Diferenças entre edições de "Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1895"

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sem resumo de edição
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<p>Ora, a situação é justamente dos espertos, daí o grande desânimo que me atinge.</p>
<p>Estarão aí tão irrequietos como aqui os restauradores?</p>
<p>Às vezes creio que a nossa República atravessa os piores dias. Esta reação monárquica tem afinal aliança das nossas desgraças políticas e tremostemos às vezes, imaginando um sucesso que por isso mesmo é um absurdo pode-se realizar na nossa terra.</p>
<p>Também será o que falta para completar a nossa desmoralização perante o mundo.</p>
<p>A pior posição será a nossa, a dos republicanos de todos os tempos… os outros aderirão pela segunda vez e continuarão a mesma vida cômoda que hoje têm.</p>
<p>A Saninha pede-lhe para retribuir as lembranças da família do sr. coronel Saturnino.</p>
<p>Mande-nos dizer que tal tem achado tudo isto por aí; mas escreva-me – não creio que o comando do Distrito abosorva-lhe todo o tempo. Os meus amigos vão ficando escasssosescassos – só falta agora que o velho amigo imite-os. Também a Saninha queixa-se da falta de cartas… neste andar a nossa sociedade estará em breve reduzida aos dois filhinhos.</p>
<p>Esteve aqui o Ferraz e trouxe uns presentes que agradecemos. O coronel Noronha, um bom e digno amigo seu manda muitas lembranças.</p>
<p>Recomende-me a todoso. Aí vai grande abraço e grandes saudações do genro e am. obrmo.</p>
 
[timbre: M. R. Pimenta da Cunha. Fazenda da Trindade. Belém do Descalvado]
 
== Descalvado, 18 de junho de 1895 ==
 
:Meu caro João Luís
 
Desejo-te saúde e felicidades – em companhai de toda a família. Nós vamos indo sem maior novidade embora comece a se tornar pesada para mim a monotonia da roça.
 
Creio que é a terceira ou quarta carta que te escrevo; devo atribuir à infidelidade postal o não haver ainda recebido resposta alguma? Creio porém que acertarei levando-a em conta à ingratidão do amigo. Escrevi ontem ao dr. Brandão, o nosso eminente chefe – do qual tenho tido imensas saudades. Não sei se a recíproca é verdadeira, não sei se os meus amigos daí ainda se lembram de mim. Isto porém não me impedirá de escrever-lhes sempre: a Campanha avultará sempre no meu passado como a paragem mais formosa e santa da minha existência de árabe. Sou tão sincero no que digo que acalento a mesma ideia de terminar aí esta vida agitada; talvez assim ainda sejamos sócios de velhice e recordemos um dia – trêmulos, acurvados, dos lentos passeios pelas suas ruas – as cenas e os dias da mocidade.
 
Entre os que deixaram de responder-me avulta pela pasmosa ingratidão o nosso amigo comdor. Bernardo Veiga. Dou-te, por esta, procuração bastante para exprimir-lhe de minha parte amaríssima mágoa. Nunca me passou pela mente a ideia de que ele se armasse contra mim de tão pecaminoso, criminosíssimo silêncio.
 
Em resposta a esta diga-me se a Campanha tem entretanto algum elemento de vida ou se imobilizou definitivamente. Dê-me notícias de tudo e de todos.
 
A Saninha espera aqui a d. Fernandina em agosto; está firme que virá; eu, porém (sejamos francos) tenho-lhe dito que não pense nisto porque você não virá com certeza porque a distância enfraqueceu os laços da antiga amizade e etc.
 
Amanhã ou depois escreverei ao coronel Faria em resposta à sua carta. Esta já vai longa, não a prolongarei porque é para mim duríssima tortura escrever aos amigos ausentes.
 
Envio-te um grande abraço, tão grande que com ele possa enlaçar o dr. Brandão, Bernardo Veiga, dr. Saturnino, cel. Faria, Neneco enfim aos bons amigos daí.
 
A Saninha envia muitas saudades a d. Fernandina, ds. Lalica, Zoraide, Maria Antonia e pede-lhes respondam as cartas que escreveu.
 
Adeus e acredite na afeição sincera do
 
Euclides da Cunha
 
P.S. – A Regina e o Artur vão bem. Vai uma carta deles que peço-te mandar entregar ao pai.
 
:Euclides
 
== Descalvado, 28 de junho de 1895 ==
 
:Porchat
 
Desejo-te saúde e felicidades. Somente hoje estou completamente restabelecido de complicada moléstia – durante a qual não tive uma só carta do ilustre companheiro.
 
Escreva-me, pois, dando notícias tuas ao am. e adm.
 
:Euclides
 
[Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha – bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais]
 
== B. do Descalvado, 8 de julho de 1895 ==
 
:João Luís
 
Saúde e felicidade. Recomendai-nos muito, a mim e a Saninha à toda família.
 
Somente hoje tenho a satisfação de responder a tua última carta, carta que me veio, em boa hora, demonstrar que ainda se lembra de mim o digno companheiro e irmão de ideias. O mesmo não posso dizer do nosso eminente amigo, o dr. Brandão. Uma única carta recebi dele e tenho já quase perdida a esperança de receber segunda. Apesar disto porém, afirma-lhe por mim a mesma afeição antiga e dê-lhe apertado abraço. Eu imagino o choque que aí produziu a morte do Marechal de Ferro. Devo dizer-te com sinceridade que ela me comoveu também e bastante. Quem lucrou e muito foi a nossa história: tem agora uma figura original e admirável que recorda Luís XI envolto na couraça guerreira de Turenne.
 
Pelo que li, foram notavelmente lisonjeiros para a Campanha os últimos pensamentos do grande homem: envio-te por isto muitos parabéns.
 
Volvamos porém a outro assunto. Estou certo que continuas a mesma vida – calma, estudiosa e útil – nesta adorável Campanha, aprazível Ferney de três Voltaires: eu, você e o dr. Brandão.
 
Eu levo aqui vida trabalhosa de roceiro –; felizmente a agitação exclusivamente muscular em que vivo, deixa-me o cérebro adormecido, numa grande e benéfica inconsciência do que vai pela nossa terra. Por isto não farei consideração acerca da nossa política.
 
Hei de escrever-te mais a miúdo, esperando a recíproca. Diga ao Capelli que receba do Lemos o dinheiro que el deu por mim ao carniceiro. A Regina e irmão vão bem. Não me esqueci da sua promessa; tanto eu como a Saninha te esperamos assim como a d. Fernandina em agosto, sem falta. Estou certo que virão. O meu pai envia-te um abraço.
 
Recomenda-me muito a todos. A Saninha envia muitas saudades a d. Fernandina, d. Lalica, d. Maria Antonia, d. Zoraide e meninas. Abraço por mim no dr. Brandão e cel. Faria.
 
Disponha de quem é e será sempre am. e adm.
 
:Euclides da Cunha
 
== Descalvado, 6 de agosto de 1895 ==
 
:Porchat
 
Desejo-te saúde e felicidades, assim como a toda a família. Ainda hoje não poderei mandar a carta que juntamente com a caderneta que aí está deverá ser enviada ao […]. Estou muito atarefado nessa faina da roça – da qual me quero ver livre o mais breve possível. Gorou a minha pretensão? Diga-me alguma coisa: caso haja naufragado mais uma vez, envia-me lá um pouco da tua adorável filosofia, consoladora e amiga. Infelizmente não me posso alongar mais. Amanhã ou depois, escrever-te-ei. Adeus. Dê apertado abraço nos amigos e disponha do verdadeiro am. e humílimo crdo.
 
:Euclides
 
== S. Paulo, 9 de outubro de 1895 ==
<p>Ficamos muito satisfeitos com a notícia da tua próxima vinda aqui. Que ela não fique apenas em projeto e se vieres previne-me antecedência a fim de esperá-los porque não dispenso absolutamente a satisfação de acolher o meu amigo e família na minha tenda de árabe.
<p>O que poderei dizer-te de novo sobre a minha vida? E sem mesma, incoerente, sulcada, de desânimos profundos, agitada, de ações tumultuosas, iluminada às vezes por esperanças imensas… Felizmente porém, meu caro João Luís, prendi-a à de dois filhos pequenos, transformei-a de direito que é para quase toda a gente em dever imprescritível (se é que admites tão singular dever) e sigo avante. Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que estou, aonde a luta pela vida lembra, pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo a agitação da idade das Cavernas.
 
Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer ― com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e ― fato singular ―! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna ― essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima ― limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra.
<p>E você? Persiste ainda no propósito de permanecer ai perenemente, na Tebaida ― como um monge imberbe, ilogicamente desalentado? Não te atrai uma estrada mais perigosa e abrupta para o futuro? Conta-me alguma coisa neste sentido, na resposta a esta que espero breve.