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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro III Cena II


A maior parte dos ditos, que giram ad libitum. FAUSTO, WAGNER
(Wagner é um amigo e discípulo do Doutor Fausto)


FAUSTO (conversando e caminhando com Wagner para o proscénio)
Descoalharam-se os rios e ribeiros.
Bem haja a primavera! Já nos viça
por todas essas veigas esperança.
O inverno, já caduco, aí vai buscando
refúgio pelas serras. Pobre inverno!
ver como ainda está baldando raivas
por se vingar da fuga! e nós a rirmos
dos tiros mortos, que de lá nos lança,
granizo imbele, que realça os verdes,
mal que um raio de sol os desmortalha.
Por toda a parte desabrolham vidas.
Que folgazão que é o sol! Como se alegra
de entrajar de matiz a natureza!
Como inda por aqui lhe minguam flores,
supre-as com tanta gente pintalgada.

(Continua sempre a sair gente da cidade)

Vira-te para trás! Desta eminência
olha para a cidade; o formigueiro,
que do escuro da porta vem surdindo!
Não há quem neste dia não cobice
vir ao campo assoalhar-se. Este alvoroço
co’o ressurgir de Cristo, é clara mostra
de outra ressurreição em todos eles.
- Da casa-sepultura, - das canseiras
da oficina ou do trato; - da estreiteza
dessas vielas, que apelidam ruas,
- do soturno dos templos, - é o instinto
quem os promove à luz. Vê com que anseio
se atira a turbamulta ao campo, às quintas!
Que barcadas de gente jubilosa
sobem, descem, transpõem a movediça
veia do rio! Vê-me aquele bote
além, além, o último; de cheio
já mete a borda na água; até as sendas
dos montes lá ao longe estão querendo
quebrar-nos olhos co’as garridas cores
do gentio que as peja. Já cá chega
o estrondear da aldeia. O céu do povo,
se há céu do povo, é isto; o rapazio,
os homens feitos, tudo grita, salta,
ri, tripudia. Aqui me sinto eu homem,
e me é dado que o seja.

WAGNER
Honra e proveito,
Senhor Doutor, é o passear convosco.
Mas eu, se dirigisse este passeio,
não vinha para aqui; nunca achei graça
ao que cheira e tresanda a grosseria.
Este zangarrear cantigas toscas,
estes jogos de bola, esta algazarra,
tudo isso odeio; implica-me co’os nervos.
Andam doidos; parecem-me possessos.
Nem é cantar nem festa; é só balbúrdia.

CAMPONESES debaixo da tília. (Canto e dança, ao som de uma rabeca)

VOZ
Viva o bailarico!
Já está no terreiro
o nosso ovelheiro
de graças mais rico;
laços no pelico,
flores por cimeiro.

CORO
Dancemos, voemos à volta do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Rabeca magana,
tocar sempre assim!

VOZ
Tão sôfrego vinha
que esbarrou no seio
de esbelta mocinha,
que assim reconveio:
- «Olha que lorpinha
«que ao balho nos veio!»

CORO
Dancemos, voemos à roda do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Quem viu nunca, ai mana!
ovelheiro assim?

VOZ
E como vai dando
co’os seus calcanhares!
Gire, gire o bando!
Saias pelos ares!
Ai, já vão cansando;
pendam-se aos seus pares!

CORO
Dancemos, voemos à roda do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Apertar com gana
braços de marfim

VOZ
- «Não seja atrevido,
«que eu não sou daquelas
«com quem se tem rido»
Baldadas cautelas!
Co’o seu repelido
fugiu dentre as belas.

CORO
Dancemos, voemos à volta do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Rabeca magana,
tocar sempre assim!

UM CAMPÓNIO VELHO (trazendo uma infusa, e dirigindo-se para Fausto)
Guapa acção, sô Doutor! Num dia destes
vir juntar-se co’a gente cá de fora,
toda ignorante, um sábio dessa polpa!
Aceite-nos portanto esta infusinha.
Melhor não se encontrou. Que a pinga é fresca,
isso é; mas o que importa mais que tudo
é ser de boamente oferecida
para que a beba em gosto, e tantos anos
lhe acrescente de vida, quantas gotas
contêm no bojo.

FAUSTO
Bem hajais! Aceito
o refresco oportuno; e correspondo
com outro tanto afecto ao de vós todos.

(Reúne-se o povo à roda)

OUTRO CAMPÓNIO VELHO
Quem nos dias ruins não faltou nunca,
bem devia na festa aparecer-nos.
Aqui está, vivo e são, mais de um salvado
pelo pai do senhor, quando as malinas
levavam tudo a eito; e a não ser ele,
inda agora durava a epidemia.
O senhor nesse tempo era um crianço,
e mesmo assim andava em roda viva
co’o paizinho por casa dos enfermos.
Caíam como tordos os defuntos,
e ele sempre de pé. Livrou de boa!
Livrou? Quis de propósito salvá-lo,
para bem nosso, o Salvador do mundo.

TODOS
Viva, viva tempos largos
quem nos põe à morte embargos!

FAUSTO
Reservai para Deus as vossas graças!
Quem ensina a salvar, quem salva é Ele.
(Vão-se todos para o fundo, e depois a pouco e pouco vão-se dispersando, ficando só Fausto e Wagner a conversar no proscénio.)