Diferenças entre edições de "Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1892"

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sem resumo de edição
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Peço-te que no meu nome e no de Saninha recomende-nos muito a d. Maria Júlia e toda a Exma. família.
 
Abrace por mim aos bons companheiros daí e lembre-se um pouco mais do am amoamº</div>
 
:Euclides da Cunha
Nós vamos indo bem. Dê um apertado abraço no general Solon e diga-lhe que ele ainda tem por aqui amigos sinceros e reais que repelem, com repugnância os respingos de lama, que meia dúzia de infames sobre ele atiram.
 
Dê por mim e Saninha muitos abraços em d. Túlia, d. Josefa e meninos; e você receba saudades nossas e disponha do amoamº, agradecido</div>
 
:Euclides da Cunha
Na carta anterior falas de ocupações inúmeras que não te deixam folga para a agradabilíssima dos livros novos que aparecem ― a Débâcle e os Simples; lastimas isto, eu, porém, folguei com a notícia: quero que os bons companheiros de mocidade, como você, os quais, espero, serão bons companheiros de velhice, entrem pela vida num combate rude e vigoroso, tal que lhes roube o momento mais breve para a mais breve contemplação da feição cômoda e formosa da existência. Eu também não li ainda o livro de Junqueiro e, como você, tenho-o sobre a mesa; não me queixo porém; à força de lutar hei-de afinal, a pouco e pouco, conquistar algumas horas mais calmas; nessa quadra então lerei alguma coisa; por ora, faço uma crudelíssima para mim ― estudo. Na próxima semana escreverei para o Estado. Peço-te que não repares o laconismo desta; na próxima carta vingar-me-ei amplamente, escrevendo-te então acerca do que vai por aqui…
 
Recomende-me muito à Exma. família e considera sempre teu verdadeiro amoamº o</div>
 
:Euclides da Cunha
Ando para te escrever, com vagar, uma longa carta, acerca de assuntos altamente interessantes, tão caipora porém tenho sido que sempre te escrevo às pressas, no último momento quase; creio que realizarei, porém, o meu propósito na próxima carta. Desculpa-me pois o desconchavo em que vai esta escrita; somente agora tenho assentada a vida, como dizem por aí alhures, e somente doravante poderei, corretamente, conversar contigo.
 
Recomenda-me muito à Exma. família e bons companheiros daí. Até quarta-feira, sem falta. Recebe um apertadíssimo abraço de quem é teu amoamº</div>
 
:Euclides da Cunha
Peço-te que nos recomendes muito aos bons companheiros daí, muitos dos quais, como por exemplo Prestes nunca mais me escreveram embora eu lhes tenha respondido as cartas.
 
A Saninha recomenda-se muito a d. Júlia assim como a todos os teus. Espero que me dês boas notícias de d. Esmeralda e desculpando o desconchavo em que vai escrita esta carta, considera sempre amoamº o</div>
 
:Euclides da Cunha
Recomende-nos muito, a mime a Saninha, a d. Maria Júlia, assim como toda a Exma. família.
 
Desejo que abraces por mim aos bons companheiros que aí tenho e recebas muitas saudados do amo amº</div>
 
:Euclides da Cunha
A tua última carta entristeceu-me; em compensação, porém, eu que te conheço, estou plenamente seguro que tens fortaleza bastante para ser um resignado, e quando para isto não te bastasse o teu próprio esforço os que te rodeiam aí, mais próximos, no teu lar, podem emprestar-lhe grandíssima cópia de virtude e alento; estou certo disso; conheço a família brasileira e sei o quanto ela é divinamente resignada e boa e forte ante os mais dolorosos reveses. Não será isto uma atenuante? Já não é uma consolação ― e grande ― o sabermos que as nossas dores vão se refletir, às vezes mais dolorosamente, em outras almas? Sem querer prolongar-me em divagações, não posso deixar de rebater daqui a desesperança que patenteias acerca da moléstia de d. Esmeralda; basta que consideres que ela se acha em plena mocidade, que é um organismo em plena evolução, para acreditares não num milagre, mas no fato naturalíssimo ― o desaparecimento de um mal pelo próprio desenvolvimento da vida. Lastimo não ser médico ― afinal hei de ser sempre um engenheiro medíocre; se eu fosse médico, digo-te sem ostentação, não consideraria caso algum desesperado, para o comum das moléstias, na mocidade; há de aparecer ainda um fisiologista de gênio que descubra um meio de serem eficazmente aproveitadas as energias naturais da vida, sem apelo a esse acervo irracional de drogas e panacéias nas quais muitas vezes existem latentes as causas determinantes da morte.
 
Tenho aqui um bom livro para você; quero porém que se passe a assustadora onda de amarguras que te assoberba, para enviá-lo, é o ''Là-Bas'' de Huysmans, o melhor discípulo de Zola; verás que admirável temperamento o deste escritor que é ainda um ''nouveau'' entre os grandes estilistas; o Là-Bas é o livro mais original e brilhante dos últimos tempos, deixa a perder de vistas a própria ''Débâcle''; enfim, avaliarás por ti mesmo.
 
Pelo que disseste as eleições municipais correram por aí acirradas e valentonas; bates palmas a essa revivescência do espírito público paulista e eu te acompanho ― já é tempo de irmos tendo um bocadinho mais de patriotismo e mais interesse pelas coisas públicas.
 
Continuo na missão inglória, na triste e monótona e profundamente insípida missão de pedagogo; já agora levarei essa cruz até o fim do ano: entretanto afirmam que dou às vezes boas lições.
 
Peço-te que nos recomende muito, a mim e Saninha, a d. Maria Júlia e a toda a família.
Envia-te um apertado abraço o amoamº</div>
 
:Euclides da Cunha
O conselho de guerra do velho Solon segue manhoso e lento ― talvez por isto mesmo que se trata da justificação ampla e desassombrada de um homem honesto.
 
Desculpa-me a pressa e consequente desordem em que vai esta escrita ― num quarto de hora antes de começar um martírio ― a aula de Física. Abraça-me os companheiros, recomenda-me muito a toda a família e responda, responda imediatamente ao am.º</div>
 
:Euclides da Cunha
Não posso ser mais longo ― e isto me contraria ― porque tenho que seguir para a Escola, onde há hoje exame de Química ― e o tempo urge.
 
Responda-me com brevidade; recomende-me muito a todos os teus e aceite um abraço do am.º
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