No País dos Ianques/I: diferenças entre revisões

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Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscópica da terra fluminense: era o farol da ilha Rasa tremeluzindo, como pálpebra sonolenta, através da noite.
 
E todos a bordo, todos silenciosamente, egoístas na sua dor concentrada e incomunicável, mandaram ainda um -— adeus -— profundamente saudoso à vida alegre e ruidosa do Rio.
 
Dizem que o homem do mar é insensível aqueles que nunca viram esta realidade: a lágrima da saudade brilhar na face de um marinheiro.
Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de inocente alegria. O marinheiro com especialidade gosta de segui-la com o olhar nostálgico até perdê-la completamente. É como ao avistar-se terra depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão boa e indefinível.
 
Na manhã de 26 -— leste-oeste com o farol de S. Agostinho, e às onze horas recebíamos o prático.
 
Impossível entrar nesse dia, por falta de maré: passamos a noite fora, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um óculo, a cidade do Recife, iluminada e bela, ombro a ombro com a legendária Olinda dos holandeses e dos banhos de mar.
Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o príncipe, subiu de ponto a curiosidade pública.
 
-— Oh! o príncipe! -— Que é dele? -— É um ruivo? -— É aquele barbado?
 
O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de cores, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, ocultando-se entre os colegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e suplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direto a um outro rapaz, louro e rubro, como o príncipe, que se apressou em desfazer o engano.
O imperial senhor achava-se ridículo no meio de toda aquela multidão servil e anônima que o acompanhava, "como se visse nele um animal selvagem..."
 
É assim o povo -— ingênuo, pueril.
 
Visitamos, em romaria, os principais edifícios públicos: a Penitenciária, a Assembléia Provincial, o Ginásio, o Teatro.
Um dos nossos companheiros desejou saber a história do seu crime e pediu ao infeliz que lha contasse ele próprio.
 
-— Não queira, disse o condenado, não queira obrigar-me a fazer minha própria autópsia moral... Narrá-la, essa história, seria um suplício muito maior do que estar eu aqui, neste cárcere, há vinte anos...
 
Gustavo Adolfo parecia-nos um regenerado, tal o aspecto humilde de sua fisionomia e o tom comovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dor tem isto de bom -— purifica o espírito, é como um crisol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolfo, era um mártir. Aquele semblante abatido pelas insônias, aquele rosto descarnado, aqueles olhos cansados de chorar, aqueles lábios lívidos de defunto, cansados de repetir a palavra -— perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade -— a morte.
 
Vimo-lo na casa dos condenados, entre as quatro paredes de um miserável cubículo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.
Poucos iam incomodá-lo ali, naquela pavorosa solidão, e no entanto ele não odiava ninguém e desejava falar a todos.
 
Tinha dezenove anos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condenado a esta pena infamante -— galés perpétuas.
 
Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolfo, me parece a mais nobre ação de um rei. Todavia ele continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...
Pôr diversas vezes a academia de direito, pelo órgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seu magnânimo olhar até aos cárceres senão em certos dias de gala natalícia para indultar os escolhidos da política dominante.
 
-— Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine: -— Vivre c'est attendre...
 
Retiramo-nos comentando aquela catástrofe desastrada.
 
A história trágica desse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumi-la em duas palavras: -— cherchez la femme, se não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo-crime. Cada um tire as ilações que lhe aprouverem.
 
Gustavo Adolfo nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.
Muito cedo seu espírito mostrou-se refratário à educação eclesiástica, e desviou-se dos livros sagrados para outro gênero de leituras e estudos mais consentâneos com as suas aspirações.
 
Os pais do núbil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionário e ardente apologista de Martinho Lutero, que não ocultava-lhes suas tendências anticatólicas. Ele, porém, o apóstata, o herege, sentia-se instintivamente arrebatado pelas idéias do século e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo fraque da última moda. Ninguém põe peias à fatalidade. Não contente com ir de encontro à vontade de seus pais e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, súbito, viu-se na capital do Brasil, sem um amigo que o guiasse nesse labirinto de ruas suspeitas onde o vício assentou praça. A Rua do Ouvidor e os teatros sempre eram mais agradáveis que o claustro e as impertinências do reitor -— muito mais...
 
Pobre Gustavo Adolfo! Salvara-se de um abismo para precipitar-se imprudentemente, como criança inexperta, noutro abismo talvez mais perigoso.
 
Sem amigos, sem proteção, longe de sua terra e de seus pais -— que podia esperar o jovem desconhecido naquele turbilhão de vis interesses?
 
Imbert-Galloix, um italiano também adolescente e cheio de esperanças, inteligente e trabalhador, morreu de miséria numa rua de Paris, por ter trocado sua pátria natal por um país que só conhecia de nome. Fora em busca de glórias e encontrou a miséria, o frio, a fome, e a morte por fim.
E, parece incrível! quando na primeira noite, após as inefáveis carícias do amor, a mísera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez nalgum banquete suntuoso, à sombra de álamos frondosos, talvez nalguma de suas passadas orgias, à luz de candelabros deslumbrantes, ele, o mal-aventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno desta amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificável.
 
-— Estes brincos, estes brincos... pensava ele fitando as jóias, duas grandes lágrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espírito oscilava como um pêndulo na dúvida terrível, aguçado por um desejo louco.
 
Ei-lo que se levanta de um ímpeto, pisando devagar, sorrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; ei-lo que se encaminha para a porta da rua, tateando, encostando-se às paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para trás, para o leito da amante (lembra-me a cena da "Cimbelina" de Shakespeare).
Aproxima-se mais, rastejando quase, mansamente, sutilmente.
 
De repente soa uma pancada surda, e um grito estrangulado: -— Soc... corro! Soa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos lençóis daquele malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda há pouco sentia e pensava...
 
Obcecado pela idéia do roubo, o assassino arranca brutalmente as jóias do cadáver, e, à luz do combustor de cristal, reconhece que são falsas!
Havia, além de Gustavo Adolfo, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fora condenado igualmente a galés perpétuas.
 
Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) anos de idade e possuir família numerosa: -— mulher e 30 filhos!
 
-— Qual foi o seu crime? perguntamos.
 
O velhinho todo trêmulo, a cabeça muito branca, uma névoa úmida no olhar, sem forças quase para dar um passo, murmurou tristemente:
 
-— Nenhum, meus caros senhores... Suponho que houve engano da justiça...
 
-— E se lhe dessem liberdade agora?.
 
-— De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos. Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.
 
O edifício da Penitenciária tem, logo à entrada, a seguinte inscrição em mármore:
Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
 
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