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ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA (INTERMESSO)
ADVERTÊNCIA ACERCA DAS ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA

Havia o tradutor omitido a princípio esta pequena parte do poema; movera-o a isso o receio de quebrar importunamente o fio dramático; e, mais que tudo, o horror à escuridade que afronta e regela o trecho todo, no conceito dos próprios alemães.

Ficaram-no todavia remordendo escrúpulos por uma parte, por outra receios do que diriam praguentos, pelo decote cérceo de tal enxerto; e (custasse o que custasse, e desse por onde desse) resolveu à última hora que se atulhasse o fosso, para que o poema saísse, se não mais aprazível a quem houvesse de o correr, pelo menos sem a pecha de incompleto.

Cabe porém advertir que o próprio autor, já talvez por descargo de consciência, intitulara intermesso esta ensancha alinhavada no seu manto poético, e da qual os seus patrícios, e seus primeiros admiradores, nenhuma conta fazem nas representações do Fausto.

Outro tanto poderão fazer os nossos leitores quando aqui chegarem.

Pelo que toca ao mérito literário e poético do fragmento, muito de indústria se abstém o tradutor de emitir aqui a sua opinião. Declara só que nenhuma outra parte de todo o livro lhe queimou tanto o sangue como esta; e que ainda agora lhe desvela horas da noite o cuidar, se às vezes não andaria perdido por tão intrincado labirinto.

As Áureas Núpcias são, em boa e leal verdade, uma enfiada de adivinhações, mais temperadas, ao que se pode crer, de pimenta que de sal, e com cujo sentido alusivo, ou satírico, dou que nem já atinarão hoje em dia os mais dos leitores dessas Alemanhas.

Vai pois a coisa o melhor, ou o menos mal que por cá se pôde entender e interpretar.

ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA OU OS CINQÜENTA ANOS DE CASADOS
(INTERMESSO)

<poem> O DIRECTOR DO TEATRO Sus, boa gente de Miedingue! folguedo franco hoje nos vingue da eterna lida teatral. Para o bailete alegre e vário aí ’stá nosso único cenário: um monte seco, e um fresco val.

ARAUTO De oiro se chama o casamento que atingiu de anos meio cento mas eu mais de oiro o chamarei, quando, após guerras desabridas, a paz reenlaça as duas vidas. Esse é que é de oiro, e oiro de lei.

OBERON Olá, meus génios! se a alegria, que me alvoroça neste dia, é para vós também prazer, deveis mostrá-lo. Hoje a Rainha, graças a Amor, volve a ser minha, como eu já dela torno a ser.

PUCK Cá vem Róbim desengonçado, como pião num pé firmado, e à roda dele o outro a girar. Doutros que tais profuso bando o vem à farta acompanhando, que a todos toca este folgar.

ARIEL Cá está o Ariel dos sons divinos, que enleva a muitos malandrinos, e a belas mil também atrai.

OBERON Pares de esposos desgraçados, se desejais ser bem casados, lição e exemplo em nós tomai. Quem me hoje alegra o casamento não foi senão o apartamento; o apartamento esperta amor.

TITÂNIA Quem vir mulher que já não zomba, e homem que sempre anda de tromba cure-os de mal tão sem-sabor: mande o marido para o norte, e para o sul mande a consorte; reacendeu-se o extinto ardor.

ORQUESTRA TUTTI (fortíssimo) Besoiros e moscas, e mais parentela que zumbe e gaiteia por vários estilos, as rãs nos caniços, nas tocas os grilos, serão nossa orquestra; quem na ouviu mais bela?

SOLO Lá vem por cornamusa a bolha de sabão, com salsada abstrusa das cantilenas que usa juntar ao seu roncão.

ESPIRITINHO (que se está formando) Pés de aranha, barriga de sapo, e asasitas de um nada vivente, se de ser animálculo escapo, em poemeto darei certamente.

PARZINHO Passinhos, pulinhos por névoas melífluas consomem-te, matam-te em ânsia ilusória. Patinha, patinha, já nunca do ínfimo te irás às esferas; gorou-se-te a glória.

VIANDANTE CURIOSO Que será o que vejo? mascarada sem tom nem som, ou delírio da vista alucinada? será esta realmente a venerada figura de Oberon?

ORTODOXO Não tem unhas nem tem rabo; mas com lhe faltar tal sécia, é, como Os Deuses da Grécia, um verdadeiro diabo.

ARTISTA DO NORTE Só faço por enquanto esboços d’arte; mas cedo, Itália, espero visitar-te.

PURISTA Onde eu me vim meter! que bruxas depravadas! só duas, duas só, só duas empoadas!

RUXA MOCINHA Quem é carcassa usa polvilho, e cobre o corpo o mais que pode; eu monto nua no meu bode; quem é gentil não quer mais brilho.

BRUXA MATRONA Não somos nós tão grosseironas, que te queiramos replicar; mas se co’as graças te apavonas, olha que a rosa há-de murchar.

MESTRE DE CAPELA Besoiro trompa, mosquito gaita, co’a nua pompa da serigaita que tendes vós? grilos e relas a tempo a voz; solfas tão belas sem o compasso com que vos maço são bulha atroz.

O CATA-VENTO (para um lado) Quem viu nunca melhor sociedade? tudo moças, perfeitas donzelas! tudo moços digníssimos delas! que promessas à posteridade!

(Para o outro lado)

Eu se a terra, enquanto encho um só giro, se não abre e os soverte por junto, juro, à fé de quem sou, que barrunto abismar-me no inferno; e prefiro.

XÉNIOS Vespões de acérrimos ferrões cá vimos nós; arredem lá; morder é a chança dos vespões, mais de Satã seu bom papá.

HENNINGS Tem muita graça o denso enxame; que ingenuidade de vespões! ninguém lhe chame maus corações.

MUSAGETE Sim senhor; aqui sim, neste bando de bruxas machuchas é que eu ando no meu elemento. As musas confusas nunca eu trouxe a mandamento.

O EX-GÉNIO DO SÉCULO «Chega-te aos bons» - diz o rifão; portanto, agarra-te ao meu rabo; esta montanha do diabo é como o Parnaso alemão, que ninguém pode ver o cabo.

O VIANDANTE CURIOSO Aquele figurão empertigado, ventas no ar, olho alerta, orelhas fitas, quem será? que fareja azafamado? anda à caça; de quê? de jesuítas.

O GROU Nas águas turvas pesco assim como nas claras; de quaisquer sítios gosto, em sendo à pesca idóneos. Se o tiveras sabido, à fé que não pasmaras de ver tão mão por mão um santo com demónios.

UM MUNDANO Há, sempre houve, e há-de haver, beatos dessa casta que o int’resse conduz, como a boi, pela soga qualquer demo os atrai à sua sinagoga, co’o engodo do lucro; é acenar-lho, e basta.

O DANÇARINO Outro coro lá vem; não ouvis tamboris? Sossegai; não é som de pelejas; são narcejas lá ao longe a gralhar nos caniços movediços.

O MESTRE DE DANÇA Aquele perneia, que é só o que importa; dá saltos cá este, que os olhos entorta; est’outro, o baselga, pirueta; e nem meio pergunta se dança bonito nem feio.

O RABEQUISTA Em toda esta súcia nenhum dos mais gosta; tomaram trincar-se! irias vê-los à aposta de mútuos cortejos! à gaita de fole se deve o milagre; domou alimárias como Orfeu, à lira casando as suas árias.

O DOGMÁTICO Nem objecções nem críticas me hão-de tirar da minha e escusam de gritar; o diabo algo é sem dúvida; se não fosse algo, eu tinha modo de o acreditar?

O IDEALISTA Domina-me a fantasia. Se quanto existe sou eu, havendo gente sandia, ergo sou também sandeu.

O REALISTA Ser é para mim tormento; devo aborrecer o ser; são-me as pernas fundamento que sinto hoje estremecer.

O SUPER-NATURALISTA Dou a tudo isto mil gabos; folgo com estes marmanjos; pois de existirem diabos concluo existirem anjos.

O CÉPTICO Anda após luzes-luzes toda a gente um tesoiro a buscar sempre escondido; a dúvida é aos diabos inerente; fico-me entre eles, que eu também duvido.

O MESTRE DE CAPELA Rãs nos ervançais, grilos nos relvados, músicos danados! moscas e mosquitos! que inferneira é esta! que orquestra! músicos malditos!

OS HABILIDOSOS Somos uns padres sem cuidados; nosso viver é desfrutar. Quando nos tolhem caminhar co’os pés no chão, pronto virados, nas mãos e cabeça firmados, corremos de pés para o ar.

OS LORPAS Que bons bocados que outrora apanhávamos! agora, a poder de rapapés foram-se as solas; e os pés andam co’os dedos de fora.

FOGOS FÁTUOS Recém-nados dos lameiros cá viemos mui lampeiros figurar de cavalheiros assoalhando estes luzeiros.

ESTRELA CADENTE Já fui astro dos céus; caí num mato agreste; poder nenhum me acode. Quem reascender-me pode Do pó em que ora jazo, à cúpula celeste?

OS SÓLIDOS Arreda! afasta! abram caminho! guardar de baixo ervas e arbustos! somos espíritos robustos; pesamos pois um poucochinho.

PUCK (para o sólidos) Nada de peso de elefantes no dia de hoje hoje é mister que todos vençam em farsantes ao próprio Puck; e ele o requer.

ARIEL Se asas tendes vigorosas, por condão da natureza, e do génio criador, é seguir-me com presteza ao montículo onde as rosas dão fragrância e sombra a amor.

ORQUESTRA (pianíssimo)

O sol reaparece; desfaz-se a neblina; nas canas, nas ervas, por toda a colina sussurram as auras; desfez-se o prestígio; de tanta diabrura não resta vestígio...

FINIS LAUS DEO