História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/III/II

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro terceiro: da história do Brasil do tempo que o governou Tomé de Souza até a vinda do governador Manuel Teles Barreto, Capítulo II: De outras duas armadas, que el-rei mandou com gente e provimento para a Bahia


Logo no ano seguinte de mil quinhentos e cinqüenta mandou el-rei outra armada com muita gente e provimento, e por capitão-mor dela Simão da Gama d’Andrade, no galeão velho muito afamado; foi este fidalgo nesta cidade grande republico, e daí a muitos anos morreu nela de herpes, que lhe deram em uma perna, deixando uma capela perpétua de missas na Igreja da Misericórdia, onde está sepultado com um epitáfio, que diz assim:

Pela suma caridade
de Cristo Crucificado,
está aqui sepultado
Simão da Gama d’Andrade
para ser ressuscitado.

Nesta armada veio o bispo d. Pedro Fernandes Sardinha, pessoa de muita autoridade e exemplo, e extremado pregador, e trouxe em sua companhia quatro sacerdotes da Companhia de Jesus para ajudarem os seis, que já cá estavam, na doutrina, e conversão do gentio, e outros clérigos, e ornamentos para a sua Sé.

O ano seguinte de mil quinhentos cinqüenta e um, mandou el-rei outra armada, e por capitão-mor dela Antônio de Oliveira Carvalhal para alcaide-mor de Vila Velha, com muitas donzelas da rainha d. Catarina, e do Mosteiro das Órfãs, encarregadas ao governador para que as casasse, como o fez, com homens a que deu ofícios da República, e algumas dotou de sua própria fazenda.

Era Tomé de Souza homem muito avisado e prudente, e muito experimentado nas guerras da África e da Índia, onde estivera, tinha mostrado valoroso cavaleiro, mas estava isto cá tão em agro, e enfadava-se de labutar com degradados, vendo que não eram como o pêssego, «pomo que da Pátria Pérsia veio melhor tornado no terreno alheio,» que pediu com muita instância por muitas vezes a el-rei que lhe desse licença para se tornar ao reino, contudo é muito para notar um dito, que / entre outros que tinha mui galantes / disse quando lhe veio a licença.

É costume nesta Bahia ir o meirinho do mar quando entram os navios, e trazer a nova ao governador donde são, e do que trazem; como pois fosse em aquela ocasião, e achasse que vinha sucessor ao governador, tornou-se mui alegre a pedir-lhe alvíssaras, porque já eram cumpridos seus desejos, e estava no porto novo governador, respondeu-lhe ele depois de estar um pouco suspenso: Vedes isso, meirinho, verdade é que eu o desejava muito, e me crescia a água na boca quando cuidava em ir para Portugal, mas não sei que é que agora se me seca a boca de tal modo, que quero cuspir, e não posso. Não deu o meirinho resposta a isto, nem eu a dou, porque os leitores dêem a que lhes parecer.