Diferenças entre edições de "São Cristóvão/VIII"

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|obra=[[São Cristóvão]]
|autor=Eça de QueirozQueirós
|seção=Capítulo VIII
|anterior=[[São Cristóvão/VII|Capítulo VII]]
E Cristóvão sentia uma ansiedade de compreender, quando viu diante de si os dois noivos com os braços enlaçados, que sorriam. Surpreendido, Cristóvão fechou o livro. E como Etelvina, vendo a sua larga face perturbada e cheia de piedade, lhe perguntava se ele amava o Senhor, Cristóvão moveu a cabeça, sem compreender. Pois quê? Ele não conhecia o Senhor e não amava a sua doçura? Tão grande escuridão naquela alma encheu-a de piedade: e um escrúpulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto ela se ocupava de amar, alguém, ao pé dela, vivia sem conhecer o Senhor. E então, para que bem merecessem Jesus, e para recompensar a proteção de Cristóvão, ela pediu a Alfredo que lessem o santo livro àquele homem simples, que o ignorava.
 
Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. Já as árvores se desfolhavam; mais tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o céu. Para ouvir melhor, Cristóvão sentara-se sobre um alto monte de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepava ao seu vasto joelho – e Etelvina sentou-se no outro joelho, tão simplesmente como se fora um rocha ou um cômoro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os de um anjo: as suas mãos pousavam castamente no regaço. Defronte, Alfredo abrira o livro: - e com a vasta face de Cristóvão entre eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e duros de uma enorme estátua de pedra.
 
E toda a tarde, no silêncio do arvoredo. Alfredo leu a vida do Senhor. Disse a estrela brilhando sobre o seu berço, e os pastores de longe vindos para ele, misturados aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros chegavam com alfanjes: e o Menino sorria adormecido no colo da mãe, enquanto a burrinha, toque, toque, os levava para o Egito. Lá repousavam sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do deserto: e o menino, rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um ramo de açucena. Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse a ler o Menino: seu pai sorria por trás na sua grande barba: S. Joãozinho, ao lado, escutava com a mãozinha apoiada à face; e dois anjos no alto erguem a mão, param os ventos, para que nenhum ruído perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino aprendeu, porque eis que os velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do seu saber...