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                QUADRO VII*
Vasta caverna de Feiticeira. Ao fundo, uma porta baixa e informe. Do lado esquerdo, uma lareira térrea; por cima dela uma espaçosa chaminé. Na lareira, assente numa trempe, um grande caldeirão*. Na fumarada que dele sai, vão vislumbrando varias figuras. Espalhadas pela caverna tripeças, e uma canastra com diversos objectos, entre os quais um copo de dados, archotes, uma bola, uma coroa, um cartapácio encadernado de preto com broches de ferro. Pelas paredes sem reboco e afumadas, pendem desordenadamente vasilhas de mil formas, uma peneira, um espelho, uma vara, um abano de cauda. Uma cantareira com garrafas e copos.

                                           CENA I
Ao pé do caldeirão, e a escumá-lo, com sentido que não deite por fora, está sentada uma CERCOPITECA (macaca muito grande, de rabo comprido)(*). O CERCOPITECO (o macho) está sentado, com os filhinhos ao pé, a aquecer-se. FAUSTO, MEFISTÓFELES.

FAUSTO (a Mefistófeles)
Este sarapatel de nigromâncias
faz-me nojo, declaro. E projectava
este diabo restaurar-me a vida
em tão vil charco de hediondezes fúteis!
Aconselhem-se lá co’uma carcassa!
Ou tenham fé que possam burundangas
duma cozinha assim descarregar-me
trinta anos do cachaço. A não saberes
receita que mais valha, estou servido.
Pois dar-se-á que não tenha a natureza
algum bálsamo seu, já descoberto
por algum alto engenho?

MEFISTÓFELES
Aí ’stão palavras
que mostram não ser parvo o nosso amigo.
Sim senhor; sem sair da natureza
há também com que um homem se remoce.
Vem isso noutra obra; e bem curioso
que ele é, o tal capítulo.

FAUSTO
Declara-o!

MEFISTÓFELES
Guapa receita. E curativo grátis,
sem precisar Doutor, nem feiticeira.
Ponha-se fora; vá-se aos campos; are;
cave; enclausure-se, alma e corpo, em solo
dadivoso mas parco; esteie a vida
com frugal passadio; aprenda e exerça
co’os seus brutinhos o viver nativo;
não julgue desairar-se, em repartindo
por suas mãos o adubo ao chão que o nutre.
Fie-se em mim: se há coisa que descargue
de oitenta anos, é isto.

FAUSTO
Agora é tarde
para me acostumar. Nunca até hoje
peguei num alvião. Para o meu génio
esse viver obscuro era insofrível.

MEFISTÓFELES
Então, é recorrer à feiticeira.

FAUSTO
Mas porque há-de ser logo a preferida
a tal mondonga velha? Não podias
preparar-me tu próprio a beberagem?

MEFISTÓFELES
Belo divertimento! Eu preferia
gastar o tempo em construir mil pontes.
Para arranjar os filtros desta casta
quer-se, além do saber, paciência e muita,
e atenção de anos largos; só co’o tempo
é que se alcança o fermentar completo
do líquido eficaz. Pois a quantia
d’ingredientes raríssimos! É certo
que o diabo é quem os sabe, e ensina tudo;
mas lá para os estar manipulando
é que não tem pachorra.

(Reparando nos animais)

Olhe a gracinha
do casal que ali está! São a criada
e o servo cá da casa.

(Aos animais)

Olá! já vejo
que a velhusca, vossa ama, anda por fora.

OS ANIMAIS
Eh eh eh eh!
Ao fricassé!
Foi pelo cano
da chaminé.

MEFISTÓFELES
Gasta lá nessas frescatas
muito tempo a feiticeira?


OS ANIMAIS
O tempo em que na lareira
nós aquecemos as patas.

MEFISTÓFELES (a Fausto)
Que tais acha estes nossos bicharecos?

FAUSTO
Ai! de apetite! Nunca os vi mais feios.

MEFISTÓFELES
E eu então o meu gosto é conversá-los.

(Aos animais)

Dizei, bonecos danados,
que tendes no caldeirão,
que estais tão azafamados
a mexer co’o colherão?

OS ANIMAIS
Pois não vês? esta iguaria
são as sopas dos mendigos.

MEFISTÓFELES
Nesse caso, meus amigos,
tereis muita freguesia.

O CERCOPITECO (tira da canastra o copo dos dados, e vai-se chegando a MEFISTÓFELES fazendo-lhe muitas festas)

Joguemos aos dados!
Meu rico parceiro,
não tenho dinheiro,
fazei-mo ganhar.
Ser pobre é ser parvo.
Espírito nobre,
salvai-me de pobre,
salvai-me de alvar.

MEFISTÓFELES
Este cercopiteco endoidecia,
se pudesse ganhar na loteria.

(Nestes entrementes, andam os cercopitequinhos a brincar com uma grande bola que tiraram da canastra, e vão rolando diante de si.)

O CERCOPITECO
Tal é o mundo!
Rolar, correr,
subir, descer.
Vidro rotundo
sonoro e ouco,
a pouco e pouco
fendas a abrir.
Aqui brilhante;
lá coruscante;
sempre cambiante,
sempre a fugir.
Fala-te um ente,
qual tu vivente,
qual tu mortal.
Evita, amigo,
esse inimigo
mundo fatal.
Crê-lo maciço,
e é quebradiço
como cristal.

MEFISTÓFELES
Que faz aqui esta peneira?
Tem algum préstimo?

O CERCOPITECO (tirando a peneira do prego)
Pois não?
Mostra a verdade nua e inteira.
Supõe que fosses um ladrão,
cara de santo e fala arteira,
logo eu te via a maganeira,
em observando o teu carão
pela peneira!

(Corre para a fêmea, a quem obriga a olhar para Mefistófeles, através da peneira)

Toma a luneta, companheira,
observa, observa o figurão.
Reconheceste-lo à primeira.
Declara o nome do ladrão!
Viva a peneira!


MEFISTÓFELES (aproximando-se do lume)
E este pote?

OS CERCOPITECOS (macho e fêmea)
Fora zote,
burro, estúpido, asneirão.
Não vês que é um caldeirão?
Chama a um caldeirão um pote!

MEFISTÓFELES
Bruta corja!

O CERCOPITECO (levanta arrebatadamente do chão um abano de rabo e mete-o na mão de Mefistófeles)

O quê! Depressa!
Toma o rabo deste abano!
Assenta-te na tripeça,
e esperta a fogueira, mano!

(Obriga Mefistófeles a sentar-se numa das tripeças, fazendo do abano ventarola)

FAUSTO (que durante todo este tempo, estivera parado defronte de um espelho, ora aproximando-se, ora recuando)

Oh mago espelho! que divina imagem!
Asas, asas, Amor! conduz-me a ela!
Se me acerco, recua, e mal a avisto
sombra de sombra esmorecida em névoa.
Tais graças feminis, dar-se-á que existam?
Estarei vendo neste esbelto corpo
das delícias dos céus a quinta essência?
Cabe ao mundo um tal dom?

MEFISTÓFELES
Naturalmente.
Quando lida na obra um Deus seis dias,
ao sétimo a contempla, e exclama: Bravo!
De ver está que executou portento
de costa acima. Farte os olhos, farte!
Deixe-me furoar que tarde ou cedo
lhe hei-de desencantar esse tesoiro.
Feliz quem no obtiver.

(Continua Fausto a olhar para o espelho. Mefistófeles espreguiçando-se na tripeça, e brincando
com o abano, continua a falar.)

Que belo assento,
em que eu me estou aqui repetenando!
Nem rei no trono. Empunho um ceptro. Resta
vir a coroa radiar-me a testa.

OS ANIMAIS (que até aqui tem estado, uns com os outros, fazendo trejeitos e momices, trazem da canastra a Mefistófeles uma coroa, com grande algazarra)

Tome-a lá! Grude-a a si bem grudada,
com suores e sangue, oh Senhor!

(Ao brincarem à doida, deixam cair a coroa, que se parte em pedaços. Apanham-nos e atiram-nos por joguete uns aos outros.)

Ih! Quebrou-se a coroa sagrada!
Viva a turba! Acabou-se o temor.
Galrar já podemos,
de ventas no ar.
As zangas que temos,
até poderemos,
querendo, rimar.

FAUSTO (sem se apartar do espelho)
Ui que sanzala! Esvaem-me o juízo!

MEFISTÓFELES
Se até eu tenho a bola à roda, à roda!

OS ANIMAIS
E se a coisa desta feita
vinga e dá seu resultado,
das ideias a colheita
torna o mundo afortunado.

FAUSTO (como acima)
Já me arde o coração. Presto, fujamos!

MEFISTÓFELES
Já se vê pelo menos que estes mecos
tem para a poesia embocadura.

(Como a macaca tinha largado o caldeirão, começa este a entornar-se, ocasionando grande
labareda que sobe pela chaminé. Pelo meio dessa labareda, desce a Feiticeira vozeando.)