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CENA II

Um FOGO-FÁTUO e os ditos

FOGO-FÁTUO
Inda que a nossa essência
é saltitar à toa, eu farei diligência,
já que manda quem pode.

MEFISTÓFELES
Esta é que não é feia.
Até já este pífio os homens macaqueia!
Salte-nos para a frente, em nome do diabo;
e ir direito; senão, verás como te acabo
co’a flamante farófia; um sopro basta.

FOGO-FÁTUO
Sei
que está em sua casa; o que mandar fá-lo-ei;
mas veja que esta noite é a festa das diabruras
cá no monte; e eu também sou uma das figuras,
mas vá lá; faltarei, contanto que releve
a um pobre fogo-fátuo o modo como o leve.

FAUSTO
Cuido que já ’stamos no país fantástico
de encantos e sonhos.
Avante, bom guia! Transpõe estes páramos
vazios, tristonhos.
Como umas trás outras nos fogem as árvores,
recurvas, ligeiras!
E os serros baixando-se! E os roncos e os síbilos
das rotas pedreiras, que vão a arquejar!

Que palram as águas? que diz toda a harmónica
loquaz natureza?
Serão ternas mágoas, queixumes, ou cânticos?
é gozo? é tristeza?
de dias celestes celestes memórias?
amor? esperança?
recordos confusos de gostos pretéritos?
vão eco? ou lembrança de lenda a passar?

MEFISTÓFELES
Ui! que algaravia!
Bufídos e pios,
silvos e assobios
cada vez mais perto!
Já antes do dia,
cá neste deserto,
andam levantados
gaios, papafigos!
Que sócios e amigos
tão desafinados
as c’rujas não tem!

FAUSTO
E aqueles pernudos,
ascosos, pançudos,
nas moitas além...
serão salamandras?
E aquelas malandras,
que rompem das gandras,
fazendo ameaços,
lançando mil braços
qual polvo traidor!

MEFISTÓFELES
Meras raizadas,
todas emproadas
a aterrar as gentes,
fingindo serpentes.

FAUSTO
Toupeiras e ratos,
relé variegada,
no musgo dos matos,
na lama encharcada
sem conto esfervilham.
Para a festa voam, brilham,
vaga-lumes aos milhares,
azoinado redemoinho.

MEFISTÓFELES
Mas seguimos nós caminho,
ou quedamo-nos pasmados?

FAUSTO
Tenho os olhos já cansados
de ver tudo a rodopiar,
de ver tanto horrendo esgar
nuns penedos desalmados,
na rudez de uns troncos broncos
tão medonhas carantonhas.
Fogos-fátuos nunca vi
como aqui tão abundantes,
alentados e arrogantes.

MEFISTÓFELES (a Fausto)
Mas não me largue a cauda. Estamos na eminência,
que descobre em redor toda a magnificência
do espantoso Mamon*.

FAUSTO
Que baça aurora estranha
se espraia lá por baixo ao sopé da montanha
té ao mais fundo abismo! Aqui surge um vapor,
exalações de além; mais longe um misto horror
de treva e fogo, a andar como um fio delgado,
que afinal como fonte em jorro desatado
serpeia pelo vale em cem veias; confluem
todas ao mesmo ponto, e dali distribuem
no vizinho arredor chispante areia d’oiro.
Quem a escarpa do monte iluminou de estoiro,
toda de cima a baixo?

MEFISTÓFELES
In verbo luminárias,
as do senhor Mamon são extraordinárias;
pois não são? Despicou-se a abrilhantar a festa.
À fé que o meu Doutor nunca esperou por esta;
hein?
Mas tate... que avento a cáfila bravia
vir já lá de rondão ao cheiro da folia.

FAUSTO
Safa, que furacão! Mete-me as costas dentro.

MEFISTÓFELES
Se não quer ir parar do negro abismo ao centro,
Doutor, não há remédio; é com unhas e dentes
ferrar-se por aí às costelas patentes
do serro descarnado. Ui! que nevoeiro cego
cega inda mais a noite, escura como um prego!
Ouviu nunca fragor como anda no arvoredo?
As corujas pelo ar esvoaçam-se de medo;
as colunas do paço eterno-verde racham
as pernadas gemendo estorcem-se e se escacham;
estalam troncos; rota a raizada crepita;
tudo em medonho caos rui e se precipita,
trovejando e silvando até o fundo abismo
das voragens que atulha o horrendo cataclismo.
Não sente vozear lá no alto, e ao longe, e ao perto?
Ora aí vem já de certo
chegando o reboliço
que vem povoar este montês deserto
nas horas do feitiço.