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                         CENA II
OS MESMOS, FAUSTO e MEFISTÓFELES, que entram pela porta do fundo.

MEFISTÓFELES
Houve por bem mostrar-lhe, antes de tudo,
o que são bons vivants. Toda esta malta
faz do folgar seu pão quotidiano.
Pensar pouco e rir muito, eis o que explica
toda essa funçanata. Aqui se gira
à laia dos peões, ou de um bichano
que anda ao redor a ver se apanha a cauda;
pois enquanto a cabeça lhes regula,
e o locandeiro fia, adeus, cuidados!
e estão divertidíssimos.



O BOTAFOGO (aos companheiros, maliciosamente)
Aqueles
vem de jornadear. Logo demonstram,
pelos seus modos, que não são da terra.
Uma hora há só talvez que chegariam.

O RÃS
Certo; e viva Leipsick! Isto é que é terra.
Abaixo de Paris, Leipsick! Um homem
para ser gente, há-de vir cá.

O PENEIRA (baixo, aos companheiros)Mas estes
que diabo serão?

O RÃS (para o Peneira)
Deixa-os comigo!
Faz-se de um bom copázio saca-trapos,
e hão-de desembuchar. Dão-me ares ambos
de ser alguém. Tem caras de enjoados,
modos de soberbões.

O BOTAFOGO
Tunos de feira
aposto.

O QUINTEIRÃO
Pode ser.

O RÃS (enfeitando-se para falar aos dois recém-chegados)
Toma sentido
como eu tos enrodilho.

MEFISTÓFELES (a Fausto)
Estes patetas
nem faro tem para aventar o demo,
que está já, vai não vai, para filá-los.

FAUSTO
Vivam, senhores!

O PENEIRA
Viva!

(Baixo, olhando de soslaio para Mefistófeles.)

Aquele, a modo
que claudica de um pé.

MEFISTÓFELES
Dão-nos licença
de tomarmos assento entre os senhores?
Como não há na casa boa pinga,
folgaremos co’a bela sociedade.

O QUINTEIRÃO
Quer-me a mim parecer que o meu amigo
é biqueiro, de mal acostumado.

O RÃS (a rir)
Digam-me cá: saíram muito tarde
de Ripach? E ceou co’o Mané-Coco?

MEFISTÓFELES
Não senhor. Temos vindo tanto à pressa,
que o não pudemos. Na última jornada
sim, por sinal que nos contou mil coisas
dos primos da cidade, encarregando-nos
de dar a cada um muitas saudades.

(Cortejando de cabeça.)

O QUINTEIRÃO (baixo, a Rãs)
Apanha! Capiscou-te. É fino o meco.

O PENEIRA
É pássaro-bisnau.

O RÃS (aos companheiros)
Eu já to arranjo.

MEFISTÓFELES
Se nos não enganamos, figurou-se-nos
lá ao longe escutar para esta parte
um coro magistral; aqui as vozes
debaixo desta abóbada, por força
que hão-de fazer efeito peregrino.

RÃS
Dar-se-á que seja acaso o nosso amigo
cantor de profissão?

MEFISTÓFELES
Quem dera um disso!
Vontade não me falta; agora as forças...

O QUINTEIRÃO
Petas da vida; uma cantiga!

MEFISTÓFELES
Um cento.

O PENEIRA
Coisinha nova.

MEFISTÓFELES
Pronto. Agora mesmo
vimos de Espanha; em vinho e cantorias,
não quero que haja terra igual àquela.

(Canta.)

Catava-se um rei, quando acha
nas suas meias reaes
uma grande pulga macha,
pai-avô e Adão das mais,

O RÃS
Vocês não ouvem? Que hóspede! uma pulga!...



MEFISTÓFELES (continuando a cantar)
Causou no rei tal encanto
a lindeza do animal,
que desde logo o amou tanto
como ao príncipe real.

Chama o alfaiate régio,
e diz-lhe: - «Fará favor
de arranjar um fato egrégio
aqui a este senhor.

Não se esqueça que é preciso
trazer-lhe calções também.
Faça a obra de improviso;
talhe-a justo, e cosa-a bem.»

O BOTAFOGO
Olhe lá! O tal rei, que diga ao mestre
que, se a farpela não sair bem feita,
com ele se há-de haver; e se as calçotas
fizerem pregas, cortam-lhe o gasnete.

MEFISTÓFELES (continuando a cantar)
No clero, nobreza, e vulgo,
foi imensa a admiração,
a primeira vez que o pulgo
se mostrou de fardalhão.

Eram bordados, veludo,
rendas, laçarrões, cetim,
rebrilhando sobre tudo
as veneras e o espadim.

Deu-lhe el-rei grã-cruz e pasta,
um viscondado, e o poder
de elevar e enriquecer
aos bichos da sua casta.

Teve inda outro privilégio
muito invejável, que foi:
pastar, comer como um boi
nas damas do paço régio,

e até na própria rainha;
sem nenhuma ter acção
de coçar tal comichão
nem recusar-lhe a maminha,

quanto toda a outra gente,
se a morde a pulga, o que faz?
Vai co’os dedos de repente,
pilha-a, estortega-a, e trás!

TODOS (levantando-se em coro alegríssimo)
Vai co’os dedos de repente,
pilha-a, estortega-a, e trás!

O RÃS
Bonita peta! bravo!

O PENEIRA
Abaixo as pulgas!...

O BOTAFOGO
Esticar dedos, zumba, estão pilhadas.

O QUINTEIRÃO
Viva e reviva a liberdade e o vinho!

MEFISTÓFELES
Eu, em honra e louvor da liberdade,
também vazava um copo, se não fora
tão soez a mistela cá da casa.

O PENEIRA
Cale a boca praguenta!

MEFISTÓFELES
Se eu soubesse
que se não agastava o taberneiro,
oferecia à bela sociedade
um quod ore do nosso. Estou que haviam
lamber-lhe os beiços.

O PENEIRA
Venha sempre, venha.
Com ele eu me haverei.


O RÃS
Sendo a pinguinha
do que a gente mastiga, e farta a dose,
cá louvor ao que é bom não se recusa.

O QUINTEIRÃO (baixinho)
São do Reno, já vejo.

MEFISTÓFELES
Uma verruma,
se a há!

O BOTAFOGO
Mas para quê? Deixou na rua,
fora da porta, a pipa?

O QUINTEIRÃO
O taberneiro
há-de ter disso ali naquele canto,
na cesta em que arrecada a ferramenta.

MEFISTÓFELES (tira da cesta um trado. A Rãs.)
Para o seu paladar, que vinho escolhe?
Peça por boca!

O RÃS
Diz então na sua
que tem de toda a casta?

MEFISTÓFELES
O que repito
é que peçam por boca!

O QUINTEIRÃO (a Rãs)
Este já cuida
que está chuchurreando.



O RÃS
Eu, já que é livre
a cada um pedir, peço do Reno;
sempre é vinho patrício.

MEFISTÓFELES (furando na borda da mesa, diante do lugar de Rãs)Arranjem cera,
que há-de servir para fazer batoques.

O QUINTEIRÃO
Prestigiações, aposto.

MEFISTÓFELES (apontando para o Botafogo)
E o seu vizinho?

O BOTAFOGO
Eu cá, champanha; e que esfuzeie escumas.

(Mefistófeles vai furando. Um vai no entanto tapando os buracos com as rolhas de cera)

Nem tudo que é da estranja há-de enjeitar-se.
Muita coisa há bem boa em longes terras.
Sou alemão de lei: detesto a França
pessoalmente falando; agora os vinhos...

O PENEIRA (ao aproximar-se-lhe Mefistófeles)
Sempre embirrei com pinga avinagrada.
Para mim, quero vinho de senhoras,
docinho.

MEFISTÓFELES (furando)
Aí tem Tokay.

O QUINTEIRÃO
Leva de brinco.
Dar-se-á que estes senhores se apostassem
a vir zombar de nós?



MEFISTÓFELES
Zombar! que ideia!
Zombarmos com tão nobre sociedade,
era audácia de mais.

(Para o Quinteirão)

Sem cerimónia,
de qual toma?

O QUINTEIRÃO
Qualquer, mas desempate!

MEFISTÓFELES (que, diante de todos, vai fazendo buracos que se tapam com rolhas, canta.)
De si cachos a parreira,
de si pontas deita o bode.
Logo, a exemplo da videira,
deitar vinho a mesa pode,
apesar de ser madeira.

Grande abismo, ó natureza!
Quem rastreia os teus caminhos!
Ora sus, mortais mesquinhos!
Rolhas fora! Aí vão da mesa
borbotar caudais de vinhos.

(Todos tiram as rolhas, e a cada um corre no copo o vinho que desejou.)

TODOS
Que belo chafariz!

MEFISTÓFELES
Mas sumo tento
em não verter por fora alguma gota.

(Bebem repetidas vezes.)

TODOS (cantando)
Beber, beber! sinto barruntos
de desbancar qualquer selvagem!
Beber, beber, quais na lavagem
bebem quinhentos porcos juntos.

MEFISTÓFELES (a Fausto)
Aí tem o povo livre, e os seus regalos!

FAUSTO
Tomara-me já longe destes brutos.

MEFISTÓFELES
Inda isto não é nada. Aguarde um pouco,
e verá onde chega a brutidade.

O PENEIRA (bebe sem cuidado, e entorna parte do vinho, que, em tocando no chão, se converte em labareda)

Acudam! fogo! fogo! Isto é, má hora,
lume do inferno.

MEFISTÓFELES (esconjurando a chama)
Meu valido lume,
pára aí já! (Aos convivas.) Foi só uma pinguinha
do que há no purgatório.

O PENEIRA
Estes figuros
não sabem com que gente estão metidos.
Pode sair cara a brincadeira.

O RÃS
Não caia você noutra; eu já o aviso.

O QUINTEIRÃO (aos companheiros)
Será melhor pedir-lhe em cortesia
que se nos ponha ao fresco.

O PENEIRA (levantando-se, de punho fechado, para Mefistófeles)
Ah, sô marmanjo,
pois então, lá supôs que isto eram asnos,
bons para embasbacar com peloticas?

MEFISTÓFELES (ao Peneira)
Cal’-te aí, pipa velha!

O PENEIRA
Então já viram
atrevimento assim? vir insultar-nos
este pau de vassoira, cavalinho
dalguma bruxa ao sábado!

O BOTAFOGO
Sem tosa
já ele se não vai.

O QUINTEIRÃO (tira uma das rolhas de cera, e golfa do buraco sobre ele uma língua de fogo)
Ui! que me queimo!

O PENEIRA
Mata, mata o marau! facada nele!
Olhem não voe! Segurá-lo e fogo!

(Puxam pelas facas e correm sobre Mefistófeles.)

MEFISTÓFELES (declamando)
Falsas vistas, sons fingidos,
transtornai-lhes os sentidos!
Sem sair, vaguem perdidos!

(Param atónitos, olhando uns para os outros.)

O QUINTEIRÃO (como fascinado)
Onde estou? Linda terra!

O RÃS
É certo... vejo-os...
são parreirais!

O PENEIRA
Que suspensão de cachos!
e tão à mão!

O BOTAFOGO
Oh! que alentada cepa!
oh! que formosos cachos, que se abrigam
aqui sob esta parra verdejante!

(Agarra o Peneira pelo nariz, e cada um vai fazendo outro tanto ao seu vizinho, e levantando a faca.)

MEFISTÓFELES (como acima)
Varrei-vos, ilusões!
De lhes mostrar acabo
se podem co’o diabo
medir-se uns beberrões.

(Saem Mefistófeles e Fausto)