No País dos Ianques/XI: diferenças entre revisões

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|seção=Capítulo XI
|obra=[[No País dos Ianques]]
|autor=Adolfo Caminha
Entre os monumentos arqueológicos notamos a secular catedral onde (refere a crônica) estão sepultados os ossos de Cristóvão Colombo.
 
Vimos uma estátua -— a de Isabel, a Católica, num grande largo que tem o nome da santa rainha.
 
Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em conseqüência do calor excessivo e constante a que vive sujeita.
La Havana, de resto, é o que se pode chamar uma cidade pacífica, sossegada e sem atrativos. A impressão que ela deixa no espírito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.
 
Mas, para que não fosse de todo ociosa e inútil a nossa visita a Cuba, aproveitamos o ensejo de ver uma de suas mais pitorescas e curiosas cidades -— Matanzas, onde chegamos depois de algumas horas de viagem costeira. Ai nos esperava o vice-cônsul do Brasil, excelente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr à nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdêssemos oportunidade de contemplar o majestoso panorama do vale de Yumiri, um dos mais belos do mundo, cerca de uma légua distante da cidade.
 
-— Os senhores vão ver um belíssimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brasil, preveniu-nos o cônsul. É uma maravilha!
 
E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios à topografia do país, cheia de altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, numa disparada única por montes e vales, aos solavancos.
Crepúsculo... Céu pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão côncava do vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido, verde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.
 
Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira -— larga faixa de veludo cinzento -— limita o cenário, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silêncio de abismo.
 
Vê-se muito ao longe, de um lado da paisagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nódoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de cores esmaecidas.
 
Há muito que o sol tombou na sua eterna circunvolução diurna. A sombra que se alastra, a plêiade fosforescente dos pirilampos, o silêncio absoluto que nos cerca -— tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instintivamente, levantar uma prece à misteriosa Força que rege o Universo.
 
Existe no alto da montanha a modesta capela de N. Sra. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretensão de nicho de aldeia, com a sua torrezinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do vale.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
 
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