Abrir menu principal

CENA III

VALENTIM, MARTA e MARGARIDA, primeiro, nas suas janelas e depois na rua, HOMENS e MULHERES

MARTA (com luz à janela)
Acudam!

MARGARIDA (com luz à janela)
Tragam luz!

MARTA (mais alto)
É gente aos gritos:
brigam na rua; ouvi tinir espadas.

(Os populares vêm das casas a correr com luzes.)

HOMEM DO POVO
Homem morto!

MARTA (correndo)
Onde estão os matadores?

MARGARIDA (ainda na janela)
Quem jaz aí?

HOMEM DO POVO
Jaz teu irmão.

MARGARIDA (da janela)
Socorro!
Grande Deus!

(Margarida desce à cena. Todas as mulheres estão chorando, e lamentando o caso umas com as outras.)

VALENTIM
Morro. Curto é o dito; e o feito
muito mais curto. Porque está chorando
todo esse mulherio? Aqui!... Mais perto...
Escutem-me!

(Acercam-se-lhe as mulheres)

Tu, mana Margarida,
inda estás verde em anos e em juízo;
não sabes arranjar-te. Um bom conselho,
aqui muito entre nós. De prostituta
já tu tens praça; então, marchar em frente!
a valer! a valer!

MARGARIDA
Que estás dizendo,
irmão? Meu Deus!

VALENTIM
A que vem Deus chamado
para estas coisas? Por desgraça, o feito
já ninguém to desfaz; e a ruins entranças
mais ruins saídas.

Principiaste, a ocultas,
com um; provado o bolo, acodem outros;
em se chegando à dúzia, é porta aberta.
Vem fraquinha, a princípio, a desvergonha.
Teme ser vista, embuça-se co’as trevas.
Não custava a matá-la. Como a deixam,
medra, até sair nua; e como cuida
que a desnudez a alinda, embora a afeie,
despida, ao sol, na praça, se apavona.
Dentro em bem pouco toda a gente honrada
há-de fugir de ti, rameira indigna,
como se foge de um cadáver podre.
Se alguém te encarar fito, há-de transir-te.
Não pões mais oiros. Já não vais na Igreja
para a capela mor: nem com romeiras
de rendas finas florear nas danças.
Hás-de-te encafuar numa possilga,
refúgio de pedintes e aleijados.
Talvez que Deus ao cabo te perdoe,
mas o mundo é que nunca.

MARTA
Recomende
sua alma a Deus; não ’steja a encarregá-la
com mais ódios e injúrias!

VALENTIM (para Marta)
Quem me dera
poder-te lançar mão desse arcaboiço,
alcaiota maldita! Ai! que indulgência
que indulgência plenária a que eu ganhava!

MARGARIDA
Valentim! meu irmão! ai! que suplício!

VALENTIM
Sabes que mais? Deixemos choradeiras.
Quando tu deste mate ao teu decoro,
correste-me no peito uma estocada
que me acabou.
Já a morte me adormenta.
Vou-me acordar em Deus. Fui bom soldado
e homem de bem; feneço descansado.