Diferenças entre edições de "A Carne/XV"

7 074 bytes removidos ,  00h27min de 12 de outubro de 2014
m
555: split
m (555: match)
m (555: split)
}}[[Categoria:A Carne|Capítulo 15]]
 
==[[Página:A Carne.djvu/355]]==
— Que lindo está o dia, exclamou o coronel, chegando à porta que dizia para o terreiro. — Um tempo firme, sim senhor! Jacinto!
 
<pages index="A Carne.djvu" from=355 to=364 />
&mdash; Sinhô! acudiu um preto velho.
 
&mdash; Para onde foi a gente hoje?
 
&mdash; Foi a cortar arroz, sim, sinhô.
 
&mdash; Onde está Manduca?
 
&mdash; Sinhô moço mandou ensilhar o rozilho, e foi para a banda da vila, sim sinhô.
 
O coronel respirou à larga o ar fresco, puro, da manhã resplendente. Dormira
==[[Página:A Carne.djvu/356]]==
toda a noite, não tivera dores, estava bem disposto. Queria expandir-se, queria conversar.
 
&mdash; Logo hoje que estou sequioso por uma prosa é que me foge o Manduca, é que se deixa ficar na cama a Lenita! Forte coisa! Vou fazer uma extravagância, vou dar uma volta pelo cafezal.
 
E mandou arrear uma égua velha, muito mansa, andadeira, uma rede, dizia ele. Saiu, foi visitar o cafezal, coisa que fazia raramente, uma ou outra vez por ano.
 
Quando voltou era quase meio-dia. Perguntou por Barbosa, não tinha vindo; por Lenita, ainda estava deitada. Veio com fome. Mandou pôr a mesa; enquanto esperava foi ao quarto de Lenita, bateu à porta.
 
&mdash; Que é isto? perguntou. Temos macacoa?
 
&mdash; Macacoa, não; sono,
==[[Página:A Carne.djvu/357]]==
respondeu a moça.
 
&mdash; Ainda estava dormindo?
 
&mdash; Acordei com o seu batido.
 
&mdash; Olhe, levante-se, venha-me fazer companhia. O Manduca não sei para onde foi. Eu ainda não almocei, e não quero almoçar sozinho.
 
&mdash; Já vou.
 
&mdash; Pois fico esperando; venha logo, que estou com o estômago a dar horas.
 
A cabo de meia hora Lenita apareceu. Estava pálida, macilenta: tinha as pálpebras vermelhas, os olhos batidos, grandes olheiras. Veio embrulhada em uma peliça.
 
De quando em quando estremecia com um calafrio. Sentou-se à mesa meio de lado, alquebrada, lânguida.
 
&mdash; Melhor cara traga o dia de amanhã! Gritou o coronel ao vê-la. Parece
==[[Página:A Carne.djvu/358]]==
que passou a noite no cemitério. Que é que teve?
 
&mdash; Uma ligeira indisposição.
 
&mdash; Hum! Já eu estava vendo isso mesmo ontem à noite. Ai moças, moças! Isso enquanto não casam... Que há de querer um mingauzinho de cará?
 
&mdash; Não, obrigada.
 
&mdash; Olhe estas ervas...
 
&mdash; Obrigada.
 
&mdash; Um pedaço de fiambre?
 
&mdash; Fiambre... quero, mas pouco, sim?
 
O coronel serviu-lhe uma naca larga, rósea, marmoreada de veios de gordura branca.
 
Lenita polvilhou-a de sal moído, comeu com apetite.
 
&mdash; Está gostando de salgados, hein? Eu quando digo... Mais uma naquinha, sim?
 
Lenita aceitou,
==[[Página:A Carne.djvu/359]]==
mandou buscar ginger-ale, bebeu um copo cheio.
 
Conversou com o coronel por cerca de duas horas.
 
Ao cair da tarde sentiu-se fraca, tomada de invencível soneira.
 
Recolheu-se, dormiu. Levantou-se ao escurecer. Quando ia saindo do quarto, deu com Barbosa que, de pé junto de um consolo, fingia examinar uma estatueta.
 
&mdash; Boa tarde, Lenita, disse ele com voz trêmula, tímido, desapontado.
 
A moça não respondeu: com um arranco nervoso tomou-lhe a cabeça entre as mãos, curvou-a, beijou-a sofregamente, esquisitamente, no alto, afundando, sumindo o rosto nos cabelos curtos, levemente crespos.
 
&mdash; Lenita, segredou em voz sumida, tênue como sopro, é perigoso, podem vê-la, encontrá-la.
==[[Página:A Carne.djvu/360]]==
Eu virei é melhor.
 
&mdash; Aqui dorme a rapariga.
 
&mdash; Fácil é afastá-la sob qualquer pretexto. Deixe as portas cerradas.
 
Foram para a sala de jantar.
 
O coronel já tinha feito acender o lampião; estava de pé, junto à mesa, lendo a correspondência que minutos antes tinha chegado da vila.
 
&mdash; Olhe, Lenita, disse, aí estão os seus jornais, e também uma carta. Leia, leia logo a carta; é coisa que lhe interessa.
 
&mdash; Sim! Como sabe?
 
&mdash; A letra do sobrescrito é mesma desta que eu recebi. Leia.
 
&mdash; Que será? interrogou-se a moça, rasgando o envoltório com gesto fatigado, aborrida. Desdobrou a folha de papel, leu sem manifestar sentimento
==[[Página:A Carne.djvu/361]]==
algum, com absoluta indiferença. Depois passou-a aberta ao coronel.
 
&mdash;Ora! Exclamou, arrastando a voz, com fastio.
 
&mdash; Então? Perguntou o coronel.
 
&mdash; Leia, está aí.
 
&mdash; Pois não é do Dr. Mendes Maia?
 
&mdash; É.
 
&mdash; E que lhe diz você?
 
&mdash; Eu digo... digo... não digo coisa nenhuma.
 
&mdash; Já se deixa ver que quer cala...
 
&mdash; Nem sempre consente. O Dr. Mendes Maia perdeu o seu tempo, a sua retórica, o seu papel, a sua tinta e o seu selo. Eu não me caso com ele.
 
&mdash; É um pedido de casamento? perguntou Barbosa, ansiado.
 
&mdash; Em forma.
 
&mdash; E quem é esse Dr. Mendes Maia?
==[[Página:A Carne.djvu/362]]==
 
&mdash; Esse Dr. Mendes Maia é um bacharel em direito, nortista; fez seu quatriênio, e está na corte, à espera de um juizado de direito aqui na província.
 
&mdash; E donde o conhece D. Lenita?
 
&mdash; De Campinas. Estivemos juntos em um baile, no Club Semanal, há de haver três anos. Dançou comigo, fez-me a corte por duas horas, e agora pede-me em casamento.
 
&mdash; Meu pai também o conhece?
 
&mdash; Conheço: ele andou viajando por estas bandas com um primo que queria comprar sítio de café. Veio-me recomendado de São Paulo, e até pousou aqui, uma noite.
 
&mdash; Que espécie de homem é?
 
&mdash; É um bacharel em direito como a maioria dos bacharéis em direito. Parece-me boa pessoa. Homem, sou franco, para mim tem um defeito capital, é nortista.
==[[Página:A Carne.djvu/363]]==
No mais, não há que dizer. Lenita, que hei de eu responder ao homem?
 
&mdash; Boa pergunta! Responda que eu não me quero casar que agradeço muito a honra da proposta, e coisas e tal, uma tábua cortês.
 
&mdash; Não valerá a pena pensar um pouco antes de decidir a coisa assim de talho, sem remédio?
 
&mdash; Não há que pensar, não quero.
 
&mdash; Olhe que o rapaz, segundo me diz o meu velho amigo Cruz Chaves, nesta outra carta que recebi, tem todos os requisitos para um bom corte de noivo: é inteligente, honesto, morigerado, trabalhador, econômico, bom católico, e muitas coisas mais. Fez o seu quatriênio como promotor e juiz municipal, está à espera de um juizado de direito, como você mesmo disse, e há de obtê-lo, porque dá-se com o Cotegipe e é muito protegido
==[[Página:A Carne.djvu/364]]==
pelo Mac Dowel. E tem seus cobres.
 
&mdash; O partido tenta, tenta, mas eu é que me não deixo prender.
 
&mdash; Olhe que isto não vai a matar, não é sangria desatada, pense primeiro, responda depois.
 
&mdash; Não há que pensar.
 
&mdash; Esta mocidade! Para que tomar decisões de afogadilho, quando há tempo para refletir, para pesar todos os prós e todos os contras?
 
&mdash; A resposta agora, ou daqui a um ano há de ser a mesma: não quero.
 
&mdash; Menina, ninguém deve dizer "deste pão não comerei".
 
&mdash; E nem tão pouco "desta água não beberei". Sabido, mas eu não quero mesmo.
 
&mdash; Bom, bom; não quer, não quer! Amanhã lá segue a recusa: que se aguente o Dr. Mendes Maia.