Diferenças entre edições de "A Abóbada/II"

188 bytes adicionados ,  17h44min de 5 de novembro de 2014
sem resumo de edição
m (clean up)
|posterior=[[A Abóbada/III|Capítulo III]]
|notas=
}}[[Categoria:A Abóbada|Capítulo 02]]
}}
==__MATCH__:[[Página:Lendas e Narrativas - Tomo I.djvu/261]]==
Uma das innumeraveis questoesquestões, que, em nosso entender, eternamente ficaraoficarão por decidir, eé a que versa sobre qual dos dous dictados—dictados—­voz do povo eé voz de Deus—ou—Deus—­ou—­voz do povo eé voz do diabo—diabo—­seja o que exprima a verdade. EÉ indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instinctod’instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saidosaído do porto, taotão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exaccaoexacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem da estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio eé esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. nãoNão ha, nem haverahaverá, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno eé uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solucaosolução a tudo o que se não entende, eé acaso a unica via de resolver a duvidadúvida. Se o eé, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.
 
Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos mencaomenção no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira aá planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, comecoucomeçou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorreraoccorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidaomultidão se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal forafóra, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam ve-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por herancaherança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolucaorevolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jorneajórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de cacadacaçada. Chegando aá porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a maomão no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados aà roda delle: —-"viva—­“viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"—”—­grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.
Uma das innumeraveis questoes, que, em nosso entender, eternamente ficarao por decidir, e a que versa sobre qual dos dous dictados—voz do povo e voz de Deus—ou—voz do povo e voz do diabo—seja o que exprima a verdade. E indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saido do porto, tao rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exaccao espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem da estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio e esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. não ha, nem havera, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno e uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solucao a tudo o que se não entende, e acaso a unica via de resolver a duvida. Se o e, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.
 
Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidaomultidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.
Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos mencao no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira a planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, comecou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorrera; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidao se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal fora, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam ve-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por heranca materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolucao, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jornea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de cacada. Chegando a porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a mao no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados a roda delle: —-"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"—grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.
 
"Mui“Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:——­dizia Fr. LourencoLourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.
Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidao, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.
 
"Bofe“Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pespés mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se amanhanámanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:——­tornou-lhe elrei sorrindo-se.
"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:—dizia Fr. Lourenco a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.
 
"E“E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis de vos accusar, este não forafôra o menos grave, e de que eu muito a custo absolveria vossa mercemercê:——­retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no pacopaço, do que a theologia no noviciado da sua ordem.
"Bofe, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pes mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se amanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:—tornou-lhe elrei sorrindo-se.
 
"Mas“Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:——­disse elrei, parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. LourencoLourenço o encaminhava.
"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis de vos accusar, este não fora o menos grave, e de que eu muito a custo absolveria vossa merce:—retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paco, do que a theologia no noviciado da sua ordem.
 
"Ao“Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeicaorefeição, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."
"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:—disse elrei, parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenco o encaminhava.
 
"Nao“Não foi grande o feito, para tomar repouso:——­acudiu elrei:——­que de Santarem aqui eé uma corrida de cavallo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnez e bracaesbraçaes, traz vestidos de seda. Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar mais lancadaslançadas, e não vieram a conclusaoconclusão de treguas o Mestre de Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre; mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de porpôr seu fecho e remate. Onde estaestá elle? Quero agradecer-lhe a boa diligencia."
"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeicao, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."
 
"Beijo“Beijo-vos as maosmãos pela mercemercê:"—”—­disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada d'elreid’elrei, e certo de que elle desejaria vervêr aquella grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva:—"Se—­“Se quereis vervêr a casa do capitulo, vamos para a banda da crasta."—”—­Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.
"Nao foi grande o feito, para tomar repouso:—acudiu elrei:—que de Santarem aqui e uma corrida de cavallo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnez e bracaes, traz vestidos de seda. Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar mais lancadas, e não vieram a conclusao de treguas o Mestre de Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre; mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de por seu fecho e remate. Onde esta elle? Quero agradecer-lhe a boa diligencia."
 
David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham soffrido grande distensaodistensão, em consequencia da dura vida que a tyrannia do filho d'Erind’Erin lhe fazia padecer havia bem vinte annos. Desde muito mocomoço que comecaracomeçára a produzir grande impressaoimpressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel fraqueza resolveraresolvêra traze-lo sempre sopeado. nãoNão lhe dava treguas; se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pesopêso de dez atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso mister de cangiraocangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação. De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia aos seus semelhantes senaosenão o mal absolutamente indispensavel ao proprio interesse: nunca mataramatára ninguem, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadaver de seu pae para tocar a metaméta de qualquer designio ambicioso: com tres liccoeslicções de phrases oucas dava panno para se engenharem delle dous grandes homens d'estadod’estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou obter e alcancoualcançou a proteccaoprotecção da rainha D. Philippa, que, havendo Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na sua mocidade subido ao graugráu de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.
"Beijo-vos as maos pela merce:"—disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria ver aquella grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva:—"Se quereis ver a casa do capitulo, vamos para a banda da crasta."—Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.
 
Esta eé em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em AlcobacaAlcobaça enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos das CortesCôrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a apparicaoapparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade e importancia, que por pirracapirraça asás nossas glorias provavelmente os castelhanos nos levaram.
David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham soffrido grande distensao, em consequencia da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer havia bem vinte annos. Desde muito moco que comecara a produzir grande impressao no seu espirito a invectiva do apostolo contra os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel fraqueza resolvera traze-lo sempre sopeado. não lhe dava treguas; se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o peso de dez atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso mister de cangirao permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação. De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia aos seus semelhantes senao o mal absolutamente indispensavel ao proprio interesse: nunca matara ninguem, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadaver de seu pae para tocar a meta de qualquer designio ambicioso: com tres liccoes de phrases oucas dava panno para se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou obter e alcancou a proteccao da rainha D. Philippa, que, havendo Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na sua mocidade subido ao grau de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.
 
O lancolanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde iaía elrei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico recincto, olhou para la, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:
Esta e em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaca enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos das Cortes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a apparicao de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade e importancia, que por pirraca as nossas glorias provavelmente os castelhanos nos levaram.
 
"Parece“Parece-me que não vaovão taotão aprimorados os lavores daquellas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"
O lanco da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ia elrei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico recincto, olhou para la, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:
 
"Seguiu“Seguiu-se aá risca nesta parte—parte—­tornou o architecto—architecto—­o desenho geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta pecapeça: mas se vossa mercemercê m'om’o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma cousa que vos dizer acercaácerca do que ides presenciar."
"Parece-me que não vao tao aprimorados os lavores daquellas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"
 
"Falae“Falae desassombradamente:——­respondeu elrei—elrei—­que eu vos escuto."
"Seguiu-se a risca nesta parte—tornou o architecto—o desenho geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peca: mas se vossa merce m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma cousa que vos dizer acerca do que ides presenciar."
 
"Tomei“Tomei a ousadia—ousadia—­proseguiu mestre Ouguet—Ouguet—­de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era ateaté impossivel que se fizesse uma abobada taotão achatada, como na primitiva tracatraça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."
"Falae desassombradamente:—respondeu elrei—que eu vos escuto."
 
"E“E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudancamudança no que elle havia tracadotraçado?——­interrompeu elrei.
"Tomei a ousadia—proseguiu mestre Ouguet—de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era ate impossivel que se fizesse uma abobada tao achatada, como na primitiva traca se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."
 
"Por“Por escusado o tive:——­replicou David Ouguet.—Cego—­Cégo, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se podepóde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."
"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudanca no que elle havia tracado?—interrompeu elrei.
 
"Dizendo“Dizendo isto o architecto, metteramettêra ambas as maosmãos no cincto, estenderaestendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.
"Por escusado o tive:—replicou David Ouguet.—Cego, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se pode executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."
 
"Mestre“Mestre Ouguet—Ouguet—­acudiu elrei com aspecto severo—severo—­lembrae-vos de que Affonso Domingues eé o maior architecto portuguez. nãoNão entendo de vossas distinccoesdistincções de sciencia e de engenho: sei so que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vosvós falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo estaestá hoje."
"Dizendo isto o architecto, mettera ambas as maos no cincto, estendera a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.
 
"Vossa“Vossa mercemercê me perdoe:——­tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falarafalára.——­Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razaorazão do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."
"Mestre Ouguet—acudiu elrei com aspecto severo—lembrae-vos de que Affonso Domingues e o maior architecto portuguez. não entendo de vossas distinccoes de sciencia e de engenho: sei so que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vos falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo esta hoje."
 
Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. LourencoLourenço Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.
"Vossa merce me perdoe:—tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falara.—Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razao do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."
 
Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas atravesatravés da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficaraficára aá porta, mas Fr. LourencoLourenço tinha entrado.
Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. Lourenco Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.
 
"Reverendo“Reverendo prior—prior—­disse elrei voltando-se para Fr. Lourenco—Lourenço—­vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e amanhanámanhan voltaremos aqui a horas de sol."
Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas atraves da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficara a porta, mas Fr. Lourenco tinha entrado.
 
"Reverendo prior—disse elrei voltando-se para Fr. Lourenco—vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e amanhan voltaremos aqui a horas de sol."
 
E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior.
 
Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos cavalleiros do sequito real iamíam saindo pelo lado opposto, caminho da igreja. Com as maosmãos mettidas no cincto de couro preto que trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou ateaté o meio daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando para a porta por onde elles haviam passado:
 
"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senao um paiz safaro e inculto? Sois vos, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. La vao, la vao os frades celebrar um auto! não serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios fora melhor que mandasseis vir alguns irmaos da sociedade dos escrivaes de parochia de Londres <ref>Pelas Chronicas de Stow se ve que no principio do seculo 15. deg. os mysterios eram representados em Londres pelos escrivaes de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3. deg., em 1409.</ref>, que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."
 
Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeca entre as maos, e gritando a espacos:
 
"Pobres“Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senaosenão um paiz safarosáfaro e inculto? Sois vosvós, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. La vaovão, la vaovão os frades celebrar um auto! nãoNão serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios forafôra melhor que mandasseis vir alguns irmaosirmãos da sociedade dos escrivaesescrivães de parochia de Londres, <ref>Pelas Chronicas de Stow se ve que no principio do seculo 15. deg.° os mysterios eram representados em Londres pelos escrivaesescrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3. deg.°, em 1409.</ref>, que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."
"Oh, malaventurado de mim!"
 
Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabecacabeça entre as maosmãos, e gritando a espacosespaços:
==Notas==
<references/>
 
"Oh“Oh, malaventurado de mim!"
[[Categoria:A Abóbada|Capítulo 02]]