Diferenças entre edições de "Espumas Flutuantes (1913)/Prólogo"

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Era por uma dessas tardes em que o azul do céu oriental -— é pálido e saudoso, em que o rumor do vento
nas vergas -— e monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio-— e queixoso e tétrico.
 
Das bandas do ocidente o sol se atufava nos mares ''como um brigue em chamas..." e daquele vasto
Longe, inda mais longe... os cimos fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distância sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste.
 
Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas -— derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade.
 
E que lá, dessas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas
as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro;... é que dessas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Rafael subindo as escadas do Vaticano";... volvia agora silencioso e alquebrado... trazendo por única ambição-a esperança de repouso em minha pátria.
 
Foi então que, em face destas duas tristezas -— a noite que descia dos céus, a solidão que subia do
oceano, recordei-me de vós, ó meus amigos!
 
nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
 
Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!.. . Vós bem sabeis quanto
sais efêmeros... -— passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
 
E quando-comediantes do infinito-— vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?
 
-— Uma esteira de espumas... -— flores perdidas na vasta indiferença do oceano.-— Um punhado de versos... -— espumas flutuantes no dorso fero da vida!...
 
E o que são na verdade estes meus cantos?...
 
Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa-este sopro
do alto: do coração -— este pélago da alma.
 
E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar
fatídico do látego da desgraça
 
E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo-— estes signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!
 
Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo...
possam eles, ó meus amigos! -— efêmeros filhos de minh'ahna-levar uma lembrança de mim às vossas plagas!
 
{{d|CASTRO ALVES