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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro III, Capítulo III


O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as minhas culpas... Não temas, meu irmão.»

Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.

Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser recebido como amigo no seio de sua familia.

Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma poesia intitulada presentimento, dissera tudo quanto podia dizer, vira o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.