá do Atlântico tesouro.
:Restaurem da cansada natureza.
 
:
:::::34
Os vinhos odoríferos, que acima
:Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
Estão não só do Itálico Falerno
:Se assentam dous e dous, amante e dama;
Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
:Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,
Com todo o ajuntamento sempiterno,
:Está co a bela Deusa o claro Gama.
Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
:De iguarias suaves e divinas,
Crespas escumas erguem, que no interno
:A quem não chega a Egípcia antiga fama ,
Coração movem súbita alegria,
:Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
Saltando co a mistura d'água fria.
:Trazidos lá do Atlântico tesouro.
 
:
:::::45
Mil práticas alegres se tocavam;
:Os vinhos odoríferos, que acima
Risos doces, sutis e argutos ditos,
:Estão não só do Itálico Falerno
Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
:Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
Despertando os alegres apetitos;
:Com todo o ajuntamento sempiterno,
Músicos instrumentos não faltavam
:Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
:Crespas escumas erguem, que no interno
Fizeram descansar da eterna pena)
:Coração movem súbita alegria,
Cüa voz düa angélica Sirena.
:Saltando co a mistura d'água fria.
 
:
:::::56
Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
:Mil práticas alegres se tocavam;
Que pelos altos paços vão soando,
:Risos doces, sutis e argutos ditos,
Em consonância igual, os instumentos
:Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
Suaves vêm a um tempo conformando.
:Despertando os alegres apetitos;
Um súbito silêncio enfreia os ventos
:Músicos instrumentos não faltavam
E faz ir docemente murmurando
:(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
As águas, e nas casas naturais
:Fizeram descansar da eterna pena)
Adormecer os brutos animais.
:Cüa voz düa angélica Sirena.
 
:
:::::67
Com doce voz está subindo ao Céu
:Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
Altos varões que estão por vir ao mundo,
:Que pelos altos paços vão soando,
Cujas claras Ideias viu Proteu
:Em consonância igual, os instumentos
Num globo vão, diáfano, rotundo,
:Suaves vêm a um tempo conformando.
Que Júpiter em dom lho concedeu
:Um súbito silêncio enfreia os ventos
Em sonhos, e despois no Reino fundo,
:E faz ir docemente murmurando
Vaticinando, o disse, e na memória
:As águas, e nas casas naturais
Recolheu logo a Ninfa a clara história.
:Adormecer os brutos animais.
 
:
:::::78
Matéria é de coturno, e não de soco,
:Com doce voz está subindo ao Céu
A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
:Altos varões que estão por vir ao mundo,
Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
:Cujas claras Ideias viu Proteu
Entre os Feaces um, outro em Cartago.
:Num globo vão, diáfano, rotundo,
Aqui, minha Calíope, te invoco
:Que Júpiter em dom lho concedeu
Neste trabalho extremo, por que em pago
:Em sonhos, e despois no Reino fundo,
Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,
:Vaticinando, o disse, e na memória
O gosto de escrever, que vou perdendo.
:Recolheu logo a Ninfa a clara história.
 
:
:::::89
:MatériaVão éos deanos coturnodescendo, e não dedo soco,Estio
Há pouco que passar até o Outono;
:A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
A Fortuna me faz o engenho frio,
:Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
Do qual já não me jacto nem me abono;
:Entre os Feaces um, outro em Cartago.
Os desgostos me vão levando ao rio
:Aqui, minha Calíope, te invoco
Do negro esquecimento e eterno sono.
:Neste trabalho extremo, por que em pago
:MeMas tornestu dome dá que escrevocumpra, eó emgrão vão pretendo,rainha
Das Musas, co que quero à nação minha!
:O gosto de escrever, que vou perdendo.
 
:
:::::910
Cantava a bela Deusa que viriam
:Vão os anos descendo, e já do Estio
Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
:Há pouco que passar até o Outono;
Armadas que as ribeiras venceriam
:A Fortuna me faz o engenho frio,
Por onde o Oceano Índico suspira;
:Do qual já não me jacto nem me abono;
E que os Gentios Reis que não dariam
:Os desgostos me vão levando ao rio
A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
:Do negro esquecimento e eterno sono.
Provariam do braço duro e forte,
:Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
Até render-se a ele ou logo à morte.
:Das Musas, co que quero à nação minha!
 
:
:::::1011
:Cantava adum belaque Deusatem quenos viriamMalabares
Do sumo sacerdócio a dignidade,
:Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
Que, só por não quebrar cos singulares
:Armadas que as ribeiras venceriam
Barões os nós que dera d'amizade,
:Por onde o Oceano Índico suspira;
Sofrerá suas cidades e lugares,
:E que os Gentios Reis que não dariam
Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
:A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
Ver destruir do Samorim potente,
:Provariam do braço duro e forte,
Que tais ódios terá co a nova gente.
:Até render-se a ele ou logo à morte.
 
:
:::::1112
E canta como lá se embarcaria
:Cantava dum que tem nos Malabares
Em Belém o remédio deste dano,
:Do sumo sacerdócio a dignidade,
Sem saber o que em si ao mar traria,
:Que, só por não quebrar cos singulares
O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
:Barões os nós que dera d'amizade,
O peso sentirão, quando entraria,
:Sofrerá suas cidades e lugares,
O curvo lenho e o férvido Oceano,
:Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
Quando mais n'água os troncos que gemerem
:Ver destruir do Samorim potente,
Contra sua natureza se meterem.
:Que tais ódios terá co a nova gente.
 
:
:::::1213
Mas, já chegado aos fins Orientais
:E canta como lá se embarcaria
E deixado em ajuda do gentio Rei de
:Em Belém o remédio deste dano,
Cochim, com poucos naturais,
:Sem saber o que em si ao mar traria,
Nos braços do salgado e curvo rio
:O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
Desbaratará os Naires infernais
:O peso sentirão, quando entraria,
No passo Cambalão, tornando frio
:O curvo lenho e o férvido Oceano,
D'espanto o ardor imenso do Oriente,
:Quando mais n'água os troncos que gemerem
Que verá tanto obrar tão pouca gente.
:Contra sua natureza se meterem.
 
:
:::::1314
Chamará o Samorim mais gente nova;
:Mas, já chegado aos fins Orientais
Virão Reis ===de] Bipur e de Tanor,
:E deixado em ajuda do gentio Rei de
Das serras de Narsinga, que alta prova
:Cochim, com poucos naturais,
Estarão prometendo a seu senhor;
:Nos braços do salgado e curvo rio
Fará que todo o Naire, enfim, se mova
:Desbaratará os Naires infernais
Que entre Calecu jaz e Cananor,
:No passo Cambalão, tornando frio
D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
:D'espanto o ardor imenso do Oriente,
Mouros por mar, Gentios pola terra.
:Que verá tanto obrar tão pouca gente.
 
:
:::::1415
E todos outra vez desbaratando,
:Chamará o Samorim mais gente nova;
Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
:Virão Reis ===de] Bipur e de Tanor,
A grande multidão que irá matando
:Das serras de Narsinga, que alta prova
A todo o Malabar terá admirado.
:Estarão prometendo a seu senhor;
Cometerá outra vez, não dilatando,
:Fará que todo o Naire, enfim, se mova
O Gentio os combates, apressado,
:Que entre Calecu jaz e Cananor,
Injuriando os seus, fazendo votos
:D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.
:Mouros por mar, Gentios pola terra.
 
:
:::::1516
Já não defenderá somente os passos,
:E todos outra vez desbaratando,
Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;
:Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos
:A grande multidão que irá matando
Aqueles que as cidades fazem rasas,
:A todo o Malabar terá admirado.
Fará que os seus, de vida pouco escassos,
:Cometerá outra vez, não dilatando,
Cometam o Pacheco, que tem asas,
:O Gentio os combates, apressado,
Por dous passos num tempo; mas voando
:Injuriando os seus, fazendo votos
Dum noutro, tudo irá desbaratando.
:Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.
 
:
:::::1617
Virá ali o Samorim, por que em pessoa
:Já não defenderá somente os passos,
Veja a batalha e os seus esforce e anime;
:Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;
Mas um tiro, que com zunido voa,
:Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos
De sangue o tingirá no andor sublime.
:Aqueles que as cidades fazem rasas,
Já não verá remédio ou manha boa
:Fará que os seus, de vida pouco escassos,
:CometamNem força que o Pacheco, que temmuito asas,estime;
Inventará traições e vãos venenos,
:Por dous passos num tempo; mas voando
Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.
:Dum noutro, tudo irá desbaratando.
 
:
:::::1718
Que tornará a vez sétima (cantava)
:Virá ali o Samorim, por que em pessoa
Pelejar co invicto e forte Luso,
:Veja a batalha e os seus esforce e anime;
A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
:Mas um tiro, que com zunido voa,
Mas, contudo, este só o fará confuso.
:De sangue o tingirá no andor sublime.
Trará pera a batalha, horrenda e brava,
:Já não verá remédio ou manha boa
Máquinas de madeiros fora de uso,
:Nem força que o Pacheco muito estime;
Pera lhe abalroar as caravelas,
:Inventará traições e vãos venenos,
Que até'li vão lhe fora cometê-las.
:Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.
 
:
:::::1819
Pela água levará serras de fogo
:Que tornará a vez sétima (cantava)
Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
:Pelejar co invicto e forte Luso,
Mas a militar arte e engenho logo
:A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
Fará ser vã a braveza com que venha.
:Mas, contudo, este só o fará confuso.
- "Nenhum claro barão no Márcio jogo,
:Trará pera a batalha, horrenda e brava,
Que nas asas da Fama se sustenha,
:Máquinas de madeiros fora de uso,
Chega a este, que a palma a todos toma.
:Pera lhe abalroar as caravelas,
E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.
:Que até'li vão lhe fora cometê-las.
 
:
:::::1920
"Porque tantas batalhas, sustentadas
:Pela água levará serras de fogo
Com muito pouco mais de cem soldados,
:Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
Com tantas manhas e artes inventadas,
:Mas a militar arte e engenho logo
Tantos Cães não imbeles profligados,
:Fará ser vã a braveza com que venha.
Ou parecerão fábulas sonhadas,
:- "Nenhum claro barão no Márcio jogo,
Ou que os celestes Coros, invocados,
:Que nas asas da Fama se sustenha,
Decerão a ajudá-lo e lhe darão
:Chega a este, que a palma a todos toma.
Esforço, força, ardil e coração.
:E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.
 
:
:::::2021
"Aquele que nos campos Maratónios
:"Porque tantas batalhas, sustentadas
O grão poder de Dário estrui e rende,
:Com muito pouco mais de cem soldados,
Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
:Com tantas manhas e artes inventadas,
O passo de Termópilas defende,
:Tantos Cães não imbeles profligados,
Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,
:Ou parecerão fábulas sonhadas,
Que com todo o poder Tusco contende
:Ou que os celestes Coros, invocados,
Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,
:Decerão a ajudá-lo e lhe darão
Foi como este na guerra forte e sábio."
:Esforço, força, ardil e coração.
 
:
:::::2122
Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
:"Aquele que nos campos Maratónios
Abaxando, fez ronco e entristecido,
:O grão poder de Dário estrui e rende,
Cantando em baxa voz, envolta em choro,
:Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
O grande esforço mal agardecido.
:O passo de Termópilas defende,
- "Ó Belisário (disse) que no coro
:Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,
Das Musas serás sempre engrandecido,
:Que com todo o poder Tusco contende
Se em ti viste abatido o bravo Marte,
:Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,
Aqui tens com quem podes consolar-te!
:Foi como este na guerra forte e sábio."
 
:
:::::2223
"Aqui tens companheiro, assi nos feitos
:Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
Como no galardão injusto e duro;
:Abaxando, fez ronco e entristecido,
Em ti e nele veremos altos peitos
:Cantando em baxa voz, envolta em choro,
A baxo estado vir, humilde e escuro.
:O grande esforço mal agardecido.
Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
:- "Ó Belisário (disse) que no coro
Os que ao Rei e à Lei servem de muro!
:Das Musas serás sempre engrandecido,
Isto fazem os Reis cuja vontade
:Se em ti viste abatido o bravo Marte,
Manda mais que a justiça e que a verdade.
:Aqui tens com quem podes consolar-te!
 
:
:::::2324
"Isto fazem os Reis quando embebidos
:"Aqui tens companheiro, assi nos feitos
Nüa aparência branda que os contenta
:Como no galardão injusto e duro;
Dão os prémios, de Aiace merecidos,
:Em ti e nele veremos altos peitos
À língua vã de Ulisses, fraudulenta.
:A baxo estado vir, humilde e escuro.
Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
:Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Por quem só doces sombras apresenta,
:Os que ao Rei e à Lei servem de muro!
Se não os dão a sábios cavaleiros,
:Isto fazem os Reis cuja vontade
Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.
:Manda mais que a justiça e que a verdade.
 
:
:::::2425
"Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
:"Isto fazem os Reis quando embebidos
Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,
:Nüa aparência branda que os contenta
Se não és pera dar-lhe honroso estado,
:Dão os prémios, de Aiace merecidos,
É ele pera dar-te um Reino rico.
:À língua vã de Ulisses, fraudulenta.
Enquanto for o mundo rodeado
:Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
Dos Apolíneos raios, eu te fico
:Por quem só doces sombras apresenta,
Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
:Se não os dão a sábios cavaleiros,
E tu nisto culpado por avaro.
:Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.
 
:
:::::2526
"Mas eis outro (cantava) intitulado
:"Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
Vem com nome real e traz consigo
:Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,
O filho, que no mar será ilustrado,
:Se não és pera dar-lhe honroso estado,
Tanto como qualquer Romano antigo.
:É ele pera dar-te um Reino rico.
Ambos darão com braço forte, armado,
:Enquanto for o mundo rodeado
A Quíloa fértil, áspero castigo,
:Dos Apolíneos raios, eu te fico
Fazendo nela Rei leal e humano,
:Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
Deitado fora o pérfido tirano.
:E tu nisto culpado por avaro.
 
:
:::::2627
"Também farão Mombaça, que se arreia
:"Mas eis outro (cantava) intitulado
De casas sumptuosas e edifícios,
:Vem com nome real e traz consigo
Co ferro e fogo seu queimada e feia,
:O filho, que no mar será ilustrado,
Em pago dos passados malefícios.
:Tanto como qualquer Romano antigo.
Despois, na costa da Índia, andando cheia
:Ambos darão com braço forte, armado,
De lenhos inimigos e artifícios
:A Quíloa fértil, áspero castigo,
Contra os Lusos, com velas e com remos
:Fazendo nela Rei leal e humano,
O mancebo Lourenço fará extremos.
:Deitado fora o pérfido tirano.
 
:
:::::2728
"Das grandes naus do Samorim potente,
:"Também farão Mombaça, que se arreia
Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
:De casas sumptuosas e edifícios,
Que sai com trovão do cobre ardente,
:Co ferro e fogo seu queimada e feia,
Fará pedaços leme, masto, vela.
:Em pago dos passados malefícios.
:Despois, nalançando costaarpéus da Índia, andando cheiaousadamente
Na capitaina imiga, dentro nela
:De lenhos inimigos e artifícios
:ContraSaltando oso Lusos,fará só com velaslança e com remosespada
De quatrocentos Mouros despejada.
:O mancebo Lourenço fará extremos.
 
:
:::::2829
"Mas de Deus a escondida providência
:"Das grandes naus do Samorim potente,
:(Que encherãoela todosó sabe o mar,bem code aque férrease pela,serve)
O porá onde esforço nem prudência
:Que sai com trovão do cobre ardente,
Poderá haver que a vida lhe reserve.
:Fará pedaços leme, masto, vela.
Em Chaúl, onde em sangue e resistência
:Despois, lançando arpéus ousadamente
O mar todo com fogo e ferro ferve,
:Na capitaina imiga, dentro nela
Lhe farão que com vida se não saia
:Saltando o fará só com lança e espada
As armadas de Egipto e de Cambaia.
:De quatrocentos Mouros despejada.
 
:
:::::2930
"Ali o poder de muitos inimigos
:"Mas de Deus a escondida providência
:(Que elao grande sabeesforço o bem de quecom seforça serverende),
Os ventos que faltaram, e os perigos
:O porá onde esforço nem prudência
:PoderáDo havermar, que asobejaram, vidatudo lheo reserveofende.
Aqui ressurjam todos os Antigos,
:Em Chaúl, onde em sangue e resistência
A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
:O mar todo com fogo e ferro ferve,
Outro Ceva verão, que, espedaçado,
:Lhe farão que com vida se não saia
Não sabe ser rendido nem domado.
:As armadas de Egipto e de Cambaia.
 
:
:::::3031
"Com toda üa coxa fora, que em pedaços
:"Ali o poder de muitos inimigos
Lhe leva um cego tiro que passara,
:(Que o grande esforço só com força rende),
Se serve inda dos animosos braços
:Os ventos que faltaram, e os perigos
E do grão coração que lhe ficara.
:Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
Até que outro pelouro quebra os laços
:Aqui ressurjam todos os Antigos,
:ACom verque oco nobrealma ardor queo aquicorpo se aprendeliara:
Ela, solta, voou da prisão fora
:Outro Ceva verão, que, espedaçado,
Onde súbito se acha vencedora.
:Não sabe ser rendido nem domado.
 
:
:::::3132
"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
:"Com toda üa coxa fora, que em pedaços
Na qual tu mereceste paz serena!
:Lhe leva um cego tiro que passara,
Que o corpo, que em pedaços se apresenta,
:Se serve inda dos animosos braços
:EQuem doo grãogerou, coraçãovingança que lhe ficara.ordena:
Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
:Até que outro pelouro quebra os laços
Que vem já dar a dura e eterna pena,
:Com que co alma o corpo se liara:
De esperas, basiliscos e trabucos,
:Ela, solta, voou da prisão fora
A Cambaicos cruéis e Mamelucos.
:Onde súbito se acha vencedora.
 
:
:::::3233
"Eis vem o pai, com ânimo estupendo,
:"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
Trazendo fúria e mágoa por antolhos,
:Na qual tu mereceste paz serena!
Com que o paterno amor lhe está movendo
:Que o corpo, que em pedaços se apresenta,
Fogo no coração, água nos olhos.
:Quem o gerou, vingança já lhe ordena:
A nobre ira lhe vinha prometendo
:Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
:Que vemo sangue fará dar a dura e eternapelos pena,giolhos
Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,
:De esperas, basiliscos e trabucos,
Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.
:A Cambaicos cruéis e Mamelucos.
 
:
:::::3334
"Qual o touro cioso, que se ensaia
:"Eis vem o pai, com ânimo estupendo,
Pera a crua peleja, os cornos tenta
:Trazendo fúria e mágoa por antolhos,
No tronco dum carvalho ou alta faia
:Com que o paterno amor lhe está movendo
E, o ar ferindo, as forças experimenta:
:Fogo no coração, água nos olhos.
Tal, antes que no seio de Cambaia
:A nobre ira lhe vinha prometendo
Entre Francisco irado, na opulenta
:Que o sangue fará dar pelos giolhos
Cidade de Dabul a espada afia,
:Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,
Abaxando-lhe a túmida ousadia.
:Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.
 
:
:::::3435
"E logo, entrando fero na enseada
:"Qual o touro cioso, que se ensaia
De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
:Pera a crua peleja, os cornos tenta
Fará espalhar a fraca e grande armada
:No tronco dum carvalho ou alta faia
De Calecu, que remos tem por malhas.
:E, o ar ferindo, as forças experimenta:
A de Melique Iaz, acautelada,
:Tal, antes que no seio de Cambaia
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
:Entre Francisco irado, na opulenta
Fará ir ver o frio e fundo assento,
:Cidade de Dabul a espada afia,
Secreto leito do húmido elemento.
:Abaxando-lhe a túmida ousadia.
 
:
:::::3536
"Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,
:"E logo, entrando fero na enseada
A fúria esperará dos vingadores,
:De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
Verá braços e pernas ir nadando
:Fará espalhar a fraca e grande armada
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
:De Calecu, que remos tem por malhas.
Raios de fogo irão representando,
:A de Melique Iaz, acautelada,
No cego ardor, os bravos domadores.
:Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
:Fará ir ver o frio e fundo assento,
É fumo, ferro, flamas e alaridos.
:Secreto leito do húmido elemento.
 
:
:::::3637
:"Mas aah, deque Mirdesta Hocém, que,próspera abalroandovitória,
Com que despois virá ao pátrio Tejo,
:A fúria esperará dos vingadores,
Quási lhe roubará a famosa glória
:Verá braços e pernas ir nadando
Um sucesso, que triste e negro vejo!
:Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
O Cabo Tormentório, que a memória
:Raios de fogo irão representando,
Cos ossos guardará, não terá pejo
:No cego ardor, os bravos domadores.
De tirar deste mundo aquele esprito,
:Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
Que não tiraram toda a Índia e Egipto.
:É fumo, ferro, flamas e alaridos.
 
:
:::::3738
"Ali, Cafres selvagens poderão
:"Mas ah, que desta próspera vitória,
O que destros imigos não puderam;
:Com que despois virá ao pátrio Tejo,
E rudos paus tostados sós farão
:Quási lhe roubará a famosa glória
O que arcos e pelouros não fizeram.
:Um sucesso, que triste e negro vejo!
Ocultos os juízos de Deus são;
:O Cabo Tormentório, que a memória
:CosAs ossosgentes guardarávãs, que não terános pejoentenderam,
Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
:De tirar deste mundo aquele esprito,
Sendo só providência de Deus pura.
:Que não tiraram toda a Índia e Egipto.
 
:
:::::3839
"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
:"Ali, Cafres selvagens poderão
(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
:O que destros imigos não puderam;
Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
:E rudos paus tostados sós farão
Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
:O que arcos e pelouros não fizeram.
Pelo Cunha também, que nunca extinto
:Ocultos os juízos de Deus são;
Será seu nome em todo o mar que lava
:As gentes vãs, que não nos entenderam,
As ilhas do Austro, e praias que se chamam
:Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!
:Sendo só providência de Deus pura.
:
:::::3940
"Esta luz é do fogo e das luzentes
:"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
Armas com que Albuquerque irá amansando
:(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
:Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
Que refusam o jugo honroso e brando.
:Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
Ali verão as setas estridentes
:Pelo Cunha também, que nunca extinto
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
:Será seu nome em todo o mar que lava
Contra quem as tirou; que Deus peleja
:As ilhas do Austro, e praias que se chamam
Por quem estende a fé da Madre Igreja.
:De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!
 
:
:::::4041
"Ali do sal os montes não defendem
:"Esta luz é do fogo e das luzentes
De corrupção os corpos no combate,
:Armas com que Albuquerque irá amansando
Que mortos pela praia e mar se estendem
:De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
:Que refusam o jugo honroso e brando.
Até que à força só de braço aprendem
:Ali verão as setas estridentes
A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
:Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Obrigação de dar o reino inico
:Contra quem as tirou; que Deus peleja
Das perlas de Barém tributo rico.
:Por quem estende a fé da Madre Igreja.
 
:
:::::4142
"Que gloriosas palmas tecer vejo
:"Ali do sal os montes não defendem
Com que Vitória a fronte lhe coroa,
:De corrupção os corpos no combate,
Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
:Que mortos pela praia e mar se estendem
Toma a ilha ilustríssima de Goa!
:De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
Despois, obedecendo ao duro ensejo,
:Até que à força só de braço aprendem
A deixa, e ocasião espera boa
:A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
Com que a torne a tomar, que esforço e arte
:Obrigação de dar o reino inico
Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.
:Das perlas de Barém tributo rico.
 
:
:::::4243
"Eis já sobr'ela torna e vai rompendo
:"Que gloriosas palmas tecer vejo
Por muros, fogo, lanças e pelouros,
:Com que Vitória a fronte lhe coroa,
Abrindo com a espada o espesso e horrendo
:Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
Esquadrão de Gentios e de Mouros.
:Toma a ilha ilustríssima de Goa!
Irão soldados ínclitos fazendo
:Despois, obedecendo ao duro ensejo,
Mais que liões famélicos e touros,
:A deixa, e ocasião espera boa
Na luz que sempre celebrada e dina
:Com que a torne a tomar, que esforço e arte
Será da Egípcia Santa Caterina.
:Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.
 
:
:::::43 44
"Nem tu menos fugir poderás deste,
:"Eis já sobr'ela torna e vai rompendo
Posto que rica e posto que assentada
:Por muros, fogo, lanças e pelouros,
Lá no grémio da Aurora, onde naceste,
:Abrindo com a espada o espesso e horrendo
Opulenta Malaca nomeada.
:Esquadrão de Gentios e de Mouros.
As setas venenosas que fizeste,
:Irão soldados ínclitos fazendo
Os crises com que já te vejo armada,
:Mais que liões famélicos e touros,
Malaios namorados, Jaus valentes,
:Na luz que sempre celebrada e dina
Todos farás ao Luso obedientes."
:Será da Egípcia Santa Caterina.
 
:
:::::4445
Mais estanças cantara esta Sirena
:"Nem tu menos fugir poderás deste,
Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,
:Posto que rica e posto que assentada
Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,
:Lá no grémio da Aurora, onde naceste,
Posto que a fama sua o mundo cerque.
:Opulenta Malaca nomeada.
O grande Capitão, que o fado ordena
:As setas venenosas que fizeste,
Que com trabalhos glória eterna merque,
:Os crises com que já te vejo armada,
Mais há-de ser um brando companheiro
:Malaios namorados, Jaus valentes,
Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
:Todos farás ao Luso obedientes."
 
:
:::::4546
Mas em tempo que fomes e asperezas,
:Mais estanças cantara esta Sirena
Doenças, frechas e trovões ardentes,
:Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,
A sazão e o lugar, fazem cruezas
:Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,
Nos soldados a tudo obedientes,
:Posto que a fama sua o mundo cerque.
Parece de selváticas brutezas,
:O grande Capitão, que o fado ordena
De peitos inumanos e insolentes,
:Que com trabalhos glória eterna merque,
Dar extremo suplício pela culpa
:Mais há-de ser um brando companheiro
Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
:Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
 
:
:::::4647
Não será a culpa abominoso incesto
:Mas em tempo que fomes e asperezas,
Nem violento estupro em virgem pura,
:Doenças, frechas e trovões ardentes,
Nem menos adultério desonesto,
:A sazão e o lugar, fazem cruezas
Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.
:Nos soldados a tudo obedientes,
Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
:Parece de selváticas brutezas,
Ou de usado a crueza fera e dura,
:De peitos inumanos e insolentes,
Cos seus üa ira insana não refreia,
:Dar extremo suplício pela culpa
Põe na fama alva noda negra e feia.
:Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
 
:
:::::47 48
Viu Alexandre Apeles namorado
:Não será a culpa abominoso incesto
Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
:Nem violento estupro em virgem pura,
Não sendo seu soldado exprimentado,
:Nem menos adultério desonesto,
Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
:Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.
Sentiu Ciro que andava já abrasado
:Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
:Ou de usado a crueza fera e dura,
Que ele tomara em guarda, e prometia
:Cos seus üa ira insana não refreia,
Que nenhum mau desejo o venceria;
:Põe na fama alva noda negra e feia.
 
:
:::::4849
Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
:Viu Alexandre Apeles namorado
Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
:Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
Levemente o perdoa, e foi servido
:Não sendo seu soldado exprimentado,
Dele num caso grande, em recompensa.
:Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
Per força, de Judita foi marido
:Sentiu Ciro que andava já abrasado
O férreo Balduíno; mas dispensa
:Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
:Que ele tomara em guarda, e prometia
Que viva e povoador seja de Frandes.
:Que nenhum mau desejo o venceria;
 
:
:::::49 50
:Mas, vendoprosseguindo oa ilustreNinfa Persao quelongo vencidocanto,
De Soares cantava, que as bandeiras
:Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
Faria tremular e pôr espanto
:Levemente o perdoa, e foi servido
Pelas roxas Arábicas ribeiras:
:Dele num caso grande, em recompensa.
- "Medina abominábil teme tanto,
:Per força, de Judita foi marido
Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras
:O férreo Balduíno; mas dispensa
Praias de Abássia; Barborá se teme
:Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
Do mal de que o empório Zeila geme.
:Que viva e povoador seja de Frandes.
 
:
:::::5051
"A nobre ilha também de Taprobana,
:Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
Já pelo nome antigo tão famosa
:De Soares cantava, que as bandeiras
Quanto agora soberba e soberana
:Faria tremular e pôr espanto
Pela cortiça cálida, cheirosa,
:Pelas roxas Arábicas ribeiras:
Dela dará tributo à Lusitana
:- "Medina abominábil teme tanto,
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
:Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras
Vencendo se erguerá na torre erguida,
:Praias de Abássia; Barborá se teme
Em Columbo, dos próprios tão temida.
:Do mal de que o empório Zeila geme.
 
:
:::::5152
"Também Sequeira, as ondas Eritreias
:"A nobre ilha também de Taprobana,
Dividindo, abrirá novo caminho
:Já pelo nome antigo tão famosa
Pera ti, grande Império, que te arreias
:Quanto agora soberba e soberana
De seres de Candace e Sabá ninho.
:Pela cortiça cálida, cheirosa,
Maçuá, com cisternas de água cheias
:Dela dará tributo à Lusitana
Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
:Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
E fará descobir remotas Ilhas,
:Vencendo se erguerá na torre erguida,
Que dão ao mundo novas maravilhas.
:Em Columbo, dos próprios tão temida.
 
:
:::::5253
"Virá despois Meneses, cujo ferro
:"Também Sequeira, as ondas Eritreias
Mais na Africa, que cá, terá provado;
:Dividindo, abrirá novo caminho
Castigará de Ormuz soberba o erro,
:Pera ti, grande Império, que te arreias
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
:De seres de Candace e Sabá ninho.
Também tu, Gama, em pago do desterro
:Maçuá, com cisternas de água cheias
Em que estás e serás inda tornado,
:Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
Cos títulos de Conde e d'honras nobres
:E fará descobir remotas Ilhas,
Virás mandar a terra que descobres.
:Que dão ao mundo novas maravilhas.
 
:
:::::5354
"Mas aquela fatal necessidade
:"Virá despois Meneses, cujo ferro
De quem ninguém se exime dos humanos,
:Mais na Africa, que cá, terá provado;
Ilustrado co a Régia dignidade,
:Castigará de Ormuz soberba o erro,
Te tirará do mundo e seus enganos.
:Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Outro Meneses logo, cuja idade
:Também tu, Gama, em pago do desterro
É maior na prudência que nos anos,
:Em que estás e serás inda tornado,
Governará; e fará o ditoso Henrique
:Cos títulos de Conde e d'honras nobres
Que perpétua memória dele fique.
:Virás mandar a terra que descobres.
 
:
:::::5455
"Não vencerá somente os Malabares,
:"Mas aquela fatal necessidade
Destruindo Panane com Coulete,
:De quem ninguém se exime dos humanos,
Cometendo as bombardas, que, nos ares,
:Ilustrado co a Régia dignidade,
Se vingam só do peito que as comete;
:Te tirará do mundo e seus enganos.
Mas com virtudes, certo, singulares,
:Outro Meneses logo, cuja idade
Vence os imigos d'alma todos sete;
:É maior na prudência que nos anos,
De cobiça triunfa e incontinência,
:Governará; e fará o ditoso Henrique
Que em tal idade é suma de excelência.
:Que perpétua memória dele fique.
 
:
:::::55 56
"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
:"Não vencerá somente os Malabares,
Sucederás, ó forte Mascarenhas;
:Destruindo Panane com Coulete,
E, se injustos o mando te tomarem,
:Cometendo as bombardas, que, nos ares,
Prometo-te que fama eterna tenhas.
:Se vingam só do peito que as comete;
Pera teus inimigos confessarem
:Mas com virtudes, certo, singulares,
Teu valor alto, o fado quer que venhas
:Vence os imigos d'alma todos sete;
A mandar, mais de palmas coroado,
:De cobiça triunfa e incontinência,
Que de fortuna justa acompanhado.
:Que em tal idade é suma de excelência.
 
:
:::::5657
"No reino de Bintão, que tantos danos
:"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
Terá a Malaca muito tempo feitos,
:Sucederás, ó forte Mascarenhas;
Num só dia as injúrias de mil anos
:E, se injustos o mando te tomarem,
Vingarás, co valor de ilustres peitos.
:Prometo-te que fama eterna tenhas.
Trabalhos e perigos inumanos,
:Pera teus inimigos confessarem
Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
:Teu valor alto, o fado quer que venhas
Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
:A mandar, mais de palmas coroado,
Tudo fico que rompas e sometas.
:Que de fortuna justa acompanhado.
 
:
:::::5758
"Mas na Índia, cobiça e ambição,
:"No reino de Bintão, que tantos danos
Que claramente põem aberto o rosto
:Terá a Malaca muito tempo feitos,
Contra Deus e Justiça, te farão
:Num só dia as injúrias de mil anos
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
:Vingarás, co valor de ilustres peitos.
Quem faz injúria vil e sem razão,
:Trabalhos e perigos inumanos,
Com forças e poder em que está posto,
:Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
Não vence; que a vitória verdadeira
:Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
É saber ter justiça nua e inteira.
:Tudo fico que rompas e sometas.
 
:
:::::58 59
:"Mas, na Índiacontudo, cobiçanão enego ambição,que Sampaio
Será, no esforço, ilustre e assinalado,
:Que claramente põem aberto o rosto
Mostrando-se no mar um fero raio,
:Contra Deus e Justiça, te farão
Que de inimigos mil verá coalhado.
:Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Em Bacanor fará cruel ensaio
:Quem faz injúria vil e sem razão,
No Malabar, pera que, amedrontado,
:Com forças e poder em que está posto,
Despois a ser vencido dele venha
:Não vence; que a vitória verdadeira
Cutiale, com quanta armada tenha.
:É saber ter justiça nua e inteira.
 
:
:::::5960
"E não menos de Dio a fera frota,
:"Mas, contudo, não nego que Sampaio
Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
:Será, no esforço, ilustre e assinalado,
Fará, co a vista só, perdida e rota,
:Mostrando-se no mar um fero raio,
Por Heitor da Silveira e destroçada;
:Que de inimigos mil verá coalhado.
Por Heitor Português, de quem se nota
:Em Bacanor fará cruel ensaio
Que na costa Cambaica, sempre armada,
:No Malabar, pera que, amedrontado,
Será aos Guzarates tanto dano,
:Despois a ser vencido dele venha
Quanto já foi aos Gregos o Troiano.
:Cutiale, com quanta armada tenha.
 
:
:::::6061
"A Sampaio feroz sucederá
:"E não menos de Dio a fera frota,
Cunha, que longo tempo tem o leme:
:Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
De Chale as torres altas erguerá,
:Fará, co a vista só, perdida e rota,
Enquanto Dio ilustre dele treme;
:Por Heitor da Silveira e destroçada;
O forte Baçaim se lhe dará,
:Por Heitor Português, de quem se nota
Não sem sangue, porém, que nele geme
:Que na costa Cambaica, sempre armada,
Melique, porque à força só de espada
:Será aos Guzarates tanto dano,
A tranqueira soberba vê tomada.
:Quanto já foi aos Gregos o Troiano.
 
:
:::::6162
"Trás este vem Noronha, cujo auspício
:"A Sampaio feroz sucederá
De Dio os Rumes feros afugenta;
:Cunha, que longo tempo tem o leme:
Dio, que o peito e bélico exercício
:De Chale as torres altas erguerá,
De António da Silveira bem sustenta.
:Enquanto Dio ilustre dele treme;
Fará em Noronha a morte o usado ofício,
:O forte Baçaim se lhe dará,
Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
:Não sem sangue, porém, que nele geme
No governo do Império, cujo zelo
:Melique, porque à força só de espada
Com medo o Roxo Mar fará amarelo.
:A tranqueira soberba vê tomada.
 
:
:::::6263
"Das mãos do teu Estêvão vem tomar
:"Trás este vem Noronha, cujo auspício
As rédeas um, que já será ilustrado
:De Dio os Rumes feros afugenta;
No Brasil, com vencer e castigar
:Dio, que o peito e bélico exercício
O pirata Francês, ao mar usado.
:De António da Silveira bem sustenta.
Despois, Capitão-mor do Índico mar,
:Fará em Noronha a morte o usado ofício,
O muro de Damão, soberbo e armado,
:Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
Escala e primeiro entra a porta aberta,
:No governo do Império, cujo zelo
Que fogo e frechas mil terão coberta.
:Com medo o Roxo Mar fará amarelo.
 
:
:::::6364
"A este o Rei Cambaico soberbíssimo
:"Das mãos do teu Estêvão vem tomar
Fortaleza dará na rica Dio,
:As rédeas um, que já será ilustrado
Por que contra o Mogor poderosíssimo
:No Brasil, com vencer e castigar
Lhe ajude a defender o senhorio.
:O pirata Francês, ao mar usado.
:Despois, Capitão-morirá docom Índicopeito mar,esforçadíssimo
A tolher que não passe o Rei gentio
:O muro de Damão, soberbo e armado,
De Calecu, que assi com quantos veio
:Escala e primeiro entra a porta aberta,
O fará retirar, de sangue cheio.
:Que fogo e frechas mil terão coberta.
 
:
:::::6465
"Destruirá a cidade Repelim,
:"A este o Rei Cambaico soberbíssimo
Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
:Fortaleza dará na rica Dio,
E despois, junto ao Cabo Comorim,
:Por que contra o Mogor poderosíssimo
üa façanha faz esclarecida:
:Lhe ajude a defender o senhorio.
A frota principal do Samorim,
:Despois irá com peito esforçadíssimo
Que destruir o mundo não duvida,
:A tolher que não passe o Rei gentio
Vencerá co furor do ferro e fogo;
:De Calecu, que assi com quantos veio
Em si verá Beadala o Márcio jogo.
:O fará retirar, de sangue cheio.
 
:
:::::65 66
"Tendo assi limpa a Índia dos imigos,
:"Destruirá a cidade Repelim,
Virá despois com ceptro a governá-Ia
:Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
Sem que ache resistência nem perigos,
:E despois, junto ao Cabo Comorim,
Que todos tremem dele e nenhum fala.
:üa façanha faz esclarecida:
Só quis provar os ásperos castigos
:A frota principal do Samorim,
Baticalá, que vira já Beadala.
:Que destruir o mundo não duvida,
De sangue e corpos mortos ficou cheia
:Vencerá co furor do ferro e fogo;
E de fogo e trovões desfeita e feia.
:Em si verá Beadala o Márcio jogo.
 
:
:::::6667
"Este será Martinho, que de Marte
:"Tendo assi limpa a Índia dos imigos,
O nome tem co as obras derivado;
:Virá despois com ceptro a governá-Ia
Tanto em armas ilustre em toda parte,
:Sem que ache resistência nem perigos,
Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
:Que todos tremem dele e nenhum fala.
Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
:Só quis provar os ásperos castigos
Português terá sempre levantado,
:Baticalá, que vira já Beadala.
Conforme sucessor ao sucedido,
:De sangue e corpos mortos ficou cheia
Que um ergue Dio, outro o defende erguido.
:E de fogo e trovões desfeita e feia.
 
:
:::::6768
"Persas feroces, Abassis e Rumes,
:"Este será Martinho, que de Marte
Que trazido de Roma o nome têm,
:O nome tem co as obras derivado;
Vários de gestos, vários de costumes
:Tanto em armas ilustre em toda parte,
(Que mil nações ao cerco feras vêm),
:Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
:Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
Porque uns poucos a terra lhe detêm.
:Português terá sempre levantado,
Em sangue Português, juram, descridos,
:Conforme sucessor ao sucedido,
De banhar os bigodes retorcidos.
:Que um ergue Dio, outro o defende erguido.
 
:
:::::68 69
"Basiliscos medonhos e liões,
:"Persas feroces, Abassis e Rumes,
Trabucos feros, minas encobertas,
:Que trazido de Roma o nome têm,
Sustenta Mascarenhas cos barões
:Vários de gestos, vários de costumes
Que tão ledos as mortes têm por certas;
:(Que mil nações ao cerco feras vêm),
Até que, nas maiores opressões,
:Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
Castro libertador, fazendo ofertas
:Porque uns poucos a terra lhe detêm.
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
:Em sangue Português, juram, descridos,
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.
:De banhar os bigodes retorcidos.
 
:
:::::6970
"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
:"Basiliscos medonhos e liões,
Onde o violento fogo, com ruido,
:Trabucos feros, minas encobertas,
Em pedaços os muros no ar levanta,
:Sustenta Mascarenhas cos barões
Será ali arrebatado e ao Céu subido.
:Que tão ledos as mortes têm por certas;
Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
:Até que, nas maiores opressões,
E tem o caminho húmido impedido,
:Castro libertador, fazendo ofertas
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
:Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
Os ventos e despois os inimigos.
:Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.
 
:
:::::7071
"Eis vem despois o pai, que as ondas corta
:"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
Co restante da gente Lusitana,
:Onde o violento fogo, com ruido,
E com força e saber, que mais importa,
:Em pedaços os muros no ar levanta,
Batalha dá felice e soberana.
:Será ali arrebatado e ao Céu subido.
Uns, paredes subindo, escusam porta;
:Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
Outros a abrem na fera esquadra insana.
:E tem o caminho húmido impedido,
Feitos farão tão dinos de memória
:Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
Que não caibam em verso ou larga história.
:Os ventos e despois os inimigos.
 
:
:::::7172
:"Eis vemEste, despois o pai, queem ascampo ondasse cortaapresenta,
Vencedor forte e intrépido, ao possante
:Co restante da gente Lusitana,
Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
:E com força e saber, que mais importa,
Da fera multidão quadrupedante.
:Batalha dá felice e soberana.
Não menos suas terras mal sustenta
:Uns, paredes subindo, escusam porta;
O Hidalcão, do braço triunfante
:Outros a abrem na fera esquadra insana.
Que castigando vai Dabul na costa;
:Feitos farão tão dinos de memória
Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.
:Que não caibam em verso ou larga história.
 
:
:::::72 73
"Estes e outros Barões, por várias partes,
:"Este, despois, em campo se apresenta,
Dinos todos de fama e maravilha,
:Vencedor forte e intrépido, ao possante
Fazendo-se na terra bravos Martes,
:Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
Virão lograr os gostos desta Ilha,
:Da fera multidão quadrupedante.
Varrendo triunfantes estandartes
:Não menos suas terras mal sustenta
Pelas ondas que corta a aguda quilha;
:O Hidalcão, do braço triunfante
E acharão estas Ninfas e estas mesas,
:Que castigando vai Dabul na costa;
Que glórias e honras são de árduas empresas."
:Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.
 
:
:::::7374
Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
:"Estes e outros Barões, por várias partes,
Com sonoroso aplauso, vozes davam,
:Dinos todos de fama e maravilha,
Com que festejam as alegres vodas
:Fazendo-se na terra bravos Martes,
Que com tanto prazer se celebravam.
:Virão lograr os gostos desta Ilha,
- "Por mais que da Fortuna andem as rodas
:Varrendo triunfantes estandartes
(Nüa cônsona voz todas soavam),
:Pelas ondas que corta a aguda quilha;
Não vos hão-de faltar, gente famosa,
:E acharão estas Ninfas e estas mesas,
Honra, valor e fama gloriosa."
:Que glórias e honras são de árduas empresas."
 
:
:::::7475
Despois que a corporal necessidade
:Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
Se satisfez do mantimento nobre,
:Com sonoroso aplauso, vozes davam,
E na harmonia e doce suavidade
:Com que festejam as alegres vodas
Viram os altos feitos que descobre,
:Que com tanto prazer se celebravam.
Tétis, de graça ornada e gravidade,
:- "Por mais que da Fortuna andem as rodas
Pera que com mais alta glória dobre
:(Nüa cônsona voz todas soavam),
As festas deste alegre e claro dia,
:Não vos hão-de faltar, gente famosa,
Pera o felice Gama assi dizia:
:Honra, valor e fama gloriosa."
 
:
:::::75 76
- "Faz-te mercê, barão, a Sapiência
:Despois que a corporal necessidade
Suprema de, cos olhos corporais,
:Se satisfez do mantimento nobre,
Veres o que não pode a vã ciência
:E na harmonia e doce suavidade
Dos errados e míseros mortais.
:Viram os altos feitos que descobre,
Sigue-me firme e forte, com prudência,
:Tétis, de graça ornada e gravidade,
Por este monte espesso, tu cos mais."
:Pera que com mais alta glória dobre
Assi lhe diz e o guia por um mato
:As festas deste alegre e claro dia,
Árduo, difícil, duro a humano trato.
:Pera o felice Gama assi dizia:
 
:
:::::7677
Não andam muito que no erguido cume
:- "Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Se acharam, onde um campo se esmaltava
:Suprema de, cos olhos corporais,
De esmeraldas, rubis, tais que presume
:Veres o que não pode a vã ciência
A vista que divino chão pisava.
:Dos errados e míseros mortais.
Aqui um globo vêm no ar, que o lume
:Sigue-me firme e forte, com prudência,
Claríssimo por ele penetrava,
:Por este monte espesso, tu cos mais."
De modo que o seu centro está evidente,
:Assi lhe diz e o guia por um mato
Como a sua superfícia, claramente.
:Árduo, difícil, duro a humano trato.
 
:
:::::7778
Qual a matéria seja não se enxerga,
:Não andam muito que no erguido cume
Mas enxerga-se bem que está composto
:Se acharam, onde um campo se esmaltava
:De esmeraldas,vários rubisorbes, tais que presumea Divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
:A vista que divino chão pisava.
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
:Aqui um globo vêm no ar, que o lume
Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
:Claríssimo por ele penetrava,
Por toda a parte tem; e em toda a parte
:De modo que o seu centro está evidente,
Começa e acaba, enfim, por divina arte,
:Como a sua superfícia, claramente.
 
:
:::::7879
Uniforme, perfeito, em si sustido,
:Qual a matéria seja não se enxerga,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
:Mas enxerga-se bem que está composto
Vendo o Gama este globo, comovido
:De vários orbes, que a Divina verga
De espanto e de desejo ali ficou.
:Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Diz-lhe a Deusa: - "O transunto, reduzido
:Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
Em pequeno volume, aqui te dou
:Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
:Por toda a parte tem; e em toda a parte
Por onde vás e irás e o que desejas.
:Começa e acaba, enfim, por divina arte,
 
:
:::::7980
"Vês aqui a grande máquina do Mundo,
:Uniforme, perfeito, em si sustido,
Etérea e elemental, que fabricada
:Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Assi foi do Saber, alto e profundo,
:Vendo o Gama este globo, comovido
Que é sem princípio e meta limitada.
:De espanto e de desejo ali ficou.
Quem cerca em derredor este rotundo
:Diz-lhe a Deusa: - "O transunto, reduzido
Globo e sua superfícia tão limada,
:Em pequeno volume, aqui te dou
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
:Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Que a tanto o engenho humano não se estende.
:Por onde vás e irás e o que desejas.
 
:
:::::8081
"Este orbe que, primeiro, vai cercando
:"Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Os outros mais pequenos que em si tem,
:Etérea e elemental, que fabricada
Que está com luz tão clara radiando
:Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que a vista cega e a mente vil também,
:Que é sem princípio e meta limitada.
Empíreo se nomeia, onde logrando
:Quem cerca em derredor este rotundo
Puras almas estão daquele Bem
:Globo e sua superfícia tão limada,
Tamanho, que ele só se entende e alcança,
:É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
De quem não há no mundo semelhança.
:Que a tanto o engenho humano não se estende.
 
:
:::::8182
"Aqui, só verdadeiros, gloriosos
:"Este orbe que, primeiro, vai cercando
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
:Os outros mais pequenos que em si tem,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
:Que está com luz tão clara radiando
Fingidos de mortal e cego engano.
:Que a vista cega e a mente vil também,
Só pera fazer versos deleitosos
:Empíreo se nomeia, onde logrando
Servimos; e, se mais o trato humano
:Puras almas estão daquele Bem
Nos pode dar, é só que o nome nosso
:Tamanho, que ele só se entende e alcança,
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
:De quem não há no mundo semelhança.
 
:
:::::8283
"E também, porque a santa Providência,
:"Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Que em Júpiter aqui se representa,
:Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Por espíritos mil que têm prudência
:Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Governa o Mundo todo que sustenta
:Fingidos de mortal e cego engano.
(Ensina-lo a profética ciência,
:Só pera fazer versos deleitosos
Em muitos dos exemplos que apresenta);
:Servimos; e, se mais o trato humano
Os que são bons, guiando, favorecem,
:Nos pode dar, é só que o nome nosso
Os maus, em quanto podem, nos empecem;
:Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
 
:
:::::8384
"Quer logo aqui a pintura que varia
:"E também, porque a santa Providência,
Agora deleitando, ora ensinando,
:Que em Júpiter aqui se representa,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
:Por espíritos mil que têm prudência
A seus Deuses já dera, fabulando;
:Governa o Mundo todo que sustenta
Que os Anjos de celeste companhia
:(Ensina-lo a profética ciência,
Deuses o sacro verso está chamando,
:Em muitos dos exemplos que apresenta);
Nem nega que esse nome preminente
:Os que são bons, guiando, favorecem,
:OsTambém aos maus, em quantose podem, nosmas empecem;falsamente.
 
:
:::::84 85
:"QuerEnfim logoque aquio aSumo pinturaDeus, que variapor segundas
Causas obra no Mundo, tudo manda.
:Agora deleitando, ora ensinando,
E tornando a contar-te das profundas
:Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
Obras da Mão Divina veneranda,
:A seus Deuses já dera, fabulando;
Debaxo deste círculo onde as mundas
:Que os Anjos de celeste companhia
Almas divinas gozam, que não anda,
:Deuses o sacro verso está chamando,
Outro corre, tão leve e tão ligeiro
:Nem nega que esse nome preminente
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.
:Também aos maus se dá, mas falsamente.
 
:
:::::8586
"Com este rapto e grande movimento
:"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Vão todos os que dentro tem no seio;
:Causas obra no Mundo, tudo manda.
Por obra deste, o Sol, andando a tento,
:E tornando a contar-te das profundas
O dia e noite faz, com curso alheio.
:Obras da Mão Divina veneranda,
:Debaxo deste círculoleve, ondeanda asoutro mundaslento,
Tão lento e sojugado a duro freio,
:Almas divinas gozam, que não anda,
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
:Outro corre, tão leve e tão ligeiro
Duzentos cursos faz, dá ele um passo.
:Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.
 
:
:::::8687
"Olha estoutro debaxo, que esmaltado
:"Com este rapto e grande movimento
De corpos lisos anda e radiantes,
:Vão todos os que dentro tem no seio;
Que também nele tem curso ordenado
:Por obra deste, o Sol, andando a tento,
E nos seus axes correm cintilantes.
:O dia e noite faz, com curso alheio.
Bem vês como se veste e faz ornado
:Debaxo deste leve, anda outro lento,
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
:Tão lento e sojugado a duro freio,
Animais doze traz afigurados,
:Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
Apousentos de Febo limitados.
:Duzentos cursos faz, dá ele um passo.
 
:
:::::8788
:"Olha estoutropor debaxo,outras quepartes esmaltadoa pintura
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
:De corpos lisos anda e radiantes,
Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
:Que também nele tem curso ordenado
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
:E nos seus axes correm cintilantes.
Vê de Cassiopeia a fermosura
:Bem vês como se veste e faz ornado
E do Orionte o gesto turbulento;
:Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
Olha o Cisne morrendo que suspira,
:Animais doze traz afigurados,
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.
:Apousentos de Febo limitados.
 
:
:::::8889
"Debaxo deste grande Firmamento,
:"Olha por outras partes a pintura
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
:Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
Júpiter logo faz o movimento,
:Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
:Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
O claro Olho do céu, no quarto assento,
:Vê de Cassiopeia a fermosura
E Vénus, que os amores traz consigo;
:E do Orionte o gesto turbulento;
Mercúrio, de eloquência soberana;
:Olha o Cisne morrendo que suspira,
Com três rostos, debaxo vai Diana.
:A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.
 
:
:::::8990
"Em todos estes orbes, diferente
:"Debaxo deste grande Firmamento,
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
:Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Ora fogem do Centro longamente,
:Júpiter logo faz o movimento,
Ora da Terra estão caminho breve,
:E Marte abaxo, bélico inimigo;
Bem como quis o Padre omnipotente,
:O claro Olho do céu, no quarto assento,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
:E Vénus, que os amores traz consigo;
Os quais verás que jazem mais a dentro
:Mercúrio, de eloquência soberana;
E tem co Mar a Terra por seu centro.
:Com três rostos, debaxo vai Diana.
 
:
:::::9091
"Neste centro, pousada dos humanos,
:"Em todos estes orbes, diferente
Que não somente, ousados, se contentam
:Curso verás, nuns grave e noutros leve;
De sofrerem da terra firme os danos,
:Ora fogem do Centro longamente,
Mas inda o mar instábil exprimentam,
:Ora da Terra estão caminho breve,
Verás as várias partes, que os insanos
:Bem como quis o Padre omnipotente,
Mares dividem, onde se apousentam
:Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Várias nações que mandam vários Reis,
:Os quais verás que jazem mais a dentro
Vários costumes seus e várias leis.
:E tem co Mar a Terra por seu centro.
 
:
:::::9192
"Vês Europa Cristã, mais alta e clara
:"Neste centro, pousada dos humanos,
Que as outras em polícia e fortaleza.
:Que não somente, ousados, se contentam
Vês África, dos bens do mundo avara,
:De sofrerem da terra firme os danos,
Inculta e toda cheia de bruteza;
:Mas inda o mar instábil exprimentam,
Co Cabo que até'aqui se vos negara,
:Verás as várias partes, que os insanos
Que assentou pera o Austro a Natureza.
:Mares dividem, onde se apousentam
Olha essa terra toda, que se habita
:Várias nações que mandam vários Reis,
Dessa gente sem Lei, quási infinita.
:Vários costumes seus e várias leis.
 
:
:::::9293
"Vê do Benomotapa o grande império,
:"Vês Europa Cristã, mais alta e clara
De selvática gente, negra e nua,
:Que as outras em polícia e fortaleza.
Onde Gonçalo morte e vitupério
:Vês África, dos bens do mundo avara,
Padecerá, pola Fé santa sua.
:Inculta e toda cheia de bruteza;
Nace por este incógnito Hemispério
:Co Cabo que até'aqui se vos negara,
O metal por que mais a gente sua.
:Que assentou pera o Austro a Natureza.
:Olha essaque terrado toda,lago quedonde se habitaderrama
O Nilo, também vindo está Cuama.
:Dessa gente sem Lei, quási infinita.
 
:
:::::9394
"Olha as casas dos negros, como estão
:"Vê do Benomotapa o grande império,
Sem portas, confiados, em seus ninhos,
:De selvática gente, negra e nua,
Na justiça real e defensão
:Onde Gonçalo morte e vitupério
E na fidelidade dos vizinhos;
:Padecerá, pola Fé santa sua.
Olha deles a bruta multidão,
:Nace por este incógnito Hemispério
Qual bando espesso e negro de estorninhos,
:O metal por que mais a gente sua.
Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
:Vê que do lago donde se derrama
defenderá Nhaia com destreza.
:O Nilo, também vindo está Cuama.
 
:
:::::9495
:"Olha as casasas dosalagoas negros,donde comoo estãoNilo
Nace, que não souberam os antigos;
:Sem portas, confiados, em seus ninhos,
Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
:Na justiça real e defensão
Os povos Abassis, de Crista amigos;
:E na fidelidade dos vizinhos;
:Olha delescomo asem brutamuros multidão,(novo estilo)
Se defendem milhor dos inimigos;
:Qual bando espesso e negro de estorninhos,
Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
:Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
Que ora dos naturais Nobá se chama.
:defenderá Nhaia com destreza.
 
:
:::::9596
"Nesta remota terra um filho teu
:"Olha lá as alagoas donde o Nilo
Nas armas contra os Turcos será claro;
:Nace, que não souberam os antigos;
Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
:Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
Mas contra o fim fatal não há reparo.
:Os povos Abassis, de Crista amigos;
Vê cá a costa do mar, onde te deu
:Olha como sem muros (novo estilo)
Melinde hospício gasalhoso e caro;
:Se defendem milhor dos inimigos;
O Rapto rio nota, que o romance
:Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
Da terra chama Obi; entra em Quilmance.
:Que ora dos naturais Nobá se chama.
 
:
:::::9697
"O Cabo vê já Arómata chamado,
:"Nesta remota terra um filho teu
E agora Guardafú, dos moradores,
:Nas armas contra os Turcos será claro;
Onde começa a boca do afamado
:Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
:Mas contra o fim fatal não há reparo.
Este como limite está lançado
:Vê cá a costa do mar, onde te deu
Que divide Asia de Africa; e as milhores
:Melinde hospício gasalhoso e caro;
Povoações que a parte Africa tem
:O Rapto rio nota, que o romance
Maçuá são, Arquico e Suaquém.
:Da terra chama Obi; entra em Quilmance.
 
:
:::::9798
"Vês o extremo Suez, que antigamente
:"O Cabo vê já Arómata chamado,
Dizem que foi dos Héroas a cidade
:E agora Guardafú, dos moradores,
(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
:Onde começa a boca do afamado
Tem das frotas do Egipto a potestade.
:Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
Olha as águas nas quais abriu patente
:Este como limite está lançado
Estrada o grão Mousés na antiga idade.
:Que divide Asia de Africa; e as milhores
Ásia começa aqui, que se apresenta
:Povoações que a parte Africa tem
Em terras grande, em reinos opulenta.
:Maçuá são, Arquico e Suaquém.
 
:
:::::9899
:"VêsOlha o extremomonte SuezSinai, que antigamentese ennobrece
Co sepulcro de Santa Caterina;
:Dizem que foi dos Héroas a cidade
Olha Toro e Gidá, que lhe falece
:(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
Água das fontes, doce e cristalina;
:Tem das frotas do Egipto a potestade.
:Olha as águasportas nasdo quaisEstreito, abriuque patentefenece
No reino da seca Ádem, que confina
:Estrada o grão Mousés na antiga idade.
Com a serra d'Arzira, pedra viva,
:Ásia começa aqui, que se apresenta
Onde chuva dos céus se não deriva.
:Em terras grande, em reinos opulenta.
 
:
:::::99100
:"Olha oas monteArábias Sinaitrês, que setanta ennobreceterra
Tomam, todas da gente vaga e baça,
:Co sepulcro de Santa Caterina;
Donde vêm os cavalos pera a guerra,
:Olha Toro e Gidá, que lhe falece
Ligeiros e feroces, de alta raça;
:Água das fontes, doce e cristalina;
:Olha asa portascosta doque Estreitocorrre, até que fenececera
Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
:No reino da seca Ádem, que confina
O Cabo que co nome se apelida
:Com a serra d'Arzira, pedra viva,
Da cidade Fartaque, ali sabida.
:Onde chuva dos céus se não deriva.
 
:
:::::100101
:"Olha as Arábias trêsDófar, queinsigne tantaporque terramanda
O mais cheiroso incenso pera as aras;
:Tomam, todas da gente vaga e baça,
Mas atenta: já cá destoutra banda
:Donde vêm os cavalos pera a guerra,
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
:Ligeiros e feroces, de alta raça;
Começa o reino Ormuz, que todo se anda
:Olha a costa que corrre, até que cera
Pelas ribeiras que inda serão claras
:Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
Quando as galés do Turco e fera armada
:O Cabo que co nome se apelida
Virem de Castelbranco nua a espada.
:Da cidade Fartaque, ali sabida.
 
:
:::::101102
:"Olha Dófar,o insigneCabo Asaboro, porqueque mandachamado
Agora é Moçandão, dos navegantes;
:O mais cheiroso incenso pera as aras;
Por aqui entra o lago que é fechado
:Mas atenta: já cá destoutra banda
De Arábia e Pérsias terras abundantes.
:De Roçalgate, e praias sempre avaras,
:ComeçaAtenta oa reinoilha OrmuzBarém, que todoo sefundo andaornado
Tem das suas perlas ricas, e imitantes
:Pelas ribeiras que inda serão claras
A cor da Aurora; e vê na água salgada
:Quando as galés do Turco e fera armada
Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.
:Virem de Castelbranco nua a espada.
 
:
:::::102103
:"Olha oda Cabogrande Asaboro,Pérsia queo chamadoimpério nobre,
Sempre posto no campo e nos cavalos,
:Agora é Moçandão, dos navegantes;
Que se injuria de usar fundido cobre
:Por aqui entra o lago que é fechado
E de não ter das armas sempre os calos.
:De Arábia e Pérsias terras abundantes.
:AtentaMas vê a ilha BarémGerum, que o fundocomo ornadodescobre
O que fazem do tempo os intervalos,
:Tem das suas perlas ricas, e imitantes
Que da cidade Armuza, que ali esteve,
:A cor da Aurora; e vê na água salgada
Ela o nome despois e a glória teve.
:Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.
 
:
:::::103104
"Aqui de Dom Filipe de Meneses
:"Olha da grande Pérsia o império nobre,
Se mostrará a virtude, em armas clara,
:Sempre posto no campo e nos cavalos,
Quando, com muito poucos Portugueses,
:Que se injuria de usar fundido cobre
Os muitos Párseos vencerá de Lara.
:E de não ter das armas sempre os calos.
Virão provar os golpes e reveses
:Mas vê a ilha Gerum, como descobre
De Dom Pedro de Sousa, que provara
:O que fazem do tempo os intervalos,
:Que daseu cidadebraço Armuzaem Ampaza, que ali esteve, deixada
Terá por terra, à força só de espada.
:Ela o nome despois e a glória teve.
 
:
:::::104105
"Mas deixemos o Estreito e o conhecido
:"Aqui de Dom Filipe de Meneses
Cabo de Jasque, dito já Carpela,
:Se mostrará a virtude, em armas clara,
Com todo o seu terreno mal querido
:Quando, com muito poucos Portugueses,
Da Natura e dos dões usados dela;
:Os muitos Párseos vencerá de Lara.
Carmânia teve já por apelido.
:Virão provar os golpes e reveses
:DeMas Domvês Pedroo defermoso SousaIndo, que provaradaquela
Altura nace, junto à qual, também
:Já seu braço em Ampaza, que deixada
Doutra altura correndo o Gange vem?
:Terá por terra, à força só de espada.
 
:
:::::105106
"Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
:"Mas deixemos o Estreito e o conhecido
E de Jáquete a íntima enseada;
:Cabo de Jasque, dito já Carpela,
Do mar a enchente súbita, grandíssima,
:Com todo o seu terreno mal querido
E a vazante, que foge apressurada.
:Da Natura e dos dões usados dela;
A terra de Cambaia vê, riquíssima,
:Carmânia teve já por apelido.
Onde do mar o seio faz entrada;
:Mas vês o fermoso Indo, que daquela
Cidades outras mil, que vou passando,
:Altura nace, junto à qual, também
A vós outros aqui se estão guardando.
:Doutra altura correndo o Gange vem?
 
:
:::::106107
"Vês corre a costa célebre Indiana
:"Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
Pera o Sul, até o Cabo Comori,
:E de Jáquete a íntima enseada;
Já chamado Cori, que Taprobana
:Do mar a enchente súbita, grandíssima,
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
:E a vazante, que foge apressurada.
Por este mar a gente Lusitana,
:A terra de Cambaia vê, riquíssima,
Que com armas virá despois de ti,
:Onde do mar o seio faz entrada;
Terá vitórias, terras e cidades,
:Cidades outras mil, que vou passando,
Nas quais hão-de viver muitas idades.
:A vós outros aqui se estão guardando.
 
:
:::::107108
"As províncias que entre um e o outro rio
:"Vês corre a costa célebre Indiana
Vês, com várias nações, são infinitas:
:Pera o Sul, até o Cabo Comori,
Um reino Mahometa, outro Gentio,
:Já chamado Cori, que Taprobana
A quem tem o Demónio leis escritas.
:(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
Olha que de Narsinga o senhorio
:Por este mar a gente Lusitana,
Tem as relíquias santas e benditas
:Que com armas virá despois de ti,
Do corpo de Tomé, barão sagrado,
:Terá vitórias, terras e cidades,
Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.
:Nas quais hão-de viver muitas idades.
 
:
:::::108109
"Aqui a cidade foi que se chamava
:"As províncias que entre um e o outro rio
Meliapor, fermosa, grande e rica;
:Vês, com várias nações, são infinitas:
Os Ídolos antigos adorava
:Um reino Mahometa, outro Gentio,
Como inda agora faz a gente inica.
:A quem tem o Demónio leis escritas.
Longe do mar naquele tempo estava,
:Olha que de Narsinga o senhorio
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
:Tem as relíquias santas e benditas
Tomé vinha prègando, e já passara
:Do corpo de Tomé, barão sagrado,
Províncias mil do mundo, que ensinara.
:Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.
 
:
:::::109110
"Chegado aqui, pregando e junto dando
:"Aqui a cidade foi que se chamava
A doentes saúde, a mortos vida,
:Meliapor, fermosa, grande e rica;
Acaso traz um dia o mar, vagando,
:Os Ídolos antigos adorava
Um lenho de grandeza desmedida.
:Como inda agora faz a gente inica.
Deseja o Rei, que andava edificando,
:Longe do mar naquele tempo estava,
Fazer dele madeira; e não duvida
:Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Poder tirá-lo a terra, com possantes
:Tomé vinha prègando, e já passara
Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.
:Províncias mil do mundo, que ensinara.
 
:
:::::110111
"Era tão grande o peso do madeiro
:"Chegado aqui, pregando e junto dando
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
:A doentes saúde, a mortos vida,
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
:Acaso traz um dia o mar, vagando,
Menos trabalho em tal negócio gasta:
:Um lenho de grandeza desmedida.
:DesejaAta o Rei,cordão que andavatraz, edificandopor derradeiro,
No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
:Fazer dele madeira; e não duvida
Pera onde faça um sumptuoso templo
:Poder tirá-lo a terra, com possantes
Que ficasse aos futuros por exemplo.
:Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.
 
:
:::::111112
"Sabia bem que se com fé formada
:"Era tão grande o peso do madeiro
Mandar a um monte surdo que se mova,
:Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Que obedecerá logo à voz sagrada,
:Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
:Menos trabalho em tal negócio gasta:
A gente ficou disto alvoraçada;
:Ata o cordão que traz, por derradeiro,
Os Brâmenes o têm por cousa nova;
:No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
Vendo os milagres, vendo a santidade,
:Pera onde faça um sumptuoso templo
Hão medo de perder autoridade.
:Que ficasse aos futuros por exemplo.
 
:
:::::112113
"São estes sacerdotes dos Gentios
:"Sabia bem que se com fé formada
Em quem mais penetrado tinha enveja;
:Mandar a um monte surdo que se mova,
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
:Que obedecerá logo à voz sagrada,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
:Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
O principal, que ao peito traz os fios,
:A gente ficou disto alvoraçada;
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
:Os Brâmenes o têm por cousa nova;
Que inimiga não há, tão dura e fera,
:Vendo os milagres, vendo a santidade,
Como a virtude falsa, da sincera.
:Hão medo de perder autoridade.
 
:
:::::113 114
"Um filho próprio mata, e logo acusa
:"São estes sacerdotes dos Gentios
De homicídio Tomé, que era inocente;
:Em quem mais penetrado tinha enveja;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
:Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Condenaram-no a morte brevemente.
:Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
:O principalSanto, que aonão peito trazmilhor os fios,escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
:Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Quer, diante do Rei e dos senhores,
:Que inimiga não há, tão dura e fera,
Que se faça um milagre dos maiores.
:Como a virtude falsa, da sincera.
 
:
:::::114115
"O corpo morto manda ser trazido,
:"Um filho próprio mata, e logo acusa
Que res===s]ucite e seja perguntado
:De homicídio Tomé, que era inocente;
Quem foi seu matador, e será crido
:Dá falsas testemunhas, como se usa;
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
:Condenaram-no a morte brevemente.
Viram todos o moço vivo, erguido,
:O Santo, que não vê milhor escusa
Em nome de Jesu crucificado:
:Que apelar pera o Padre omnipotente,
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
:Quer, diante do Rei e dos senhores,
E descobre seu pai ser homicida.
:Que se faça um milagre dos maiores.
 
:
:::::115116
"Este milagre fez tamanho espanto
:"O corpo morto manda ser trazido,
Que o Rei se banha logo na água santa,
:Que res===s]ucite e seja perguntado
E muitos após ele; um beija o manto,
:Quem foi seu matador, e será crido
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
:Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
:Viram todos o moço vivo, erguido,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
:Em nome de Jesu crucificado:
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
:Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.
:E descobre seu pai ser homicida.
 
:
:::::116 117
"Um dia que pregando ao povo estava,
:"Este milagre fez tamanho espanto
Fingiram entre a gente um arruído.
:Que o Rei se banha logo na água santa,
(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
:E muitos após ele; um beija o manto,
Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
:Outro louvor do Deus de Tomé canta.
A multidão das pedras que voava
:Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
No Santo dá, já a tudo oferecido;
:Com seu veneno os morde enveja tanta,
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
:Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Com crua lança o peito lhe atravessa.
:Determinam matá-lo, em fim de tudo.
 
:
:::::117118
"Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
:"Um dia que pregando ao povo estava,
Chorou-te toda a terra que pisaste;
:Fingiram entre a gente um arruído.
Mais te choram as almas que vestindo
:(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
:Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
:A multidão das pedras que voava
Te recebem na glória que ganhaste.
:No Santo dá, já a tudo oferecido;
Pedimos-te que a Deus ajuda peças
:Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
:Com cruaque lançaos oteus peitoLusitanos lhe atravessafavoreças.
 
:
:::::118119
"E vós outros que os nomes usurpais
:"Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
De mandados de Deus, como Tomé,
:Chorou-te toda a terra que pisaste;
Dizei: se sois mandados, como estais
:Mais te choram as almas que vestindo
:SeSem iamirdes daa pregar a santa Fé que lhe ensinaste.?
Olhai que, se sois Sal e vos danais
:Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Na pátria, onde profeta ninguém é,
:Te recebem na glória que ganhaste.
Com que se salgarão em nossos dias
:Pedimos-te que a Deus ajuda peças
(Infiéis deixo) tantas heresias?
:Com que os teus Lusitanos favoreças.
 
:
:::::119 120
"Mas passo esta matéria perigosa
:"E vós outros que os nomes usurpais
E tornemos à costa debuxada.
:De mandados de Deus, como Tomé,
Já com esta cidade tão famosa
:Dizei: se sois mandados, como estais
Se faz curva a Gangética enseada;
:Sem irdes a pregar a santa Fé?
Corre Narsinga, rica e poderosa;
:Olhai que, se sois Sal e vos danais
Corre Orixa, de roupas abastada;
:Na pátria, onde profeta ninguém é,
No fundo da enseada, o ilustre rio
:Com que se salgarão em nossos dias
Ganges vem ao salgado senhorio;
:(Infiéis deixo) tantas heresias?
 
:
:::::120121
"Ganges, no qual os seus habitadores
:"Mas passo esta matéria perigosa
Morrem banhados, tendo por certeza
:E tornemos à costa debuxada.
Que, inda que sejam grandes pecadores,
:Já com esta cidade tão famosa
Esta água santa os lava e dá pureza.
:Se faz curva a Gangética enseada;
Vê Catigão, cidade das milhores
:Corre Narsinga, rica e poderosa;
De Bengala província, que se preza
:Corre Orixa, de roupas abastada;
De abundante. Mas olha que está posta
:No fundo da enseada, o ilustre rio
Pera o Austro, daqui virada, a costa.
:Ganges vem ao salgado senhorio;
 
:
:::::121122
"Olha o reino Arracão; olha o assento
:"Ganges, no qual os seus habitadores
De Pegu, que já monstros povoaram,
:Morrem banhados, tendo por certeza
Monstros filhos do feio ajuntamento
:Que, inda que sejam grandes pecadores,
Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
:Esta água santa os lava e dá pureza.
Aqui soante arame no instrumento
:Vê Catigão, cidade das milhores
Da geração costumam, o que usaram
:De Bengala província, que se preza
Por manha da Rainha que, inventando
:De abundante. Mas olha que está posta
Tal uso, deitou fora o error nefando.
:Pera o Austro, daqui virada, a costa.
 
:
:::::122123
:"Olha oTavai reinocidade, Arracão;onde olha o assentocomeça
De Sião largo o império tão comprido;
:De Pegu, que já monstros povoaram,
Tenassari, Quedá, que é só cabeça
:Monstros filhos do feio ajuntamento
Das que pimenta ali têm produzido.
:Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
Mais avante fareis que se conheça
:Aqui soante arame no instrumento
Malaca por empório ennobrecido,
:Da geração costumam, o que usaram
Onde toda a província do mar grande
:Por manha da Rainha que, inventando
Suas mercadorias ricas mande.
:Tal uso, deitou fora o error nefando.
 
:
:::::123124
"Dizem que desta terra co as possantes
:"Olha Tavai cidade, onde começa
Ondas o mar, entrando, dividiu
:De Sião largo o império tão comprido;
A nobre ilha Samatra, que já d'antes
:Tenassari, Quedá, que é só cabeça
Juntas ambas a gente antiga viu.
:Das que pimenta ali têm produzido.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
:Mais avante fareis que se conheça
Veias d'ouro que a terra produziu,
:Malaca por empório ennobrecido,
'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
:Onde toda a província do mar grande
Alguns que fosse Ofir imaginaram.
:Suas mercadorias ricas mande.
 
:
:::::124125
:"DizemMas, quena destaponta da terra, co as possantesCingapura
Verás, onde o caminho às naus se estreita;
:Ondas o mar, entrando, dividiu
Daqui tornando a costa à Cinosura,
:A nobre ilha Samatra, que já d'antes
Se encurva e pera a Aurora se endireita.
:Juntas ambas a gente antiga viu.
Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
:Quersoneso foi dita; e das prestantes
De Sião, que estes e outros mais sujeita;
:Veias d'ouro que a terra produziu,
Olha o rio Menão, que se derrama
:'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
:AlgunsDo grande lago que fosseChiamai Ofirse imaginaramchama.
 
:
:::::125126
Vês neste grão terreno os diferentes
:"Mas, na ponta da terra, Cingapura
Nomes de mil nações, nunca sabidas:
:Verás, onde o caminho às naus se estreita;
Os Laos, em terra e número potentes;
:Daqui tornando a costa à Cinosura,
Avás, Bramás, por serras tão compridas;
:Se encurva e pera a Aurora se endireita.
Vê nos remotos montes outras gentes,
:Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
:De Sião, que estes e outros mais sujeita;
Humana carne comem, mas a sua
:Olha o rio Menão, que se derrama
Pintam com ferro ardente, usança crua.
:Do grande lago que Chiamai se chama.
 
:
:::::126127
:"Vês, nestepassa grãopor terrenoCamboja osMecom diferentesrio,
Que capitão das águas se interpreta;
:Nomes de mil nações, nunca sabidas:
Tantas recebe d' outro só no Estio,
:Os Laos, em terra e número potentes;
Que alaga os campos largos e inquieta;
:Avás, Bramás, por serras tão compridas;
Tem as enchentes quais o Nilo frio;
:Vê nos remotos montes outras gentes,
A gente dele crê, como indiscreta,
:Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
Que pena e glória têm, despois de morte,
:Humana carne comem, mas a sua
Os brutos animais de toda sorte.
:Pintam com ferro ardente, usança crua.
 
:
:::::127128
"Este receberá, plácido e brando,
:"Vês, passa por Camboja Mecom rio,
No seu regaço os Cantos que molhados
:Que capitão das águas se interpreta;
Vêm do naufrágio triste e miserando,
:Tantas recebe d' outro só no Estio,
Dos procelosos baxos escapados,
:Que alaga os campos largos e inquieta;
Das fomes, dos perigos grandes, quando
:Tem as enchentes quais o Nilo frio;
Será o injusto mando executado
:A gente dele crê, como indiscreta,
Naquele cuja Lira sonorosa
:Que pena e glória têm, despois de morte,
Será mais afamada que ditosa.
:Os brutos animais de toda sorte.
 
:
:::::128129
"Vês, corre a costa que Champá se chama,
:"Este receberá, plácido e brando,
Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
:No seu regaço os Cantos que molhados
Vês Cauchichina está, de escura fama,
:Vêm do naufrágio triste e miserando,
E de Ainão vê a incógnita enseada;
:Dos procelosos baxos escapados,
Aqui o soberbo Império, que se afama
:Das fomes, dos perigos grandes, quando
Com terras e riqueza não cuidada,
:Será o injusto mando executado
Da China corre, e ocupa o senhorio
:Naquele cuja Lira sonorosa
Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.
:Será mais afamada que ditosa.
 
:
:::::129130
"Olha o muro e edifício nunca crido,
:"Vês, corre a costa que Champá se chama,
Que entre um império e o outro se edifica,
:Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
Certíssimo sinal, e conhecido,
:Vês Cauchichina está, de escura fama,
Da potência real, soberba e rica.
:E de Ainão vê a incógnita enseada;
Estes, o Rei que têm, não foi nacido
:Aqui o soberbo Império, que se afama
Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
:Com terras e riqueza não cuidada,
Mas elegem aquele que é famoso
:Da China corre, e ocupa o senhorio
Por cavaleiro, sábio e virtuoso.
:Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.
 
:
:::::130131
"Inda outra muita terra se te esconde
:"Olha o muro e edifício nunca crido,
Até que venha o tempo de mostrar-se;
:Que entre um império e o outro se edifica,
Mas não deixes no mar as Ilhas onde
:Certíssimo sinal, e conhecido,
A Natureza quis mais afamar-se:
:Da potência real, soberba e rica.
Esta, meia escondida, que responde
:Estes, o Rei que têm, não foi nacido
De longe à China, donde vem buscar-se,
:Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
É Japão, onde nace a prata fina,
:Mas elegem aquele que é famoso
Que ilustrada será co a Lei divina.
:Por cavaleiro, sábio e virtuoso.
 
:
:::::131132
"Olha cá pelos mares do Oriente
:"Inda outra muita terra se te esconde
Ás infinitas Ilhas espalhadas:
:Até que venha o tempo de mostrar-se;
Vê Tidore e Ternate, co fervente
:Mas não deixes no mar as Ilhas onde
Cume, que lança as flamas ondeadas.
:A Natureza quis mais afamar-se:
As árvores verás do cravo ardente,
:Esta, meia escondida, que responde
Co sangue Português inda compradas.
:De longe à China, donde vem buscar-se,
Aqui há as áureas aves, que não decem
:É Japão, onde nace a prata fina,
Nunca à terra e só mortas aparecem.
:Que ilustrada será co a Lei divina.
 
:
:::::132133
:"Olha de pelosBanda maresas doIlhas, Orienteque se esmaltam
Da vária cor que pinta o roxo fruto;
:Ás infinitas Ilhas espalhadas:
Às aves variadas, que ali saltam,
:Vê Tidore e Ternate, co fervente
Da verde noz tomando seu tributo.
:Cume, que lança as flamas ondeadas.
Olha também Bornéu, onde não faltam
:As árvores verás do cravo ardente,
Lágrimas no licor coalhado e enxuto
:Co sangue Português inda compradas.
Das árvores, que cânfora é chamado,
:Aqui há as áureas aves, que não decem
Com que da Ilha o nome é celebrado.
:Nunca à terra e só mortas aparecem.
 
:
:::::133134
"Ali também Timor, que o lenho manda
:"Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
Sândalo, salutífero e cheiroso;
:Da vária cor que pinta o roxo fruto;
Olha a Sunda, tão larga que üa banda
:Às aves variadas, que ali saltam,
Esconde pera o Sul dificultoso;
:Da verde noz tomando seu tributo.
A gente do Sertão, que as terras anda,
:Olha também Bornéu, onde não faltam
Um rio diz que tem miraculoso,
:Lágrimas no licor coalhado e enxuto
Que, por onde ele só, sem outro, vai,
:Das árvores, que cânfora é chamado,
Converte em pedra o pau que nele cai.
:Com que da Ilha o nome é celebrado.
 
:
:::::134135
:"Ali também Timor,naquela que o lenhotempo mandatornou Ilha,
Que também flamas trémulas vapora,
:Sândalo, salutífero e cheiroso;
A fonte que óleo mana, e a maravilha
:Olha a Sunda, tão larga que üa banda
Do cheiroso licor que o tronco chora,
:Esconde pera o Sul dificultoso;
- Cheiroso, mais que quanto estila a filha
:A gente do Sertão, que as terras anda,
De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
:Um rio diz que tem miraculoso,
E vê que, tendo quanto as outras têm,
:Que, por onde ele só, sem outro, vai,
Branda seda e fino ouro dá também.
:Converte em pedra o pau que nele cai.
 
:
:::::135136
:"Olha, naquelaem Ceilão, que o tempomonte tornouse Ilha,alevanta
Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
:Que também flamas trémulas vapora,
Os naturais o têm por cousa santa,
:A fonte que óleo mana, e a maravilha
Pola pedra onde está a pegada humana.
:Do cheiroso licor que o tronco chora,
Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
:- Cheiroso, mais que quanto estila a filha
No profundo das águas, soberana,
:De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
Cujo pomo contra o veneno urgente
:E vê que, tendo quanto as outras têm,
É tido por antídoto excelente.
:Branda seda e fino ouro dá também.
 
:
:::::136137
"Verás defronte estar do Roxo Estreito
:"Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
Socotorá, co amaro aloé famosa;
:Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
Outras ilhas, no mar também sujeito
:Os naturais o têm por cousa santa,
A vós, na costa de África arenosa,
:Pola pedra onde está a pegada humana.
Onde sai do cheiro mais perfeito
:Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
A massa, ao mundo oculta e preciosa.
:No profundo das águas, soberana,
De São Lourenço vê a Ilha afamada,
:Cujo pomo contra o veneno urgente
Que Madagáscar é dalguns chamada.
:É tido por antídoto excelente.
 
:
:::::137138
"Eis aqui as novas partes do Oriente
:"Verás defronte estar do Roxo Estreito
Que vós outros agora ao mundo dais,
:Socotorá, co amaro aloé famosa;
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
:Outras ilhas, no mar também sujeito
Que com tão forte peito navegais.
:A vós, na costa de África arenosa,
Mas é também razão que, no Ponente,
:Onde sai do cheiro mais perfeito
Dum Lusitano um feito inda vejais,
:A massa, ao mundo oculta e preciosa.
Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
:De São Lourenço vê a Ilha afamada,
Caminho há-de fazer nunca cuidado.
:Que Madagáscar é dalguns chamada.
 
:
:::::138139
"Vedes a grande terra que contina
:"Eis aqui as novas partes do Oriente
Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
:Que vós outros agora ao mundo dais,
Que soberba a fará a luzente mina
:Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Do metal que a cor tem do louro Apolo.
:Que com tão forte peito navegais.
Castela, vossa amiga, será dina
:Mas é também razão que, no Ponente,
De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
:Dum Lusitano um feito inda vejais,
Varias províncias tem de várias gentes,
:Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Em ritos e costumes, diferentes.
:Caminho há-de fazer nunca cuidado.
 
:
:::::139140
"Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
:"Vedes a grande terra que contina
Parte também, co pau vermelho nota;
:Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
De Santa Cruz o nome lhe poreis;
:Que soberba a fará a luzente mina
Descobri-la-á a primeira vossa frota.
:Do metal que a cor tem do louro Apolo.
Ao longo desta costa, que tereis,
:Castela, vossa amiga, será dina
Irá buscando a parte mais remota
:De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
O Magalhães, no feito, com verdade,
:Varias províncias tem de várias gentes,
Português, porém não na lealdade.
:Em ritos e costumes, diferentes.
 
:
:::::140141
"Dês que passar a via mais que meia
:"Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
:Parte também, co pau vermelho nota;
Düa estatura quási giganteia
:De Santa Cruz o nome lhe poreis;
Homens verá, da terra ali vizinha;
:Descobri-la-á a primeira vossa frota.
E mais avante o Estreito que se arreia
:Ao longo desta costa, que tereis,
Co nome dele agora, o qual caminha
:Irá buscando a parte mais remota
Pera outro mar e terra que fica onde
:O Magalhães, no feito, com verdade,
Com suas frias asas o Austro a esconde.
:Português, porém não na lealdade.
 
:
:::::141142
"Até'aqui Portugueses concedido
:"Dês que passar a via mais que meia
Vos é saberdes os futuros feitos
:Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
Que, pelo mar que já deixais sabido,
:Düa estatura quási giganteia
Virão fazer barões de fortes peitos.
:Homens verá, da terra ali vizinha;
Agora, pois que tendes aprendido
:E mais avante o Estreito que se arreia
Trabalhos que vos façam ser aceitos
:Co nome dele agora, o qual caminha
As eternas esposas e fermosas,
:Pera outro mar e terra que fica onde
Que coroas vos tecem gloriosas,
:Com suas frias asas o Austro a esconde.
 
:
:::::142143
"Podeis-vos embarcar, que tendes vento
:"Até'aqui Portugueses concedido
E mar tranquilo, pera a pátria amada."
:Vos é saberdes os futuros feitos
Assi lhe disse; e logo movimento
:Que, pelo mar que já deixais sabido,
Fazem da Ilha alegre e namorada.
:Virão fazer barões de fortes peitos.
Levam refresco e nobre mantimento;
:Agora, pois que tendes aprendido
Levam a companhia desejada
:Trabalhos que vos façam ser aceitos
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
:As eternas esposas e fermosas,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
:Que coroas vos tecem gloriosas,
 
:
:::::143144
Assi foram cortando o mar sereno,
:"Podeis-vos embarcar, que tendes vento
Com vento sempre manso e nunca irado,
:E mar tranquilo, pera a pátria amada."
Até que houveram vista do terreno
:Assi lhe disse; e logo movimento
Em que naceram, sempre desejado.
:Fazem da Ilha alegre e namorada.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
:Levam refresco e nobre mantimento;
E à sua pátria e Rei temido e amado
:Levam a companhia desejada
O prémio e glória dão por que mandou,
:Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
E com títulos novos se ilustrou.
:Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
 
:
:::::144145
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
:Assi foram cortando o mar sereno,
Destemperada e a voz enrouquecida,
:Com vento sempre manso e nunca irado,
E não do canto, mas de ver que venho
:Até que houveram vista do terreno
Cantar a gente surda e endurecida.
:Em que naceram, sempre desejado.
O favor com que mais se acende o engenho
:Entraram pela foz do Tejo ameno,
:ENão àno suadá a pátria, e Rei temidonão, eque amadoestá metida
No gosto da cobiça e na rudeza
:O prémio e glória dão por que mandou,
Düa austera, apagada e vil tristeza.
:E com títulos novos se ilustrou.
 
:
:::::145146
E não sei por que influxo de Destino
:Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
:Destemperada e a voz enrouquecida,
Que os ânimos levanta de contino
:E não do canto, mas de ver que venho
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
:Cantar a gente surda e endurecida.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
:O favor com que mais se acende o engenho
Conselho estais no régio sólio posto,
:Não no dá a pátria, não, que está metida
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
:No gosto da cobiça e na rudeza
Senhor só de vassalos excelentes.
:Düa austera, apagada e vil tristeza.
 
:
:::::146147
Olhai que ledos vão, por várias vias,
:E não sei por que influxo de Destino
Quais rompentes liões e bravos touros,
:Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Dando os corpos a fomes e vigias,
:Que os ânimos levanta de contino
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
:A ter pera trabalhos ledo o rosto.
A quentes regiões, a plagas frias,
:Por isso vós, ó Rei, que por divino
A golpes de Idolátras e de Mouros,
:Conselho estais no régio sólio posto,
A perigos incógnitos do mundo,
:Olhai que sois (e vede as outras gentes)
A naufrágios, a pexes, ao profundo.
:Senhor só de vassalos excelentes.
 
:
:::::147148
Por vos servir, a tudo aparelhados;
:Olhai que ledos vão, por várias vias,
De vós tão longe, sempre obedientes;
:Quais rompentes liões e bravos touros,
A quaisquer vossos ásperos mandados,
:Dando os corpos a fomes e vigias,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
:A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
Só com saber que são de vós olhados,
:A quentes regiões, a plagas frias,
Demónios infernais, negros e ardentes,
:A golpes de Idolátras e de Mouros,
Cometerão convosco, e não duvido
:A perigos incógnitos do mundo,
Que vencedor vos façam, não vencido.
:A naufrágios, a pexes, ao profundo.
 
:
:::::148 149
Favorecei-os logo, e alegrai-os
:Por vos servir, a tudo aparelhados;
Com a presença e leda humanidade;
:De vós tão longe, sempre obedientes;
De rigorosas leis desalivai-os,
:A quaisquer vossos ásperos mandados,
Que assi se abre o caminho à santidade.
:Sem dar reposta, prontos e contentes.
Os mais exprimentados levantai-os,
:Só com saber que são de vós olhados,
Se, com a experiência, têm bondade
:Demónios infernais, negros e ardentes,
Pera vosso conselho, pois que sabem
:Cometerão convosco, e não duvido
O como, o quando, e onde as cousas cabem.
:Que vencedor vos façam, não vencido.
 
:
:::::149150
Todos favorecei em seus ofícios,
:Favorecei-os logo, e alegrai-os
Segundo têm das vidas o talento;
:Com a presença e leda humanidade;
Tenham Religiosos exercícios
:De rigorosas leis desalivai-os,
De rogarem, por vosso regimento,
:Que assi se abre o caminho à santidade.
Com jejuns, disciplina, pelos vícios
:Os mais exprimentados levantai-os,
Comuns; toda ambição terão por vento,
:Se, com a experiência, têm bondade
Que o bom Religioso verdadeiro
:Pera vosso conselho, pois que sabem
Glória vã não pretende nem dinheiro.
:O como, o quando, e onde as cousas cabem.
 
:
:::::150151
Os Cavaleiros tende em muita estima,
:Todos favorecei em seus ofícios,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
:Segundo têm das vidas o talento;
Estendem não sòmente a Lei de cima,
:Tenham Religiosos exercícios
Mas inda vosso Império preminente.
:De rogarem, por vosso regimento,
Pois aqueles que a tão remoto clima
:Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Vos vão servir, com passo diligente,
:Comuns; toda ambição terão por vento,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
:Que o bom Religioso verdadeiro
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
:Glória vã não pretende nem dinheiro.
 
:
:::::151152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
:Os Cavaleiros tende em muita estima,
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
:Pois com seu sangue intrépido e fervente
Possam dizer que são pera mandados,
:Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
:Mas inda vosso Império preminente.
Tomai conselho só d'exprimentados
:Pois aqueles que a tão remoto clima
Que viram largos anos, largos meses,
:Vos vão servir, com passo diligente,
Que, posto que em cientes muito cabe.
:Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
Mais em particular o experto sabe.
:E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
 
:
:::::152153
De Formião, filósofo elegante,
:Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Vereis como Anibal escarnecia,
:Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Quando das artes bélicas, diante
:Possam dizer que são pera mandados,
Dele, com larga voz tratava e lia.
:Mais que pera mandar, os Portugueses.
A disciplina militar prestante
:Tomai conselho só d'exprimentados
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
:Que viram largos anos, largos meses,
Sonhando, imaginando ou estudando,
:Que, posto que em cientes muito cabe.
Senão vendo, tratando e pelejando.
:Mais em particular o experto sabe.
 
:
:::::153154
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
:De Formião, filósofo elegante,
De vós não conhecido nem sonhado?
:Vereis como Anibal escarnecia,
Da boca dos pequenos sei, contudo,
:Quando das artes bélicas, diante
Que o louvor sai às vezes acabado.
:Dele, com larga voz tratava e lia.
Tem me falta na vida honesto estudo,
:A disciplina militar prestante
Com longa experiência misturado,
:Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
:Sonhando, imaginando ou estudando,
Cousas que juntas se acham raramente.
:Senão vendo, tratando e pelejando.
 
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Pera servir-vos, braço às armas feito,
:Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
:De vós não conhecido nem sonhado?
Só me falece ser a vós aceito,
:Da boca dos pequenos sei, contudo,
De quem virtude deve ser prezada.
:Que o louvor sai às vezes acabado.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
:Tem me falta na vida honesto estudo,
Dina empresa tomar de ser cantada,
:Com longa experiência misturado,
Como a pres[s]aga mente vaticina
:Nem engenho, que aqui vereis presente,
Olhando a vossa inclinação divina,
:Cousas que juntas se acham raramente.
 
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Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
:Pera servir-vos, braço às armas feito,
A vista vossa tema o monte Atlante,
:Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
:Só me falece ser a vós aceito,
Os muros de Marrocos e Trudante,
:De quem virtude deve ser prezada.
A minha já estimada e leda Musa
:Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Fico que em todo o mundo de vós cante,
:Dina empresa tomar de ser cantada,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
:Como a pres[s]aga mente vaticina
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
:Olhando a vossa inclinação divina,
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:Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
:A vista vossa tema o monte Atlante,
:Ou rompendo nos campos de Ampelusa
:Os muros de Marrocos e Trudante,
:A minha já estimada e leda Musa
:Fico que em todo o mundo de vós cante,
:De sorte que Alexandro em vós se veja,
:Sem à dita de Aquiles ter enveja.
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