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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro II - Cena V


FAUSTO ()
Como estes crendeirões esperam sempre!
Fossam na terra, à cata de um tesoiro,
dão co’uma vil minhoca, e ficam pagos!
Mas aqui, aqui mesmo, onde há tão pouco
me conversava um génio, como pude
ouvir a voz deste homem? Todavia
bem hajas tu, misérrimo vivente,
pois vieste arrancar-me ao desespero
que me ia aniquilar.
Tão monstruosa
era aquela avejão, que me sentia
a par dela pigmeu.
Ter eu suposto
que era imagem de Deus! Crer-me chegado
à intuição da verdade, já despido
na plena luz o invólucro terreno!
e exceder querubins! e a meu talante
por toda a natureza insinuar-me,
fruindo gozos da criadora essência!!...
Pago bem caro o orgulho. Trovejou-me
tremenda voz: «És nada.»
Sim. Nem posso
equiparar-me a ti! Pude evocar-te
mas reter-te não pude. Vi-me a um tempo
sumo e ínfimo. Espírito inclemente,
co’um mero Vade retro me atiraste
de novo ao flutuar da sorte humana.

A quem já buscarei para instruir-me?
e de que hei-de temer-me?
É bem que eu ceda
ao meu impulso actual, ou que o resista?
Que maior jus terão sobre a existência
Os males do que a força?
És tu, matéria,
parte vil do meu ser, és tu quem sempre
vem contrastar do espírito os arrojos.
Como na vida há bens, fora da vida
já não cremos que os possa haver maiores.
Altos assomos d’alma, que haveriam
de nos dar a ventura, eis que os afoga
um mar d’interessículos mundanos.
Quando audaz fantasia arranca o voo,
brada insofrida: Eternidade, és minha!...»
leva-lhe as asas repentino raio;
esperança, alegria estão desfeitas,
e um cantinho qualquer então lhe basta.
Mas se a vaidade é ida, aí vem cuidados
ralar-nos o interior e destruir-nos
alegria e descanso; não sossegam;
trajam máscaras mil; agora a casa,
logo o paço, a mulher, a prole, os servos,
fogo, punhal, venenos, mar. Trememos
com receios quiméricos; choramos
perdas sonhadas, ilusórias, nulas.

(Pausa)

Deus, eu! Pois eu não vejo claramente
que não sou Deus? Imagem sua! imagem
mais depressa de um verme: um verme vive
a afuroar na terra, a alimentar-se
do pó da terra, enquanto um passageiro
o não pisa e sepulta.
E em a realidade
que é senão pó tudo isto que me cerca,
em tanta prateleira acumulado?
toda essa pedantona bugiaria,
que inda ao mundo dos vermes me afeiçoa?
Ali é que hei-de achar o que me falta?
Terei de ler milheiros de volumes
para saber que em tudo e em toda a parte
os homens tem vivido a atormentar-se?
não havendo senão de longe em longe
num sítio ou noutro alguém que se não queixe?

(Encarando no esqueleto)

Que me estás tu daí zombeteando,
caveira despejada? Entendo a mofa:
dizes que os teus miolos, quando os tinhas,
também como hoje os meus, esfervilhavam;
tudo era afadigarem-se às escuras
em demanda da luz que vivifica;
por gosto erravas, mísero, qual erro,
traz a verdade e em vão.

(Virando-se para as máquinas)

Se até vós mesmos,
instrumentos, que nunca houvestes alma,
estais co’as vossas cordas e cilindros,
rodas e dentes, a meter-me à bulha!
Eu ter-vos, eu supor-vos chave mestra
de tanto arcano, estar-lhe ansioso à porta,
forcejar... e afinal desenganar-me
de que a chave não diz co’a fechadura!
Ciosa de seus véus a natureza
nem ao mais claro dia se descobre;
e o que ela nos não mostre por si mesma
não lho hão-de arrancar máquinas.
Conservo
para aí todas essas velharias
porque eram de meu pai, que eu fruto delas
inda o não vi; nenhum! Olha a roldana,
como está do candeeiro enfumaçada!
Pudera! um lucubrar de tantos anos!
Melhor eu me tivera descartado
de tão reles herança, encargo e carga
que me faz suar tanto! O que homem herda
só o pode chamar seu quando o utiliza.
Haver que nos não presta é simples ónus.
Só no uso consiste a propriedade.

(Encara numa âmbula de vidro, que está na
 prateleira)

Mas, que atracção possante,
dalém, a todo o instante,
me está chamando o olhar?
Âmbula cristalina,
teu brilho me fascina,
me alegra e me ilumina.
Nesta alma, selva escura,
graças a ti fulgura
esplêndido luar.

(Tira a âmbula)

Salve, ó cristal que eu tiro
do ocioso teu retiro
com fé, com devoção!
Conténs a quinta essência
da indústria, da ciência,
a inércia, a sonolência,
a morte fulminante.
Sê-me, ó licor prestante,
refúgio e salvação.

Miro-te, e a dor se acalma.
Empunho-te, e já n’alma
se infiltra placidez.
Outra maré que estua:
Que ímpeto em mim actua!
e sobre a face tua,
vítreo estendal das vagas
me arroja a ignotas plagas
onde outros céus já vês.

Ígnea carroça alígera
aí vem tomar-me. Parto.
Já por caminho insólito
da terra vil me aparto.
Remonto no éter fluido.
Sacudo a humanidade.
Engolfo-me nos vórtices
da suma actividade.

Oh! que existir magnífico!
Sublimo-me até Deus.
Sus, verme; sus, blasfemo,
que o ínfimo ao supremo
alças nos sonhos teus!

De insanos terrores zomba!
Costas vira ao sol da terra!
Portão que a todos aterra,
eis braço audaz que te arromba.
Por um acto só pendente
da minha própria vontade,
provarei que a humanidade
é também omnipotente;
que não passam de delírios,
abortos da mente insana
esses infernos-martírios
com que a morte à vida engana.
Almejo ir com ledo rosto
devassar o passo estreito,
onde o humano preconceito
tão vivos fogos tem posto.
Partamos! É vinda a hora;
rompa-se a treva cerrada;
embora no arrojo, embora,
meu ser se resolva em nada.

(Tira um copo lavrado)

Desce! Vem! Sai do cofre esquecido
(e há bem anos) oh taça, que hás sido
dos avitos festins o prazer.
De conviva a conviva girando
nenhum triste, em te aos lábios chegando,
resistia ao teu ledo poder.
Cada um quando a vez lhe chegava,
sua trova às figuras cantava
do teu fúlgido insigne lavor,
e depois te enxugava de um trago.
Como em voz a sorrir inda vago,
tempos bons do meu flóreo verdor!
Agora estou sozinho;
não há já ’í vizinho
a que haja de passar-te.
Agora já não tenho
que me apurar o engenho
nos teus primores d’arte.
Bom! Venha este licor que súbito inebria;
dele é que te hei-de encher; eu mesmo o preparei;
nenhum lhe chega em força.

(Depois de ter vazado o veneno, da âmbula
 para o copo, diz com solenidade:)

Aurora do grão dia!
Com este tetro misto alfim te brindarei!

(Ao chegar a taça aos lábios tangem campas; ouvem-se anjos a cantar)

CORO DE ANJOS(não vistos pelo espectador, sons que chegam da Igreja vizinha)
Cristo ressuscita!
Jubilai alturas!
Paz às criaturas,
salvas e seguras
da prisão maldita!

(Continuam a ouvir-se ao longe repicar os
 campanários da cidade.)

FAUSTO
Que divina toada e inesperado encanto
dos lábios me repulsa o líquido letal!
Este repique ao longe é já o sinal santo
que anuncia aos fieis o júbilo Pascal?
Será este cantar o do celeste coro
que outrora em dia igual, trocando em festa o choro,
por cima do sepulcro aberto ao Redentor
hosanas entoara à nova lei do amor?

CORO DE MULHERES (que cantam, sem serem vistas
também, no próximo templo)
Por nós, seus devotos
aqui foi trazido;
aqui, entre votos
de aromas ungido,
aqui o envolvemos
no linho mais fino.
Como é que o perdemos,
o Mestre Divino?

CORO DOS ANJOS (que não são vistos)
Ressurgiu Cristo amante,
ileso, triunfante
de tanta provação.
Traz por coroa ufana
a humana salvação.

FAUSTO
Vozes celestiais, potente suavidade,
que assim baixais ao pó, de mim que pretendeis?
Não faltam por aí fracos em quem podeis
empregar-vos em cheio. Oiço-vos, é verdade,
mas falece-me a fé... Sem fé, que racional
daria seu assenso ao sobrenatural?
Àquelas regiões, donde oiço a boa nova,
não ouso abalançar-me. E ainda todavia,
só porque na puerícia os mesmos sons ouvia,
como que reverdeço, e o crer se me renova.
Ai, domingo Pascal, o que eras algum dia!
Coavas por mim dentro um ósculo celeste.
O argentino repique era uma profecia...
Ai, dia do Senhor, que júbilos me deste!
Era-me êxtase orar. Impulso irresistível,
inefável saudade, encanto indefinível
me levava a girar nos campos florescentes,
ou no mais ermo bosque, onde em silêncio fundo,
debulhando-me à farta em lágrimas ferventes,
sentia dentro n’alma abrir-se um novo mundo.
Este alegre cantar era, naquela idade,
um bando de folgança à pronta mocidade:
Vinha lá primavera! Inda hoje estas lembranças
de boa fé tamanha e tão pueris folganças
tanta força em mim tem, que junto ao passo extremo,
depois de resoluto... hesito, se não tremo.
Bem hajais! Prossegui!... oh cânticos celestes,
que abrir-me enfim soubestes
a fonte onde a ternura as lágrimas encerra.
Por vencido me dou: reconquistou-me a terra.

CORO DOS DISCÍPULOS (Invisíveis para o espectador)
Do avarento moimento arrombado
reascendeu para o trono paterno,
Deus de Deus, luz de luz, sempiterno,
perenal Criador incriado.
Ai de nós! ai, que invejas ao Mestre!
De ora avante sem ele tão sós
cá ficamos no exílio terrestre,
Ai saudades! ai céus! ai de nós!

CORO DOS ANJOS (invisíveis para o espectador)
Da corrupção da morte
alou-se incorruptível.
Discípulos do forte,
fugi da mesma sorte
da culpa à herança horrível!
Aos que amam de verdade,
cumprem a caridade,
e para a eternidade
chamando os homens vão,
a esses, pia gente,
o que chorais ausente
é, foi, será presente:
pai, mestre, amigo, irmão!