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O Morto prazenteiro
por Charles Baudelaire, traduzido por Delfim Guimarães
Poema publicado em As Flores do Mal


Onde haja caracoes, n'um fecundo torrão,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubarão.

Detesto os mausoleus, odeios os monumentos,
E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vae entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podridão!

Sem piedade, minae a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!