Diferenças entre edições de "Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1895"

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sem resumo de edição
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:Euclides
 
 
== Descalvado, 8 de agosto de 1895 ==
 
:Meu ilustre amigo dr. Brandão
 
Saúde e felicidades. Recomendai-nos muito a toda a Exma. família. Lamento ser obrigado a responder a vossa belíssima carta que só agora recebi, ao voltar de S. Paulo, num simples cartão de visita. É que não tenho aqui papel de carta e o mal é irremediável, na roça. Estou cansado, meu distinto amigo, desta vida de roceiro; espero que termine a quadra trabalhosa da colheita para procurar outro rumo. Felizmente, o meu pai resolveu que é impossível o adaptar-me a semelhante meio. Irei para S. Paulo ou para o Rio; participar-vos-ei com antecedência. De qualquer modo quase posso afirmar que no fim deste ano, em novembro ou dezembro, irei com Saninha até aí – abraçar as pessoas que tanto nos distinguiram. Amanhã escreverei ao João Luís, em quem, peço dê por mim grande abraço. O meu Euclidinho já está andando e já conhece pelo retrato a sua madrinha – infelizmente, não tenho aqui a do padrinho, ingrato compadre que nem notícias pede ao afilhado. Adeus, meu ilustre amigo – recomendai-vos a toda a família – abraçai aos bons amigos daí e acreditai na estima e consideração do am. e admor.
 
:Euclides
 
[Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha – bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais]
 
== S. Paulo, 5 de setembro de 1895 ==
 
:Meu ilustre amigo dr. Brandão
 
Saúde e felicidades em companhia de toda a Exma. Família é o que sinceramente desejamos, eu e a Saninha. Nós vamos indo felizmente, bem. Estou em grave falta com meu distinto amigo, reconheço-o; inúmeros afazeres distraíram-me do cumprimento de um dever que é, entretanto, para mim, muito sagrado. Acresce ainda uma circunstância justificadora: acabo de alterar mais uma vez a orientação da minha vida. Reconheci que não poderia suportar a vida na roça e, com a aprovação do meu velho, resolvi abraçar a minha profissão de engenheiro aqui em S. Paulo – aonde estou com a família. Está aí a causa predominante do meu silêncio; estou certo que não precisaria apresentá-la; os meus amigos felizmente me conhecem bastante – jamais serei um ingrato.
 
Acho-me empregado – como engenheiro ajudante nas obras públicas daqui; não tenho entretanto desejo de ser por muito tempo empregado público; aproveitarei a primeira oportunidade que tiver para exercer a minha profissão mais dignamente.
 
Estive ontem com o vosso filho, o dr. Carlito – que está bom de saúde. Acalento sempre a esperança de ir breve até aí, abraçar a tantos amigos e rever a Campanha, a nossa Tebaida mineira.
 
Os meus filhinhos continuam como sempre fortes e sadios e como sempre serem a preocupação constante, insistente e muitas vezes dolorosa do meu espírito – sobretudo agora, numa grande cidade que, embora seja hoje das mais salubres da nossa terra, está sujeita ao assalto de todas as epidemias.
 
Mandai-nos notícias de todos, da nossa digna e respeitável comadre d. Maria, do ingratíssimo compadre Chiquito, enfim de todos.
 
E sempre às vossas ordens – envia-vos apertado abraço o am. e admor.
 
:Euclides da Cunha
 
P.S. – Estamos morando numa casa muito boa e bonita na rua de Santa Isabel –; não tem ainda número – por isto peço enviar as cartas para a rua do marechal Deodoro nº 19.
 
:Euclides
 
== S. Paulo, 5 de setembro de 1895 ==
 
:João Luís
 
Que a mais ampla felicidade te rodeie em companhia de toda a família. Não te tenho escrito pelo seguinte: a vida rude e trabalhosa da roça não me permitia; fiz a colheita da fazenda do meu velho, tive que lidar com vasta série de trabalhos que me eram totalmente estranhos etc. – além disto eu confiava e confio na tua longanimidade, certo de que me perdoarias a gravíssima falta. Cansei-me afinal da roça; senti-me alquebrado pela faina de roceiro; a atividade exclusivamente muscular cansou e eu reconheci que ainda era cedo para fugir às agitações da vida.
 
Deixei por isto a Fazenda do velho que aprovou a minha resolução.
 
Estou como engenheiro ajudante nas Obras Públicas deste Estado – abraçando assim francamente a minha verdadeira profissão. Aguardo a todo o momento a reforma que pedi.
 
Aí está em traços rápidos a alteração que sofreu a minha vida – aguardo sobre ela o teu parecer valiosíssimo de constante e leal amigo.
 
Moramos na rua de Santa Isabel – numa casa que ainda não tem número porque foi concluída agora, por isto peço-te enviares as tuas cartas para a rua do marechal Deodoro nº 19, residência do distinto colega teu, o Reinaldo Porchat – um dos meus raros e dignos Amigos.
 
Estou certo que ainda este ano iremos até aí; para mim fazer uma viagem à Campanha – terra de tantos bons e leais amigos – é fazer uma romaria, é procurá-la com a mesma devoção religiosa que leva os Muçulmanos à Meca. Não acredites que seja isto um exagero: os homens daqui poder-te-ão dizer talvez melhor do que eu toda a imensa afeição que dedico à tua, à nossa boa cidade.
 
Adeus, meu caro amigo, recomenda-nos muito a toda a família – abraça por mim aos bons amigos daí e não esqueça nunca o am. e admor.
 
:Euclides
 
N.B. – Todos de casa, bons.
 
== S. Paulo, 26 de setembro de 1895 ==
 
:João Luís
 
Desejo-te muitas felicidades, assim como a toda a família. Tenho-te escrito todas as vezes que posso abrir um parêntesis na minha vida atarefada. Firme no meu propósito continuo a escrever, embora os amigos daí: você, o dr. Brandão, B. Veiga e outros – respondam-me com um silêncio extraordinário. Estarão mal comigo? Agito às vezes este ponto de interrogação sinistro como o Hamlet nas malhas do ser ou não ser e como herói Shakesperiano deixo-me dominar pelas mais dolorosas dúvidas. Enfim é possível se hajam perdidos as cartas que tenho escrito. Vou, por isto, heroicamente, insistir na correspondência.
 
Tenho-me dado perfeitamente na vida estudiosa que levo – muito contraposta à existência tranquila demais da roça. A vida ativa de engenheiro, mas de engenheiro a braços com questões sérias e não cuidando de emboços e reboços em velhos pardieiros – veio convencer-me que tinha muito ainda a aprender e que não estava sequer no primeiro degrau de minha profissão. Por aí já vês que a minha atividade intelectual agora converge toda para os livros práticos – deixando provisoriamente de lado os filósofos, o Comte, o Spencer, o Huxley etc. – magníficos amigos por certo mas que afinal não nos ajudam eficazmente a atravessar esta vida cheia de tropeços e dominada quase exclusivamente pelo mais ferrenho empirismo. Infelizmente é uma verdade: as páginas ásperas dos Aide-Mémoires ou dos Engineer's pocket books são mais eloquentes, neste fim de século, do que a mais luminosa página do mais admirado pensador. Imagina, se podes, a imensa tristeza que sinto ao escrever isto.
 
Não prolonguemos, porém, divagações inúteis. Amanhã escreverei a outros amigos daí. Recomende-me muito ao cel. Faria, dr. Brandão, B. Veiga – enfim aos que aí me estimam tanto quanto eu acredito.
 
Recomenda-nos, a mim e a Saninha a toda a família. Aceita apertado abraço do am. e abrdo.
 
:Euclides da Cunha
 
P.S. – Pondo ontem em ordem alguns papéis encontrei uma conta de cinquenta e poucos mil do sr. Adolfo Luís; com verdadeira surpresa vi que a não tinha ainda pago, por lamentável esquecimento. Peço-te perguntar a ele se quer que mande pelo correio ou se tem aqui alguém a quem eu popssa entregá-la.
Adeus.
 
:Euclides
 
== S. Paulo, 3 de outubro de 1895 ==
 
:Porchat
 
Saúdo-te. O portador deste é um pobre rapaz, carregado de família numerosa e a braços com sérias dificuldades para sustentá-la. Vou fazer todo o possível para ampará-lo – desejo que me auxilies na empresa; recomendo-to. Ele quer uma coisa simples e que não creio difícil – trabalho. Estendo ao dr. Antonio Bellegarde este pedido.
 
Até logo. Recado do amigo
 
:Euclides
 
== S. Paulo, 9 de outubro de 1895 ==
<p>Ficamos muito satisfeitos com a notícia da tua próxima vinda aqui. Que ela não fique apenas em projeto e se vieres previne-me antecedência a fim de esperá-los porque não dispenso absolutamente a satisfação de acolher o meu amigo e família na minha tenda de árabe.
<p>O que poderei dizer-te de novo sobre a minha vida? E sem mesma, incoerente, sulcada, de desânimos profundos, agitada, de ações tumultuosas, iluminada às vezes por esperanças imensas… Felizmente porém, meu caro João Luís, prendi-a à de dois filhos pequenos, transformei-a de direito que é para quase toda a gente em dever imprescritível (se é que admites tão singular dever) e sigo avante. Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que estou, aonde a luta pela vida lembra, pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo a agitação da idade das Cavernas.
<p>Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer ― com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e ― fato singular ―! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna ― essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima ― limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra.
 
Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer ― com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e ― fato singular ―! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna ― essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima ― limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra.
<p>E você? Persiste ainda no propósito de permanecer ai perenemente, na Tebaida ― como um monge imberbe, ilogicamente desalentado? Não te atrai uma estrada mais perigosa e abrupta para o futuro? Conta-me alguma coisa neste sentido, na resposta a esta que espero breve.
<p>Diga ao nosso grande amigo dr. Brandão compreendo perfeitamente que somente raras vezes terá tempo para escrever aos amigos, com a vida atarefada que aí leva.