Diferenças entre edições de "Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)/XII"

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Dormi magnificamente, em um amplo quarto desses das velhas casas do Rio de Janeiro que dão bem a imagem da fartura e da liberdade da nossa burguesia nos meados do século passado. Era maior do que as salas das nossas apelintradas casas de hoje. Despertei manhã adiantada. O quarto em que dormi dava para a sala de jantar. Penetrando aí, dei com D. Escolástica, de plácidos olhos verdes, a vigiar atentamente o pequeno Aleixo Manuel, que tomava uma ligeira refeição matinal antes de ir para o colégio. Gonzaga de Sá não estava. Ao entrar, o menino levantou a cabeça da xícara e pousou por instantes os seus grandes olhos negros, enervados de prata,
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sobre mim, interrogativamente, como sempre.
 
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Vendo aquela criança, não sei que longínquas lembranças da minha infância me vieram. Eram as esperanças da minha iniciação nas coisas obscuras do alfabeto. Eram os afagos e espantos da minha professora; eram também os dolorosos desenganos desta minha mocidade irrequieta e desigual... Não viu o que invocava em mim aquela criança, com a sua rígida fronte inteligente e a sua forte e redonda cabeça de homem de caráter! Ele me olhou, fiz a saudação matinal, respondeu-me e me sentei. A velha D. Escolástica informou-me, então, que o irmão erguera-se cedo e trabalhava na sala. Demorei-me uns tempos a conversar e, de caminho, falei à criança.
 
— Estás muito adiantado?
 
O Aleixo Manuel relutou em responder; a velha senhora, porém, obrigou-o a fazê-lo com presteza.
 
— Responde, Aleixo, não estás ouvindo o que te perguntam? Responde: estás adiantado?
 
— Não estou, não senhor; respondeu ele afinal.
 
— Em que livro estás?
 
— Terceiro.
 
— Com nove anos, vai bem, fiz eu animando-
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o. Já dás a História do Brasil?
 
— Sim, senhor.
 
— Quem descobriu o Brasil?
 
— Pedro Álvares Cabral.
 
— E a América?
 
— Cristovão Colombo.
 
— Qual foi a primeira descoberta, a da América ou a do Brasil?
 
— A da América.
 
— Por quê?
 
— Porque o Brasil faz parte da América, e quem descobriu a América também o Brasil, porque ele está na América.
 
— Então foi Cristovão Colombo quem descobriu o Brasil? Que respondes?
 
O rapaz calou-se, franziu um instante as sobrancelhas e, depois, disse com toda a firmeza:
 
— Não. Colombo foi quem viu pela primeira vez um lugar da América, por isso se diz que descobriu ela toda; mas Cabral viu depois, pela primeira vez, lugares do Brasil, por isso diz-se que descobriu o Brasil.
 
A custo, disfarcei a minha surpresa diante da clareza do raciocínio do pequeno. Não quis com um elogio caloroso aguçar-lhe a vaidade; desejava que a sua inteligência fosse crescendo sem consciência de si própria; e então, quando
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fosse bem forte, ele tomasse conhecimento da sua capacidade, como uma revelação, como uma surpresa. Limitei-me a dizer-lhe que estava certo e passei a perguntar outras coisas. Por fim, depois de ter respondido às minhas perguntas com uma prontidão que me maravilhou, passou a correia da mala pelo pescoço, apanhou a lousa e despediu-se. Beijou e abraçou D. Escolástica, e ambos o fizeram de maneira a me deixar perceber que um queria mais alguma coisa no outro, e que ambos não sabiam porque não a tinham. Foi-se.
 
— É inteligente o rapaz, disse eu à velha senhora.
 
— Bastante. Que desejo de saber tem este pequeno! O senhor nem imagina! Brinca, é verdade; mas, à noitinha, agarra os livros, os deveres e os vai estudando sem que ninguém o obrigue. Quem me dera que fosse assim até ao fim!
 
— Porque não irá?
 
— Ora! Há tantos que como ele começam tão bem e...
 
— É verdade! Mas virá deles mesmos a perda da vontade, o enfraquecimento do amor, da dedicação aos estudos; ou tem tal fato raízes em motivos externos, estranhos a eles, que só numa idade mais avançada acabam
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percebendo, quando a consciência lhe revela o justo e o injusto, fazendo que se lhe enfraqueça deploravelmente o ímpeto inicial?
 
Cri que D. Escolástica não me compreendera, e procurei dizer a mesma coisa por outras palavras.
 
— Quem sabe se, na primeira idade, eles estudam porque desconhecem certas coisas que, sabidas mais tarde, lhes fazem desanimar e sentir vão o estudo?
 
— Qual, doutor! (Ela me tratava dessa manrira) — É assim mesmo!
 
E calou-se, depois de sua segura afirmação, como os grandes e infalíveis sábios do nosso Brasil.
 
Tomei café e fui ter com Gonzaga de Sá na sua vasta sala de trabalho. Ele, recostado na cadeira de balanço, lia atentamente um jornal. Saudamo-nos e logo lhe obervei:
 
— Julgava-te na arrumação; mas vejo que estás embevecido na leitura das gazetas.
 
— Uns jornais franceses que acabo de receber. Adiei a arrumação.
 
— Qual é, o jornal?
 
— O Figaro. Leio um por dia, como se fosse publicado aqui e entregue de manhã na minha porta. Ando sempre, por isso mesmo, atrasado com os acontecimentos mundiais.
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— Em que ponto está a Conferência de Haia?
 
— Na classificação das nações...
 
— Não cheguei ainda aí... Estou atrasado...
 
— Onde estás?
 
— Na nomeação de comissões.
 
— De modo que sempre andas quinze dias atrasado com o mundo?
 
— Às vezes, muito mais... Ora! o tempo. Uma noção subjetiva, que só existe para nós... Uma fatalidade da nossa organização cerebral, independente da experiência. Um critério, uma categoria para a nossa interpretação humana dos fenômenos... De que vale?
 
Nada respondi, porque não tinha nada a responder. O meu velho amigo, após um pequeno silêncio, perguntou-me:
 
— Viste o Aleixo Manuel?
 
— Vi.
 
— Que te pareceu?
 
— Aplicado e inteligente.
 
— Graças a Deus.
 
E tornou de novo ao jornal francês que estava lendo. Apanhei os jornais do dia, em cima de mesa do centro; li-os e, assim pelas nove horas, despedi-me. Não aceitei o almoço; chegaria tarde à Repartição.
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Ao despedir-me, Gonzaga me pediu:
 
— Vem mais a miúdo, para conversar com Aleixo. Ele vive tão só...
 
Depois da morte de seu compadre, a sua constante preocupação era o afilhado. Sem nenhum pretexto, sem causa nem motivo, em meio de uma palestra sobre assunto muito diverso, dava-lhe para falar no filho do Romualdo. Uma vez dizia: Preciso levá-lo ao Museu; outra, talvez fosse bom pô-lo de interno, para ganhar convivência, desembaraço, hábitos de sociabilidade. Que achas?
 
Eu possuía poucas aptidões pedagógicas, quase nenhumas; e respondia evasivamente. Notava, entretanto, que a presença constante da criança, a contemplação dela todo o dia, na intimidade familiar, tinha acelerado aquela alteração de humor no temperamento do meu velho amigo, que já observei; e trouxera mais uma carga de apreensões que não lhe eram habituais. Mudara... Gonzaga amava ternamente o rapaz; via-se bem que o queria como seu filho, e assim o tratava nos menores atos, e, nas mais simples palavras que lhe dirigia, punha a meiguice e a doçura de pai. Depois desta visita, mais de uma vez, porém, eu o surpreendi a olhar o afilhado com olhar de sibila. Havia não sei que grande esforço
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de penetração na sua mirada, que eu quis bem crer estar ele no propósito de decifrar o futuro do pequeno. Certa vez, depois de um olhar destes, disse-me:
 
— Esta vida é um conto do vigário...
 
Só a presença do afilhado não me bastava para explicar a mudança de humor de Gonzaga de Sá, que, agora, via e visitava amiudadamente, conforme ele me pedira.
 
É verdade que sempre o conheci triste; mas de uma tristeza, por assim dizer, filosófica, geral, essa tristeza de sentir profundamente a mesquinhez da nossa condição humana, em luta sempre com o imenso dos nossos desmarcados sonhos e desejos. Porém, agora, a sua tristeza era mais atual, mas terra à terra. Dir-se-ia que a presença do Aleixo Manuel, o afilhado, tinha levantado do fundo da pessoa do meu amigo lembranças dolorosas que sepultara para sempre; lembranças essas que eram seu segredo e das quais nunca me falou e não encontrei o mínimo indicio para descobri-las nos papéis que ele me legou, por testamento, juntamente com umas centenas de livros. Lembro-me, ao escrever estas linhas, que um dia ele me dissera:
 
— Já tiveste algum amor?
 
— Nunca.
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— Olha, que falo de amor! Hein?
 
— Compreendo.
 
— É preciso tê-lo... Tenho te dito sempre que os antigos afirmavam que Vênus é uma deusa vingativa... Não perdoa e tu sofrerás se não lhe prestares culto...
 
— Não há Vênus, retorqui.
 
— Quem sabe lá?
 
Trocávamos essas palavras nos últimos dias da sua existência, quando a alteração do seu gênio já se refletia claramente na saúde; e eu via bem que Gonzaga de Sá fanava-se, dissolvia-se vagarosamente ao fogo lento de suas secretas recordações e dos desgostos que o aparecimento delas lhe fizera assomar na alma. As faces se encovavam; os olhos, seus doces olhos, perdiam o brilho, apareciam mortiços e ganhavam uma estranha auréola. Não andava com a mesma firmeza, e o seu humor continuou a desequilibrar-se ainda mais. De uns tempos em diante, a sua palestra era frequentemente cortada por bruscas explosões de irritação, de queixumes indignos de sua altivez, em geral pueris e sem fundamento, passando espantosamente da mais intensa tristeza para a mais ruidosa alegria.
 
Aleixo Manuel, o afilhado, trouxe-lhe — quem sabe? — para a vida alguma coisa que
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queria não viesse jamais, ou não reaparecesse nunca; e ele sofria com isso, entristecia-se, alquebrava-se de corpo e alma, sem que fosse possível a mim atribuir diretamente tais modificações no meu amigo, ao dócil, ao meigo, ao obediente. Aleixo Manuel, que ele pusera em sua casa a fim de ficar sendo seu filho.
 
— Hei de fazê-lo gente, dizia-me às vezes, cheio de esperança e de alegria.
 
Não pôde levá-lo até o fim. Ao iniciar o pequeno o curso de preparatórios, logo por aí, foi quando ele colheu a flor, e caiu, e morreu...
 
A tia levou o menino até ao fim, com todo o carinho e abnegação.
 
Bênçãos a ambos, que, na sua missão educadora, souberam ser bons, sem interesse e sem cálculo de espécie alguma, apesar de todos os dons terem concorrido para ampliar, com o hábito de análise e reflexão que o estudo traz, a consciência da criança que devia ficar restrita aos dados elementares para o uso do viver comum, sem que viessem surgir nela uma mágoa constante e um fatal princípio permanente de inadaptação ao meio, criando-lhe um mal estar irremediável e, consequentemente, um desgosto da vida mais atroz
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do que o pensamento sempre presente da Morte!
 
Que importa isso, porém, se as tensões dos velhos foram generosas; e, se o sofrimento do pequeno, exteriorizado algum dia em grandes atos ou em grandes obras, possa concorrer mais tarde para o contentamento de muitos dos seus iguais que vierem depois!? Que importa!?
 
A felicidade final dos homens e o seu mútuo entendimento têm exigido até aqui maiores sacrifícios...