Diferenças entre edições de "Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro V"

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<center> Primeira Parte- Livro Quinto- O REVÓLVER<br>
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<[[Os Trabalhadores do Mar]]<br>
 
<[[Autor:Victor Hugo]]<br>
 
Tradução: Machado de Assis<br>
 
</center>
 
===A PALESTRA NA POUSADA JOÃO===
 
O Sr. Clubin era o homem que espera a ocasião.<br>
Era baixo e amarelo, com a força de um touro. O mar não podia
com ele. Tinha uma carne que parecia cera. Era da cor de uma
tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memória tinha um
que de imperturbável e especial. Ver um homem uma vez era
conservá-lo como se fosse uma nota em um registro o olhar laconico
apunhalava. A pálpebra tirava a prova de um rosto, e conservavao;
não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin
não deixava de reconhece-lo. Era impossível fugir àquela memória
tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio e frio; não fazia gesto algum.<br>
Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas
acreditavam-no simplório; trazia no rosto uma certa ruga que indicava
uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do
que ele. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior
que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade
com o Sr. Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de São Vicente,
ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria
a sua fábrica a Clubin. O Sr. Clubin era viúvo. A mulher foi tão
honesta como ele. Morreu com a fama de uma virtude invencível.<br>
Se o bailio lhe fizesse uma declaração ela iria contá-lo ao rei, e se
Nosso Senhor se apaixonasse por ela iria contá-lo ao padre vigário. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epíteto inglês
respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr.<br>
Clubin era o arminho. Morreria se lhe pusessem uma nódoa. Nunca
achou um alfinete que não fosse logo à cata do proprietário. Era
capaz de por em almoeda uma caixa de fósforos, se acaso a tivesse
achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: Almocei aqui há três anos e voce
enganou-se na conta. E, dizendo isto, restituiu ao taberneiro 75
cêntimos. Era uma grande probidade, mordendo atentamente os
beiços.<br>
Parecia estar sempre à espera. De quem? Provalvelmente dos velhacos.<br>
Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo na terça-feira à noite, demorava-se
dois dias para fazer o carregamento e voltava a Guernesey na
sexta-feira de manhã. Havia então em Saint-Malo uma pequena
hospedaria, situada no porto, que se chamava a Pousada João.<br>
A construção do cais atual fez demolir a pousada. Naquela época
vinha o mar até a porta de Saint-Vincent e a porta de Dinan;
Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas marés baixas por
meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em
seco, evitando as bóias, as âncoras e os maçames, e arriscandose
às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa.<br>
No intervalo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavalos
naquela mesma areia, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear
as vagas. Na mesma praia andavam outrora os 24 cães,
porteiros de Saint-Malo, que devoraram um oficial de marinha em
1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouvem agora
os latidos noturnos entre o pequeno e o grande Tallard.<br>
O Sr.Clubin ia à Pousada João. Era ali o escritório francês da Durande.<br>
Os guardas da alfândega e os guardas da costa iam comer e beber
na Pousada João. Faziam rancho à parte. Os guardas da alfândega
de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os
guardas da alfândega de Saint-Malo.<br>
Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.<br>
O Sr. Clubin assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a
dos guardas à dos mestres. Era bem recebido em ambas.<br>
As mesas eram bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas
estrangeiras para os marítimos expatriados. Um marinheiro de Bilbau
acharia ali um copo. Bebia-se stout como em Greenwich, e como
em Antuérpia.<br>
Capitães de longo curso e armadores tomavam às vezes lugar na
mesa dos mestres de navio. Trocavam-se aí notícias:
- Como vai o açúcar?<br>
- Pequenos lotes. Vende-se bem o açúcar bruto; 3 000 sacas de
Bombaim e quinhentas barricas de Sagua.<br>
- Há de ver, o partido da direita ainda derruba o ministério Villele.<br>
- E o anil?<br>
- Venderam-se apenas uns sete surrões da Guatemala.<br>
- A Nanine Julie ancorou. Lindo navio da Bretanha.<br>
- As duas cidades do rio da Prata estão outra vez desavindas.<br>
- Quando Montevidéu engorda, Buenos Aires emagrece.<br>
- Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado em
Cião.<br>
- O cacau vai andando; os sacos Caracas são cotados a 234, e os
sacos Trindade a 73.<br>
- Parece que na revista do Campo de Marte ouviu-se gritar: abaixo
os ministros.<br>
- Os couros salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60 francos
e o das vacas a
- Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?<br>
- O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyère está a 32
francos o quintal.<br>
- Com que então, Leão XII morreu?<br>
- Etc.., etc...,etc.<br>
Todas estas coisas eram ditas e comentadas no meio de grande
barulho. À mesa dos guardas da alfândega e dos guardas da costa
falava-se menos.<br>
A polícia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos
clareza no diálogo.<br>
A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão
de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era homem, era um
baremetro. Os hábitos do mar deram-lhe uma espantosa infalibilidade
de prognóstico. Ele decretava o
tempo que devia haver no dia seguinte; auscultava o vento; tomava
o pulso à maré. Dizia à nuvem: mostra-me a tua língua. A
língua era o relâmpago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada.<br>
O oceano era o seu doente; fez uma viagem à roda do mundo
como quem faz uma clínica, examinando todos os climas na sua
boa e má saúde; sabia a fundo a patologia das estações. Enunciava
fatos como este: o barômetro desceu uma vez em 1796 a três
linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a
Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente
a marinha inglesa para conhecer os seus lados fracos. Explicava
em que ponto o Sovereign de 1637 diferia do Royal William de 1670
e do Victory de 1755. Comparava os castelos de popa. Lamentava
as torres no tombadilho e os cestos de gávea afunilados do Great
Harry de 1514, provàvelmente no ponto de vista da bala francesa
que se aninhava perfeitamente naquelas superficies. Para ele as
nações só existiam por suas instituições marítimas; fazia sinônimos
extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Escócia
Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de
informações; era alfabeto. e almanaque. Sabia de cor a portagem
dos faróis, principalmente inglêses; penny por tonelada ao passar
diante deste, farthing ao passar diante daquele. Dizia: o Farol de
Smalt Rock, que consumia apenas 200 galões de azeite, consome
agora 500. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação, que já o tinha por defunto, estava à roda de sua maca,
quando ele interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre
carpinteiro uma ordem relativa a um conserto do navio.<br>
Era raro que o assunto de conversa fosse sempre o mesmo na
mesa dos capitães e na mesa dos guardag. Apresentou-se, por
ém, o seguinte caso nos primeiros dias do mês de fevereit ro, em
que se passam os fatos que estamos contando. A galera Tamaulipas,
Capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a atenção das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se do carregamento,
e na mesa dos guardas falou-se dos ares suspeitos do
navio.<br>
O Capitão Zuela, de Copiapo, era chileno, um pouco colombiano;
tinha feito com independência as guerras da independência, acompanhando
ora Bolívar, ora Morillo, com enorme os lucros, enriquecido
obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbônico,
mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais ateu e mais
católico. Ele pertencia a este grande partido que se pode chamar
o Partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia aparições comerciais
na França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a
bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscritos políticos, fossem
quem fossem, contanto que pagassem. O meio de embarcá-los era
simples. O fugitivo esperava num ponto deserto da costa, e, no
momento de aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia buscá-lo. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um
homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar
pessoas comprometidas na questão da Bidassoa. A polícia, já avisada,
estava com o olho nele.<br>
Era um tempo de fugas aquele. A restauração era uma reação;
ora, as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam
proscrições. Durante os sete ou oito primeiros anos, depois da
entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na indústria, no comércio, que sentiam tremer a terra e viam
multiplicar-se as falências. Havia um salve-se quem puder na política. Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira.<br>
Os tribunais de exceção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se à ponte de Saumur, à esplanada de Reole, ao muro do
observatório de Paris, à torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que
se conserva de pé na história, vestígios da reação, aonde se
distingue ainda a sua mão sanguinolenta.<br>
Em Londres, o processo Thistlewood, ramificado na França, em
Paris o processo Trogoff, ramificado na Bélgica, na Suíça e na
Itália, multiplicaram os motivos da inquietação e desaparecimento,
e aumentaram essa profunda derrota subterrânea, que deixava
vazios os mais altos lugares da ordem social de então. Por-se em
segurança era a preocupação universal. O espírito dos tribunais
prebostais sobrevivera à instituição. As condenações eram feitas
por complacência. Fugiam para o Texas, para o Peru, para o México.<br>
Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham
fundado o campo de Asilo. Dizia uma canção de Beranger:
 
Sauvages, nous sommes français;<br>
Prenez pítié de notre gloire.<br>
 
Expatriar-se era o recurso; porém nada menos simples que fugir;
Este monossílabo encerra abismos. Tudo é obstáculo para quem se
esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até ilustres,
viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim
saíam-se mal. Eram inverossímeis. Os seus hábitos de franqueza
tornavam-lhes difícil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno
fugitivo mostrava-se mais correto aos olhos da polícia do que um
general. Imaginem a inocência constrangida a disfarçar-se, a virtude
contrafazendo a voz, a glória mascarando o rosto. Algum
indivíduo que passasse com ar suspeito, era uma reputação à cata
de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo não provava
que ele deixasse de ser um herói. Traços fugazes e caracter
ísticos dos tempos, que a história regular esquece, mas que o
verdadeiro pintor de um século deve rememorar. Atrás dos homens
honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos.<br>
Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão,
fazia parte dos proscritos, e muitas vezes, graças a unia arte
apurada, parecia naquele crepúsculo mais honesto que o honesto.<br>
Que há aí mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada
entende, nada finge. Um falsário escapa-se mais facilmente que
um convencional.<br>
Coisa estranha! Especialmente em relação aos tratantes, quase
se pode dizer que a evasão fazia subir o indivíduo. A quantidade
de civilização que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe
por dote nos países primitivos ou bárbaros, recomendava-o e
fazia dele um iniciador. Era fácil que um aventureiro, escapando ao
código, chegasse depois ao sacerdócio. Havia fantasmagoria na
desaparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um
sonho. Uma fuga deste gênero levava ao desconhecido e ao quimérico. Tal bancarroteiro saía da Europa e aparecia mais tarde
grão-vizir em Mogol ou rei na Tasmânia.<br>
Ajudar as evasões era uma indústria, e visto a freqüência do fato,
uma indústria lucrativa. Esta especulação completava certos gêneros de comércio. Quem queria fugir para a Inglaterra dirigia-se
aos contrabandistas; quem queria fugir para a América dirigia-se
aos trapaceiros de longo curso, tais como Zuela.<br>
 
===CLUBIN DESCOBRE ALGUÉM===
 
Zucla ia comer, algumas vezes, à Pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.<br>
E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava de conhecer de
vista um tratante. Às vezes chegava mesmo a conhece-los de
fato, dando-lhes a mão em plena rua. Falava inglês com o smogler
e engrolava o espanhol corri o contrabandista.<br>
A este respeito tinha ele as seguintes máximas:
- Pode-se adquirir o bem pelo conhecimento do mal.<br>
O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça. - O
piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho. - Trata de
provar um velhaco como o médico prova o veneno.<br>
Não tinha réplica. Todos davam razão ao Capitão Clubin. Era aprovado
por não ter escrúpulos tolos. Quem ousaria dizer mal dele?<br>
Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nele tudo era simples.<br>
Nada podia compromete-lo. O cristal querendo manchar-se não
pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade
e é essa a excelência das reputações firmes. Fizesse o
que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malícia no sentido da
virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se
que era muito esperto; deste ou daquele encontro que com outra
pessoa seria suspeito, a sua probidade saía sempre com um relevo
de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente
com a fama de ingenuidade, sem contradição alguma.<br>
Ingenuo hábil é coisa que existe. É uma das variedades do homem
honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens
que, encontrados em conversa íntima com um larápio ou um bandido,
são recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e tem
ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima pública.<br>
O Tamaufipas tinha completado o carregamento. Estava próximo a
partir e ia aparelhar.<br>
Em uma terça-feira à tarde, ainda com sol, chegou a Durande a
Saint-Malo. O Sr. Clubin, de pé no passadiço e dirigindo a manobra
da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dois
rochedos, em um lugar muito solitário, dois homens conversando.<br>
Deitou-lhes o óculo e reconheceu. um dos homens. Era o Capitão
Zuela. Parece que reconheceu também o outro.<br>
O outro era alto, um pouco grisalho. Trazia o chapéu largo e o
vestuário grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava
os olhos com modéstia.<br>
Chegando à Pousada João, o Sr-Clubin soube que o Tamaufipas ia
aparelhar dentro de dez dias.<br>
Soube-se depois que ele tomara outras informações.<br>
À noite, entrou em casa do armeiro da Rua de São Vicente, e
disse-lhe:
- Sabe o que é um revólver?<br>
- Sei - respondeu ele - , é americano. É uma pistola que renova
sempre a conversação. Na verdade, ela tem pergunta e resposta.<br>
E replica. É justo, Sr.<br>Clubin. O cano é girante. E cinco ou seis
balas.<br>
O armeiro levantou o cantinho do beiço e Rez ouvir aquele estalo
de língua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime
a admiração.<br>
- A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que há de vir a ser universal.<br>
- Eu queria um revólver de seis tiros.<br>
- Não tenho desses.<br>
- Pois que, o senhor não é armeiro?
- Mas ainda não tenho desse. Bem vê que é coisa nova. Na França
só se fazem pistolas.<br>
- Diabo!<br>
- É coisa que ainda não está no comércio.<br>
- Diabo!<br>
- Tenho pistolas excelentes.<br>
- Quero um revólver.<br>
Convenho que é melhor. Mas espere, Sr.<br>Clubin
- O que é?<br>
- Creio que há um em Saint-Malo.<br>
- Revólver?<br>
- Sim.<br>
- Para vender?<br>
- Sim.<br>
- Onde?<br>
- Creio que sei. Hei de informar-me.<br>
- Quando me dá a resposta?<br>
- O revólver é bom.<br>
- Quando devo voltar?<br>
- Se eu lhe arranjo um revólver, é porque é bom.<br>
- Quando me dá a resposta?<br>
- Na sua primeira viagem.<br>
- Não diga que é para mim.<br>
 
===CLUBIN LEVA UNS OBJETOS E NÃO OS TRAZ===
 
O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o e alguns
passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo para
Guernesey na sexta-feira de manhã. Nesse mesmo dia, quando o
navio já estava ao largo, o que permite ao capitão ausentar-se do
tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa
no compartimento elástico, biscoitos, latas de conserva, algumas
de cacau, um cronometro e um óculo no compartimento sólido,
e passou pelas argolas uma maroma preparada para içá-lo se
fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no depósito dos
cabos e viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um
gancho que servem aos calafates no mar ladrões em terra. Essas
cordas facilitam a escalada.<br>
Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou aí 36 horas.<br>
Levou o saco e a corda, mas não voltou com eles.<br>
Uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o
antigo Guernesey que já não existe e seria impossível achá-lo
hoje, a não ser no campo. É aí que ele existe vivo, mas nas
cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey
deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hélier vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admirável
espírito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se
tudo em quarenta anos no arquipélago da Mancha. Onde havia
sombra há luz. Dito isto, continuemos. Naqueles tempos que, pelo
afastado, já são históricos, o contrabando ativava-se no mar da
Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa
de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que
sabem em todas as minúcias o que se passava há quase meio
século chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase
todos asturianos. O que é fora de dúvida é que não se passava
semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baía dos Santos,
ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de
mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era
nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas
as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse
comércio falava-se na Mancha uma espécie de língua contrabandista,
esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino
para o italiano.<br>
Em muitos pontos do litoral inglês e francês o contrabando estava
em boa harmonia com o negócio lícito. Entrava na casa de mais de
um financeiro de alta classe, às escondidas, e verdade; e dilatava-se subterrâneamente na circulação comercial e por todas as
vias de indústria. Negociante em público, contrabandista às escondidas,
eis a história de muitas fortunas. Seguindo, dizia isto de
Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de
ambos. Talvez se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o
contrabando perseguido pela lei estava, sem contestação, muito
aparentado no comércio. Carteava-se com a germa da sociedade.<br>
A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais
era honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensível para
o lado da sociedade.<br>
Daqui resultaram muitas conveniencias necessàriamente mascaradas.<br>
Tais mistérios exigiam sombra impenetrável.<br>
Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar segredo;
a sua lei era uma fé inviolável e rígida. A primeira qualidade de
um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não há contrabando.<br>
Havia o segredo da fraude como há o segredo da confissão.<br>
Esse segredo era imperturbavelmene guardado. O contrabandista
jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguém inspirava
mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun
apanhou um dia um contrabandista e pos-lhe a questão para obrigá-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista
não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era
o juiz alcaide. Dos dois cúmplices, juiz e contrabandista, o primeiro
devia, para cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, à
qual o segundo resistia para cumprir o juramento.<br>
Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont
naquela época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios. Parentesco
espanhol e católico que consiste em ter o mesmo patrão no paraíso, coisa não menos digna de consideração que ter o mesmo pai
na terra.<br>
Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerário do
contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa mais
fácil e mais difícil. Bastava não ter preconceitos noturnos, ir a
Plainmont e afrontar o misterioso ponto de interrogação que ali se
levanta.<br>
 
===PLAINMONT===
 
Plainmont, perto de Torteval, é um dos três ângulos de Guernesey.<br>
Há, na extremidade do cabo, uma coroa de relva que domina o
mar. O cume é deserto. Tanto mais deserto quanto há ali uma
casa. Aquela casa aumenta o horror da solidão. Dizem que é malassombrada.<br>
Assombrada ou não, o aspecto é medonho. É feita de
granito, tem um só andar e está no meio da relva. Não tem aspecto
de ruína. É perfeitamente habitável. As paredes são grossas e o
teto sólido. Não falta uma só pedra às paredes, nem uma só telha
ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas
para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede.<br>
Examinando bem essa parede vê-se uma janela murada. Há três
trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da
casa tem uma só porta e janelas. A porta é murada e as duas
janelas de baixo também. No primeiro andar, e é isso que espanta
logo ao princípio, há duas janelas abertas; mas as janelas tapadas
são menos assustadoras que as janelas abertas. Por estarem abertas,
aparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos.<br>
Abrem para as trevas do interior. Dir-se-ia umas órbitas vazias de
olhos arrancados. Nada há naquela casa. Vê-se pelas janelas abertas
o descalabro de dentro. Nem retábulos, nem entalhos de madeira,
pedra nua. Parece um sepulcro com janelas para deixar que
os espectros olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do
lado do mar. Algumas urtigas agitadas pelo vento beijam a barra
das paredes. No horizonte, nenhuma habitação humana. Aquela
casa é uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem pára e põe o
ouvido à parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.<br>
Por cima da porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, estão
gravadas estas letras: ELM - PBILG, e esta-data: 1780.<br>
De noite o luar lúgubre penetra na casa.<br>
Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnífica, e, por
conseqüência, sinistra. A beleza do lugar torna-se um enigma. Por
que motivo aquela casa não é habitada por nenhuma família humana?<br>
O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono?<br>
As perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivável, por que motivo está inculto? Não há
dono. A porta, murada. Que tem, pois, esse lugar? Por que foge o
homem? Que se faz aqui? Se não há nada por que é que não há
ninguém? Quando todos dormem há alguém acordado? A lufada
tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animais escondidos, os
entes ignorados, aparecem ao pensamento e misturam-se àquela
casa. A que passageiros serve ela de hospedaria? A gente imagina
trevas de granizo e de chuva metendo-se pela janela dentro. Há
na parte interior uns vagos sinais de chuva. Os quartos fechados
e abertos são visitados. Conter-se-ia algum crime ali? Parece que
aquela casa, à noite, entregue às trevas, deve chamar por socorro.<br>
Será muda? Saem vozes de dentro? Que faz ela na solidão? O
mistério das horas negras existe ali facilmente. A casa assusta ao
meio-dia; que será ela à meia-noite? Contemplando-a, contempla-se
um segredo. Pergunta-se - porque a superstição tem a sua
lógica e o possível a sua inclinação - o que será aquela casa entre
o crepúsculo da noite e o crepúsculo da manhã. A imensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto um
vínculo em que ela pára, e que a obriga a fazer-se visível e a
descer? O espaço vai redemoinhar ali? O impalpável vai ali condensar-se?
Enigmas. Sai daquelas pedras o horror sagrado. A treva que
está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido.<br>
Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra,
calam-se os pássaros, o cabreiro que está atrás do rochedo vai-se
com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos
répteis mais animados, as estrelas começarão a olhar, soprará o
vento, far-se-á plena escuridão, as duas janelas estarão ali escancaradas.<br>
Abrem-se para o sonho; e é por aparições, larvas,
fantasmas mal distintos, sombras cobrindo luzes, misteriosos tumultos
de almas e espectros, que a crença popular estúpida e
profunda, traduz as sombrias intimidades daquela casa com a noite.<br>
A casa é mal-assombrada, esta palavra explica tudo.<br>
Os espíritos crédulos dão a sua explicação; mas os espíritos positivos
dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem eles.<br>
É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do império e dos contrabandos. Foi construída para isso.<br>
Acabada a guerra, foi abandonado o Posto. Não se demoliu a casa
porque pode tornar-se útil. Taparam-se a porta e as janelas do
rés-do-chão contra os Catercorários humanos, e para que ninguém pudesse entrar; taparam-se as janelas do lado do mar, por
causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis tudo.<br>
Os ignorantes e os crédulos insistem. Em primeiro lugar a casa não
foi construída no tempo das guerras da revolução. Traz a data de
1780, anterior à revolução. Depois, não foi construída para ser
posto; tem as letras ELM - PBILG, que são o duplo monograma de
duas famílias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi
construída para algum jovem casal. Portanto foi habitada. Por que
não o é agora? Se tapou a porta e as janelas para que ninguém
entrasse, por que motivo deixaram-se abertas duas janelas? Deviam
tapar tudo ou nada. Por que não há vidros, nem caixilhos, nem
postigos? Por que fechá-las de um lado, sem fechá-las de outro?
A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.<br>
Os crédulos não tem razão, é certo; mas os positivos tambem não
a tem. O problema persiste. O que é certo é que dizem ter sido a
casa mais útil que nociva aos contrabandistas. Quando o medo
cresce, os fatos perdem a verdadeira proporção. Não há dúvida
que muitos fenômenos noturnos, entre aqueles de que a pouco e
pouco se compôs o assombramento da casa, poderia explicar-se
por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens
logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos
comerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.<br>
Naquela época já remota, muitas audácias eram possíveis. A polícia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.<br>
Ajunte-se a isto que se a casa era comoda aos contrabandistas,
as suas entrevistas ali deviam ser francas, exatamente porque a
casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fósse denunciada.<br>
Ninguém pede à polícia socorro contra os espectros. Os supersticiosos
persignam-se,, mas não fazem processo. Veem ou acreditam
ver, fogem e calam. Existe uma covivência tácita involuntária,
mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados
sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter
surpreendido um segredo, receiam agravar a posição misteriosa
para eles, e enfadar as aparições. Isto fá-los discretos. E ainda,
fora deste cálculo, o instinto dos crédulos é o silêncio; o medo é
mudo; os aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz:
silêncio.<br>
Devem recordar-se que isto remonta à época em que os camponeses
guernesianos acreditavam que o mistério do presépio era
repetido todos os anos pelos bois e pelos asnos; época em que
ninguém, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria
com receio de encontrar os animais ajoelhados.<br>
Se se deve acreditar nas legendas locais e narrativas dos camponeses,
a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de
Plainmont, em pregos de que ainda existem vestígios, ratos sem
pés, morcegos sem asas, arcabouços de animais mortos, sapos
esmagados entre as páginas de uma Bíblia, febras de tremoços
amarelos, estranhos ex-votos pendurados por viandantes imprudentes
que acreditavam ver alguma coisa, e por meio desses presentes
contavam obter perdão e conjurar o mau humor das estriges,
das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em
congressos de feitiçaria, e alguns desses crédulos altamente colocados.<br>
César consultava Sagana, e Napoleão Mademoiselle
Lenormand. Há consciências tão inquietas que chegam a procurar
indulgências do diabo. Faça-o Deus, mas não o desfaça Satan
ás, era uma das orações de Carlos V.<br>
Há espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de
que o mal pode ter razão contra eles. Ser irrepreensível para com
o demônio é uma das suas preocupações. Daí vem as práticas
religiosas voltadas para a imensa malícia obscura. E uma carolice
como qualquer outra. Os crimes contra o demônio existem em
certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma coisa
que faz sofrer os estranhos casuístas da ignorância; há escrúpulos
para com as regiões das trevas. Crer na eficácia da devoção
aos mistérios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se peca contra
o inferno recorrendo a penitências quiméricas por infrações quiméricas, confessar a verdade ao espírito da mentira; fazer o mea
culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso,
tudo isto existe ou existiu. Os processos de magia provam-no em
cada uma de suas páginas. Vai até esse ponto o sonho humano.<br>
Quando o homem começa a assustar-se, não pára mais. Sonha
culpas imaginárias, sonha purificações imaginárias, e faz limpar a
sua consciência com a vassoura das feiticeiras.<br>
Fosse como fosse, se aquela casa teve aventuras, é coisa que lá
ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas exceções, ninguém subiu a ver o que era; a casa ficou só; ninguém gosta de
arriscar-se aos encontros infernais.<br>
Graças ao terror que a cerca e afasta dali todo aquele que pudesse observar e testemunhar, fácil foi em todos os tempos entrar de
noite naquela casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente
por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas
vizinhas. Levava-se um rancho de víveres, o que dava lugar a
esperar ali com toda segurança a eventualidade de um embarque
furtivo. Conta a tradição que há quarenta anos um fugitivo, dizem
uns que da política outros que do comércio, lá esteve algum tempo
escondido, e dali embarcou num barco de pesca para a Inglaterra.<br>
Da Inglaterra é fácil passar à América.<br>
A mesma tradição afirma que as provisões depositadas naquele
albergue lá se conservam sem que ninguém as toque, visto como
Lúcifer e os contrabandistas tem interesse em que a pessoa que lá
as põe vá buscá-las.<br>
Do lugar em que existe aquela casa, vê-se ao sudoeste, a 1 milha
da costa, o escolho de Hanois.<br>
É célebre aquele escolho. Fez todas as más ações que um rochedo
pode fazer. Era um dos mais temíveis assassinos do mar. Esperava
perfidamente os navios à noite. Entulhou os cemitérios de Torteval
e de Rocquaine.<br>
Em 1862 pos-se ali um farol.<br>
Hoje o escolho de Hanois alumia a navegação que ele próprio
extraviava outrora; a emboscada traz agora um archoté na mão.<br>
Procura-se hoje como profetor e guia o rochedo do qual fugia-se
outrora como de um malfeitor. O escolho tranqüiliza aqueles vastos
espaços noturnos onde outrora inspirava o medo. Assemelha-se a
um salteador feito soldado de polícia.<br>
Há três Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mative. No
pequeno Hanois é que existe hoje o Red Light. Faz parte de um
grupo de picos, uns submarinos, outros acima da água. Domina-os.<br>
Como se fora uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado
do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte, dois cachopos,
Hautes-Fourquies e Aiguillons e um banco de areia, Heronée; ao sul três rochedos, Cat-Rock, Persée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue
Mouet, e além disso em frente de Plainmont, à flor da água o Tasde-Pois-d'Aval.<br>
Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é coisa
incômoda, mas não impossível. O leitor lembra-se de que era essa
uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios
tem duas estações em que pode descansar, a Roque redonda, e,
mais longe, obliquando um pouco à esquerda, a Roque vermelha.<br>
 
===OS FURTA-NINHOS===
 
Pouco mais ou menos naquele dia de sábado em que o Sr. Clubin
esteve em Torteval, deu-se um fato singular, pouco assoalhado
em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, há
muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo
que inspiram às suas próprias testemunhas.<br>
Na noite de sábado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo
exato), três meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam
à vila. Vinham do mar. Eram o que, na língua local, chamam
deniquoiseaux: leia-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer
que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar
há furta-ninhos em abundância. Já falamos deles. O leitor lembra-se
de que Gilliatt preocupava-se com isto, por causa dos pássaros
e por causa das crianças.<br>
Os furta-ninhos são espécies de gaiatos do oceano, pouco tímidos.<br>
A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam
o zenite. três horas da manhã soavam no sino de Torteval, que é
redondo e pontudo, semelhante a um chapéu de mágico.<br>
Por que voltavam tão tarde aqueles pequenos? Nada mais simples.<br>
Tinham ido à caça dos ninhos de cotovias no Tasde-Pois-d'Aval.<br>
Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores
dos pássaros. Os pequenos espreitando os machos e as fêmeas à
roda dos ninhos, e distraídos pela tenacidade da empresa tinham
esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não puderam voltar
a tempo para a canoa e tiveram que esperar que o mar se
retirasse, assentados em uma das pontas de Tasde-Pois. Tal foi o
motivo da volta noturna. Estas voltas são esperadas sempre pela
febril inquietação das mães que, uma vez tranqüilas, manifestam a
alegria por meio da cólera, e lacrimosas dissipam o terror a
cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados.<br>
Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era
um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um
beijo complicado de sopapo.<br>
Só um dos meninos nada receava; era um órfão. Era francês e ia
bem contente de não ter naquele dia nem pai nem mãe. Não tendo
ninguém que se interessasse por ele, escapava à bordoada. Os
outros dois eram guernesianos e da paróquia de Torteval.<br>
Escaladas as rochas, os três furta-ninhos chegaram à planura
onde estava a casa mal-assombrada.<br>
Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo
crianças, àquela hora e naquele lugar.<br>
Quiseram fugir e quiseram parar a fim de contemplar a casa.<br>
Pararam.<br>
Contemplaram a casa.<br>
Era negra e formidável.<br>
Era, naquele deserto, um montão escuro, uma excrescência
simétrica e hedionda, uma alta massa quadrada de ângulos retilíneos,
uma coisa semelhante a um enorme altar de trevas.<br>
O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi
aproximar-se. Nunca tinham visto aquela casa àquela hora. A curiosidade
de ter medo existe. Havia entre eles um francês, donde
resultou que os pequenos aproximaram-se da casa.<br>
É sabido que os franceses não acreditam em coisa alguma.<br>
Demais, quando são muitos, todos se tranqüilizam; o medo dividido
por três dá animação.<br>
E depois, eram curiosos; eram crianças, somada a idade dos três
não dava trinta anos; era a idade de perscrutar, de escavar, esquadrinhar
as coisas ocultas; deve-se acaso parar no meio? Mete-se
a cabeça neste buraco, porque não mete-la no outro? A caça
arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que meter-se em
um moinho. Ter olhado para o ninho dos pássaros dá vontade de
olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno,
por que não?<br>
De caça em caça, chega-se ao demônio. Depois dos pardais os
diabretes. Há vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos
pais. Andar na pista dos contos da carocha é o que há mais
resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de histórias é coisa
que tenta.<br>
Todo este amálgama de idéias no estado de confusão e instinto,
na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade deles.<br>
Caminharam para a casa.<br>
Demais, o pequeno que lhes servia depois nesta bravura, era digno
disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas
crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de
palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando às árvores
e às paredes sem escrúpulos a respeito das frutas que encontrava,
tendo trabalhado em consertos de navios de guerra, filho
do acaso e do bambúrrio, órfão alegre, nascido na França, sem
saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem
reparar aos pobres, muito mau, muito bom, loiro rastejando a ruivo,
tendo já falado aos parisienses. Agora ganhava 1 xelim por dia
calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-
se em férias e ia tirar os ninhos dos pássaros. Tal era o franc
ês.<br>
A solidão do lugar tinha um não sei que de fúnebre. Sentia-se a
inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquela planura silenciosa
e nua escondia no precipício a sua curva em declive. Embaixo
calava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mexiam.<br>
Os furta-ninhos avançavam devagar, com o francês à frente, contemplando
a casa.<br>
Um deles, contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava na
memória, acrescentava: A casa não dizia nada.<br>
Aproximavam-se retendo a respiração, como quem se aproxima de
um animal feroz.<br>
 
Tinham subido o cômoro que fica atrás da casa, e que vai ter a um
pequeno istmo de rochedos pouco praticável; estavam perto da
casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não
tinham ousado voltar à esquerda, o que os teria exposto a ver a
outra fachada em que há apenas duas janelas, o que é terrível.<br>
Entretanto atreveram-se, porque o aprendiz de calafate disse-lhes
baixinho, Viremos de bombordo; daquele lado é que é bonito;
é preciso ver as duas janelas negras.<br>
Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.<br>
As duas janelas estavam iluminadas.<br>
Os meninos fugiram.<br>
Quando estavam longe, voltou-se o francês.<br>
- Olhem - disse ele - já não há luz.<br>
Com efeito, não havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na
lividez difusa do céu.<br>
O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos
aproximaram-se.<br>
De repente apareceram as luzes outra vez.<br>
Os dois rapazes de Torteval tornaram a por sebo às canelas. O
pequeno Satanás francês, não avançou, mas não recuou. Ficou
imóvel em frente da casa olhando para ela.<br>
Extinguiu-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrível. O
reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva úmida pelo orvalho.<br>
Em certo momento o clarão desenhou na parede interior da casa
grandes perfis negros que se mexiam e sombras de cabeças enormes.<br>
Demais a casa não tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as
quatro paredes e o telhado, uma janela não pode ser iluminada
sem que a outra o seja.<br>
Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dois voltaram
trêmulos, curiosos. O aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: Há
almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma delas. Os dois
pequenos agruparam-se atrás do francês, e levantando-se sobre
a ponta dos pés, por cima do ombro, abrigados por ele, fazendo
dele um escudo, opondo-o à casa, tranqüilizados por te-lo entre si
e a visão, olharam também.<br>
A casa a seu turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela vasta
obscuridade muda, duas órbitas vermelhas. Eram as janelas. A luz
eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes
costumam fazer. Estas intermitências sinistras representavam provavelmente
as alternativas do inferno. - Abre-se, fecha-se. O
respiradouro do sepulcro tem efeitos de lanterna surda.<br>
De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se
em uma das janelas, como se viesse de fora, depois mergulhou no
interior da casa. Parece que alguém chegava.<br>
Entrar pela janela era o hábito dos visitantes.<br>
O clarão apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não
reapareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores.<br>
Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se
vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.<br>
O mar tem à noite, uma taciturnidade particular. O silêncio da sombra
é aí mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não
há nem vento nem marulho, naquela agitada extensão de águas,
onde de ordinário não se ouvem as águias voar, ouvir-se-ia voar
uma niásca. Aquela paz sepulcral dava um relevo lúgubre aos rumores
que saíam da casa.<br>
- Vejamos - disse o francês.<br>
E deu um passo para a casa.<br>
Os outros dois tinham tal medo que decidiram-se a acompanhá-lo.<br>
Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão
de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquela solidão,
quando de uma moita voou uma coruja. As corujas tem uns vãos
tortos, de assustadora obliqüidade. Aquela passou de través pelos
rapazes, fixando neles os olhos claros no meio da treva.<br>
Houve um certo estremecimento no grupo atrás do francês.<br>
O francês clamou contra a coruja.<br>
- Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver.<br>
E avançou.<br>
O ranger dos seus sapatos grossés e ferrados não lhes impedia
ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a
acentuação calma e a continuidade de um diálogo.<br>
Momentos depois acrescentou o francês:
- Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.<br>
A insolência no perigo reúne os retardados e impele-os para a
frente.<br>
Os dois rapazes de Torteval puseram-se a caminho atrás do aprendiz
de calafate.<br>
A casa mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer desmesuradamente.<br>
Nesta ilusão de óptica do medo, havia realidade. A casa
crescia realmente porque eles aproximavam-se dela.<br>
Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distintas.<br>
Os rapazes paravam, ouviam. O ouvido tem os seus aumentos.<br>
Não era murmúrio, era mais que um cochichar, menos que um
alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras
claramente articuladas. Essas palavras, impossíveis de compreender,
soavam estranhamente. Os rapazes, paravam, ouviam e
depois continuavam a andar.<br>
- É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em
almas do outro mundo - disse o aprendiz de calafate.<br>
Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atrás da
lenha; mas já estavam longe, e o amigo francês continuava a
andar para a casa. Temiam ir com ele, e não ousavam deixá-lo.<br>
Acompanhavam-no, a passo e passo e perplexos.<br>
O aprendiz de calafate voltou-se para eles e disse-lhes:<br>
- Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.<br>
A casa tornava-se cada vez mais alta.<br>
Aproximavam-se.<br>
Aproximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada.<br>
Era um clarão vago, um desses efeitos de lanterna surda, indicados
há pouco, e que abundam na iluminação das feitiçarias.<br>
Quando se acharam ao pé da casa, pararam de todo.<br>
Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:
- Não são almas do outro mundo, são fantasmas.<br>
- Que é aquilo que pende ali à janela? - perguntou o outro.<br>
- Parece uma corda.<br>
- É uma serpente.<br>
- É corda de enforcado - disse o francês com autoridade. - Serve-lhes. Mas eu não creio.<br>
E mais em três pulos que em três passos o francês estava ao pé
da parede da casa. Havia febre naquele atrevimento. <br>
Os outros, trêmulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao pé dele, encostando-
se um à direita, outro à esquerda. Os rapazes aplicaram o
ouvido à parede. Continuava-se a falar dentro da casa. <br>
Eis o que diziam os fantasmas: <br>
-Assim pois, está entendido?<br>
-Entendido.<br> -
-Dito?<br>
-Dito.<br>
-Aqui esperará um homem e partirá depois para a América com Blasquito?<br>
-Pagando?<br>
-Pagando.<br>
Blasquito tomará o homem na barca.<br>
-Sem indagar de que terra ele é?<br>
-Não temos nada com isso.<br>
-Sem lhe perguntar o nome? <br>
-Não se pede o nome, pede-se a bolsa.<br>
-Bem. O homem esperará nesta casa.<br>
-Tendo o que comer.<br>
-Terá.<br>
-Onde?<br>
-Neste saco que trago.<br>
-Muito bem.<br>
- Posso deixar o saco aqui?<br>
- Os contrabandistas não são ladrões.<br>
- E os senhores quando vão?<br>
- Amanhã de manhã. Se o seu homem está pronto poderá vir
conosco.<br>
- Não está pronto.<br>
- É lá com ele.<br>
- Quantos dias esperará aqui?<br>
- Dois, três, quatro dias. Mais ou menos.<br>
- É certo que Blasquito virá?<br>
- Certo.<br>
- Aqui, a Plainmont?<br>
- A Plainmont.<br>
-E agora vou-me embora. <br>
-Pois sim. <br>
-Diga-me cá, homem. Se o passageiro quiser que Blasquito vá a outro lugar
que não Portland ou Tor Bay?<br>
- Em que semana?<br>
- Na próxima.<br>
- Em que dia?<br>
- Sexta, sábado ou domingo.<br>
- Não pode faltar?<br>
- É meu tocaio.<br>
- Virá com qualquer tempo?<br>
-Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, ele é Blasquito.<br>
- Assim não deixará de ir a Guernesey?<br>
- Eu venho num mês, ele virá noutro.<br>
- Entendo.<br>
- A contar de sábado próximo, de hoje a oito dias não se passarão cinco dias sem que venha Blasquito.<br>
- Mas se o mar estiver muito mau?<br>
- Mau tempo?
- Sim.<br>
- Não virá tão depressa, mas virá.<br>
- Donde virá?
- De Bilbao.<br>
- Para onde irá?
- Para Portland.<br>
- Bem.<br>
- Ou para Tor Bay.<br>
- Melhor.<br>
- O seu homem pode ficar tranqüilo.<br>
- Blasquito não será traidor?<br>
- Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a
igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.<br>
-Ninguém nos ouve?<br>
-É impossível ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.<br>
-Sei.<br>
Quem se atreveria a escutar? <br>
-E verdade. <br>
-Mesmo que escutassem não poderiam entender. Falamos uma língua que ninguém conhece. Desde que voce a sabe, é dos nossos.<br>
-Eu vim para arranjarmos os negócios. <br>
-Bem.<br>
 
-Traga onças.<br>
-Blasquito fará o que o homem quiser?<br>
-Blasquito fará o que as onças quiserem.<br>
-É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?<br>
-Depende do vento.<br>
-Oito horas?<br>
-Mais ou menos.<br>
-Blasquito obedecerá ao passageiro?
-Se o mar obedecer a Blasquito.<br>
-Há de ser bem pago.<br>
-Ouro é ouro. Vento é vento.<br>
- É justo.<br>
-O homem faz o que pode com o ouro. Deus com o vento faz o
que quer.<br>
- O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.<br>
- Bem.<br>
- A que horas chega Blasquito?<br>
- À noite. Chega-se à noite, sai-se à noite. Temos uma mulher que
se chama água salgada, e uma irmã que se. chama noite. A mulher
pode enganar, a irmã nunca.<br>
- Está dito tudo. Adeus, homens.<br>
- Boas tardes. Um gole de aguardente?<br>
- Obrigado.<br>
- É melhor que xarope.<br>
- Tenho a sua palavra.<br>
- O meu nome é Pundonor.<br>
- Deus seja convosco.<br>
- Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.<br>
Era claro que só diabos podiam falar assim. Os rapazes não ouviram
mais, e desta vez fugiram deveras, até o francês, que convencido
então, corria mais depressa que os outros.<br>
Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo
trazendo a Durande.<br>
O Tamaufipas continuava ancorado.<br>
O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da
Pousada João:<br>
- Então, quando sai o Tarnaulipas?<br>
- Depois de amanhã, quinta-feira - respondeu o estalajadeiro.<br>
Nessa noite, Clubin ceou à mesa dos guardas das costas, e, contra
o costume, saiu logo depois de cear. Resultou desta saída que
não pode estar presente no escritório da Durande, e faltou ao
carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem tão exato.<br>
Parece que ele conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.<br>
Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino
brasileiro soa às 10 horas. Era, pois, meia-noite.<br>
 
===A JACRESSARDE===
 
Há quarenta anos Saint-Malo possuía uma viela chamada viela
Coutanchez. Essa viela já não existe: foi compreendida nos melhoramentos
da cidade.<br>
Era uma dupla fileira de casas de pau inclinadas umas para as
outras, e deixando no centro lugar suficiente para correr um rego
que se chamava rua. Andava-se ali com as pernas abertas dos
dois lados da água lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovelo
as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da
idade média normanda tem perfis quase humanos. De albergue a
feiticeiro a distância não é grande. Os andares entrantes, as paredes
inclinadas, os alpendres circunflexos e o embrenhado de
ferros velhos simulam lábios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira
é o Olho, zarolho. A face é a parede rugosa e herpética. Tocam-se
as paredes como se conspirassem uma ação iníqua. Todos estes
nomes da antiga civilização, quebra-cabeças e quebra-ventas,
prendemse àquela arquitetura.<br>
Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a
mais afamada, chamava-se a Jacressarde.<br>
A Jacressarde era a habitação daqueles que não tem habitação.<br>
Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, há,
abaixo da população, um resíduo. Vagabundos, aventureiros, vivendo
de expedientes, químicos de espécie larápio, pondo sempre
a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras
de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existências em
bancarrota, as consciências que já fizeram balanço, os que abortaram
no assalto e no arrombamento de portas (porque os ladrões
trabalham por baixo e por cima), os operários e as operárias do
mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrúpulos rasgados e
os cotovelos rotos, os tratantes chegados à indigência, os malévolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseráveis, na dupla e lamentável acepção da palavra, tal é o pessoal.<br>
Ali é bestial a inteligência humana. E o montão de imundícies das
almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando
em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a
Jacressarde.<br>
O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos,
os bandidos, os grandes produtos da ignorância e da indigência.<br>
Se o assassino é representado ali, é por algum bebado brutal; ali o
roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vômito da
sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não há que
fiar. Aquele último degrau dos boêmios pode ter extremidades malvadas.<br>
Um dia, lançando a rede no Epi-Scié, que era em Paris o
que a Jacressarde é em Saint-Malo, a polícia apanhou Lacenaire.<br>
Tudo entra naqueles albergues. A queda é um nivelamento. Às
vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e a
probidade tem aventuras. Não se deve, à primeira vista, estimar
os Louvres nem condenar as galés. O respeito público e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas; surpresas não se
dão! Um anjo no lupanar, uma pérola no monturo - não é impossível
este sombrio e deslumbrante achado.<br>
A Jacressarde era mais pátio que casa, e mais poço que pátio. Não
tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma
porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um pátio.<br>
No meio desse pátio havia um buraco redondo, cercado de uma
orla de pedra, ao nível do chão. Era um poço. O pátio era pequeno,
e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal
calçado.<br>
O pátio, quadrado, tinha construções por três lados. Do lado da
rua, nada; mas diante da porta, à direita e à esquerda, havia
aposentos.<br>
Quem, à noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria
como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante
luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o
que veria:
O pátio. O poço. Em roda do pátio, em frente à porta, uma palhoça
figurando uma espécie de ferradura quadrada, galeria carunchosa,
toda aberta, com teto de vigas, sustentada por pilares de pedra
desigualmente espaçados; no centro, o poço; à roda do poço, em
uma liteira de palha, e fazendo como que um rosário circular, viam-se
solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos
aparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos pus,
pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés
dormiam.<br>
Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça,
distinguiam-se corpos, formas, cabeças adormecidas, prolongamentos
inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade
no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir
para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os pés tocavam no
poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites
de inverno, caía neve sobre os corpos.<br>
Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite
e saíam de manhã. A ordem social anda misturada com aquelas
larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e não pagavam. A maior
parte entrava em jejum. Todos os vícios, todas as abjeções, todas
as suposições, todas as misérias, o mesmo sono de prostração no
mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa
vizinhança. Fúnebre entrevista em que se remexiam e se amalgamavam
no mesmo miasma os cansaços, os desfalecimentos, as
borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia
sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites
lividas e sonolentas, remorsos, cobiças, cabelos imundos, rostos
com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquela tina. Eram atiradas àquele albergue
pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na véspera,
por uma saída de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vazava
ali, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem
podia, falava quem ousava. Era próprio para cochichar. Todos se
apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono,
visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam à morte aquilo
que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas
as noites começava. Donde saíam? Da sociedade, porque eram a
miséria; da vaga, porque eram a espuma.<br>
Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no chão;
deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito
e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 pés de profundidade.<br>
Caía ali a chuva, escorriam as imundícies, filtravam todos os
escoamentos do pátio. A caçamba para tirar água ficava a um
lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se.<br>
Do sono do monturo passava-se ao sono do poço. Em 1819
tirou-se dali um menino de catorze anos.<br>
Para não correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os
estranhos eram mal vistos.<br>
Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? Não; farejavam-se.<br>
A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um
barrete ornado de fitas, lavada às vezes com água do poço e
tendo uma perna de pau.<br>
Desde madrugada esvaziava-se o pátio; iam-se embora os fregueses.<br>
Havia no pátio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no
esterco durante o dia. O pátio era atravessado por um barrote
horizontal, colocado sobre postes, figura de forca, que não estava
ali em terra estranha. Via-se às vezes estendido no barrote, no
dia seguinte às noites chuvosas, um vestido de seda molhado e
enlameado, pertencente à mulher da perna de pau.<br>
Acima da palhoça e circulando o pátio havia um andar superior e
acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de
madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde subia
com estrépito a mulher coxa.<br>
Os locatários de arribação, por semana ou por noite, moravam no
pátio; os locatários residentes moravam na casa.<br>
 
Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem
um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indiferentemente
por um buraco quadrado e comprido que fora porta, ou
por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique.<br>
A caliça caída cobria o assoalho. Não se sabia como aquela
casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela
escada gasta e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava
na casa como água em esponja. A abundância das aranhas
tranqüilizava os moradores contra o desmoronamento imediato.<br>
Mobília nenhuma. Dois ou três enxergões nos cantos, rotos no
centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e
um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insípido e hediondo.<br>
As janelas davam sobre o pátio. De cima o pátio assemelhava-se a
um carro de lama. As coisas, sem contar os homens que ali apodreciam
e enferrujavam-se, eram indescritíveis. Os destroços
fraternizavam: catam paredes, caíam criaturas. Os trapos semeavam
entulhos.<br>
Além da população flutuante alojada no pátio, a Jacressarde tinha
três inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro.<br>
O carvoeiro e o trapeiro ocupavam dois enxergões no primeiro
andar; o fabricante de ouro, químico, morava nas águas-furtadas,
que também se chamavam sótão. Não se sabia em que lugar dormia
a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava
debaixo das telhas, num quarto em que havia uma trapeira estreita
e uma grande chaminé de pedra, golfão onde ia rugir o vento. A
trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima
um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio.<br>
A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava
a casa com um saco de carvão de quando em quando; o trapeiro
pagava com um cestário de grãos para as galinhas, cada semana;
o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto, ia queimando a
casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante
tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a caldeira do
ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em duas
colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo trapeiro todas
as semanas, uma coluna de três e uma coluna de cinco, conforme
o cestário de grão custasse 3 liardes ou 5 cêntimos. A caldeira do
químico era uma velha bomba quebrada promovida por ele ao cargo
de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A
transmutação absorvia-o. Algumas vezes falava nisso aos maltrapilhos
do pátio, que deitavam a rir. Dizia ele: Aquela gente está
cheia de preconceitos. Estava resolvido a não morrer sem atirar a
pedra filosofal às vidraças da ciência. O forno com que trabalhava
comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desaparecido.<br>
Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia a hoteleira: Neste andar
só me fica o casco. O químico abrandava-lhe a cólera fazendo-lhe
versos.<br>
Tal era a Jacressarde.<br>
O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze anos
ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma
vassoura na mão.<br>
Os freqüentadores entravam pela porta do pátio; o público entrava
pela porta da loja. O que era a loja?<br>
A alta parede que dava para a rua tinha à direita da entrada do
pátio uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta
e janela, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o único da casa
que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o único que tinha
vidros. Por trás da janela que abria sobre a rua havia um pequeno
quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na
porta da rua este dístico feito com carvão: Aqui encontram-se as
curiosidades. A palavra já corria mundo. Sobre três tábuas que
fingiam prateleiras colocadas por trás de vidraças, viam-se alguns
potes de porcelana falsa, sem asa, um chapéu de sol chines feito
de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos
pontos, impossível de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe,
chapéus de homem e mulher estragados, três ou quatro
conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos,
uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um volume
truncado da álgebra de Boisbertrand.<br>
Tal era a loja. Aquele sortimento era a curiosidade. A loja comunicava
por uma porta do fundo com o pátio onde estava o poço.<br>
Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna de pau era a
moça do balcão.<br>
 
===COMPRADORES NOTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO===
 
Clubin não foi à Pousada João, nem na noite de terça-feira, nem
na noite de quarta-feira. Nesta noite, ao escurecer, dois homens
entraram Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um deles
bateu na vidraça. Abriu-se a porta da loja. Entraram ambos. A
mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses.<br>
Havia urna vela sobre uma mesa.<br>
Os dois homens eram efetivamente burgueses. O homem que tinha
batido na vidraça disse:
- Boa noite, mulher. Venho por aquilo.<br>
A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que
dava para o pátio. Minutos depois abriu-se de novo a porta, e
apareceu um homem pela fresta, trazendo boné e blusa, debaixo
da qual havia uni objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas
dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.<br>
O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um
ar turvado e esperto.<br>
- O senhor é o armeiro? - disse ele.<br>
O homem que tinha batido respondeu:
- Sim. O senhor é o Parisiense?<br>
- Chamado Reaurouge. Sim.<br>
- Deixe ver.<br>
- Aqui está.<br>
O homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na
Europa naquela época, um revólver.<br>
O revólver era novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no.<br>
O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa
chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma
ao outro burgues, que parecia não ser morador na cidade, e que
se conservava com as costas voltadas para a luz.<br>
O armeiro perguntou:
- Quanto custa?<br>
O homem da blusa respondeu:
- Venho da América. Há pessoas que trazem macacos, papagaios,
animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu. trouxe isto.<br>
É uma invenção útil.<br>
- Quanto custa? - perguntou de novo o armeiro.<br>
- É uma pistola que faz molinete.<br>
- Quanto custa?<br>
- Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.<br>
- Quanto custa?<br>
- Tem seis canos.<br>
- Mas quanto custa?<br>
- Seis canos são 6 luíses.<br>
- Quer 5 luíses?<br>
- Impossível. Um luís por cada bala. É o preço.<br>
- Quer fazer negócio, seja razoável.<br>
- Já disse o preço. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.<br>
- Já examinei.<br>
- O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam por este
molinete no dicionário das ventoinhas. É uma jóia.<br>
- Já vi.<br>
- Os canos são de fábrica espanhola.<br>
- Já reparei.<br>
- São lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma
alcofá de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas ...<br>
- E velhas lâminas de foices.<br>
- Ia dize-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa
porção de fogo, e sai disto tudo um magnífico instrumento de
ferro.<br>
- Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair.<br>
- Sim. Mas tudo se arranja.<br>
- O senhor é do oficio?<br>
- Tenho todos os oficios.<br>
- Os canos são brancos.<br>
- É beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antimônio.<br>
- Dizíamos nós que isto custa 5 luíses.<br>
- Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6
luíses.<br>
O armeiro abaixou a voz.<br>
- Ouça, Parisiense. Aproveite a ocasião. Desfaça-se disto. isto
para vocês não vale nada. Chama a atenção.<br>
- Na verdade - disse Parisiense -, é um tanto vistoso. É melhor
para um burgues.<br>
- Quer 5 luíses?<br>
- Não, 6. Um por cada buraco.<br>
- Pois bem, 6 napoleões.<br>
- Quero 6 luíses.<br>
- Não é bonapartista. Prefere um luís a um napoleão?<br>
Parisiense sorriu.<br>
- Napoleão é melhor - disse ele -, mas luís vale mais.<br>
-Seis napoleões.<br>
- Seis luíses. É para mim uma diferença de 80 francos.<br>
- Então não fazemos nada.<br>
- Pois sim. Guardo o revólver.<br>
- Guarde.<br>
- Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais
nem menos de uma invenção destas! Então, boa noite. É um progresso
sobre a pistola, que os indios chesapeakes chamam Nortayu-
Hoh.<br>
- Cinco luíses a vista, é ouro.<br>
- Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena Muitas pessoas
ignoram isto.<br>
- Quer 5 luíses e mais 1 escudo?<br>
- Eu já disse que custa 6.<br>
O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha
falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse-
lhe ao ouvido:
- A arma é boa?<br>
- Excelente.<br>
- Eu dou os 6 luíses.<br>
Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco
feito na manga da blusa os 6 luises de ouro que acabava de
receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o
revólver, saíram da viela Coutanchez.<br>
 
===CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA===
 
No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distância de Saint-Malo, perto da ponta do Decollé, num lugar em que as rochas das
praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma coisa trágica.<br>
Nada mais freqüente na arquitetura do mar que uma língua de
rochedos em forma de lança, que se prende à terra por um istmo
estreito, prolonga-se na água e acaba-se aí bruscamente em forma
de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo
da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é às vezes
assaz difícil<br>
No alto de um rochedo desse gênero, achava-se em pé; pelas 4
horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de
uniforme, e provàvelmente armado, o que era fácil de reconhecer
por certas dobras retas e angulosas do manto. O sítio em que
estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de
cubos à semelhança de seixos imensos, deixando entre si estreita
passagem. Esta plataforma onde brotava uma ervazinha estreita e
curta terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a
um despenhadeiro, de uns 60 pés de altura, acima do mar, e parecia
talhado com um prumo. Entretanto, o ângulo da esquerda ia-se
arruinando e oferecia uma dessas escadas naturais próprias
aos granitos marinhos, cujos degraus pouco cômodos exigem às
vezes pernas de gigante ou pulos de clowns. Descia perpendicularmente
ao mar e mergulhava nas águas. Era um quebra-costas.<br>
Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da língua
de rochas.<br>
Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas,
com o cotovelo direito na mão esquerda, piscava um olho e aplicava
ao outro um óculo. Parecia absorto em uma atenção séria.<br>
Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava imóvel com o
olhar imperturbavelmente fito no horizonte. A maré estava cheia.<br>
A vaga batia por baixo dele no sopé do rochedo.<br>
O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras
singulares.<br>
Esse navio, que apenas uma hora antes saíra de Saint-Malo, tinha
parado por trás dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado
âncora, talvez porque o fundo não lho permitisse, e porque o
navio teria prendido a âncora debaixo do gurupés. Limitou-se a
por-se à capa.<br>
O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava
todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente.<br>
O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a
barlavento, e as de proa largas por mão; tinha braceado o pano de
ré o mais que lhe foi possível, de forma que neutralizava a força
dos de proa. Deste modo, caindo a sotavento, não perdia mais de
milha e meia por hora.<br>
O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das
rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.<br>
O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente
ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo
ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco praticável
que punha em comunicação a plataforma com o mar. Não reparou
que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada,
por trás da anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido
ali, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos
a tempos na sombra, aparecia uma cabeça por baixo da rocha,
olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta
por um largo chapéu americano, era a cabeça do quaker, que, uns
dez dias antes falara nas pedras do Petit Bey ao Capitão ZueIa.<br>
De repente pareceu redobrar a atenção do guarda-costa.<br>
Limpou rápidamente com a manga o vidro do óculo e firmou-o com
energia sobre o navio.<br>
Destacara-se um ponto negro.<br>
O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.<br>
A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por alguns
marinheiros que remavam vigorosamente.<br>
Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.<br>
A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez.<br>
Ele não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Aproximou-se
mais ainda da borda do rochedo.<br>
Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por
trás do guarda-costa, no alto da escada. O espião não viu o quaker.<br>
Parou este alguns instantes, com os braços caídos e os punhos
crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as
costas do espião.<br>
Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou
um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o único
movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estátua; o pé
firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou; estava
quase tocando o guarda-costa, sempre imóvel, com o óculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas
clavículas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e
os dois punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos ombros
do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem
teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabeça no mar. Viram-se-lhe
os pés durante o tempo de um relâmpago. Foi uma pedra na água.<br>
A água cerrou-se depois, descrevendo dois ou três grandes círculos.<br>
Ficou apenas o óculo escapo às mãos do guarda-costa e caído no
chão.<br>
O quaker inclinou-se à borda das rochas, viu acalmar-se a água,
esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os
dentes:<br>
 
 
Monsieur de la police est mort<br>
En perdant la vie.<br>
Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. Sómente no lugar onde o
guarda-costa tinha caído, formou-se na superfície da água uma
espécie de espessura negra, que se alargava no movimento da
vaga. Era provável que o guarda-costa tivesse quebrado o crânio
em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha
na espuma.<br>
O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:<br>
 
 
Un quart d'heure avant sa mort,<br>
Il était encore...<br><br>
 
Não acabou.<br>
Ouviu atrás de si uma voz doce que lhe dizia:
- Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem. Ele
voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois rochedos,
um homem baixo que tinha um revólver na mão.<br>
Respondeu:
- Como vê. Bom dia, Sr. Clubin.<br>
O homem baixo estremeceu.<br>
- Reconheceu-me?<br>
- Não me reconheceu o senhor? - disse Rantaine.<br>
Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça
observada pelo guarda-costa que se aproximava.<br>
O Sr. Clubin disse a meia voz como se falasse consigo:
- A coisa foi rápida.<br>
- Em que precisa de mim? - perguntou Rantaine.<br>
- Pouca coisa. Há quase dez anos que nos não vemos.<br>
O senhor há de ter feito bons negócios. Como está de saúde?<br>
- Bem - disse Rantaine. - E o senhor?<br>
- Perfeitamente - respondeu Clubin.<br>
Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.<br>
Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin. que
armava o revólver.<br>
- Rantaine, estamos a quinze passos. É uma boa distância. Fique
onde está.<br>
- Ali! Mas o que quer o senhor de mim?<br>
- Venho conversar.<br>
Rantaine não se mexeu. O Sr. Clubin continuou:
- O senhor matou agora mesmo um guarda-costa.<br>
Rantaine levantou a aba do chapéu e respondeu:
- Já me fez a honra de dize-lo.<br>
- Em termos menos precisos. Disse há pouco: um homem; agora
digo: um guarda-costa. O guarda-costa tinha o número 619. Era
um pai de família. Deixa mulher e cinco filhos.<br>
- Deve ser assim - disse Rantaine.<br>
Houve um imperceptível tempo de silêncio.<br>
- São homens escolhidos esses guarda-costas - disse Clubin. Quase
todos antigos marítimos.<br>
- Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.<br>
Clubin continuou:
- Adivinhe quanto me custou este revólver.<br>
- É um lindo instrumento - respondeu Rantaine.<br>
- Quanto vale?<br>
- Vale muito.<br>
- Custou-me 144 francos.<br>
- Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.<br>
Clubin continuou.<br>
- O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.<br>
- Sr. Clubin, há de ventar esta noite.<br>
- Eu sou o único que sei do segredo.<br>
- Continua a morar na Pousada João?<br>
- Sim. Vive-se bem ali.<br>
Já lá comi muito boa couve fermentada.<br>
Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espádua! Não seria eu quem lhe levariaum piparote. Era tão raquítico
quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.<br>
- Felizmente criou-se.<br>
- Sim, e continuo a morar na Pousada João.<br>
- Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor
me tinha reconhecido. Disse comigo: só Clubin pode reconhecer-me.<br>
E adiantou um passo.<br>
- Fique onde estava, Rantaine.<br>
Rantaine recuou e disse à parte:
- A gente torna-se criança diante destes instrumentos.<br>
O Sr. Clubin continuou.<br>
-Situação. Temos aqui à direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos
passos, outro guarda-costa, número 618, que está vivo, e à esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfândega.<br>
Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco minutos.<br>
O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado.<br>
Impossível fugir. Há um cadáver ao pé da rocha.<br>
Rantaine deitou um olhar oblíquo ao revólver.<br>
- Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado
com pólvora seca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer
correr a força armada. Tenho seis tiros.<br>
O choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barca-
ça não estava longe.<br>
O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. Sr. Clubin
falava com um ar cada vez mais tranqüilo e doce.<br>
- Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que
fez há pouco, ajudar-me-iam a prende-lo. O senhor paga 10 000
francos de passagem ao Capitão Zuela. Entre parentesis, a passagem
ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de
Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o
senhor não pode arriscar-se a ir a Guernesey, onde há quem tenha
a honra de conhece-lo. Volto à situação. Se eu disparar, prendem-no.<br>
Nesse caso pagará a Zuela 10 000 francos de fuga. Já lhe deu
5 000 francos; ZueIa guardará esses 5 000 francos e vai-se embora.<br>
É isto, Rantaine, acho-o bem rebuçado. Esse chapéu, esse
casaco e essas polainas disfarçam-no. Esqueceram-lhe os óculos.<br>
Fez bem em deixar crescer as suíças.<br>
Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou:
- Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras.<br>
Numa delas tem o seu relógio. Guarde-o.<br>
- Obrigado, Sr. Clubin.<br>
- Na outra há uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por
molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e atirea
para cá.<br>
- Mas isto é um roubo!<br>
- Pode chamar a guarda.<br>
E Clubin fixou os olhos em Rantaine.<br>
- Olhe, Mess Clubin. .<br>. - disse Rantaine dando um passo e estendendo
a mão aberta.<br>
Mess era uma lisonja.<br>
- Fique onde está, Rantaine.<br>
- Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofereço-lhe metade.<br>
Clubin executou um cruzar de braços, mostrando a boca do revólver.<br>
- Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E
acrescentou, depois de uma pausa:
- Quero tudo.<br>
Rantaine disse entre dentes:
- É temível este.<br>
Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se
cortante como o aço. Disse ele:
- Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é
Restituição. Ouça, Rantaine. Há dez anos saiu o senhor de
Guernesey à noite, tomando da caixa de uma sociedade 50 000
francos que lhe pertenciam e esquecendo de lá deixar 50 000
francos que pertenciam a outro. Esses 50 000 francos roubados
ao seu sócio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje, com
os juros acumulados de dez anos, 80 666 francos e 66 cêntimos. O
senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet chama-se
ele, Rua de São Vicente. Deu-lhe 76 000 francos em bilhetes de
banco francêses e em troca deu-lhe ele três bank-notes da Inglaterra
de 1000 libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O
senhor pOs essas banknotes na boceta de ferro e a boceta de
ferro na algibeira direita. As 3 000 libras esterlinas fazem 75 000
francos. Em nome de Mess Lethierry contento-me com isso. Parto
amanhã para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a galera que
ali está à capa é o Tarnaulipas. O senhor embarcou ali esta noite
as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem.<br>
Quer sair da França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A
barcaça vem buscá-lo. Está à espera dela. Ela aí vem. Já a estamos
ouvindo. Depende de mim deixá-lo partir ou obrigá-lo a ficar. Basta
de palavras. Atire cá a boceta de ferro.<br>
Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a
Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.<br>
Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta,
tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os canos do revólver.<br>
Depois disse:
- Meu amigo, volte as costas.<br>
Rantaine voltou as costas.<br>
 
O Sr. Clubin pos o revólver debaixo do braço e apertou a mola da
caixinha. A caixinha abriu-se.<br>
Havia dentro quatro bank-notes, três de 1000 libras, e uma de 10
libras.<br>
Clubin dobrou as três notas de 1000 libras, po-las outra vez na
caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.<br>
Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete
de 10 libras e disse:
- Volte para cá.<br>
Rantaine voltou-se.<br>
O Sr. Clubin continuou:
- Disse-lhe que me contentava com as 3 000 libras. Aqui vão as
10.<br>libras.<br>
E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.<br>
Rantaine, com um pontapé, deitou o bilhete e a pedra ao mar.<br>
- Como queira - disse Clubin. - Vamos lá, o senhor há de estar
rico. Estou tranqüilo.<br>
O rumor dos remos que se tinha aproximado durante o diálogo
cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.<br>
- Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.<br>
Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.<br>
Clubin foi com precaução até a borda do rochedo e adiantando a
cabeça, viu descer Rantaine.<br>
A barcaça tinha parado ao pé do último degrau do rochedo, no
mesmo lugar em que tinha caído o guarda-costa.<br>
Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:
- Bom número 619! Pensava que estava só. Rantaine pensava que
eram apenas dois. Só eu sabia que éramos três.<br>
Clubin viu no chão o óculo do guarda-costa; apanhou-o.<br>
Começou o ruído dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça
e esta tomava o largo.<br>
Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos
rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa;
mostrou o punho e gritou:
- Ah! o próprio diabo é um canalha!<br>
Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o óculo na
barcaça, ouviu distintamente estas palavras, articuladas por uma
voz grossa, no meio do rumor do mar:
- O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva
a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta barcaça um
marinheiro de Guernesey que é da equipagem do Tamaufipas, que
se chama Ahier Tortevin, e que há de voltar a Saint-Malo, na
próxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe
entreguei para Mess Lethierry a soma de 3 000 libras esterlinas.<br>
Era a voz de Rantaine.<br>
Clubin era o homem das coisas bem feitas. Imóvel como estivera o
guarda-costa, e no mesmo lugar, com o óculo no olho, não perdeu
de vista a barcaça. Viu diminuirem-se os remos, desaparecer, reaparecer,
aproximar-se a barcaça do navio; e pode reconhecer a
alta corpulência de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.<br>
Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A
brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o óculo de
Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado e,
meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia
a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céu amarelo do crepúsculo.<br>
 
===INFORMAÇÃO ÚTIL ÀS PESSOAS QUE ESPERAM OU RECEIAM CARTAS DE ALÉM-MAR===
 
Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.<br>
Uma das causas da sua demora é que antes de recolher-se foi ele
até a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em uma
dessas tavernas, onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente
que pos em uma larga algibeira da japona como se quisesse
esconde-la; depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de
manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.<br>
Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada João, já não havia na sala
baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais Gaboureau,
bebendo e fumando cachimbo.<br>
 
O Capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.<br>
- Good-bye, Capitão Clubin.<br>
- Boa noite, Capitão Gertrais.<br>
- Com que então, lá se foi o Tamaufipas.<br>
- Ah! - disse Clubin -, não reparei.<br>
O Capitão Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse:<br>
- Raspou-se o Zuela.<br>
- Quando?<br>
- Esta noite.<br>
- Onde vai?<br>
- Vai ao diabo.<br>
- Sim, mas onde?<br>
- A Arequipa.<br>
- Não sabia - disse Clubin.<br>
Acrescentou:
- Vou dormir.<br>
Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.<br>
- Já foi a Arequipa, Capitão Gertrais?<br>
- Sim. Há anos.<br>
- Onde se costuma a arribar?<br>
- Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte alguma.<br>
O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e continuou:
- Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff.<br>
Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em
belo estado. Chevai-de-Troie levava terebintina e abriu água, e
fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da água todo o carregamento.<br>
Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da âncora, o botalós, ovéns; não sofreu o
mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Caiu o ferro dogurupés, que aliás não só ficou machucado, mas completamentenu. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.<br>
Clubin tinha posto a vela na mesa, e pos-se a pregar de novo uma
porção de alf inetes que tinha na japona.<br>
Disse:<br>
 
- Não dizia, capitão, que o Tamaulipas não arriba em porto algum?<br>
- Não. Vai direito ao Chile.<br>
- Neste caso não pode mandar notícia alguma em caminho<br>
- Perdão, Capitão Clubin. Primeiramente pode entregar despachos<br>
a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.<br>
- É justo.<br>
- Depois, tem a caixa de cartas do mar.<br>
- A que chama o senhor caixa de cartas do mar?<br>
- Não sabe, Capitão Clubin?<br>
- Não.<br>
- É quando se passa pelo estreito de Magalhães.<br>
- Que há então?<br>
- Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de
trezentos diabos.<br>
- Depois?<br>
- Quando se dobra o cabo Monmouth.<br>
- Bem. Depois?<br>
- Depois, dobra-se o cabo Valentin.<br>
- E depois?<br>
- Depois dobra-se o cabo Isidoro.<br>
- E depois?<br>
- Dobra-se a ponta Ana.<br>
- Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?<br>
- Chegamos à caixa. Montanhas à direita, montanhas à esquerda.<br>
De todos os lados aves marinhas. Terrível sítio! Ah! com um milhão
de diabos! que clitisma e que matinada! A borrasca ali não precisa
de auxílio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas!
Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro,
cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em
rolha não nos fica senão o fio. Que dança! furacões capazes de
fazer saltar uma galera como fosse uma pulga. Já vi num brigue
inglês, o True Blue, um grumete ocupado com o pau da giba ser
levado por um milheiro de ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar
como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser arrancado do
navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as
peças de madeira do convés ficaram despedaçadas. A gente sai
dali com as velas comidas, até fragatas de cinqüenta fazem água
como se rossem cestos. E a endiabrada costa! É o que há de mais
danado. Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a
gente de Porto Fome. Aí é pior que pior. São as lâminas mais
agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente veem-se
estas duas palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.<br>
- Que quer dizer, Capitão Gertrais?<br>
- Quero dizer, Capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo
Ana vê-se em uma pedra de 100 pés de altura um grande pau. É
um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das
cartas. Os inglêses escreveram em cima: Post-Office.<br>
Por que se meteram eles nisto? Aquilo é o correio do oceano; não pertence a
esse honrado gentieman, o rei da Inglaterra. A caixa das cartas é
comum. Pertence a todas as bandeiras. Post-Office, há nada mais
chines! Parece uma xícara de chá que o diabo oferece em pleno
oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam
expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio
que vem do Atlântico envia cartas para a Europa, e o navio que
vem do Pacífico manda cartas para a América. O oficial que comanda
o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço
que lá encontra. Toma-se conta dessas à espera que o próximo
navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em
sentido contrário, o continente donde o senhor vem é aquele para
onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A
barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E
neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficará aí. A barrica tem uma
tampa mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se pode
escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.<br>
- É esquisito - murmurou Clubin, pensativo.<br>
O Capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.<br>
- Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas
garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro meses
tenho as cartas do patife. Diga-me lá, Capitão Clubin, sai amanhã?
Clubin, absorto em uma espécie de sonambulismo, não ouviu. O
Capitão Gertrais repetiu a pergunta.<br>
Clubin despertou.<br>
- Sem dúvida, Capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sair amanhã de manhã.<br>
- Pois olhe, eu não saía. Capitão Clubin, os cães tem o pelo molhado.<br>
As aves marinhas andam há duas noites à roda do farol. Mau sinal. Estamos no segundo quarto da lua; é o máximo da umidade.<br>
Vi há pouco pimpinelas que fechavam as rolhas e um campo de
trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem do chão,
as moscas mordem, as abelhas não se afastam dos cortiços, os
pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi
hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao por do sol havia
muitas nuvens no horizonte. Amanhã há de haver grande nevoeiro.
Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão.<br>
Grande sonso o nevoeiro.<br>
 
[[Categoria:Os Trabalhadores do Mar|Livro 5, Parte 1]]