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QUADRO XIV

Floresta no meio de fraguedo, escancarado em cavernas. De uma rocha alta, precipita-se uma cascata natural.

CENA I

FAUSTO (só, meditabundo, encostado a uma árvore, com os olhos no céu. Luar encoberto. Relampeja. Zune o vento.)
Tudo obtive de ti, sumo, inefável Ente.
Entrevi-te no mundo a face refulgente.
Sou rei da criação; sinto-a e desfruto-a. Dás-me
não só que a observe à flor e em seus prodígios pasme;
sondo-a, leio-a por dentro, assim, como leria
no peito de um amigo. Intendo, da harmonia
que une tantos milhões de seres passageiros,
ser tudo uma família, e irmãos meus verdadeiros
o mudo arbusto, o ar, as águas.

(Cresce o temporal e ouve-se ao longe o desabar de um pinheiro)

Quando a mata
ruge co’o temporal, e o pinheiro-magnata
rui fracassando em torno as arvores, e atroa
co’a trovejante queda o monte que reboa,

(Encaminhando-se para uma caverna)

forças-me co’o terror a entrar na alta caverna,
onde me descortino eu próprio à luz interna,
e no fundo do peito, aberto, omnipotente
mil prodígios descubro incógnitos à mente.

(Após um espaço de contemplação muda, amansa e cessa a tormenta. A lua rompe brilhante dentre as nuvens, e alumia a cena.)

Desfez-se o temporal: ergue-se clara a lua!
O mato gotejante, a penedia nua
vem-me representar, num alvor prateado,
miragens da saudade, as cenas do passado.

(Descendo da caverna, passeia na mata)

Ai! que não caiba um gozo, estreme, verdadeiro,
nesta vida falaz! Deste um companheiro,
que onde sinto endeusar-me, acorre sempre frio,
impassível, cruel, a recalcar-me o brio,
a provar-me o meu nada; um monstro, que eu forcejo
para afastar do lado e sempre ao lado vejo.

Se me choves teus dons, ele, co’um leve acento
da sua voz maldita anula-os num momento;
ele mal que vislumbra aos olhos meus o belo,
dentro no coração me ateia um Mongibelo.

Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!