Diferenças entre edições de "Sermão do Mandato (1655)"

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Parte 5
(Parte 4)
(Parte 5)
 
Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo, sed semetipsum exinanivit, formam serv accipiens (Flp 2, 6 s). O fazer-se Cristo servo, sendo Deus - diz S.Paulo - não foi porque cuidasse ou tivesse para si o mesmo Cristo que a sua divindade não era sua, senão alheia, como se a tivesse roubado ao Padre. Pois Cristo podia cuidar nem ter para si que a sua divindade não era sua? Claro está que não podia ter para si uma coisa tão contrária à verdade, nem cuidar o que era tão alheio de todo o pensamento. Por que diz logo o Apóstolo do terceiro céu que, quando Cristo se fez servo, não cuidou nem teve para si que a sua divindade não era sua? Porque foi tal ato o de Cristo se abater aos pés dos homens, que podiam os mesmos homens cuidar que Cristo o cuidara assim. Homem que tanto se abate, ou não é Deus, ou, se foi Deus alguma hora, tem deixado de o ser, ou, se ainda é Deus, deve de cuidar sem dúvida que o não é, porque, sendo Deus, e tendo para si que é Deus, não se podia abater a coisa tão baixa. E como o ato foi alheio de quem o fazia, que os homens podiam entrar em tal pensamento, que, ou cuidassem que Cristo não era Deus, ou cuidassem que o mesmo Cristo cuidou que o não era, por isso pondera e adverte S. Paulo primeiro que tudo que, quando Cristo se abateu à baixeza de servo, não foi porque cuidasse ou tivesse para si que não era Deus: Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo, sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens.É o que também advertiu e ponderou o nosso evangelista, na prefação com que entrou a narrar este mesmo ato. Por isso disse que, quando o Senhor começou a lavar os pés dos discípulos, sabia que era Deus, e que nas mesmas mãos com que lhes lavava os pés, tinha o poder de tudo: Sciens quia a Deo exivit, et ad Deum vadit, et quia omnia dedit ei Pater in manus, caepit lavare pedes discipolorum <ref>"''Sabendo que ele saíra de Deus, e ia para Deus, e que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas, começou a lavar os pés aos discípulos (Jo 13, 3. 5).''"</ref>. Crendo pois S. Pedro firmissimamente esta verdade - que por isso disse: Domine, tu mihi <ref>"''Senhor, tu a mim (Jo 13, 6)?''"</ref>? que muito é que, sendo aquele grande piloto, que nunca perdeu o tino nas maiores tempestades, e se atreveu a caminhar a pé sobre as mesmas ondas do mar, agora areasse e se afogasse em tão pouca água, como a daquela bacia, e não pudesse tomar pé na profundidade imensa de tão tremendo mistério?
 
== § V ==
 
Que importa que Pedro diga tu mihi, se de si conhece pouco, e de Cristo nada? Se S. Pedro antes desse dia foi capaz de entender perfeitamente o mistério da Encarnação, como agora não estava ainda capacitado para entender o mistério do lavatório dos pés? Por que Deus não é humilde, nem pode ser humilde? A voz dos dois abismos. Cristo na Encarnação fez-se homem, e no lavar os pés aos homens fez-se não homem. Cristo aos pés de Judas. No Cenáculo de Jerusalém, os dois degraus ou dois estados mais abaixo do não ser.
 
Sossegou Cristo o assombro e resistência de S. Pedro. Mas como? Quod ego facio, tu nescis modo, scies autem postea (Jo 13, 7): Pedro, o que eu agora faço, tu não o sabes nem o entendes, mas sabê-lo-ás depois. - Depois, Senhor? E quando? Quando vires no céu, revestido de sua própria majestade, o mesmo que agora vês meio despido e cingido com este pano servil. - Neste sentido entendem o scies autem postea, Santo Agostinho, S. Crisóstomo, Beda, Ruperto, Teofilato, Eutímio. E com razão. Assim como as semelhanças se não podem conhecer senão de perto, assim as distâncias não se podem medir senão de longe. - Que importa que digas tu mihi, se de ti conheces pouco, e de mim nada? Quando vires o tudo que sou, então entenderás o muito que faço. Se falas pelo que viste no Tabor, este é o excesso que se havia de cumprir em Jerusalém, de que Moisés e Elias, mais assombrados do que tu, falavam. Agora deixa-te lavar, sob pena de me não veres eternamente, nem chegares a saber o que estás vendo e não sabes: Quod ego facio, tu nescis modo.
 
Assim disse com graves e temerosas palavras o Senhor, e se dissera o mesmo a outro apóstolo, não me admirara tanto, mas a S. Pedro? Isto é o que me admira muito, e muito mais na memória e concurso dos dois dias em que estamos. Perguntou Cristo noutra ocasião aos discípulos, que também estavam juntos: Quem dicunt homines esse Filium hominis (Mt 16, 13)? Quem dizem os homens que é o Filho do homem? - Os outros referiram vários ditos, porém S. Pedro respondeu: Tu es Christus, Filius Dei vivi ( Mt 16, 16 ): Vós, Senhor, sois Cristo, Filho de Deus vivo. - Ajuntai agora esta resposta de S. Pedro com a pergunta de Cristo, e vereis como o príncipe dos Apóstolos, em tão poucas palavras, compreendeu e resumiu todo o mistério da Encarnação: Filium hominis: Filius Dei vivi. No Filium e no Filius compreendeu as duas gerações, uma eterna e outra temporal; no hominis e no Dei vivi compreendeu as duas naturezas, divina e humana; e no tu es, compreendeu a união hipostática, com que uma indissoluvelmente se uniu à outra. Pois, se S. Pedro antes deste dia, estando na terra, foi capaz de entender e saber tão perfeitamente o mistério da Encarnação, como agora, com muito mais tempo e estudo da escola de Cristo, não estava ainda com suficiente capacidade para entender e penetrar o mistério do lavatório dos pés: Quod ego facio, tu nescis<ref>0 que eu faço, tu não o sabes (Jo 13, 7).''"</ref>? E se pela confissão do mesmo mistério da Encarnação se deram ao mesmo Pedro as chaves do céu, como se lhe reserva para o céu a ciência do que estava vendo e admirando Scies autem postea <ref>"''Mas sabê-lo-ás depois (Jo 13, 7).''"</ref>? Aqui vereis quanto maior profundidade de mistérios e de amor se encerra na ação tremenda de Cristo se prostrar aos pés dos homens, do que no mesmo mistério altíssimo de Deus se fazer homem. A alteza do primeiro com luz do céu pode-a alcançar na terra um pescador: a profundidade deste segundo não a pode sondar em tão pouca água o maior apóstolo. A alteza do mistério da Encarnação revelou-a o Padre, que está no céu, a Pedro estando na terra. Caro et sanguis non revelavit tibi, sed Pater meus, qui in caelis est <ref>"''Não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas sim meu Pai, que está nos céus (Mt 16, 17)''"</ref>; mas a profundidade do lavatório dos pés não a revelará ao mesmo Pedro o Filho, senão quando o Filho e Pedro ambos estiverem no céu: Scies autem postea.
 
Parece-me que S. Paulo falou com o espírito de S. Pedro, quando disse: Neque altitudo, neque profundam poterit nos separare a charitate Christi <ref>"''Nem a alteza, nem o profundo nos poderá separar da caridade de Cristo (Rom 8, 39. 35).''"</ref>. Esta caridade de Cristo, conforme dizem os intérpretes, ou se pode entender do amor com que nos amamos a Cristo, ou do amor com que Cristo nos ama a nós, e neste segundo sentido diz S. Paulo que nem a alteza nem o profundo pode fazer que Cristo nos não amasse, porque na alteza da Encarnação, sendo Deus, nos amou fazendo-se homem, e no profundo do lavatório dos pés, sendo já homem, nos amou pondo-se aos pés dos homens. Mas o eloqüentíssimo apóstolo, depois de por o alto, então pos o profundo: Neque altitudo, neque profundum - porque mais pondera e mais encarece o amor de Cristo o profundo do lavatório, onde se abateu aos pés dos homens, que o alto da Encarnação, donde desceu a ser homem.
 
Isto é o que eu sou obrigado a ponderar nesta profundíssima ação; mas, quando Cristo diz a Pedro: Quod ego facio, tu nescis - onde Pedro não sabe entender, quem saberá falar? À vista, contudo, da sua ignorância, me atreverei eu a dizer as minhas, mas no concurso e comparação somente de um dia com outro dia. O que todos encarecem no dia da Encarnação é humilhar-se Deus a se fazer homem, mas é certo que este ato não foi de humildade; o lavar Cristo os pés dos homens, sim, é a maior humildade de todas. E por que não foi humildade o fazer-se Deus homem? Porque Deus não é humilde, nem pode ser humilde. Humildade essencialmente é o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria, e, sendo Deus suma independência, suma perfeição e suma felicidade, nem e nem pode ser humilde. Como dizem logo todos os santos que Deus se humilhou neste grande ato? Porque se humilhou por humilhação, e não por humildade. De el-rei Acab disse Deus ao profeta: Nonne vidisti humiliatum Achab (3 Rs 21, 29)? Não viste humilhado a Acab? - E Acab não era humilde, nem tinha humildade, mas estava naquele caso humilhado não por humildade, senão por humilhação. A este modo - mas por modo diviníssimo e santíssimo - se humilhou também Deus quando se fez homem, porque até então nem era nem podia ser humilde. Porém, no primeiro instante da Encarnação, ou no segundo depois de encarnado - como querem outros teólogos - então começou também a ser humilde, e sumamente humilde, como hoje mostrou mais que nunca. Onde se deve notar que este grande extremo de humildade, depois da humilhação de se fazer homem, não só foi conseqüência do novo estado, senão obrigação. Porque se Deus, antes de ser humilde, se humilhou tanto que se abateu a ser homem, segue-se que, depois de ser humilde, tinha obrigação de se humilhar muito mais. Obrigado, pois, Deus a se humilhar mais do que se tinha humilhado, que havia de fazer? Só lhe restava o que hoje fez. Ajoelha-se diante dos homens, e lava-lhes os pés com suas próprias mãos, porque, só prostrado aos pés dos homens, se podia humilhar mais do que se tinha humilhado fazendo-se homem.
 
Esta conseqüência, como forçosa, a que a humilhação do primeiro mistério obrigou e empenhou a Cristo para a humildade do segundo, reconheceu profeticamente Davi, quando disse: Abyssus abyssum invocat ( Sl 41 , 8 ): que um abismo chama outro abismo. - Abismo já sabeis que é um pego imenso e profundíssimo, como aquele de que fala a Escritura na primeira criação dos elementos: Et tenebrae erant super faciem abyssi <ref>"''E as trevas cobriam a face do abismo (Gên 1, 2).''"</ref>. E que dois abismos foram estes, em que o primeiro chamou pelo segundo? Não dissemos ao princípio que o dia da Encarnação se falava com o dia de hoje: Dies diei eructat verbum <ref>"''Um dia diz uma palavra a outro dia (Sl 18, 3).''"</ref>? Pois, quando estes dois dias se falaram, então chamou o mistério da Encarnação pelo mistério do lavatório dos pés, e estes foram os dois abismos. O primeiro abismo foi a Encarnação do Verbo, porque, fazendo-se Deus homem, se abismou e sumiu de tal sorte a divindade na natureza humana, que desapareceu totalmente, e por isso, estando dentro nela, não aparecia. O segundo abismo foi o lavatório dos pés, porque, tendo-se Cristo sumido na Encarnação, enquanto Deus, lançado depois aos pés dos homens, também se sumiu ali, enquanto homem. O mesmo Cristo o disse: Ego sum vermis, et non homo; opprobrium hominum, et abjectio plebis (Sl 21, 7): Eu sou um bichinho da terra, e não sou homem, porque sou o opróbrio dos homens, e o abjeto da plebe. - E quem é esta plebe, e quem é este abjeto? A plebe eram os apóstolos, por natureza, por geração e por ofício plebe, porque eram uns pobres pescadores; e o abjeto desta plebe era Cristo posto a seus pés e lavando-lhos, porque não pode haver ato mais abjeto e vil, e mais inferior à mesma plebe, que ajoelhar-se diante dela e lavar-lhe os pés. A água era somente a de uma bacia, mas o abismo da ação era tão profundo que nele se abismou e sumiu de tal sorte Cristo, ainda enquanto homem, que já não parecia nem aparecia nele sinal do que era, senão uma negação do que tinha sido: Non homo: um não homem. Muito mais se desfez logo Cristo sem comparação, e muito mais fez o seu amor no ato do lavatório dos pés que na obra da Encarnação, porque na Encarnação fez-se homem, no lavar os pés aos homens fez-se não homem: Non homo.
 
E se assim se sumiu Cristo lavando os pés a Pedro e aos outros discípulos, que direi eu, ou que posso imaginar, quando o vejo prostrado aos pés de Judas? Aqui se somem também até os entendimentos dos serafins, e emudecem de pasmo as línguas dos anjos. - Se Pedro, Senhor, vos disse assombrado: Tu mihi: Vós a mim? - com quanto maior assombro vos podemos nós dizer - Tu Judae: Vós a Judas? A Judas, aquele traidor endemoninhado, de quem diz S. João: Cum diabolus jam misisset in cor ut traderet eum Judas <ref>"''Como já o diabo tinha metido no coração a Judas a determinação de o entregar (Jo 13, 2).''"</ref>? A Judas, aquele precito infernal e maior de todos os precitos, do qual vós mesmo dissestes: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille <ref>"''Melhor fora ao tal homem não haver nascido (Mt 26, 24).''"</ref>? Não quero outra ponderação que estas vossas mesmas palavras. - Diz Cristo que em Judas era melhor o não ser que o ser, e não se pudera mais encarecer, nem a ínfima miséria de Judas, nem o ínfimo abatimento de Cristo posto a seus pés. Eu bem sei as sutilezas com que a filosofia disputa se em Judas e em qualquer outro condenado fora melhor o não ser que o ser; mas, onde temos uma conclusão absoluta de Cristo, não valem nada as argúcias dos filósofos. Salomão faz três classes de homens: os vivos, os mortos e os que não nasceram; e só na consideração dos males temporais desta vida antepõe os mortos aos vivos, e os que não nasceram a uns e outros. Que diria se fizera a comparação com os males eternos que esperavam a Judas, e com o pecado em que estava obstinado, que é o maior de todos os males? Por todas as razões era melhor em Judas o não ser que o ser. E que se pusesse Cristo aos pés de um homem, cujo ser era pior que o não ser? Do ser, qualquer que seja, ao não ser, há infinita distância; e sendo esta distância infinita, hoje se viram no Cenáculo de Jerusalém dois degraus, ou dois estados mais abaixo do não ser. O primeiro em Judas, que estava mais abaixo do não ser, porque lhe fora melhor não ser que ser; e o segundo em Cristo que, estando Judas mais abaixo do não ser, ele estava aos pés de Judas. Medi agora, começando de Deus, a baixeza em que esta posto o Filho do mesmo Deus, por amor dos homens. Abaixo de Deus, com infinita distância, está todo o criado; abaixo de todo o criado, com distância também infinita, está o não ser; abaixo do não ser está Judas, e abaixo de Judas está Cristo. Tanta diferença vai de Deus no dia da Encarnação feito homem, a Cristo no dia de hoje, posto aos pés de tal homem! Aquele foi o cum dilexisset, este é o in finem dilexit
 
== Notas ==
500

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