No País dos Ianques/II: diferenças entre revisões

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No dia 27 deixamos o Recife em direção às Antilhas.
 
Como até aí, a viagem continuou a vapor -— uma verdadeira viagem de recreio se não fosse a exigüidade dos cômodos a bordo do cruzador.
 
O comandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos à abertura da exposição internacional americana, onde o Almirante Barroso devia figurar como legítimo e admirável produto da indústria naval brasileira tão pouco conhecida no estrangeiro.
À distância Bridgetown semelha uma pobre cidade desabitada, sem indício de civilização. A surpresa que experimenta o viajante é completa depois. Alguém que aí esteve anos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglesas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra afirmando o grande poder marítimo desse país, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.
 
Um dia e meio -— eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo suficiente para conhecermos a ilha à vol d'oiseau.
 
A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratável.
Abundam o ciceroni, espécie curiosíssima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira bárbara. Querem, à fina força, ensinar-lhes as ruas, os hotéis, e não os largam enquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo número de shillings.
 
Falam um patois detestável; ninguém os entende com facilidade. Imagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: -— Came hear! carne hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O mísero julga-se por um momento transportado, como por encanto, às costas da África, fecha ouvidos à grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remédio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, até que, depois de uma luta incrível, esguedelhado, ofegante, pálido, embarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
 
E ainda por cima vocifera a legião faminta dos negros!
Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.
 
Basta dizer que ainda não tínhamos fundeado e já grande número de pequenas embarcações a vela e a remos -— fly hoats -— aproximavam-se do navio, cortando-lhe a proa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam: -— I am pilot! I am pilot!
 
Embalde procurávamos persuadir àqueles esfaimados de dinheiro que não precisávamos de prático, pois a baía de Bridgetown é bastante espaçosa e oferece entrada franca.
 
Dávamos com o lenço, mandando-os embora -— que não! mas os gritos repetiam-se: -— I am pilot! I am pilot!
 
Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio estrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.
No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a St. Leonard's School e uma igreja-cemitério.
 
A estátua de Nelson, o herói de Trafalgar, ergue-se, em bronze maciço, numa das melhores praças do lugar -— Nelson's Square, se me não engano.
 
Os poucos hotéis que existem na ilha são vastos e oferecem o necessário conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnífico vinho, deliciosos sorvetes -— ice-cream -— e, finalmente, boas camas e muito asseio.
 
O brasileiro que viaja, com raras exceções, tem necessidade imprescindível de duas coisas que ele julga essenciais ao seu bem-estar: café e cigarros.
 
Spleen e charutos -— são coisas inseparáveis de um inglês da Inglaterra; café e cigarros -— eis o que um brasileiro não dispensa.
 
Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestável composto de muito pó e pouca água, que os naturais misturam à guisa de chocolate, mas de um sabor desagradável, repugnante.
E, note-se, de vez em quando atravessam aquelas regiões terríveis ciclones produzindo estragos incalculáveis em toda a extensão da ilha. Inúmeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas à costa por esses formidáveis meteoros. O último caiu em 1851 e figura nos anais da navegação como um dos grandes desastres marítimos do Atlântico.
 
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