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Lembrar-me-ei de ti

Saudade
por Bernardo Guimarães
Poema publicado em Evocações em 1865.


Eheu! fugaces... labuntur anni...
.... nec pietas moram
Dat rugis e instanti senectae!

Horácio

<poem> Triste de mim!... são elas que despontam, As tristes, murchas cãs; Como neves que espalham-se no monte Em pálidas manhãs.

São elas, sim! - que vêm anunciar-me Que a minha mocidade O derradeiro adeus me está dizendo Por toda a eternidade.

Adeus, portanto, ó quadra dos amores, Dos brincos, das folias; Eu te saúdo, cá de outro hemisfério Nas regiões sombrias.

Não devo mais amar, - e quem não ama Não pode mais cantar; E pois a lira rouca e desmontada Num canto irei guardar.

Agora apenas, de óculos nas ventas, Co'a linda cor da prata, Poderei desferir algumas notas Em tom de cantochão.

O sabiá as velhas penas larga Do bosque entre a ramagem E vem depois alardear cantando Mais nítida plumagem.

Se o velho tronco as folhas ressequidas Entorna pelo chão, Logo se arreia de folhagem nova Na florida estação.

Mesmo a serpente, - bicho excomungado, - Por mais que seja idosa, Largando a casca, veste-se de novo De pele mais lustrosa.

Porém na fronte estes cabelos brancos Aqui me ficarão, E por mais que os arranque, inda teimosos Mais brancos nascerão.

Uns têm cabelos negros, outros louros, Muitos castanhos, e outros amarelos; E outros menos belos, Alguns vermelhos são, poucos cinzentos; Muitos são cor de fogo e cor de terra; Também verdes os há, e pardacentos. Enfim na cor das barbas e cabelos A natureza tem muitos modelos.

Só tu, ó triste idade, que da vida Vais-te agarrando aos últimos barrancos, Só tu constantemente te distingues Por teus cabelos brancos, Que ao longe te assinalam, ó velhice, Quando não te revelas na calvice.

Por que também não nascem-nos cabelos Co'a linda cor da prata, E somente branqueja-nos a fronte Quando nos toca a mão da idade ingrata?... E nao podia a gente envelhecer Sem que a cabeça o desse a conhecer?...

Pudesses tu ressuscitar agora, Ditosa idade, século famoso, Que do Grande Luís possuis ufano O nome glorioso! Tempo feliz de eterna juventude, Em que ninguém jamais envelhecia, E em que por um sublime e nobre invento O polvilho as idades confundia.

Tempo feliz de eterna juventude!... Mas ah! que infelizmente, Por mais que em vãos esforços se afadigue A moda inconseqüente, Com toda a garridice Cabelos brancos pode dar aos moços, Porém não tira as rugas à velhice.



Mas vós, ó belas, não deveis ter medo Das cãs que me despontam; São letras brancas que de meus pesares A negra história contam.

Eu não sou velho, não; - acreditai-me; Não são da idade os gelos, Que agora, sem que eu mesmo os esperasse, Branqueiam-me os cabelos.

Sim, sois vós mesmas que de meus cabelos Fazeis mudar a cor, Vós, que nunca quisestes bafejá-los De um hálito de amor.

Fizestes-me ferver fatal delírio Na fronte abraseada, E agora tendes convertida a chama Em cinza esbranquiçada.

Não são os anos, são as desventuras, Decepções, trabalhos, Angústias, penas, que meus fios negros Assim tornam grisalhos.

Mas vede bem!... que sob as mortas cinzas Existe inda o vulcão; E da lava, que dorme comprimida, É mais forte a explosão.

Não tenhais medo: - é branca essa grinalda De flor de laranjeiras, Pela qual suspirais noites e dias, Quando inda sois solteiras.

É branco o cisne, que em sereno lago Garboso o colo estende, E que cortando as águas mansamente A doce voz desprende.

Nas faces tendes, nos pudicos sejos Alvura de alabastro, E num lago de leite o olhar ai'dente Vos brilha como um astro.

Também é branca a pérola custosa, Tesouro do oceano, Que no colo e nas tranças vos derrama Realce soberano.

É branca a lua soliária e meiga, Que no zenith se apruma; E da beleza a deusa fulgurante Nasceu da branca espuma.

Se pois é branco tudo que no mundo Vos enfeitiça mais, Por que detestareis nos meus cabelos A cor que tanto amais?

Mas se de todo as cãs não vos aprazem, Com vossas mãos mimosas Vinde ocultá-las com viçosa c'roa De madressilva e rosas.

Vinde vós mesmas reparar fagueiras O estrago que fizestes; E com sorrisos acordai-me n'alma Inspiraçoes celestes.

Vertei-me em torno arábicos perfumes, Trazei-me a taça e a lira, E escutai as canções que às vossas plantas Meu coração suspira.

Celebrarei vossos formosos olhos, Vossos cabelos d'ouro, E os meus já brancos com gentis afagos Coroareis de louro.

Assim como os amores descantava O velho Anacreonte Vinham as moças com suaves beijos Desenrugar-lhe a fronte

Rio de Janeiro, novembro de 1864 <poem>