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QUADRO XX

Interior de um templo, com eça armada, entre tocheiros acesos. Altar mor do lado direito, e guarda-vento da entrada, à esquerda. Ofício de defuntos, cantado a órgão.

CENA ÚNICA

MARGARIDA, de luto, ajoelhada, com o seu livro na mão. Por trás dela, em pé, o ANJO MAU. MULHERES e BURGUESES, de joelhos.

ANJO MAU Inda te lembra, Margarida, quando tão outra, e fronte erguida, vinhas aos pés daquele altar as santas rezas soletrar do teu livrinho, já tão gasto, dando à tua alma o doce pasto do amor de Deus e do folgar? Hoje só negros pensamentos. Hoje só dor no coração. Mataste a mãe, que arde em tormentos vens sufragar-lhe absolvição? Quem derramou à tua porta um mar de sangue? o teu irmão. De sua voz, já quase morta, que herança houveste? a maldição. Não sentes já nessas entranhas ânsias insólitas, estranhas, presságio atroz de um novo ser? visão que em sonhos te aparece, e que, inda a luz não lhe amanhece, já principia a padecer?

MARGARIDA Deus meu, Deus meu, que já não posso com esta guerra interior. Pelo infinito afecto vosso valei-me, ó Deus, em tanta dor!

CORO Dies iræ, dies illa, Solvet sæculum in favilla,

(Toca o órgão.)

ANJO MAU Tremem-te os membros gélidos. Fatal momento! Troa a trombeta lúgubre do chamamento. De cada aluído túmulo surde um fantasma. Julgavas leito a lápida. Agora pasma, que a vês alçapão lôbrego do fogo ardente, que ressuscita os réprobos eternamente.

MARGARIDA Quem já me dera daqui fora Que órgão, meu Deus! Falta-me o ar. Como é feliz a dor que chora! Não poder eu sequer chorar!...

CORO Judex ergo cum sedebit, quidquid latet apparebit, nil inultum remanebit.

MARGARIDA Ai que opressão! que negra abóbada! Quem me prendeu neste lugar? Quero-me erguer, não posso. Acudam-me! Ar! ar! ar! ar!

ANJO MAU Fugir! Sumires-te! Não, mísera! O teu opróbrio, o teu pecado já não se esconde. A lei do Altíssimo o há decretado.

CORO Quid sum miser tunc dicturus? Quem patronum rogaturus, Cum vix justus sit securus?

ANJO MAU Santo nenhum já te olha, ó réproba. Cada fiel, em tu saindo, para evitar o torpe escândalo te irá fugindo.

CORO Quid sum miser tunc dicturus?

ANJO MAU Vai teu caminho!

MARGARIDA (voltando-se para uma mulher ao pé) Ai! por piedade! o seu vidrinho...!

(Cai desmaiada)