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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro II - Cena II


Um ESPÍRITO e o dito


ESPÍRITO
Quem me chama?

FAUSTO
Horrendo aspecto!

ESPÍRITO
Pois me evocaste
da minha esfera,
eis-me...

FAUSTO (afastando os olhos, e como quem foge)
Não posso!...

ESPÍRITO

(Durante esta fala, FAUSTO vai fazendo os gestos e accionados que o ESPÍRITO denuncia)

Olha-me! Espera!
Já que almejaste
por ver e ouvir-me,
podes falar!
Olha-me firme
sem titubar!
Aos teus conjuros
obedeci.
Bem! Que me queres?
Pronto! Eis-me aqui.
Pasmas, covarde?
foge-te a cor?
perdeste a fala?
tremes de horror?
O sábio, o forte,
o sem segundo,
o que em seu peito
criava um mundo,
o que nutria
orgulho tal,
que a nós, Espíritos,
se cria igual,
aí jaz por terra
convulso, exausto!
Quem me dá novas
do antigo Fausto?
Tu, que ousaste apostrofar-me
no teu carme,
co’a insolência mais que rara
de afrontar-me cara a cara,
mal que aspiras
o ar que efundo,
já deliras,
já no fundo
mais profundo
do teu ser,
verme calcado,
sentes a vida
quase perdida!

FAUSTO
Eu ceder-te, fogo fátuo!
Nunca tu presumas tal!
Sou Fausto; sou Fausto;
de ti sou igual.

ESPÍRITO
Neste mar,
neste mar tempestuoso
do viver e do actuar,
subo, desço, não repouso,
vou e venho sem cessar
neste mar.
Morredoiras vidas,
mortes renascidas
em fogosas lidas,
sem jamais parar...
eis de que eu fabrico
no imenso tear
as roupas fulgentes
que o rico mais rico,
que o Ente dos Entes
se digna trajar.

FAUSTO
Génio activo e infatigável,
bem que abarques todo o mundo,
eu, Espírito incansável,
posso crer-me a ti segundo.

ESPÍRITO
Segundo a um ser, tua invenção,
mas a mim não.

(Desaparece.)