Abrir menu principal

Eu poucas vezes canto os casos melancolicos

(Eu poucas vezes canto os casos melancolicos)
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
E as desditas crueis do proprio coração;
Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
Da muza sem pudor que mostra no caminho
A liga á multidão.

A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
Põe crémes triviaes!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
Ó deusa virginal das coleras celestes,
Das graças juvenis!

Retine a cançoneta alegre das bachantes,
Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
E julgam já escutar a voz do paraiso,
Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
Das musas dos cafés!

Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
Estiolada e gentil, que vem depois da missa
Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
Nem a fada que sente um vaporoso tedio
Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
A menina gentil que ás portas das egrejas
Emquanto a multidão galante adora a cruz,
A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
Nas pompas ideaes da moda, que a consola
Das magoas do Jesus!

E nas horas de luta emquanto os povos choram
E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
Não posso dizer bem se acaso tu serás
A senhora que espalha os languidos fastios
Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
Á viva luz do gaz!

Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
De fronte immaculada e seios virginaes,
Que desenha no espaço o limpido contorno
E cinge na cabeça o virginal adorno
De folhas naturaes.

Tens a linha ideal das candidas figuras;
As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
Da austera virgindade; as bellas correcções;
E segues magestosa em teu longo caminho
Deixando fluctuar a tunica de linho
Ás frescas virações!

Quando trava batalha a tua irmã Justiça
Acodes ao combate e apontas sobre a liça
Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na belleza harmonica das cousas
Sentindo que se move um mundo sob as louzas
No germen d'uma flôr!

N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
O latego febril das grandes punições;
E vendo-te sorrir, a geração doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das morbidas canções!

Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
O manto constellado, ó deusa dos assombros,
Até chegar um dia ás regiões de luz,
Aonde, na poeira aurifera dos astros,
Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
As chagas de Jesus!

Logar á minha fada ó languidas senhoras!
E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
Dos novos ideaes!