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==__MATCH__:[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/116]]==
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/116]]==
<poem>
LXXXII.
  Na Corte que ficou? Saudade brava.
Que fica lá que ver? Nenhuma cousa.
Que gloria lhe faltou? Esta beldade.{43}beld
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/117]]==
<poem>
ade.{43}
LXXXIV.
Ondados fios de ouro reluzente,
  Mas quem ja t~ee o mundo exprimentado,
Não o magôa a pena, nem o espanta;
Que mal se estranhára o costumado.{44} costumad
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/118]]==
<poem>
o.{44}
LXXXVI.
Dos antigos Illustres, que deixárão
E não fallo senão verdades puras
Que me ensinou a viva experiencia.{45}
LXXXVIII.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/119]]==
<poem>
.
Esfôrço grande, igual ao pensamento,
Pensamentos em obras divulgados,
Ja sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho ja que não a tenho.{46}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/120]]==
<poem>
XC.
A perfeição, a graça, o doce geito,
Pouco a pouco desculpa o brando peito;
Que Amor com seus contrarios se accrescenta.{47}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/121]]==
<poem>
XCII.
Que poderei do mundo ja querer,
  Não mo negueis, se andais para negar-me;
Porque se contra mi 'stais levantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.{48} m
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/122]]==
<poem>
e.{48}
XCIV.
Se tomo a minha pena em penitencia
  Oh ousadia estranha! estranho feito!
Que dando breve morte ao corpo humano,
Tenha sua memoria larga vida!{49}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/123]]==
<poem>
{49}
XCVI.
Os vestidos Elisa revolvia,
Que teu descobrimento e meu defeito,
Hum me envergonha e outro me injuria.{50}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/124]]==
<poem>
XCVIII.
Se despois de esperança tão perdida,
Jamais na vida a podes ver contente,
Nem tão triste nenhuma outra pastora.{51}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/125]]==
<poem>
C.
No mundo poucos annos e cansados
Com que todos conheção claramente
Que quanto ao mundo apraz he breve sonho.{52}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/126]]==
<poem>
CII.
De amor escrevo, de amor trato e vivo;
Para emendar os vicios que elle encerra,
Co'os divinos poderes que trouxeste.{53}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/127]]==
<poem>
CIV.
Esses cabellos louros e escolhidos,
E se em vão meu querer vos persuade,
Mais vosso não querer faz que vos queira.{54}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/128]]==
<poem>
CVI.
Quem, Senhora, presume de louvar-vos
As queixas que derramo da Ventura,
Que com penas de Amor me vai seguindo.{55}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/129]]==
<poem>
CVIII.
Brandas águas do Tejo que, passando
E se o quizerdes ver, cuidai hum dia
O que se diz dos bem acutilados.{56}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/130]]==
<poem>
CX.
Onde porei meus olhos que não veja
  Antes se dá de todo por perdida,
Vendo que não vai da alma acompanhada,
Que se deixou ficar onde t~ee vida.{57}vi
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/131]]==
<poem>
da.{57}
CXII.
Que doudo pensamento he o que sigo?
  Donde vem, que não ha quem nos não culpe;
A vós, porque matais quem vos quer tanto,
A mim, por querer tanto a quem me mata.{58}mat
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/132]]==
<poem>
a.{58}
CXIV.
Ar, que de meus suspiros vejo cheio;
E o desejado bem no mal eterno,
Buscando amor em vossa crueldade.{59}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/133]]==
<poem>
CXVI.
De cá, donde somente o imaginar-vos
E a que elles t~ee vos dou, só para dar-vos
O mor louvor de todos os maiores.{60}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/134]]==
<poem>
CXVIII.
Não vás ao monte, Nise, com teu gado;
Que queres? Que te peça por reparo
Ser neste valle Eneas desta Dido?{61}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/135]]==
<poem>
CXX.
Tornae essa brancura á alva assucena,
  Mas eu sou quem me faz a maior guerra,
Pois conhecendo os riscos de hum amante
Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.{62}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/136]]==
<poem>
.{62}
CXXII.
Mil vezes determino não vos ver,
  Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
Quando vos vir queixar porque deixastes
Ir-se a minha alma nelles abrazando.{63}abrazan
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/137]]==
<poem>
do.{63}
CXXIV.
Se com desprezos, Nympha, te parece
  Entre si sempre os vejo divididos;
E se acaso concordão algum dia,
He só conjuração para meu dano.{64}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/138]]==
<poem>
.{64}
CXXVI.
No regaço de mãe Amor estava
Ha de ser vosso sol, e obedecido.{65}
CXXVIII.
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/139]]==
<poem>
Huma admiravel herva se conhece,
Que vai ao sol seguindo de hora em hora,
Porque se foi de ousado o teu intento,
Agora de atrevido he venturoso.{66}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/140]]==
<poem>
CXXX.
He o gozado bem em água escrito;
  Em fim, Senhora, em vossa compostura,
Ella a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.{67}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/141]]==
<poem>
pura.{67}
CXXXII.
Nunca em amor damnou o atrevimento;
  Mas a alma, que de cá vos acompanha,
Nas azas do ligeiro pensamento
Para vós, águas, vôa, e em vós se banha.{68}ba
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/142]]==
<poem>
nha.{68}
CXXXIV.
Senhor João Lopes, o meu baixo estado
  Para que assi triumphante leve a palma
Da Morte Amor a grão pesar da ausencia,
Do tempo, da Razão, e da Fortuna.{69} For
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/143]]==
<poem>
tuna.{69}
CXXXVI
Árvore, cujo pomo bello e brando
  Pois se hum deos nunca vio nem hum engano
De quem era tão pouco em seu respeito,
Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?{70}hum
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/144]]==
<poem>
ano?{70}
CXXXVIII.
Presença bella, angelica figura,
  Em qual figura, ou gesto desusado,
Póde ja fazer medo a morte irosa
A quem t~ee a seus pés rendido e atado?{71}ata
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/145]]==
<poem>
do?{71}
CXL.
Tal mostra de si dá vossa figura,
  Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;
Pois, postoque maior meu damno seja,
Fica-me a gloria ja do que imagino.{72}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/146]]==
<poem>
.{72}
CXLII.
Diversos dões reparte o Ceo benino,
  Antes, com som de voz trémulo e rouco
Por vós chamando, só com vosso nome
Farei fugir os ventos, e os imigos.{73} imig
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/147]]==
<poem>
os.{73}
CXLIV
Que modo tão subtil da natureza
  Que basta estar em vós minha esperança,
E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se,
Para dos olhos meus nunca perder-vos.{74}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/148]]==
<poem>
{74}
CXLVI.
Quando a suprema dor muito me aperta,
Como te não lembrou que me juraste
Por toda a sua luz que eras só minha?{75}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/149]]==
<poem>
CXLVIII.
Se me vem tanta gloria só de olhar-te,
  Mas a razão que a luta vence, em fim,
Não creio que he razão; mas deve ser
Inclinação que eu tenho contra mim.{76} mi
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/150]]==
<poem>
m.{76}
CL.
Coitado! que em hum tempo chóro e rio;
De trazer esculpido eternamente
Vosso formoso gesto dentro da alma.{77}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/151]]==
<poem>
CLII.
Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura
  Oh quem tivera partes de divino
Para vos merecer! Mas se pureza
De amor vai ante vós, de vós sou dino.{78}din
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/152]]==
<poem>
o.{78}
CLIV.
Que esperais, esperança?  Desespéro.
  Pois ella não mo dá, porque piedade
Tenha deste meu mal, mas porque em mim
Possais assi fartar vossa crueza.{79} crue
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/153]]==
<poem>
za.{79}
CLVI.
Se algum'hora essa vista mais suave
Levas de chôro em foro;
Porque de ver-te rir, de novo chóro.{80}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/154]]==
<poem>
CLVIII.
Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,
Ou ser no vosso amor
  
Achad
Achado em falta.{81}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/155]]==
<poem>
o em falta.{81}
CLX.
Divina companhia, que nos prados
  De no tenerlas tú me consolaras,
Si tantas veces mil, como son ellos,
En ellos la que tengo me enredaras.{82}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/156]]==
<poem>
.{82}
CLXII.
Por gloria tuve un tiempo el ser perdido;
  Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa,
Hallo en esta prision glorias mayores,
Y en perderlas por libre hallo tormento.{83}tor
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/157]]==
<poem>
mento.{83}
CLXIV.
Las peñas retumbaban al gemido
  Si allà pueden moverte en esa altura
Las quejas de un pastor enamorado,
No tardes en volver á dó saliste.{84}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/158]]==
<poem>
.{84}
CLXVI.
Orfeo enamorado que tañia
  De quem me queixarei, se tudo mente?
Porém que culpas ponho ás esperanças,
Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros?{85}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/159]]==
<poem>
erros?{85}
CLXVIII.
Ai amiga cruel! que apartamento
  Amantes rouxinoes rompem-me o sono
Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas
Que ja forão sepulcros de alegria.{86} alegri
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/160]]==
<poem>
a.{86}
CLXX.
Ah minha Dinamene! assi deixaste
  Que culpas póde dar-me o pensamento,
Se a causa qu'elle t~ee de atormentar-me,
Tenho eu de soffrer mal o seu tormento?{87}torm
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/161]]==
<poem>
ento?{87}
CLXXII.
Cantando estava hum dia bem seguro,
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita.{88}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/162]]==
<poem>
CLXXIV.
Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!
  Olhos, não aggraveis outros formosos,
Tornando hum puro amor em esquivança,
Pois ficais por esquivos desdenhosos.{89}desdenh
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/163]]==
<poem>
osos.{89}
CLXXVI.
Lembranças, que lembrais o bem passado
Pois tudo pára em morte, tudo em vento,
Triste o que espera! triste o que confia!{90}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/164]]==
<poem>
CLXXVIII
Ja cantei, ja chorei a dura guerra
  Revolvo mais de toda a mais idade,
Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,
Para que leve tudo o tempo leve.{91} lev
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/165]]==
<poem>
e.{91}
CLXXX.
Horas breves de meu contentamento,
Alli não serei triste em dias ledos,
E dias tristes me farão contente.{92}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/166]]==
<poem>
CLXXXII.
Aqui de longos damnos breve historia
  Oh subtil invenção para seu dano!
Vêde que manhas busca hum cego amante
Para que sempre seja descontente!{93} descont
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/167]]==
<poem>
ente!{93}
CLXXXIV.
Sentindo-se alcançada a bella esposa
  Este defunto corpo lá o desvia
D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo,
Pois no meu maior bem me houveste inveja.{94}inve
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/168]]==
<poem>
ja.{94}
CLXXXVI.
Os olhos onde o casto Amor ardia,
Te offerece de flores a coroa,
Que ja de longo tempo te guardava.{95}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/169]]==
<poem>
CLXXXVIII.
Espanta crescer tanto o crocodilo
Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides,
Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama.{96}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/170]]==
<poem>
CXC.
Despois que vio Cibele o corpo humano
  O Euphrates temerá, seu nome ouvindo;
Que para delle ver vencido tudo,
Ja vio do braço seu tudo vencido.{97}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/171]]==
<poem>
.{97}
CXCII.
Agora toma a espada, agora a pena,
Oh quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Genio de vinganças!{98}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/172]]==
<poem>
CXCIV.
Cá nesta Babylonia donde mana
  Casos, opiniões, natura, e uso,
Fazem que nos pareça desta vida
Que não ha nella mais do que parece.{99}par
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/173]]==
<poem>
ece.{99}
CXCVI.
Vós outros, que buscais repouso certo
  Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste
Huma só, tres tão altas dignidades,
Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste.{100}agradast
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/174]]==
<poem>
e.{100}
CXCVIII.
Desce do ceo immenso Deos benino
  Pobreza este Presepio representa;
Mas tanto por ser pobre ja merece,
Que quanto mais o he, mais lhe contenta.{101}cont
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/175]]==
<poem>
enta.{101}
CC.
Porque a tamanhas penas se offerece
Que se chôro não ha como o meu canto,
Não sei canto melhor qu'este meu chôro.{102}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/176]]==
<poem>
CCII.
Onde mereci eu tal pensamento
  Mas, vendo-as, entendeo que não podia
De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo,
E ficou-se com ellas desarmado.{103} desar
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/177]]==
<poem>
mado.{103}
CCIV.
Nos braços de hum Sylvano adormecendo
  Mas todas suas iras são d'Amor;
Todos estes seus males são hum bem,
Qu'eu por todo outro bem não trocaria.{104}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/178]]==
<poem>
104}
CCVI.
Formosa Beatriz, tendes taes geitos
  Mostrai-lhe, para ver minha fé pura,
O bem que sempre quiz, formosas flores;
Qu'então não sentirei que mal me queira.{105}qu
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/179]]==
<poem>
eira.{105}
CCVIII.
Ondados fios de ouro, onde enlaçado.
Que a gloria do querer, que tanto sigo,
Não póde ser co'os males mais pequena.{106}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/180]]==
<poem>
CCX.
Nem o tremendo estrépito da guerra
  Em mi vingou Amor teu casto peito:
Mas está deste aggravo tão vingado,
Que se arrepende ja do que t~ee feito.{107}fe
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/181]]==
<poem>
ito.{107}
CCXII.
Quem quizer ver d'amor huma excellencia
  Oh si los detuvieras! cuan dichoso
Seria aquel momento en que me viese
Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!{108}repos
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/182]]==
<poem>
o!{108}
CCXIV.
No bastaba que amor puro y ardiente
  Si gloria de mi pena en ti se siente,
Derrama en mí tus iras, desamando;
Que al ofenderme mas yo mas te quiero.{109}qui
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/183]]==
<poem>
ero.{109}
CCXVI.
O claras águas deste blando rio,
Y tú quieres me pierda por amarte,
Sin gran ganancia no podré perderme.{110}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/184]]==
<poem>
CCXVIII.
Mi gusto y tu beldad se desposaron,
Ni del Estigio lago eternos llantos
Os podrian quitar de mi memoria.{111}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/185]]==
<poem>
CCXX.
Que me quereis perpétuas saudades?
Mas com a vida, em fim, elles fallecem:
Nem basta á carne enfêrma esprito pronto.{112}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/186]]==
<poem>
CCXXII.
Ay! quien dará á mis ojos una fuente
  Mas yo siempre afligido noche y dia,
Por un camino, que no llevo errado,
Jamás puedo llegar donde deseo.{113} des
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/187]]==
<poem>
eo.{113}
CCXXIV.
Oh cese ya, Señor, tu dura mano!
Así se condolece de mi vida,
Como si fuera el propio original.{114}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/188]]==
<poem>
CCXXVI.
Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste,
  Minerva do saber dá-lhe o dom raro,
Pallas lhe dá o valor de mais espanto,
E a Fama o leva ja de pólo a pólo.{115}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/189]]==
<poem>
a pólo.{115}
CCXXVIII.
Vós, Nymphas da Gangetica espessura,
Pois o que não se alcança com mil mortes,
Tu com huma só morte o alcançaste.{116}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/190]]==
<poem>
CCXXX.
Debaixo desta pedra sepultada
  Excede ao saber, determinar:
Á constancia se deve toda a gloria:
O ânimo livre he digno de memoria.{117}me
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/191]]==
<poem>
moria.{117}
CCXXXII.
Quanta incerta esperança, quanto engano!
  A fé, que viva n'alma me ficou,
Dê ja fim aos caducos ardimentos
A que o passado bem se condemnou.{118} condem
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/192]]==
<poem>
nou.{118}
CCXXXIV.
Oh quanto melhor he o supremo dia
  E pois de teus enganos a verdade
Conheces, deixa ja tantos enganos,
Pedindo a Deos perdão com humildade.{119}humi
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/193]]==
<poem>
ldade.{119}
CCXXXVI.
Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
Pois tyranicamente pretendião
Que cantassem aquelles que choravão.{120}
CCXXXV
CCXXXVIII.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/194]]==
<poem>
III.
Sôbre os rios do Reino escuro, quando
Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão,
  Se a lembrança eu perder que me recrea
Cá nestas penosissimas fadigas,
Oblivioni detur dextra mea.{121}dext
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/195]]==
<poem>
ra mea.{121}
CCXL.
Aponta a bella Aurora, luz primeira,
Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo;
Porque amor foi auctor desta victoria.{122}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/196]]==
<poem>
CCXLII.
Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.
  E de trophéos mais claros guarnecida!
Á vida a morte vimos em ti dada,
Para qu'em ti se désse á morte a vida.{123}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/197]]==
<poem>
a vida.{123}
CCXLIV.
Aos homens hum só homem poz espanto,
  A quem o mesmo Deos por irmão marca;
Quem por filho da Mãe unica feito,
Em corpo e alma goza o claro dia.{124}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/198]]==
<poem>
.{124}
CCXLVI.
Como louvarei eu, Seraphim santo,
  Triste, pois me não val o soffrimento,
E Amor para mais damno me t~ee dado
Para tão duro mal tão larga vida!{125} larg
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/199]]==
<poem>
a vida!{125}
CCXLVIII.
Contente vivi ja, vendo-me isento
Soffrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausencia eternamente.{126}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/200]]==
<poem>
CCL.
Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
  Nella e nelle achei sempre a mesma l~ua,
Em quem nunca se vio outra firmeza,
Que não seja a de ser sempre mudavel.{127}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/201]]==
<poem>
{127}
CCLII.
Se lagrimas choradas de verdade
  O Amor mais caudaloso menos monta.
Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava,
Aquelle que de amores he mais pobre.{128}pobr
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/202]]==
<poem>
e.{128}
CCLIV.
Em huma lapa toda tenebrosa,
  Conhecei ja de mi tanta verdade;
Pois em penhor e fé desta pureza
Tributo vos fiz ser o que he vontade.{129}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/203]]==
<poem>
{129}
CCLVI.
Ilustre Gracia, nombre de una moza,
  Porém não quer Amor que lhe resista,
Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento,
Qual em gloria maior está contente.{130}content
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/204]]==
<poem>
e.{130}
CCLVIII.
Lembranças de meu bem, doces lembranças
  E a mi, que por vós morro, e por vós vivo,
Fazei pagar a Amor o seu tributo,
Contente de por vós lho haver pagado.{131}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/205]]==
<poem>
.{131}
CCLX.
Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes,
Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra
Partir-se do viver para ter vida.{132}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/206]]==
<poem>
CCLXII.
A peregrinação d'hum pensamento,
  Vós, saudosos olhos, que o quizestes,
(Pois com tormento Amor me está pagando)
Chorai, como que vêdes, o que vistes.{133}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/207]]==
<poem>
vistes.{133}
CCLXIV.
Se no que tenho dito vos offendo,
  Nem se engane nenhuma creatura;
Que não póde nenhum impedimento
Fugir o que lh'ordena sua estrella.{134}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/208]]==
<poem>
.{134}
CCLXVI.
Sempre, cruel Senhora, receei,
  A vossa, de louvar-me pouco escassa,
Outro sogeito busque valeroso,
Tal qual em vós ao mundo se apresenta.{135}apr
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/209]]==
<poem>
esenta.{135}
CCLXVIII.
Este amor, que vos tenho limpo e puro,
  Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;
Sem ti perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias môr tristeza.{136} tristez
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/210]]==
<poem>
a.{136}
CCLXX.
Sustenta meu viver huma esperança
  Mas eu de vossos males e esquivança,
De que agora me vejo bem vingado,
Não a quizera tanto á vossa custa.{137}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/211]]==
<poem>
custa.{137}
CCLXXII.
Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse
  Em trôco do qual bem só me deixou
Lembranças, que me mátão cada hora,
Trazendo-me á memoria o bem passado.{138}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/212]]==
<poem>
passado.{138}
CCLXXIV.
Indo o triste pastor todo embebido
Vigiai-vos de vós, não vos vejais,
Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.{139}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/213]]==
<poem>
CCLXXVI.
Na ribeira do Euphrates assentado,
Por isso mais na terra não esteve,
Ao ceo subio, que ja se lhe devia.{140}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/214]]==
<poem>
CCLXXVIII.
Senhora ja desta alma, perdoae
  Em fim, fóra de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
Pois sempre nas verdades fui mofino.{141}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/215]]==
<poem>
mofino.{141}
CCLXXX.
Diana prateada, esclarecida
Que tomar-te a ti nellas teu marido.{142}
CCLXXXII.
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/216]]==
<poem>
N'hum tão alto lugar, de tanto preço,
Este meu pensamento posto vejo,
  Oh sempre para mi hora ditosa!
Que posso temer ja, pois tenho visto,
Com tanto gôsto meu, tanta brandura?{143}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/217]]==
<poem>
brandura?{143}
CCLXXXIV.
Posto me t~ee fortuna em tal estado,
  Pero digo, que aunque sea fingida,
Que basta que por lágrima sea dada,
Porque sea por lágrima tenida.{144} teni
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/218]]==
<poem>
da.{144}
CCLXXXVI.
Que póde ja fazer minha ventura,
Me faz não sentir ja nada o futuro.{145}
ECLOGAS
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/219]]==
<poem>
ECLOGA I.
INTERLOCUTORES.
Diante de h~uas mostras perigosas,
Que Venus mais que nunca engrandecia.
As pastoras, emfim, vi tão formosas,{146}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/220]]==
<poem>
formosas,{146}
Que o Amor de si mesmo se temia;
Mas mais temia o pensamento falto
  E praza a Deos que o triste e duro fado
De tamanhos desastres se contente;
Que sempre hum grande mal inopinado{147}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/221]]==
<poem>
147}
He mais do que o espera a incauta gente:
Que vejo este carvalho que queimado
Hum freio lhe está pondo e lei terribil,
Que os limites não passe do possibil.{148}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/222]]==
<poem>
  E se attentares bem os grandes danos
Que se nos vão mostrando cada dia,
Aquelles brandos versos que cantaste,
Quando hontem, recolhendo o manso gado,
De nós-outros pastores te apartaste;{149}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/223]]==
<poem>
149}
Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia,
Não te podia ouvir como queria.
Fazendo companhia ao claro rio;
Nas sombras a ave garrula suspira,{150}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/224]]==
<poem>
Sua mágoa espalhando ao vento frio.
Toca, Frondelio, toca a doce lira;
Cruel, acerba e triste,
Sequer de tua idade não te dera
Que lográras a fresca primavera?{151}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/225]]==
<poem>
 
Não usára comnosco tal crueza,
Que nem nos montes fera,
Do fogo que trazia;
Que nunca soube amor ser encoberto.{152}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/226]]==
<poem>
  Ja diante dos olhos lhe voavão
Imagens e phantasticas pinturas,
  Parece-me, Tionio, que te vejo,
Por tingires a lança cobiçoso
Naquelle infido sangue Mauritano,{153}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/227]]==
<poem>
153}
No Hispanico ginete bellicoso,
Que ardendo tambem vinha no desejo
A pranto sempiterno a morte dura
De quem por ti somente a vida amava?{154}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/228]]==
<poem>
Por ti aos ecos dava
Accentos numerosos;
Teu numeroso canto e melodia:
E ainda agora o tom suave e brando
Os ouvidos me fica adormentando.{155}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/229]]==
<poem>
 
  Em quanto os peixes humidos tiverem
As areosas covas deste rio,
Que me faz cá no peito a alma triste.
Vês como t~ee os ventos em socêgo?{156}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/230]]==
<poem>
Nenhum rumor da serra lhe resiste:
Nenhum passaro vôa, mas parece
Está perlas dos olhos destillando.
  De todas estas altas semidêas,
Qu'em tôrno estão do corpo sepultado,{157}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/231]]==
<poem>
157}
Humas, regando as humidas arêas,
De flores t~ee o tumulo adornado;
Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer.{158}
            FRONDELIO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/232]]==
<poem>
  Oh triste morte, esquiva e mal olhada,
Que a tantas formosuras injurías!
Que no te acompañase en tal jornada,
Y para ornarse solo á ti quisieron;
  Nunca permitirán, que acompañada{159}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/233]]==
<poem>
159}
De mi no sea esta memoria tuya,
Que está de tus despojos adornada.
Que á pesar de los hados enojosos
Tambiem para los tristes hubo muerte.{160}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/234]]==
<poem>
ECLOGA II.
INTERLOCUTORES.
As roucas rãas soavão
N'hum charco de água negra e ajudavão
Do passaro nocturno o triste canto:{161}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/235]]==
<poem>
triste canto:{161}
O Tejo com som grave
Corria mais medonho que suave.
  Corre suave e brando
Com tuas claras ágoas,
Sahidas de meus olhos, doce Tejo;{162}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/236]]==
<poem>
 
Fé de meus males dando,
Para que minhas mágoas
Para tão doce mal faltar-me nada.
Oh Nympha delicada,
Honra da natureza!{163}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/237]]==
<poem>
163}
Como póde isto ser,
Que de tão peregrino parecer
Que quando por meu nome alguem me chama,
Pasmo, porque conheço
Qu'inda comigo proprio me pareço.{164}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/238]]==
<poem>
 
  O gado, que apascento,
São n'alma os meus cuidados;
Da sombra, que as montanhas encobria.
Descansa, frauta, agora,
Pois meu escuro canto{165}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/239]]==
<poem>
165}
Não merece que veja o claro dia.
Não canse a phantasia
O ceo, a terra, as flores, monte e prado!
Oh tempo ja passado! quão presente{166}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/240]]==
<poem>
Te vejo abertamente na vontade!
Quão grande saudade tenho agora
Toda a terra esmaltada destas rosas.
Hião Nymphas formosas por os prados;
E os Faunos namorados apos ellas,{167}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/241]]==
<poem>
167}
Mostrando-lhes capellas de mil côres,
Ordenadas das flores que colhião:
Logo á manhãa reprovas com instancia.
Oh perversa inconstancia e tão profana{168}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/242]]==
<poem>
De toda cousa humana inferior,
A quem o cego error sempre anda annexo!
Vivia então a gente moderada;
Sem ser a terra arada dava pão;
Sem ser cavado o chão as fructas dava;{169}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/243]]==
<poem>
169}
Nem águas desejava, nem quentura;
Suppria então natura o necessario.
  São estas, Nympha, as tranças dos cabellos,
Que fazem de seu preço o ouro alheio,{170}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/244]]==
<poem>
Como a mi de mi mesmo só com vellos?
  He esta a alva columna, o lindo esteio,
Que deste fogo insano não se inflama.
  Almeno, que aqui 'stá tão influido
No phantastico sonho, que o cuidado{171}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/245]]==
<poem>
171}
Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,
  Está-se-lhe pintando, de enlevado,
Senão donde he illicito e custoso;
E donde he mais o risco, mais se atreve.{172}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/246]]==
<poem>
  Passava o tempo alegre e deleitoso
O Troiano pastor, em quanto andava
Sendo ausentes de si, se vem presentes
Com quem lhes pinta sempre a phantasia.
  Co'hum certo não sei que andão contentes,{173}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/247]]==
<poem>
173}
E logo hum nada os torna, ao contrário,
De todo ser humano differentes.
He só doudice grande, grande engano.{174}
            ALMENO.
  Ó Agrario meu, que vendo o doce riso,
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/248]]==
<poem>
meu, que vendo o doce riso,
E o rosto tão formoso, como esquivo,
O menos que perdi foi todo o siso.
  A barba então nas faces me apontava;
Na luta, na carreira, em qualquer manha,
Sempre a palma entre todos alcançava.{175}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/249]]==
<poem>
175}
  Da minha idade tenra, em tudo estranha,
Vendo (como acontece) affeiçoadas
Os olhos alegrando descontentes,
Em te vendo, parece, se entristecem.{176}
  De
  De todos teus amigos e parentes,
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/250]]==
<poem>
todos teus amigos e parentes,
Que lá da serra vem por consolar-te,
Sentindo na alma a pena, que tu sentes,
Nympha, que tanto amaste, descobrindo
Por falsa a fé, que dava, e mentirosa;
  Por as Alpinas neves vai seguindo{177}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/251]]==
<poem>
177}
Outro bem, outro amor, outro desejo;
Como inimiga, emfim, de ti fugindo.
Á natureza o curso pressuroso.
  As cabras por o mar irão buscando{178}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/252]]==
<poem>
Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura
Das hervas os delfins apascentando.
Por algum dia ver-te descansado,
Se s'acabão trabalhos algum dia.
  Mas bem vês como Phebo ja empinado{179}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/253]]==
<poem>
179}
Me manda que da calma iniqua e crua,
Recolha em algum valle o manso gado.
Co'o prado em gentileza,
Por quem o pastor triste endoudecia,
Por a praia do Tejo discorria{180}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/254]]==
<poem>
discorria{180}
A lavar a beatilha e o trançado:
O sol ja consentia
Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto;
Porqu'em tamanhas penas
Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto.{181}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/255]]==
<poem>
181}
            BELISA.
  Que alegre campo e praia deleitosa!
Nesta 'spessura longo tempo amei:
Se m'enganei com quem do peito amava,
Não me pezava de ser enganada.{182}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/256]]==
<poem>
 
Fui salteada, emfim, d'hum pensamento,
Que hum movimento tinha casto e são.
Porque hum contente estado assi trocastes?
Vós me tirastes do meu peito isento{183}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/257]]==
<poem>
O pensamento honesto e repousado,
Ja dedicado ao côro de Diana;
Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança
Desta mudança, qu'esquecer não sei:
Bem qu'eu verei mudar a opinião,{184}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/258]]==
<poem>
 
Pois homens são: a quem o esquecimento
Depressa faz mudar o pensamento.
  Oh altas semideas! pois padece
Em vosso rio a honra delicada
De quem tamanha fôrça não merece:{185}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/259]]==
<poem>
185}
  Ou seja por vós, Nymphas, preservada;
Ou em arvore alguma, ou pedra dura
Se o vós, ó altos montes, não disserdes?
  E como te não lembras do perigo,{186}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/260]]==
<poem>
A que só por m'ouvir t'aventuravas,
Buscando horas de sesta, horas d'abrigo?
Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto
N'outra mais dura fórma traspassando.
  Hum só segredo meu te manifesto:{187}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/261]]==
<poem>
187}
Que te quiz muito em quanto Deos queria;
Mas de pura affeição, d'amor honesto.
Fartae ja de meu sangue vossa sêde.
  E vós, pastores rudos deste outeiro,{188}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/262]]==
<poem>
Porque a todos, emfim, se manifeste
Que cousa he amor puro e verdadeiro;
  E no tronco de huma árvore estara,
N'huma rude cortiça pendurado{189}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/263]]==
<poem>
Escripto co'huma fouce, e assi dirá:
  Almeno fui, pastor de manso gado,
Frauta deste favor vosso for dina,
Posso escusar a fonte Caballina.
  Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso;{190}ten
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/264]]==
<poem>
ho Pegáso;{190}
Em vós tenho Calliope e Thalia;
E as outras sete irmãas, co'o fero Marte;
Ao longo d'hum ribeiro, que corria
Por a mais fresca parte da verdura
Claro, suave e manso, todo o ano,{191}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/265]]==
<poem>
 
Lamentando seu dano,
Vinhão ja recolhendo o manso gado.
Porque não t'abrandava
Est'amor, que me tu tão mal pagaste?{192}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/266]]==
<poem>
Mas pois ja me deixaste
Co'a esperança de ti toda perdida,
Porque, cruel, consentes
Qu'outro goze da gloria a mi devida?
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.{193}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/267]]==
<poem>
193}
            DURIANO.
  Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,
            DURIANO.
  Levaste-me o meu bem n'hum só momento;
Levaste-me com elle juntamente{194}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/268]]==
<poem>
 
De cobrá-lo jamais a confiança:
Deixaste-me em lugar delle sómente
Qu'a natureza irracional lh'ensina.
O rustico leão sem algum'arte,
Do natural instincto só ensinado,{195}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/269]]==
<poem>
195}
Aonde sente amor, logo se inclina.
E tu, que de divina
As festas dos pastores,
Que podem alegrar toda a tristeza.{196}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/270]]==
<poem>
Em mi tua crueza
Faz que o mal cada hora vá dobrando.
Não eu, que só comtigo
Estou contente, e nada mais desejo,
Se algum'hora te vejo.{197}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/271]]==
<poem>
197}
Tu es hum só meu bem, huma só gloria,
Que nunca se m'aparta da memoria.
Por natureza o mal, que me condena.{198}
            FRONDOSO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/272]]==
<poem>
  Juntamente viver compridos anos,
Os fados te concedão, que quizerão
            FRONDOSO.
  Mil annos de tormento me parece
Cad'hora que sem ti, sem esperança{199}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/273]]==
<poem>
199}
Vivo de poder mais tornar a ver-te.
A vida só me dá tua lembrança;
Junta com hum contino soffrimento,
E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,
Não puderão mover teu duro peito{200}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/274]]==
<poem>
 
A mostrares sequer contentamento
De ver o meu tormento;
Deste trabalho haver, que he todo vosso,
Senhora, alcançar posso;{201}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/275]]==
<poem>
Não será muito haver tambem a gloria
E o louro da victoria,
  A vós se dem, a quem junto se ha dado
Brandura, mansidão, engenho e arte,
D'hum esprito divino acompanhado,{202}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/276]]==
<poem>
 
Dos sobrehumanos hum em toda parte:
Em vós as graças todas se hão juntado;
As mágoas que cantou; e assi dizia:
  Ou tu do monte Pindaso es nascida,
Ou marmor te pario formosa e dura:{203}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/277]]==
<poem>
 
Não póde ser que fosse concebida
Dureza tal de humana creatura:
Hum pequeno sinal n'hum coração?
  Na testa fonte viva tenho d'ágoa,{204}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/278]]==
<poem>
Que por meus olhos tristes se derrama;
E no peito de fogo viva fragoa,
Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
Tormento espero só, só crua morte.{205}
  D'ouvir meu damno as rosas matutinas,
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/279]]==
<poem>
meu damno as rosas matutinas,
Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;
Com meu suspiro ardente as côres finas
Eras tu nosso sol mais desejado;
Não temos luz, despois que nos deixaste.{206}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/280]]==
<poem>
Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
Qual he o Josué que te detém?
Alegrarás o valle, o campo, o gado,
E aquelle espelho teu da fonte fria.
Torna, torna, meu sol tão desejado,{207}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/281]]==
<poem>
207}
Faras a noite escura, claro dia;
E alegra ja esta vida magoada,
De hum raminho saltando a outro raminho,
Mostra que por amor suspira e chama.{208}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/282]]==
<poem>
Em quanto no secreto amado ninho
Não acha aquelle, que só busca e ama,
  Póde ser, se me visses, que sentiras
Ver liquidar hum peito em triste pranto;
E bem pouco fizeras, se me viras,{209}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/283]]==
<poem>
209}
Pois eu só por te ver suspiro tanto:
As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
Eu só, só pensativo, triste e mudo.
  Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
E do corpo sem alma não tens dó,{210}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/284]]==
<poem>
 
Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,
Pois sem alma não vive o corpo só.
E ainda então vereis (s'isto ser possa)
Esta minh'alma lá servir a vossa.
  Aqui com grave dor, com triste accento,{211}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/285]]==
<poem>
211}
Deo o triste pastor fim a seu canto:
Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
Por não se descuidar de seu cuidado,
Levou para os curraes o manso gado.{212}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/286]]==
<poem>
ECLOGA VI
INTERLOCUTORES
  E cujo são madeiro ja sahio
A lançar a forçosa e larga rede
No mais remoto mar que o mundo vio;{213}m
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/287]]==
<poem>
undo vio;{213}
  E vós, cujo valor tão alto excede,
Que, a cantá-lo com voz alta e divina,
Hum d'escamas coberto, outro de lãas.
  Vereis, Duque sereno, o estylo vário,{214}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/288]]==
<poem>
A nós novo, mas n'outro mar cantado
De hum, que só foi das Musas secretario:
Ja quando as sombras vem cahindo escuras;
  E nem co'a noite ao valle seu primeiro
Se lembra de tornar, como sohia,{215}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/289]]==
<poem>
 
Perdida por o bruto companheiro:
  Tal Agrario chegado, emfim, se via
Está seu nome aos ecos ensinando
Por estylo do agreste som diverso.{216}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/290]]==
<poem>
  Ouvindo Agrario, attonito, affroxando
Da phantasia hum pouco seu cuidado,
Com que as ondas horrisonas quebrantas.
  Porém se com verdade o louvo e approvo,{217}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/291]]==
<poem>
Desejo de o provar contra o sylvestre
Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo.
Nos engenhos porém subtis e agudos.
  Eis ja mil companheiros circumstantes{218}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/292]]==
<poem>
Estavão para ouvir, e apparelhavão
Ao vencedor os premios semelhantes.
Que o seu claro inventor alli tangia.
Io foi vacca; Jupiter foi touro:
Mansas ovelhas junto d'ágoa fria{219}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/293]]==
<poem>
 
Guardou formoso Adonis; e tornado
Em bezerro Neptuno foi ja achado.
            AGRARIO.
  Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,{220}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/294]]==
<poem>
D'atras nuvens vestido, horrido e feio,
Ennegrecendo á vista o ceo superno,
A tinta, que no Murice se cria;
O navegar por ondas, que se assentão{221}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/295]]==
<poem>
Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
A Alicuto d'hum fio de torcidos
Buzios, e conchas ruivas e lustrosas.
  Estavão n'ágoa os peixes embebidos{222}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/296]]==
<poem>
222}
Com as cabeças fóra; e quasi em terra
Os musicos delfins estão perdidos.
  Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão
O claro Apollo e Marte hum ser perfeito,
Em quem suas altas mentes assinárão;{223}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/297]]==
<poem>
assinárão;{223}
  Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito,
Bem sabe onde se salva, pois pretende
Nasce huma crystallina e clara fonte,
  Donde hum manso ribeiro derivado,{224}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/298]]==
<poem>
Por cima d'alvas pedras mansamente
Vai correndo suave e socegado.
  Cansada ja da caça vindo hum dia,
Quiz descansar á sombra da floresta,{225}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/299]]==
<poem>
E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria.
  A novidade vendo manifesta
Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão
Seus delicados corpos n'ágoa clara;{226}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/300]]==
<poem>
  Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão
Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa,
Exercitando os olhos saudosos,
Ao crystallino rio tributarios;
  Topárão dos pés alvos e mimosos{227}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/301]]==
<poem>
 
As pizadas na terra conhecidas,
As quaes forão seguindo pressurosos.
  Com amorosos brados as seguião.
Hum só (que o outro ainda não tomava{228}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/302]]==
<poem>
Folego algum da pressa que trazião)
Desta sorte sentido se queixava:
Desta nossa esperança, que enganais.
  Mas ah! que não consinto
Que nem palavra minha vos offenda,{229}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/303]]==
<poem>
229}
Postoque me desculpe a mágoa pura.
Digo, Nymphas, que minto:
Que possão mais que a próvida natura?
Se vossa formosura{230}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/304]]==
<poem>
He sobrenatural, não he forçado
Que assi tenha tambem o peito irado:
Pois lá no Olympo, a quantos captivou
Cupido e maltratou?{231}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/305]]==
<poem>
Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella,
Que ja na sua téla o debuxou.
  Nem vós nascidas sois de gente humana,
Nem foi humano o leite que mamastes,{232}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/306]]==
<poem>
Mas de alguma disforme fera Hyrcana:
Lá no Caucaso horrendo vos criastes:
Que accrescentarão sempre o verde manto.
  E s'entre as claras ágoas houve amores,{233}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/307]]==
<poem>
Os penedos tambem forão perdidos.
Olhae os dous conformes amadores
Como a côr das amoras he de amores:
O sangue dos amantes na verdura
Testimunha de Tisbe a sepultura.{234}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/308]]==
<poem>
 
  E lá por a odorifera Sabêa
Não vêdes que de lagrimas daquella,
Todos em doce somno se occupavão
Por o monte, despois que anoiteceo;{235}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/309]]==
<poem>
Mas o deos do Hellesponto não dormia;
Que hum novo amor o somno lh'impedia.
No louro amante, que de ti s'esquece,
S'esquecem os teus olhos saudosos.
Nenhum alegre estado permanece;{236}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/310]]==
<poem>
 
Que são do mundo os gostos mentirosos;
E á tua clara luz, por quem suspiras,
(Que dos amores he maior defeito)
E aquella, que succede em seu lugar,
Ambas aves; de amor usado effeito;{237}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/311]]==
<poem>
237}
Huma, porque fugia ao deos do mar;
Outra, porque tentára o patrio leito:
Das avezinhas mansas e amorosas?
Pois tambem teve Amor natural mando{238}
Entr'as feras montezes venenosas.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/312]]==
<poem>
feras montezes venenosas.
O leão e a leoa, como, ou quando
Taes formas alcançárão temerosas?
He este, he este, o eco respondia.
  Quantas cousas em vão estou fallando
(Oh Napêas esquivas!) sem que veja{239}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/313]]==
<poem>
239}
O peito de diamante hum pouco brando
De quem meu damno tanto só deseja.
Direi, emfim, ás duras esquivanças
Que só na morte tenho as esperanças.
  Aqui, sentido, o Satyro acabou,{240}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/314]]==
<poem>
 
Com huns soluços que a alma lhe arrancavão.
Os montes insensiveis, que abalou,
  Se ao teu esprito alg~ua mágoa toca,
Se d'amor fica nelle huma pégada,
Que te vai, Galatêa, nesta troca?{241}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/315]]==
<poem>
troca?{241}
  Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada:
Não ta demandarei: dá-me por ella
E hum pobre pescador aqui lançado?
  Antes que o sol no ceo cerre huma volta{242}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/316]]==
<poem>
Se póde melhorar minha ventura,
Como a outros succede, n'ágoa envolta.
Atou o pescador pobre Palemo;
  Em quanto as negras redes estendia
Seu companheiro Alcão na branca arêa,{243}arê
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/317]]==
<poem>
a,{243}
E Lico as longas cordas envolvia;
  De cima d'huma rocha, a qual rodêa
Por ventura d'algum meu companheiro?
Inda as redes ao sol t~ee estendidas.{244}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/318]]==
<poem>
  Toda a noite pescárão, e primeiro
Querem dormir a sesta nesta praia,
Não vês que vão passando? Como as passas?
Quem deste passatempo te desvia?
  Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças{245}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/319]]==
<poem>
245}
Dar em vão tantos gritos: vem; iremos
Ambos a levantar as verdes naças.
  Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,
Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,{246}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/320]]==
<poem>
Podemos apanhar hum cesto cheio.
  Mas além de tudo isto hum crespo galho
Me deixo aqui dizer! a quem os digo!
A surdas ondas ja, ja a ventos frios.{247}
  Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/321]]==
<poem>
ellas ja crescem: ja em p'rigo
O barco vejo: ai! ei-lo combatido.
Ellas e elles o levão ja comsigo.
Que não merece ser tão mal tratada
Hum'alma desses olhos tão captiva.
  Vives dos meus cuidados descuidada:{248}descuidad
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/322]]==
<poem>
a:{248}
Coitado de quem traz a duvidosa
Vida no mar e terra aventurada!
Que menos o terás por serem minhas.
  Hum temor tal me chega a tal extremo,
Que, vencido d'hum triste esquecimento,{249}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/323]]==
<poem>
249}
No mar me cahe da mão o duro remo.
  E quando a branca vela sólto ao vento,
Pondo os olhos no muito que meu fado
Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.{250}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/324]]==
<poem>
  Aconteceo-me hum caso desusado,
(Inda que d'huma cousa n'outra salto)
Me poz junto do barco, que tão perto
Esteve de ficar sem pescador.
  O sol era de todo ja coberto,{251}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/325]]==
<poem>
251}
Quando eu, entrando nelle, sahi fóra
Do perigo, onde tive o fim tão certo.
Sempre á fôrça de braço o barco quedo.
  Tão seguro por ellas andaria,
Como polo seu campo o lavrador{252}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/326]]==
<poem>
 
No mais quieto, claro e bello dia.
  Ólha que não ha destro pescador,
Onde triste me vez andar agora.
  Tinha lá para mi, que a vida tinha
Mais socegada cá e mais segura,{253} ma
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/327]]==
<poem>
is segura,{253}
Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha.
  Foi d'outro parecer minha ventura:
Que da calma, que cahe, bem nos defenda.{254}
            LIMIANO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/328]]==
<poem>
  Vamos alli, que alli bosque sombrio
Nos dara fresco abrigo, assento o prado,
Sem ordem, com mais graça, entremetidos!
  Vem encrespando as ágoas crystallinas
A branda viração; a fôlha treme;{255}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/329]]==
<poem>
255}
O movimento apenas determinas.
  A rôla seu amor suspira e geme;
Em huma anzina envolto em pobres panos;
E daqui veio, que Anzino fui chamado.{256}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/330]]==
<poem>
  Neste meu desengano outros enganos
Fundou de novo a pouca dita minha,
Mortas lhe dava as que por natureza,
Sem domar-se, são bravas, ou esquivas.
  Certo dia achei eu n'huma aspereza,{257}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/331]]==
<poem>
257}
Sem mãe, hum cervo branco e pequenino;
Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza.
  Tornou-me: Essa resposta não entendo:
O que não quiz o ceo, queres que seja?{258}
Que castellos no vento andas fazendo?
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/332]]==
<poem>
no vento andas fazendo?
  Se me queres ver leda, não te veja
Soltar essas palavras ociosas:
Me disse que assentára de casar-me
Com Tityro, pastor de muitas cabras.{259}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/333]]==
<poem>
  Que não buscasse causas d'escusar-me,
Como por muitas vezes ja fizera,
Da fazenda não sei a quantidade.
  Se esse me fazes bom, daqui protesto{260}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/334]]==
<poem>
De não receber outro por marido:
Me respondia com sembrante honesto.
Acaba de me ouvir o fim das culpas.
  T~ee-me, Ulina, por teu, não por irmão:
Se me não queres crer esta verdade,{261}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/335]]==
<poem>
261}
De teu pae saberás se minto, ou não.
  Por filho me criou: a flor da idade
Fundava-se porém em casamento;
E deste fundamento lhe nascia,{262}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/336]]==
<poem>
Que, como me não via, o valle, o monte,
O bosque, o rio, a fonte rodeava.
Não vês que o ceo estranha isso que tratas?
Não vês que a ti te matas cobiçoso?{263}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/337]]==
<poem>
Na porta o novo esposo tropeçou;
Na casa não entrou co'o pé direito:
Chorando a desventura em que me via.
As vaccas, vindo o dia, derramadas,
De mi desamparadas, vem bramando,{264}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/338]]==
<poem>
 
Sinal n'aldeia dando em seu bramido
De qu'era ja perdido o pastor seu.
  Casa de meus suspiros sempre cheia,
(Disse eu, quando passei pela de Ulina)
Tal fructo colhe quem amor semeia!{265}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/339]]==
<poem>
265}
  Fortuna, a mi cruel, sempre benina
Em tudo seja áquella, que em ti mora,
E sei bem qu'erraria,
Se quizesse louvar{266}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/340]]==
<poem>
O grave estylo teu, tua brandura.
Aquella formosura,
Lh'ordena a fatal sorte,
Com grande estrago e morte{267}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/341]]==
<poem>
Dos brutos mal nascidos Sarracinos,
Que de si despejados
Que não foi tal pastor cá do ceo dado,
  Para não dar ao ceo tão larga terra.{268}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/342]]==
<poem>
ECLOGA XII.
INTERLOCUTORES.
  Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te
De fallar claro e sem lisongerias:
Não hajas medo tu, qu'eu as affeite){269}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/343]]==
<poem>
eu as affeite){269}
  Tu cantavas amor, amor tangias;
Faltava a tua frauta; agora he muda:
  Emfim, todas as cousas querem tento:
Encobre a dor, e guarda-te d'extremos;
Que sempre trazem arrependimento.{270}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/344]]==
<poem>
 
  Ao nosso doce canto nos tornemos:
Das nossas Nymphas, bellas inimigas,
  Em quanto vós cantais, recolher quero
O gado; que são horas de ordenhar:
Á noite na malhada vos espero.{271}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/345]]==
<poem>
271}
            GALASIO.
  Isso não: has d'ouvir para julgar
            GALASIO.
  Marfida, branca mais que o branco leite;{272}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/346]]==
<poem>
Vermelha muito mais que a rosa pura;
Assi descuido em ti nunca suspeite,
O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio;
Da sua leve folha a terra cobre
O bosque, que foi ja verde e sombrio.{273}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/347]]==
<poem>
273}
Mas se Learda o rosto seu descobre,
Logo desapparece o tempo frio:
Nenh~ua mágoa tens de minha mágoa.{274}
            DELIO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/348]]==
<poem>
  Quando vires, Learda, o nosso Lima,
Que lá vai de meu chôro acompanhado,
  No liso tronco deste verde freixo.
Delio neste lugar doce cantou
Com Galasio, que doce respondia:{275}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/349]]==
<poem>
 
Hum Learda, Marfida outro louvou,
Com inveja de qual melhor diria.
  Sabes, cruel, que tenho causas muitas
Para te convencer, de que queixar-me;
Por isso vás fugindo e não me escuitas.{276}escuit
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/350]]==
<poem>
as.{276}
  Puderão os teus rogos abrandar-me:
Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.
Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?
  Prouvera a Deos que tão isenta e dura{277}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/351]]==
<poem>
Me víras para ti, que nunca víras
Em mi sinal d'amor, ou de brandura!
  Eu me queixo de ti, e tu da tua
Galatêa te queixas; e não vês{278}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/352]]==
<poem>
Que mais piedosa te he, quando mais crua.
  Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)
O vento vai levando. O sol he pôsto.
Porque, ligeira luz, te não detinhas,
  Em quanto em meu queixume achava gôsto?{279}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/353]]==
<poem>
279}
ECLOGA XIV.
INTERLOCUTORES.
Lhe canta o doce verso sem medida.
  Agora ao pé d'hum alamo sombrio
Vê como dous carneiros s'offerecem,{280}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/354]]==
<poem>
offerecem,{280}
Os cornos inclinando, a desafio.
  Como ao que vence todos obedecem
Rubicunda vergonha em mágoa estranha.{281}
            DELIO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/355]]==
<poem>
  A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,
Nunca sabe de nós ser tida em preço:
Que digas hum dos teus, não sei se o peça.{282}
            ERGASTO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/356]]==
<poem>
  Se com m'ouvir, a dor se te allivia,
Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno,
E dos suspensos bosques he seguido.
  Não cuido que de faia são sahidas
De tal arte, lavor de tal maneira:{283}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/357]]==
<poem>
 
Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.
  Esta, das que me deo, foi a primeira;
Teu amoroso riso a culpa teve.
Se só por viver della e por amá-la,{284}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/358]]==
<poem>
Julgas que algum castigo se me deve,
A ver-te sempre rindo me condena,
No ardor, que pouco a pouco me consume;
Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,
Accendérão jamais hum frio peito.{285}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/359]]==
<poem>
285}
            LAURENO.
  Pastores, que buscais na sombra amada
Que brandos vos mostreis ja vos não peço;
Mas que poder-vos ver paga me seja,{286}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/360]]==
<poem>
Se por tamanho amor tanto mereço:
Armados d'esquivança então vos veja
Me deixa ver, por mais que a veja crua;
A vista tanto em mi vejo a diante,
Que não he muito, não, que m'attribua{287}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/361]]==
<poem>
287}
A soberba de ser hum'aguia nova,
Que do ceo no ôlho claro a vista prova.
E ambos d'Apollo os mereceis maiores.
  Recolhamos o gado; que anoitece.{288}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/362]]==
<poem>
ECLOGA XV.
INTERLOCUTORES.
Esquecido do gado, valle e serra.
  Lembre-te que perdi a confiança
De ver os olhos teus, e juntamente{289}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/363]]==
<poem>
, e juntamente{289}
De todo o bem d'Amor toda a esperança.
  Lembre-te que por ti de mi ausente
  Agora que me falta a claridade,
Que de ver-te a minha alma recebia,
Ficando-me só della a saudade;{290}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/364]]==
<poem>
 
  Qual ficará hum'alma, que sabía
Somente desta gloria contentar-se?
  O manso gado vejo, que contente
Buscando hia nos campos a verdura,
E dos rios a limpida corrente:{291}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/365]]==
<poem>
 
Agora triste errar pola espessura,
Alheio d'herva verde e d'ágoa fria;
Não traz a origem de commum respeito.
  Mas, por entre a confusa claridade,{292}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/366]]==
<poem>
Lá vejo vir Soliso com seu gado:
Delle espero entender toda a verdade.
Se gôsto sentirp óde, então o sente.
  Neste bosque huma Nympha se aposenta,
Por quem elle na vida anda morrendo;{293}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/367]]==
<poem>
293}
E he causa desta dor que lhe contenta.
  E segundo o que delle agora entendo,
E entenderei por ti taes accidentes.{294}
            SOLISO.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/368]]==
<poem>
  N'outro tempo me fôra deleitoso
Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te;
Quão conforme he teu nome á natureza.
  Porque se o meu tormento t'alcançára,{295}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/369]]==
<poem>
O mor bem para ti o mor mal fôra;
E todo o mal maior te contentára.
Onde chega tamanho sentimento!
  A gloria qu'eu perdi não me consente{296}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/370]]==
<poem>
Palavras naturaes, razões expertas,
Que possão declarar a dor presente.
Se corre risco, dá-me delle parte.
            SOLISO.
  De todo a sinto ja desfallecida{297}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/371]]==
<poem>
297}
Nas lembranças daquella breve historia,
Que foi para meus males tão comprida.
  Dizer-te o mais não posso, porque sente
Est'alma no que disse tal tormento,{298}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/372]]==
<poem>
Qu'esta memoria apenas me consente.
  O espirito ja debil, sem alento,
  Deixae, deixae, pastores, a verdura;
As frautas deixae ja, e os mansos gados;
E chorae todos vossa desventura.{299}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/373]]==
<poem>
299}
  E vós, sylvestres Faunos namorados,
Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão
  Mas se dellas morreis, morro contente.{300}
CANÇÕES.
CANÇÃO I.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/374]]==
<poem>
I.
Formosa e gentil Dama, quando vejo
A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito,
Que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei,
Se vós me dais a vida deste geito{301}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/375]]==
<poem>
301}
Nos males que padeço,
Senão de meu sogeito,
E as armas com que mata são de sorte,
Que ainda lhe ficais devendo a morte.{302}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/376]]==
<poem>
  Lagrimas, e suspiros, pensamentos,
Quem delles se queixar, formosa Dama,
  Se com razões escuso meu remedio,
Sabe, Canção, que só porque o não vejo,
Engano com palavras o desejo.{303}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/377]]==
<poem>
 
CANÇÃO II.
A instabilidade da fortuna,
Que para derribar-me
A este abysmo infernal de meu tormento,
Nunca soberbo foi meu pensamento,{304}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/378]]==
<poem>
 
Nem pretendeo mais alto levantar-me
D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena
De conseguir hum bem de tanto preço;
Além do que padeço,
Atado em huma roda estou penando,{305}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/379]]==
<poem>
305}
Qu'em mil mudanças me anda rodeando;
Onde, se a algum bem subo, logo deço.
O vingativo Amor me fez sentir,
Fazendo-me subir{306}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/380]]==
<poem>
Ao monte da aspereza qu'em vós vejo,
Co'o pezado penedo do desejo,
Mas, porque a dor me seja menos forte,
Diga o pregão a causa desta morte.{307}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/381]]==
<poem>
CANÇÃO III.
Ja a roxa manhãa clara
De tanto bem dá graças á ventura,
Pois as foi pôr em ti tão excellentes,
Que representes tanta formosura.{308}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/382]]==
<poem>
 
  A luz suave e leda
A meus olhos me mostra por quem mouro,
  Porém a natureza,
Que nesta pura vista se mantinha,
Me falta tão asinha,{309}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/383]]==
<poem>
309}
Como o sol faltar soe á redondeza.
Se houverdes qu'he fraqueza
Neste lugar ameno,
Em qu'inda agora mouro,{310}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/384]]==
<poem>
Testa de neve e d'ouro;
Riso brando e suave; olhar sereno;
Até no derradeiro despedir-me.
  Mas a mor alegria{311}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/385]]==
<poem>
Que daqui levar posso,
E com que defender-me triste espero,
Mostrando seu tormento
Cruel, aspero e grave,{312}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/386]]==
<poem>
Diante de vós só, minha Senhora;
Pudera ser que agora
Mas eu, de gente em gente,
Trouxera trasladada
Em meu tormento vossa gentileza;{313}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/387]]==
<poem>
313}
E somente a aspereza
De vossa condição,
O fallar e esquecer-me do que digo;
Hum pelejar comigo,{314}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/388]]==
<poem>
E logo desculpar-me;
Hum recear ousando;
  Canção, não digas mais; e se teus versos
Á pena vem pequenos,
Não queirão de ti mais; que dirás menos.{315}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/389]]==
<poem>
315}
CANÇÃO VI.
Com força desusada
Por tão doce memoria trocaria.
  Mas este fingimento,{316}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/390]]==
<poem>
Por minha dura sórte,
Com falsas esperanças me convida.
Senhora, a culpa he vossa,
Que para me matar
Bastára hum'hora só de vos não ver.{317}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/391]]==
<poem>
317}
Puzestes-me em poder
De falsas esperanças:
Não vêdes que he onzena?
Mas se tão longo e misero destêrro{318}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/392]]==
<poem>
Vos dá contentamento,
Nunca m'acabe nelle o meu tormento.
Diz que o ser de tão lindos olhos preso,
Cantá-lo bastaria a contentar-me.
Este excellente modo d'enganar-me{319}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/393]]==
<poem>
319}
Tomára eu só d'Amor por interêsse,
Se não s'arrependesse,
As fontes crystallinas não corrião,
D'inflammadas na vista linda e pura;{320}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/394]]==
<poem>
Florecia a verdura,
Que andando co'os divinos pés tocava;
A mesma perdição a restaurava:
E em mansa paz estava{321}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/395]]==
<poem>
Cada hum com seu contrário em hum sogeito.
Oh grão concêrto este!
Senão hum pensamento
Que a falta suppra a fé do entendimento.{322}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/396]]==
<poem>
CANÇÃO VIII.[3]
Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,
Mas he tamanho o gôsto de louvar-me,
E de manifestar-me
Por captivo de gesto tão formoso,{323}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/397]]==
<poem>
323}
Que todo o impedimento
Rompe e desfaz a gloria do tormento
Que, andando, co'os ditosos pés tocava;
As ramas se baixavão,{324}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/398]]==
<poem>
Ou d'inveja das hervas que pizavão,
Ou porque tudo ant'elles se baixava:
Oh caso estranho e novo!
Por alta e grande certamente approvo{325}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/399]]==
<poem>
A causa, donde vem tamanho effeito,
Que faz n'hum coração
Senão hum pensamento,
Que a falta suppra a fé do entendimento.{326}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/400]]==
<poem>
CANÇÃO IX.
Tomei a triste pena
Renovão a memoria;
Pois com a ter de vós só tenho gloria.
  E s'isto conhecesseis{327}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/401]]==
<poem>
327}
Ser verdade mais pura
Do que d'Arabia o ouro reluzente;
Ou seja tarde, ou cedo,
Com pena de penar-me, me despene.{328}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/402]]==
<poem>
E quando me condene
(Qu'he o que mais espero)
Ficando á parte, donde
O sol, que nella ferve, se lh'esconde;{329}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/403]]==
<poem>
  O cabo se descobre, com que a costa
Africana, que do Austro vem correndo,
No mundo muitas horas d'alegria.
  Aqui'stive eu com estes pensamentos{330}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/404]]==
<poem>
Gastando tempo e vida; os quaes tão alto
Me subião nas asas, que cahia
Bicho da terra vil e tão pequeno.
  Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que algum'hora{331}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/405]]==
<poem>
331}
Lembrava a huns claros olhos que ja vi;
E s'esta triste voz, rompendo fóra,
Aos ventos amorosos, que respirão
Da parte donde estais, por vós Senhora;{332}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/406]]==
<poem>
Ás aves qu'alli voão, se vos virão,
Que fazieis, qu'estaveis praticando;
Accenda-se com gritos hum tormento,
Que a todas as memorias seja estranho.
Digamos mal tamanho{333}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/407]]==
<poem>
333}
A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,
A quem ja muitas vezes o contei,
De lhes deixar poder para entenderem
Á medida dos males que tiverem.
  Quando vim da materna sepultura{334}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/408]]==
<poem>
 
De novo ao mundo, logo me fizerão
Estrellas infelices obrigado:
Suave e venenosa,
Que me criou aos peitos da esperança;
De quem eu vi despois o original,{335}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/409]]==
<poem>
 
Que de todos os grandes desatinos
Faz a culpa soberba e soberana.
Co'os raios as entranhas, que fugião
Par'ella por os olhos subtilmente!{336}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/410]]==
<poem>
Pouco a pouco invisiveis me sahião;
Bem como do véo humido exhalando
Agora co'o furor da mágoa irado,
Querer, e não querer deixar de amar;
E mudar n'outra parte, por vingança,{337}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/411]]==
<poem>
337}
O desejo privado d'esperança,
Que tão mal se podia ja mudar?
Fez-me deixar o patrio ninho amado,
Passando o longo mar, que ameaçando{338}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/412]]==
<poem>
Tantas vezes m'esteve a vida chara.
Agora exprimentando a furia rara
Injustiças daquelles que o confuso
Regimento do mundo, antigo abuso,
Faz sôbre os outros homens poderosos,{339}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/413]]==
<poem>
339}
Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna
Do soffrimento meu, que a importuna
De meus doces errores, me levasse
Por as flores que vi da mocidade;
E a lembrança da longa saudade{340}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/414]]==
<poem>
 
Então fosse maior contentamento,
Vendo a conversação leda e suave,
Nem roxa flor de Abril,
Pintor do campo ameno e da verdura,
Colhida entre outras mil,{341}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/415]]==
<poem>
341}
Foi nunca assi agradavel á donzella
Cortez, alegre e bella,
Que faz a luz dos vossos olhos bellos
A quem os vê tão puros e singelos;{342}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/416]]==
<poem>
E esse innocente riso,
Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
  A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)
Vendo estás ja prostrado{343}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/417]]==
<poem>
Saturno triste, Jupiter irado,
Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
Enigmas intricados,
E myrtos animados{344}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/418]]==
<poem>
Vemos, que o proprio Escopas não fizera;
Em ti, co'a paz interna,
  Por tanto da ventura,
Para ti reservada,{345}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/419]]==
<poem>
Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;
Porque sejas figura
Que aquelle que os teus numeros governa,
Por querê-las cantar te faça eterna.{346}
CANÇÃO XIV.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/420]]==
<poem>
XIV.
Quem com sólido intento
Os segredos buscar da natureza,
  Da vista Amor sohia
Abrir ao coração segura entrada:
Lei he ja profanada;{347}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/421]]==
<poem>
347}
Que quando a luz d'huns olhos me fería,
Amando o que não via,
Com ser neve, do fogo s'assegura:
Donde infiro por certo (e cesse a fama{348}
Vãa, mentirosa e leve)
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/422]]==
<poem>
mentirosa e leve)
Que não desfaz a neve ardente chama.
  Bem no effeito se sente
O pensamento, a côr, o riso, o gesto;
E, tendo todo o resto{349}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/423]]==
<poem>
Da vida ja perdido
Neste tormento meu tão duro e esquivo,
Que ha tanto que por este mar navego
(Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.{350}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/424]]==
<poem>
  Nesses formosos olhos, d'enlevada,
Minh'alma se escondeo,
Do que na selva umbrosa
Cerva d'aguda setta vai ferida?
Se para tal partida,{351}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/425]]==
<poem>
351}
Meus olhos, vos abristes,
Cerrára-vos o somno eternamente,
Qual flor de chuva, em breve consumida,
Verás desfeita em lagrimas a vida.{352}
CANÇÃO XVI.
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/426]]==
<poem>
XVI.
Por meio d'humas serras mui fragosas,
Cercadas de sylvestres arvoredos,
E d'outro o pintasirgo lhe responde;
A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,{353}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/427]]==
<poem>
O caçador sentindo, se levanta:
Voando vai ligeira mais que o vento;
Fresco e frio
Por o prado
D'herva ornado,{354}or
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/428]]==
<poem>
nado,{354}
Com que o aureo licor fazem, que deo
Á humana gente a indústria d'Aristeo.
O formoso jacintho alli não falta,
Lembrado dos antiguos seus amores.
Inda na flor se mostrão esculpidos{355}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/429]]==
<poem>
esculpidos{355}
Os gemidos:
Aqui Flora
Escolhendo,
Para fazer preciosas mil capellas,
E dar por grão penhor a Nymphas bellas.{356}b
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/430]]==
<poem>
ellas.{356}
  Eu dellas, por penhor de meus amores,
Huma capella á minha deosa dava:
Não sinto por qual arte
Me vejo entregue a elle de tal sorte,
Qu'em quanto tarda a morte,{357}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/431]]==
<poem>
a morte,{357}
A esperança do bem tenho perdida.
Ai quão devagar passa a triste vida!
Então desejas mais d'atormentar-me;
E não queres matar-me{358}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/432]]==
<poem>
Porque este mal de mi se não despida.
Ai quão devagar passa a triste vida!
Mas quando (ai triste!) quando
D'hum dia hum'hora me virá contente,
Qu'eu te veja presente,{359}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/433]]==
<poem>
359}
Pastor meu, e comtigo est'alma unida?
Ai quão devagar passa a triste vida!
A hum'alma que lhe he pouco agradecida.
Ai quão devagar passa a triste vida!{360}
 
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/434]]==
<poem>
ODES.
ODE I.
O teu celeste humor na primavera:
  Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio{361}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/435]]==
<poem>
Suas sombras formosas;
Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
Só de seu pensamento acompanhado,
Conversa as alimarias,{362}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/436]]==
<poem>
De todo Amor contrárias,
Mas não como ti duras,
Não fujo o desvario;
Porque este em que me vejo
Engana co'a esperança o meu desejo.{363}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/437]]==
<poem>
363}
  Oh quanto melhor fôra que dormissem
Hum somno perennal
A Aurora no princípio do verão,
Ás flores dando a graça costumada,{364}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/438]]==
<poem>
Como a formosa mansa fera, quando
Hum pensamento vivo m'inspirou,
Entendimento e engenho me cegou
Luz de tão alto preço.{365}
  Naquella alta pureza deleitosa
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/439]]==
<poem>
alta pureza deleitosa
Que ao mundo s'encobrio;
E nos olhos Angelicos, que são
Com tanta desventura,
Tão rouca, tão pezada, nem tão dura.{366}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/440]]==
<poem>
  A ser como sohia,
Pudera levantar vossos louvores;
Do fero Rhadamante,
E co'os teus olhos ver a doce amante!
  As infernaes figuras{367}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/441]]==
<poem>
367}
Moveste com teu canto docemente;
As tres Furias escuras,
  Mas que digo, coitado!
E de quem fio em vão minhas querellas?{368}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/442]]==
<poem>
Só vós, ó do salgado,
Humido Reino bellas
As pontas amoladas
De quantas settas tinha t~ee quebradas:
  Amada Circe minha,{369}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/443]]==
<poem>
369}
Postoque minha não, com tudo amada;
A quem hum bem que tinha
E contra ti se accenda o fero Amor?
  Ólha a formosa Flora;
De despojos de mil suspiros rica,{370}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/444]]==
<poem>
 
Por o Capitão chora,
Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica,
  Toma-a nas azas tuas,
Menino pio, illesa e sem perigo,
Antes que nestas cruas{371}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/445]]==
<poem>
371}
Ágoas cahindo apague o fogo antigo.
He digno amor tamanho
Me desfazem a nuvem da tristeza.
  O meu peito, onde estais,
He para tanto bem pequeno vaso;{372}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/446]]==
<poem>
 
Quando acaso virais
Os olhos, que de mi não fazem caso,
Para que a dor de sua ardente flama
Comvosco tanto possa,
Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.{373}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/447]]==
<poem>
373}
ODE VI.
Póde hum desejo immenso
De pureza e vergonha he variada;
Da qual a Poesia, que cantou{374}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/448]]==
<poem>
Atéqui só pinturas
Com mortaes formosuras igualou;
Das quaes o movimento
Fara deter o vento e as altas aves:
  Dos olhos o virar{375}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/449]]==
<poem>
375}
Que torna tudo raso,
Do qual não sabe o engenho divisar
Flores, mas só abrolhos
O fazem feio; e cuido que lhe faltão
Ouvidos para mi, para vós olhos.{376}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/450]]==
<poem>
 
Mas faça o que quizer o vil costume;
Que o sol, qu'em vós está,
A honra e gloria igual,
Senhor Dom Manoel de Portugal?
  Imitando os espritos ja passados,{377}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/451]]==
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377}
Gentis, altos, Reais,
Honra benigna dais
Que vencem a Fortuna,
Forão sempre coluna
Da sciencia gentil: Octaviano,{378}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/452]]==
<poem>
 
Scipião, Alexandre e Graciano,
Que vemos immortais;
  E não se desprezou
Aquelle fero e indomito mancebo
Das Artes qu'ensinou{379}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/453]]==
<poem>
379}
Para o languido corpo o intonso Phebo;
Que se o temido Heitor matar podia,
Nos campos Indianos,
As quaes aquellas doctas e protervas,{380}
Medêa e Circe, nunca conhecêrão,
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/454]]==
<poem>
nunca conhecêrão,
Postoque a lei da Magica excedêrão.
  E vêde carregado
As árvores sombrias;
As verdes hervas crecem,
E o prado ameno de mil côres tecem.{381}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/455]]==
<poem>
381}
  Zephyro brando espíra;
Suas settas Amor afia agora;
Temerá o marinheiro a Orionte.
  Porque, emfim, tudo passa;{382}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/456]]==
<poem>
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Livrar póde o ousado
Perithoo da espantosa
Prisão Lethêa escura e tenebrosa.{383}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/457]]==
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ODE X.
Aquelle moço fero
Porque de seu senhor a vê senhora.
  Ja toma a branda lyra{384}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/458]]==
<poem>
Na mão que a dura Pelias meneára;
Alli canta e suspira,
  Aquelles, cujos peitos
Ornou d'altas sciencias o destino.{385}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/459]]==
<poem>
Se vírão mais sujeitos
Ao cego e vão menino,
E conforme sogeito,
Onde s'imprima o brando e doce affeito.{386}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/460]]==
<poem>
ODE XI.
Naquelle tempo brando
Os amorosos corpos despertava
Á cega idolatria,
Que ao peito mais contenta e mais aggrava;{387}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/461]]==
<poem>
387}
Onde o cego menino
Faz que os humanos crêão que he divino:
Os corações humanos traz e atiça,
E donde com desejo{388}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/462]]==
<poem>
Mais ardente começa a ser sobejo.
  O mancebo Peleo,
Destruição do Phrygio pensamento;
Que, por não ser ferido,
Foi nas ágoas Estygias submergido.{389}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/463]]==
<poem>
389}
ODE XII.
Ja a calma nos deixou
Que a Jupiter por a aguia foi levado,
No cêrco crystallino{390}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/464]]==
<poem>
For do amante de Clicie visitado;
O bosque chorará, chorará a fonte,
Qu'em matar-me ella só mostre firmeza,
Se não achára agora
Tambem em mi mudada a natureza;{391}
</poem>
==[[Página:Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu/465]]==
<poem>
 
Pois sempre o coração tenho turbado,
Sempre d'escuras nuvens rodeado.