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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro II - Cena IV


CENA IV
WAGNER , de roupão e barrete de dormir, com um candeeiro na mão. FAUSTO vira-se de mau humor.


WAGNER
Queira-me perdoar o interrompê-lo.
 O Mestre estava agora declamando;
não ’stava? Dou que lia alguma cena
do seu teatro grego. O que eu gostava
de ser também um dia actor dramático!
É coisa que anda em moda, e rende fama.
Um moralista cénico, até dizem
ser mais útil que um padre.

FAUSTO
Ah, sim, se o padre
é moralista cómico; há bastantes.

WAGNER
O que me faz cabeça, é como pode
quem vive no seu canto, e não vê mundo
salvo algum dia santo, e só o observa
de longe e por um óculo, repito,
como pode ser guia de costumes.

FAUSTO
E certo que o não pode, se em si mesmo
não sentir lá por dentro o fogo sacro.
É só co’a inspiração própria, espontânea,
que se domina a turba, O chocho, o inerte,
como de seu não tem, mas quer pôr mesa,
 pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra
no seu fogareirinho um lumezito,
e sai-se co’um pitéu de mistifório,
que só porcos ou cães o tragariam.
Se gostas, prol te faça. Mas banquete
que seduza, e convide, e preste aos homens,
só dos miolos teus podes guisá-lo.

WAGNER
E eu a cuidar que nos sermões, o tudo
era a voz, o accionado, o tom solene!
Que lanzudo que eu era!

FAUSTO
Arma aos benesses
sem faltar ao decoro. Farfalhices
e guizalhada a bobos só pertencem.
A paixão verdadeira, o senso recto
escusam de artifício. Assunto sério
não se anda à caça de vistosas frases.
Os discursos de alardo e de oiropeles
com que os vícios zurzis, servem e aprazem
como o vento do outono às folhas secas.

WAGNER
Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.
Já de tanto estudar chego a ter dores
de cabeça e de peito. O achar caminho
certo, seguro, que nos leve às causas,
tem busílis. Primeiro que lá chegue,
pode mil vezes dar o triste à casca.

FAUSTO
Engano, engano! Onde há nuns alfarrábios
nascente milagrosa em que de um sorvo
se fartem para sempre as sedes d’alma?
Refrigério eficaz para tais sedes
só em ti o acharás.

WAGNER
Mas um bom livro!
Não será gosto o recuar nas eras,
ver o que era o saber da primitiva,
e compará-lo ao de hoje? Que progresso!
que esplêndido subir!

FAUSTO
Pois não! já vamos
pelo sétimo céu! Wagner amigo,
o mundo velho é livro arqui-brochado
com sete selos. Isso, que vós outros
apelidais o espírito de um século,
é simplesmente o vosso próprio espírito,
a debuxar fantasmas que abalaram.
Mas que espelho tão pífio a quem o observa!
Faz nojo; faz fugir; bem comparado,
 como um barril do lixo, ou como um sótão
de cacaréus sem préstimo nem graça;
ou, por melhor dizer, como comédia
em barraca de feira, alardeando
pomposas vistas, máximas de arromba,
que em falsetes de títeres chimpadas,
são da plebe regalo e maravilha.

WAGNER
Conhecer o que o mundo e os homens sejam
a toda a gente agrada.

FAUSTO
E essa tal gente
que chama conhecer? Quem é que pode
dar à mínima coisa o nome próprio?
Os raros, que algo disso entreluziram,
e que, em vez de o esconder a sete chaves,
foram à doida assoalhar no vulgo
seu pensar e sentir em toda a parte,
acabaram na cruz ou na fogueira.





Amigo, por quem és, vai alta a noite.
Basta por hoje.

WAGNER
Eu cá por mim gostoso
velara a ouvir tal sábio a vida inteira.
Mas enfim cá me vou. Levo inda uns pontos
por aclarar; nas boas horas fiquem
para amanhã, que é Páscoa d’Aleluia.
Eu moirejo a estudar, e sei já muito,
mas inda não sei tudo.

(Sai)