Diferenças entre edições de "Sermão do Mandato (1655)"

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PArte 6
(Parte 5)
(PArte 6)
Esta conseqüência, como forçosa, a que a humilhação do primeiro mistério obrigou e empenhou a Cristo para a humildade do segundo, reconheceu profeticamente Davi, quando disse: Abyssus abyssum invocat ( Sl 41 , 8 ): que um abismo chama outro abismo. - Abismo já sabeis que é um pego imenso e profundíssimo, como aquele de que fala a Escritura na primeira criação dos elementos: Et tenebrae erant super faciem abyssi <ref>"''E as trevas cobriam a face do abismo (Gên 1, 2).''"</ref>. E que dois abismos foram estes, em que o primeiro chamou pelo segundo? Não dissemos ao princípio que o dia da Encarnação se falava com o dia de hoje: Dies diei eructat verbum <ref>"''Um dia diz uma palavra a outro dia (Sl 18, 3).''"</ref>? Pois, quando estes dois dias se falaram, então chamou o mistério da Encarnação pelo mistério do lavatório dos pés, e estes foram os dois abismos. O primeiro abismo foi a Encarnação do Verbo, porque, fazendo-se Deus homem, se abismou e sumiu de tal sorte a divindade na natureza humana, que desapareceu totalmente, e por isso, estando dentro nela, não aparecia. O segundo abismo foi o lavatório dos pés, porque, tendo-se Cristo sumido na Encarnação, enquanto Deus, lançado depois aos pés dos homens, também se sumiu ali, enquanto homem. O mesmo Cristo o disse: Ego sum vermis, et non homo; opprobrium hominum, et abjectio plebis (Sl 21, 7): Eu sou um bichinho da terra, e não sou homem, porque sou o opróbrio dos homens, e o abjeto da plebe. - E quem é esta plebe, e quem é este abjeto? A plebe eram os apóstolos, por natureza, por geração e por ofício plebe, porque eram uns pobres pescadores; e o abjeto desta plebe era Cristo posto a seus pés e lavando-lhos, porque não pode haver ato mais abjeto e vil, e mais inferior à mesma plebe, que ajoelhar-se diante dela e lavar-lhe os pés. A água era somente a de uma bacia, mas o abismo da ação era tão profundo que nele se abismou e sumiu de tal sorte Cristo, ainda enquanto homem, que já não parecia nem aparecia nele sinal do que era, senão uma negação do que tinha sido: Non homo: um não homem. Muito mais se desfez logo Cristo sem comparação, e muito mais fez o seu amor no ato do lavatório dos pés que na obra da Encarnação, porque na Encarnação fez-se homem, no lavar os pés aos homens fez-se não homem: Non homo.
 
E se assim se sumiu Cristo lavando os pés a Pedro e aos outros discípulos, que direi eu, ou que posso imaginar, quando o vejo prostrado aos pés de Judas? Aqui se somem também até os entendimentos dos serafins, e emudecem de pasmo as línguas dos anjos. - Se Pedro, Senhor, vos disse assombrado: Tu mihi: Vós a mim? - com quanto maior assombro vos podemos nós dizer - Tu Judae: Vós a Judas? A Judas, aquele traidor endemoninhado, de quem diz S. João: Cum diabolus jam misisset in cor ut traderet eum Judas <ref>"''Como já o diabo tinha metido no coração a Judas a determinação de o entregar (Jo 13, 2).''"</ref>? A Judas, aquele precito infernal e maior de todos os precitos, do qual vós mesmo dissestes: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille <ref>"''Melhor fora ao tal homem não haver nascido (Mt 26, 24).''"</ref>? Não quero outra ponderação que estas vossas mesmas palavras. - Diz Cristo que em Judas era melhor o não ser que o ser, e não se pudera mais encarecer, nem a ínfima miséria de Judas, nem o ínfimo abatimento de Cristo posto a seus pés. Eu bem sei as sutilezas com que a filosofia disputa se em Judas e em qualquer outro condenado fora melhor o não ser que o ser; mas, onde temos uma conclusão absoluta de Cristo, não valem nada as argúcias dos filósofos. Salomão faz três classes de homens: os vivos, os mortos e os que não nasceram; e só na consideração dos males temporais desta vida antepõe os mortos aos vivos, e os que não nasceram a uns e outros. Que diria se fizera a comparação com os males eternos que esperavam a Judas, e com o pecado em que estava obstinado, que é o maior de todos os males? Por todas as razões era melhor em Judas o não ser que o ser. E que se pusesse Cristo aos pés de um homem, cujo ser era pior que o não ser? Do ser, qualquer que seja, ao não ser, há infinita distância; e sendo esta distância infinita, hoje se viram no Cenáculo de Jerusalém dois degraus, ou dois estados mais abaixo do não ser. O primeiro em Judas, que estava mais abaixo do não ser, porque lhe fora melhor não ser que ser; e o segundo em Cristo que, estando Judas mais abaixo do não ser, ele estava aos pés de Judas. Medi agora, começando de Deus, a baixeza em que esta posto o Filho do mesmo Deus, por amor dos homens. Abaixo de Deus, com infinita distância, está todo o criado; abaixo de todo o criado, com distância também infinita, está o não ser; abaixo do não ser está Judas, e abaixo de Judas está Cristo. Tanta diferença vai de Deus no dia da Encarnação feito homem, a Cristo no dia de hoje, posto aos pés de tal homem! Aquele foi o cum dilexisset, este é o in finem dilexit.
 
== § VI ==
 
O Sacramento do Altar e o mistério da Encarnação. Se Cristo, Senhor nosso, se chamou Jesus, como diz o profeta Isaías que o Filho que nascesse de uma Virgem se havia de chamar Emanuel? No caso em que Adão não pecasse, se havia de encarnar Deus?
 
Tarde chego, sacramentado Senhor, à comparação desse sacrossanto e diviníssimo mistério com o mistério de vossa Encarnação, também diviníssimo; mas esse mesmo trono de majestade, em que vos vemos e adoramos, ou vos adoramos sem vos ver, nos está publicando os triunfos de vosso amor neste dia, em que por ser o último de vossa visível presença, vos deixastes conosco. Seja esta a primeira prova.
 
Profetizando Isaías o mistério da Encarnação do Verbo com palavras mais expressas e circunstâncias mais singulares que todos os outros profetas, disse que uma Virgem conceberia e pariria um Filho, o qual se chamaria Emanuel: Ecce Virgo concipiet, et pariet Filium, et vocabitur nomen ejus Emmanuel (Is 7, 14). Nesta última palavra reparam muito os pouco versados na frase da Escritura. Cristo, Senhor nosso, não se chamou Emanuel, chamou-se Jesus: como diz logo o profeta que o Filho que nascesse de uma Virgem se havia de chamar Emanuel? Mas este reparo, como digo, é por ignorância da frase hebréia. Na língua hebraica, assim como as coisas se chamam palavras: verba, assim o chamar-se significa ser, e isso quer dizer vocabitur. Da mesma frase usou o anjo, no mesmo dia e mistério da Encarnação, anunciando à Virgem que o que de suas puríssimas entranhas havia de nascer se chamaria Filho do Altíssimo: Filius Altissimi vocabitur (Lc 1, 32) - sendo assim que Cristo, por humildade, não se chamava Filho do Altíssimo, senão: Filius hominis: Filho do homem. Mas falaram por esta frase, assim o profeta como o anjo no mesmo caso, porque vocabitur quer dizer será. Suposto, pois, que o chamar- se significa ser, e o nome se toma pelo significado, que quis significar o profeta quando disse que o Filho que nasceria de uma Virgem se havia de chamar Emanuel? Emanuel quer dizer: Nobiscum Deus: Deus conosco, e isto é o que anunciou e prometeu Isaías nesta famosa profecia, dando por nova aos homens, tão admirável como certa, que aquele mesmo Deus, cuja majestade se conservou sempre tão retirada e longe de nós, sem jamais se abalar nem sair do céu, agora se havia de humanar tanto, que se fizesse homem, e descesse à terra para nela morar e estar conosco: Nobiscum Deus.
 
Disse, sem se abalar jamais nem sair do céu, porque quando se diz nas Escrituras que Deus formou o barro de Adão, e que desceu a impedir a fábrica de Babel, e que apareceu a Moisés na sarça, e lhe deu a lei no Monte Sinai, e outras ações semelhantes, os que obravam visivelmente estas coisas - segundo o mais provável sentir dos doutos - eram anjos que representavam a Deus, e não o mesmo Deus em pessoa. Por isso Deus naquele tempo dizia: Caelum mihi sedes est <ref>"''0 céu é o meu trono (At 7, 49).''"</ref>. E Davi contava e cantava por grande maravilha que, estando Deus tão alto, se dignasse de olhar cá para baixo e por os olhos na terra: Quis sicut Dominus Deus noster, qui in altis habitat, et humilia respicit in caelo et in terra <ref>"''Quem há como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas, e atende às coisas humildes no céu e na terra (Sl 112, 5 s)?''"</ref>? Porém, como o amor não se contenta de longes, e sofre mal ausências, pode tanto o amor dos homens com Deus que o trouxe do céu à terra, e o fez homem, não tanto para nos remir e salvar - como muitos cuidam - quanto pelo desejo que tinha e pelo gosto que havia de ter de estar conosco: Nobiscum Deus.
 
É celebérrima questão entre os teólogos, no caso em que Adão não pecasse, se havia de encarnar Deus? Santo Tomás e a sua escola dizem que não. Scoto, com a sua, afirma que sim. Distingo e concordo ambas as opiniões. Porque Adão pecou, encarnou Deus em carne passível, porque era mais proporcionado à culpa, e mais conveniente à satisfação o padecer e morrer. Porém, se Adão não pecara, havia de encarnar contudo Deus, mas em carne impassível, porque onde não havia culpa, não era necessária a pena, e fazia-se homem no tal caso, não para satisfação do nosso pecado, senão para satisfação do seu amor. Não é esta distinção minha, senão do mesmo Concílio Niceno: Qui propter nos homines, et propter nostram salutem incarnatus est: Encarnou Deus por amor de nós e por amor de nossa saúde. - Onde se vê claramente que o mistério da Encarnação teve dois motivos distintos: um motivo o remédio, e outro motivo o amor, mas o amor primeiro que o remédio. De sorte que, se o remédio não fora necessário, pelo motivo só do amor dos homens havia de encarnar Deus, porque esse foi o primeiro motivo, e o primário: Qui propter nos homines. Íeis visitar um amigo, soubestes no caminho que estava ferido, e visitastes-lo como amigo e como ferido, mas com tal pressuposto, que, se não estivera ferido, só por amigo o havíeis de visitar, que este foi o vosso primeiro intento. O mesmo sucedeu no mistério da Encarnação, ao qual Zacarias chamou visita de Deus: Visitavit nos, oriens ex alto <ref>"''Lá do alto nos visitou este sol no oriente (Lc 1, 78).''"</ref>. O primeiro decreto de Deus se fazer homem, antes da previsão do pecado, foi unicamente o amor dos homens, e para morar e estar com eles, como já então dizia: Deliciae meae esse cum filiis hominum <ref>"''Achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens (Prov 8, 31).''"</ref>. Aconteceu depois o pecado de Adão, e a ferida mortal do gênero humano, com que ao motivo do amor se ajuntou o motivo do remédio, e Deus, que só nos havia de visitar por amigo, nos visitou também por feridos. Propter nos homines, et propter nostram salutem <ref>Por amor de nós homens, e por amor de nossa saúde.</ref>. E assim como ao outro amigo na visita que só fazia por amor e por gosto, lhe acresceu a dor e a pena, assim Deus, que havia de vir homem impassível, veio passível. Em suma, que o intento e fim da Encarnação, como dizia, não foi tanto para Deus nos remir e salvar, que foi o segundo motivo, quanto para satisfazer a seu amor e estar conosco, que foi o primeiro; e por isso Isaías, que com tanta expressão de circunstâncias revelou os arcanos da Encarnação do Verbo, podendo dizer que o Filho que havia de nascer da Virgem se chamaria Jesus, que quer dizer Salvador, não disse senão que se chamaria Emanuel, que quer dizer Deus conosco, porque o principal motivo de Deus se fazer homem não foi tanto o remédio de salvar os homens, quanto o amor e desejo de estar com eles: Nobiscum Deus.
 
== Notas ==
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